Avdeevka: Cai o epicentro da guerra do Donbass

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Tropas pró-russas em um tanque no assentamento de Buhas, controlado pelos separatistas, em Donetsk, Ucrânia, 1º de março de 2022 (Alexandre Ermochenko/REUTERS).

Tropas pró-russas em um tanque no assentamento de Buhas, controlado pelos separatistas, em Donetsk, Ucrânia, 1º de março de 2022 (Alexandre Ermochenko/REUTERS).

Avdeevka tem importância tática, pois sua conquista representa um importante rompimento da defesa ucraniana instalada desde 2014; politicamente, sua tomada pelos russos é um golpe para Zelensky, que atribuiu grande prioridade ao local, classificando-o como “um marco da resistência ucraniana contra a ameaça russa”.


Quem não acompanha mais de perto o contexto geral do conflito entre Ucrânia e Rússia, certamente irá considerar a queda do baluarte ucraniano em Avdeevka apenas mais um desdobramento de caráter tático da guerra iniciada em fevereiro de 2022. Quem sabe, apenas uma retificação da linha de contato.

Entretanto, para entender o significado da retirada das tropas ucranianas de Avdeevka, particularmente no que se refere aos desdobramentos políticos, será necessário revisitar toda a evolução dos combates nesta localidade, desde março de 2014.

E é essa revisão que pretendemos realizar neste artigo.

O atual conflito russo-ucraniano pode ser dividido em quatro fases:

Fase 1, a escalada da crise

Esta fase se desenvolveu entre 21 de novembro de 2013 e 22 de fevereiro de 2014, quando o governo do presidente Viktor Yanukovich desistiu de assinar o Acordo de Associação e Livre-Comércio com a União Europeia, dando origem a um protesto em Kiev conhecido como Euromaidan. Nesta fase, a interferência estrangeira passou a ser exercida sobre o governo Yanukovich, seja pelo lado russo, seja pelo lado dos EUA.

A crise escalou com uma visita da Subsecretária de Estado Adjunta dos EUA para Eurásia, Victoria Nuland, realizada no início de fevereiro de 2014, quando ela foi ao encontro dos manifestantes na Praça Maidan e realizou reuniões de coordenação com líderes políticos favoráveis à adesão à União Europeia. Um telefonema entre Nuland e o então embaixador dos EUA em Kiev, Geoffrey Pyatt, vazou para a mídia. Na gravação, Nuland explicava que já teria coordenado com lideranças locais o apoio dos EUA para um governo pós-Yanukovich, e após ponderações do embaixador Pyatt sobre a resistência de líderes europeus a essa medida, ela teria dito a famosa frase “Fuck Europe!” [1]. Um atentado ocorrido na Praça Maidan, onde homens de preto e mascarados se posicionaram sobre os prédios vizinhos e atiraram contra os manifestantes teria desencadeado o golpe de estado que derrubou Yanukovich, que fugiu do país em 22 de fevereiro de 2014. Tal atentado nunca foi esclarecido e ninguém chegou a ser julgado ou condenado pela justiça ucraniana, dando margem ao entendimento de que teria se tratado de uma ação do tipo false flag.


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Fase 2, a anexação da Crimeia

Esta fase ocorreu entre fevereiro e março de 2014, ocasião em que já haviam tropas russas desdobradas na Crimeia, conforme o Tratado de Partição da Frota do Mar Negro (de 1997, que cedeu parte da Crimeia para a Rússia até 2017 e autorizou a permanência da frota russa e de um contingente militar russo de até 25 mil homens) e o Tratado de Kharkov (2010, que arrendou a Crimeia à Rússia até 2047, mediante pagamento por meio de fornecimento de gás e recursos financeiros). As tropas russas cercaram e detiveram as pequenas unidades militares ucranianas ali desdobradas e anunciaram a anexação definitiva da Península pela Rússia.

Fase 3, a Guerra do Donbass

Esta fase foi iniciada com protestos de separatistas pró-russos nos Oblasts (províncias) de Donetsk e Lughansk, em março de 2014 e encerrada com o início da invasão em larga escala da Ucrânia por tropas russas em fevereiro de 2022. A Guerra do Donbass envolveu o combate entre tropas federais e rebeldes locais das autoproclamadas República Popular de Donetsk (RPD) e República Popular de Lughansk (RPL).

Os rebeldes das RPD e RPL eram claramente apoiados pela Rússia, seja por meio de ajuda militar, financeira e de pessoal, seja por meio de campanhas informacionais. Um dos pontos de maior intensidade nos combates foi na região da capital do Oblast de Donetsk, cidade de mesmo nome. Duas importantes batalhas seriam realizadas pela posse do subúrbio oeste da cidade, que englobava a localidade de Avdeevka e o Aeroporto Internacional de Donetsk. Uma solução negociada para o conflito foi buscada no âmbito da Organização para a Segurança e Cooperação Europeia (OSCE), que levou aos acordos de Minsk. Os EUA nunca concordaram com tais acordos, na medida em que foram deixados de fora do chamado Grupo de Contato Trilateral, que reunia a Ucrânia, a Rússia e a OSCE (representada pela Alemanha e França).

Após um armistício, uma missão de verificação de cessar fogo da OSCE foi estabelecida na linha de contato, mas diversas violações de ambas as partes ocorreram. Uma poderosa linha de fortificações e trincheiras foi estabelecida pelos ucranianos na zona de ação de Avdeevka e do Aeroporto de Donetsk. As escaramuças entre tropas ucranianas e rebeldes prosseguiram até fevereiro de 2022, quando se iniciou a invasão em larga escala russa na Ucrânia. Devido às bem instaladas fortificações ucranianas, as tropas russas nunca conseguiram lograr nenhum avanço nesse setor. As batalhas por Avdeevka e pelo Aeroporto de Donetsk foram consideradas grandes vitórias das forças armadas ucranianas, pois esta posição impediu que as forças rebeldes (apoiadas pelos russos) avançassem e tomassem todo os Oblasts de Donetsk e Lughansk. O dia 21 de janeiro é comemorado pelas Forças Armadas Ucranianas, pois simboliza a vitória da resistência ucraniana sobre a expansão do movimento separatista.


Localização de Donetsk e do aeroporto.

Fase 4, a Guerra da Ucrânia

Esta fase foi iniciada em fevereiro de 2022, e se desenvolve até o momento em que este artigo é escrito. A guerra já entra em seu terceiro ano, após fases ofensivas russas e contraofensivas ucranianas. Neste ano de 2024 observa-se um esgotamento de meios em pessoal, material e recursos estrangeiros para a Ucrânia, levando a uma estratégia cada vez mais assertiva russa em termos de retificação da linha de contato, mas ainda não sendo verificada uma grande ação ofensiva da Rússia, o que pode vir a ocorrer na próxima primavera. Entretanto, uma das prioridades russas foi a reconquista de Avdeevka e das ruinas do Aeroporto de Donetsk.

Desde o início dos combates, ainda na guerra do Donbass, as tropas ucranianas localizadas em Avdeevka realizavam fogos de artilharia diários contra a cidade de Donbass, que havia passado a ser o principal centro de administração civil dos territórios anexados pela Rússia, o que trazia sérias ameaças para a população civil, minando a adesão local ao separatismo.

A localidade de Avdeevka, ao se analisar a sua localização no terreno, não revela nenhuma importância estratégico-operacional para a campanha militar, seja para os russos, seja para os ucranianos. Inequivocamente há uma importância tática, pois a conquista da localidade pelos russos representa um importante rompimento da linha defensiva ucraniana, instalada diligentemente pela engenharia militar ucraniana desde 2014. Isso pode abrir oportunidades de prosseguimento nesse setor, vital para a conquista de todo o Oblast de Donetsk, o que poderia ocorrer em uma eventual ofensiva russa de primavera em 2024.

Entretanto, ao se analisar sob o aspecto político, e Clausewitz sempre nos alertou que os objetivos políticos é que determinam os objetivos militares e não o contrário, a posse de Avdeevka recebeu enorme prioridade do governo ucraniano. O próprio presidente Volodymyr Zelensky visitou pessoalmente essa localidade em dezembro de 2023, onde gravou um vídeo afirmando que essa localidade foi e continuará sendo um marco da resistência ucraniana contra a ameaça russa.

A própria decisão de manter a localidade a qualquer custo teria sido uma decisão com forte interferência política, o que poderia ter contribuído para a demissão do general Zaluzhny e a nomeação de um militar bem mais alinhado a essa ideia de resistência heroica na posição. De fato, o que se observa é que tal decisão representou a perda de duas importantes brigadas do Exército ucraniano: a 110ª Brigada de Infantaria Mecanizada e a 3ª Brigada de Assalto, esta última, recentemente deslocada para reforçar as defesas locais, constituía uma das últimas reservas ucranianas para toda essa frente do Donbass.

Uma das surpresas táticas russas nessa frente foi decorrente da descoberta, pelos russos, de um túnel abandonado na região ao sul de Avdeevka, que foi restaurado pelas tropas da engenharia militar russa e por onde um ataque subterrâneo desbordou as poderosas posições defensivas ucranianas, surpreendendo as unidades defensoras e permitindo que tropas russas atacassem diretamente as reservas, postos de comando e instalações logísticas ucranianas, caracterizando o rompimento da linha de defesa que se mantinha inexpugnável desde 2014.

Isso permitiu um desfecho muito mais rápido do que havia sido verificado em Mariupol e Bakhmut, onde uma resistência prolongada foi realizada pelos ucranianos, com grande desgaste para os atacantes.

E não foi possível realizar o mesmo em Avdeevka.

Às vésperas das eleições presidenciais russa e norte-americana, insucessos no campo de batalha tem repercussões políticas de grande monta. Os próximos dias semanas poderão ser cruciais para uma melhor clareza dos resultados.


Nota

[1] Em tradução literal, “Foda-se a Europa!”.

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