Economia regional: O que move a guerra na Palestina

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Palestino observa a destruição no bairro de Al-Tufah, na cidade de Gaza (Mahmud Hams/AFP/Getty Images).

Palestino observa a destruição no bairro de Al-Tufah, na cidade de Gaza (Mahmud Hams/AFP/Getty Images).

Para além das rivalidades religiosas e políticas, há vários indícios que permitem sugerir que o conflito Israel-Hamas pode ter motivações econômicas.


Assim como o conflito na Ucrânia, em que as centrais de informação internacionais tentam nos conduzir a causas simplistas e geralmente bem assimiladas pelos superficiais e “bem informados” pela mídia mainstream, também a guerra que ocorre no Oriente Médio (West Asia, para os asiáticos…) é manobrada em suas motivações e são escondidas as suas previsíveis consequências.

Ao contrário do que se passa na Ucrânia, em que toda a informação foi – e é – filtrada e manipulada, não havendo acesso livre às notícias de um dos lados, no caso da guerra de Israel contra o Hamas-Palestina a coisa já é diferente. Primeiro porque não há uma superpotência a ser destruída (Rússia) e depois porque o ocupante e agressor (Israel) é o superprotegido e aliado do dito Ocidente. Se não fosse esse Ocidente dominado financeiramente por judeus e suas ramificações… Para além disso, os palestinos têm forte apoio, não apenas do mundo árabe, mas também na opinião pública mundial, não existindo qualquer rejeição a exemplo da russofobia, como na guerra da Ucrânia. Por isso, a cobertura deste conflito é bem mais séria e difícil de ser ignorada por parte da mídia mainstream.

Apesar das condições serem diferentes, o crédito dado pela mídia ocidental às informações dos sionistas é bem maior do que aquele que é concedido às fontes árabes e islâmicas. Além disso, há um certo número de informações, factuais ou especulativas, que correm por fora da mídia ocidental e que podem ser o alfa e o ômega do que se está acontecendo em Gaza.

Um dos fatos importantes sobre o qual se viu pouca informação no ocidente foi a reunião, ocorrida em 20 de setembro último em Nova York, entre Biden e Netanyahu, na qual foram discutidos alguns assuntos e negócios estratégicos para os dois países e que serão mencionados mais adiante [1].

Querem nos fazer acreditar que as razões próximas e principais desta guerra são de ordem histórica e existencial para ambas as partes, e que advém do ódio mútuo entre israelenses e palestinos. Mas não. As motivações são de ordem econômica e a guerra tem como finalidade última o massacre e a expulsão dos habitantes de Gaza, de modo a servir aos interesses da dupla Israel-EUA.

Objetivo: Limpar o território palestino

A ação militar/terrorista perpetrada pelo Hamas em 7 de outubro teria sido a reação a um plano oculto, engendrado pelos serviços secretos israelenses através de um crescendo sistemático de provocações e violência contra a população palestina. Esse ataque do Hamas, com todos os seus aspetos gráficos e violentos profusamente divulgados, teve uma resposta da parte de Israel que irá conduzir ao seu objetivo primeiro: a destruição de Gaza e erradicação dos palestinos de sua própria terra.

Limpar a faixa de Gaza é imperioso para quem tem ambições e projetos que dependem da unificação e pacificação de todo o território palestino, como Netanyahu mostrou na sessão da ONU em 23 de setembro passado, ao apresentar ao mundo um país (Israel) sem a Cisjordânia e sem Gaza, portanto sem palestinos.

Por que a presença dos palestinos incomoda?

Algumas respostas podem estar nos aspetos econômicos e nas políticas de supremacia na região.

1º Descoberta de enormes jazidas de gás no mar de Israel-Palestina

A empresa de origem grega Energean, que atua na exploração de combustíveis na região do Mediterrâneo, anunciou em maio de 2022 a descoberta de uma enorme reserva de gás natural na costa da Palestina-Israel. Essa reserva pode conter até oito milhões de metros cúbicos do combustível [2].

Outra descoberta significativa foi o campo de Leviathan, que tem um potencial de 453 bcm [3] e uma hipótese equivalente de “sucesso geológico”. Além disso, foram descobertos outros campos de gás natural, como Tanin, Shimshon, Mayara, Dolphin, Yam Thetis e Aphrodite [4].

Essas descobertas têm potencial para transformar Israel em um importante exportador de gás natural. A instabilidade regional não é boa para os negócios…

2º Construção do canal Ben Gurion entre Israel-Palestina e o golfo de Aqaba

O canal Ben Gurion é um projeto Israel-EUA, estudado em 1963 e destinado a construir uma passagem marítima através do território palestino-israelense, ligando o Golfo de Aqaba ao Mediterrâneo Oriental passando pelo Deserto do Negev. Batizado em homenagem ao fundador de Israel, David Ben-Gurion, o canal seria uma alternativa e um importante concorrente do Canal de Suez. Seria cerca de 100 km mais longo do que o de Suez de 193 km.

Um memorando desclassificado do governo dos EUA de 1963 explora a ideia de usar explosivos nucleares para escavar o canal. Se realizado, o projeto poderia remodelar a dinâmica do comércio global, quebrando o monopólio do Egito sobre a rota comercial mais curta [5]. As constantes ameaças militares, como foguetes do Hamas ou ataques israelenses, representam um desafio significativo para a operação do canal.


Um mapa do Egito e de Israel mostra a localização do Canal de Suez e uma aproximação dos planos para um novo canal através de Israel (Google Maps/Business Insider).

3º IMEC: Novo Corredor Econômico Índia-Oriente Médio-Europa

Os governos de sete países e a União Europeia assinaram, em 9 de setembro de 2023, um memorando de entendimento para criar o IMEC, durante a reunião do G20 em Nova Délhi [6]. Apenas três desses países (Índia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos) fariam parte direta do corredor, que tinha como condição necessária a normalização das relações com Israel. Os Emirados normalizaram os laços com Israel em 2020 e a Arábia Saudita estava, com intermediação dos EUA, prestes a reatá-los.

O IMEC foi concebido como uma rota comercial que começaria na Índia, passaria pelo Golfo e terminaria na Grécia. No entanto, a guerra de Israel com os palestinos em Gaza mudou toda a equação e paralisou o projeto.


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Os Estados Unidos, que foram um dos iniciadores do IMEC, promoveram-no como um meio de isolar a China e o Irã, bem como para acelerar a normalização das relações entre Israel e a Arábia Saudita. No entanto, a guerra em Gaza tornou mais difícil que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos entrem em um projeto como esse com os israelenses [7].

O projeto exige, obviamente, paz e estabilidade no Oriente Médio, em particular no território da Palestina, onde isso não se tornará realidade enquanto houver palestinos hostis.

Causas e consequências do 7 de outubro:

  • 1. As diligências realizadas pelos EUA, no sentido de aproximar Israel da Arábia Saudita, estavam em andamento e a normalização das relações era iminente, sendo consideradas pelo Irã e por muitos no mundo islâmico uma traição aos palestinos. Tornaram-se inúteis;
  • 2. O Hamas, ao lançar a ofensiva de 7 de outubro, provocou várias ondas de choque na geoestratégia regional e na opinião pública mundial:
    • a. Reacendeu a tradicional inimizade entre árabes e judeus, cortando a aproximação em curso entre a Arábia Saudita e Israel;
    • b. Atrasou, ou mesmo pôs a perder, o projeto do corredor econômico (IMEC) que tinha passagem pela Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (o projeto também tem na Turquia uma grande opositora);
    • c. Colocou na ordem do dia o problema e a causa Palestina e dos dois Estados, solução já apoiada por árabes e ocidentais, mas negada por Israel;
    • d. A resposta militar e genocida de Israel originou uma repulsa generalizada em todo o mundo com exceção de alguns governos ocidentais (EUA, UE e UK), que continuam com a retórica pró-Israel e anti-Palestina, não condenando abertamente seu aliado;
    • e. Perante as flagrantes, mas duvidosas, falhas de segurança dos serviços de inteligência israelenses, há duas hipóteses para justificar, tanto as falhas, como a tardia reação militar à invasão do Hamas, a saber: os serviços secretos e a capacidade operacional de Israel são de fato muito fracos, hipótese pouco provável frente ao reconhecimento geral de sua grande competência, ou tudo teria sido planejado e previsto no sentido de criar um ambiente favorável aos verdadeiros objetivos de aniquilação de Gaza e de massacre e expulsão dos habitantes.

Ganhos e perdas

Para além do forte declínio reputacional que os dois contendores (Israel e Hamas) granjearam com as atrocidades cometidas pelos dois nesta guerra, ambos vão conseguir alguns ganhos e também perdas nos campos operacional e estratégico:

  • O Hamas, com sua ação violenta, reacendeu a chama da Palestina, reavivou a narrativa da criação de dois Estados, uniu o mundo islâmico, demonstrou uma capacidade militar até então desdenhada por Israel e seus aliados e, indiretamente, infligiu uma derrota econômica a Israel e aos EUA, ao expor a intenção da criação do IMEC e da normalização das relações entre a Arábia Saudita e Israel;
    • Israel certamente tentará conseguir o que já está normalizado no atual governo e que passa pela total erradicação de palestinos de seu (?) território, eliminando a instabilidade permanente e permitindo a exploração sem maiores problemas dos hidrocarbonetos na costa. Ficará também com o caminho livre para a concretização do projeto do canal Ben Gurion, futura alternativa ao Canal de Suez. Já sobre o IMEC, o projeto é mais difícil sem o acordo dos três países árabes na rota do corredor, bem como pela feroz oposição da Turquia.

Em resumo: Ainda não há como provar, mas há vários indícios que sugerem que a erradicação dos palestinos, primeiro de Gaza e depois da Cisjordânia [8], venha a ser uma realidade próxima como resultado de um plano maquiavélico urdido por Israel com colaboração dos EUA, com a finalidade única de abrir as portas para novos negócios e megainvestimentos regionais.


Notas

[1] https://www.aljazeera.com/news/2023/9/20/israel-saudi-arabia-normalisation-deal-in-reach-netanyahu-tells-biden

[2] https://unitedwithisrael.org/br/outra-imensa-reserva-de-gas-natural-e-descoberta-na-costa-de-israel/

[3] Bilhões de metros cúbicos.

[4] http://tecnologiademateriais.com.br/portal/noticias/composites/2016/marco/Descobertas-de-gas-natural-em-Israel-aumentam-potencial.html

[5] Ben Gurion Canal Project: Joining Red Sea with Mediterranean. https://www.civilsdaily.com/news/ben-gurion-canal-project-joining-red-sea-with-mediterranean/

[6] https://www.geopolitika.ru/pt-br/article/guerra-dos-corredores-economicos-jogada-india-oriente-medio-europa

[7] https://znetwork.org/pt/artigo-znet/como-a-guerra-em-Gaza-paralisou-o-corredor-econ%C3%B3mico-da-%C3%8Dndia%2C-M%C3%A9dio-Oriente-e-Europa-imec/

[8] https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/09/netanyahu-promete-anexar-parte-da-cisjordania-se-vencer-eleicoes.shtml

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3 comentários

  1. O autor está em contradição ao outros autores desse mesmo canal que disse que há um isolamento inexperado do Hamas por parte dos muçulmanos, fora o fato que houveram outras tentativas de se criar dois estados e os palestinos sempre recusaram, no mais muito interessante a crônica.

    1. Houveram? Os palestinos nunca recusaram nada simplesmente porque nunca existiram. Quem sempre recusou, desde o século XIX , foram os árabes. MAM

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