ECOWAS e a Crise no Níger: Reflexões sobre o emprego do Poder Aéreo

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Embraer A-29 Super Tucano da Força Aérea Nigeriana fazendo escala em Zaragoza, na Espanha, 20 de julho de 2021 (Ricardo Aysa Calahorra/Airliners.net).

Embraer A-29 Super Tucano da Força Aérea Nigeriana fazendo escala em Zaragoza, na Espanha, 20 de julho de 2021 (Ricardo Aysa Calahorra/Airliners.net).

Uma análise, do ponto de vista estritamente militar, de como o poder aéreo poderia ser empregado no Níger, no caso de uma eventual operação militar pela ECOWAS.


Em 26 de julho de 2023, forças militares do Níger detiveram o presidente Mohamed Bazoum (Figura 1) e anunciaram a tomada do poder, em um golpe que se acumula a outros na recente história do país. Desde a independência em 1960, movimentos de tomada do poder ocorreram em 1974, 1996, 2010 e 2015 (tentativa) [1]. Na verdade, a África Ocidental tem sido palco de golpes de estado recentes, como os ocorridos em Burquina Fasso (2022), Mali (2022), Chade (2021) e Guiné (2021) [2].

A situação no Níger despertou a atenção da Economic Community of West African States (ECOWAS) [3], que tem realizado encontros para analisar a situação e, principalmente, considerar sobre a possibilidade de uma intervenção militar multinacional. A ECOWAS é formada por 15 países membros localizados na região da África Ocidental (Benin, Burquina Fasso, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné Bissau, Libéria, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Serra Leoa, Senegal e Togo) [4]. A organização se baseia em laços culturais, interesses geopolíticos e econômicos comuns.


FIGURA 1: Presidente Mohamed Bazoum, deposto (Issouf Sanogo/AFP via Getty Images).

A ECOWAS já possui um histórico recente de operações militares para a estabilização na região, sendo a de Gâmbia a mais recente. Em 2017, a organização enviou 7.000 soldados a esse país, a fim de obrigar o presidente Yahya Jammeh a exilar-se e a ceder a presidência a Adama Barrow, que o tinha derrotado nas eleições [5].

Na verdade, todo o histórico de intervenções da ECOWAS pode ser categorizado como operações de imposição da paz, que “envolvem a aplicação de uma série de medidas coercitivas, incluindo o uso da força militar” [6]. Essas operações têm se caracterizado pelo combate a grupos rebeldes ou insurgentes (em alguns casos forças regulares), cujas capacidades militares são muito restritas. Em geral, essas capacidades significam armamentos de pequeno porte, carros de combate leves, pouco treinamento, limitada capacidade de comando e controle e processos de inteligência insuficientes, ou seja, forças em condições de realizar limitadíssimas operações militares, valendo-se, na maioria dos casos, de ações de guerra irregular em densas florestas, no deserto ou em combates urbanos.

Na atual situação no Níger, caso a ECOWAS opte pela operação militar para restituir o poder ao presidente Bazoum, a expectativa é a de que o perfil de ação siga o padrão até então adotado. Forças regulares de superfície dos estados-membros, agindo isoladamente (ou precariamente em operações de natureza jointness), realizem intervenções pontuais em núcleos de resistência das forças do Níger, visando capturar (ou decapitar) suas lideranças e neutralizar (ou destruir) capacidades de reação desse adversário. Um possível estado final desejado seria a restituição do presidente deposto e a responsabilização dos militares que perpetraram o golpe.

Até que ponto Níger e seus potenciais aliados (Burquina Fasso, Mali e Guiné declararam apoio à junta militar que assumiu após o golpe [7]) teriam condições de mobilizar poder militar para se contrapor às forças da ECOWAS, é uma questão em aberto. Além do mais, há fatores políticos cruciais a se considerar.

Os EUA possuem uma base de operações de drones em Agadez, no Níger (a Base Aérea 201, subordinada ao US Africa Command, AFRICOM) (Figura 2), que realiza operações no Sahel contra grupos islâmicos, fato que deu certa estabilidade aos cidadãos do Níger em face de atos violentos desses grupos [8].


FIGURA 2: Níger Air Base 201, com um drone da USAF (US AFRICOM).

A França, e a herança colonial em vários dos estados da ECOWAS, ainda pesa negativamente no imaginário das populações locais. A França tem sido, desde 2014, responsável e principal protagonista em ações de contrainsurgência na região do Sahel. A Operação Barkhane, que formalmente terminou em 9 de novembro de 2022, foi liderada pelos militares franceses contra grupos islamistas na região. O efetivo da operação chegou a 3.000 militares, permanentemente sediados em Jamena, a capital do Chade. A operação contou com a cooperação de cinco países, todos eles antigas colônias francesas: Burquina Fasso, Chade, Mali, Mauritânia e Níger. Essa composição gerou a designação de “G5 Sahel” (Figura 3).

Estados relativamente importantes na composição de uma eventual força multinacional de intervenção no Níger, como a Nigéria, ainda enfrentam grupos internos de oposição, como é o caso do Boko Haram. Esse grupo se autodenomina “Grupo do Povo Sunita para o Apelo e a Jihad”, ou “Talibã nigeriano”. Busca derrubar o atual governo nigeriano e substituí-lo por um regime baseado na lei islâmica [9]. A Nigéria combate assiduamente o Boko Haram, inclusive com ataques aéreos de armas de precisão. Em 20 de agosto de 2022, aviões da Nigerian Air Force (NAF) atacaram o local onde se realizava uma reunião organizada por Aminu Duniya, um comandante do Boko Haram, em Kurebe, no Níger [10].


FIGURA 3: G5 Sahel – Burquina Fasso, Chade, Mali, Mauritânia e Níger (France Diplomacy).

Completando o complexo mosaico de fatores políticos relacionados à situação no Níger, há o fator Rússia. A mídia especula sobre um suposto apoio do presidente Vladimir Putin aos militares que conduziram o golpe no Níger, assim como a Burquina Fasso e à Guiné [11]. A presença do Grupo Wagner na região pode ser um indicador dessa complexidade. Notícias recentes deram conta da presença de Yevgeny Prigozhin, líder do Grupo (aparentemente morto em recente acidente aeronáutico) na África, o que poderia induzir o suporte russo mencionado [12].

Apesar de relevantes para a compreensão da situação no Níger, e com potencial de desdobramentos operacionais que extrapolam a capacidade de análise, o propósito desse artigo não é discutir o tema sob esse ponto de vista político. A eventual participação militar de potência extrarregional (EUA, França ou Rússia) em suporte a um dos lados alteraria sobremaneira o espectro de capacidades militares envolvidas, além de viabilizar ações nos espectros diplomático ou econômico que não são objeto desta análise. A intenção é inferir considerações sobre uma possível (ainda especulativa) operação militar de alguns estados-membros da ECOWAS, com a finalidade de restituir o deposto presidente de Níger.

Mais especificamente, trata-se de apreciar qual seria a contribuição do poder aéreo em uma operação dessa natureza [13]. Nesse sentido, não trataremos das operações de superfície, apesar de o histórico recente na região indicar que o foco maior (se não total) será nesse tipo de esforço. Propondo essa discussão, pensamos em estudar com maior aprofundamento uma operação militar que tivesse o foco em uma campanha aérea com duas fases: a primeira, com propósitos concomitantes de ataque estratégico e de interdição das capacidades militares de Níger; e a segunda, com foco na cooperação entre o poder aéreo e a operação de superfície (que pode variar de uma invasão em larga escala até operações isoladas de forças especiais).

Um primeiro aspecto dessa análise é a geografia desse suposto teatro de operações. Em termos de macrorregião, consideremos a África Ocidental que está localizada a oeste do eixo norte-sul, próxima a 10° de longitude leste. Há uma fronteira ao norte, que é o Deserto do Saara, que inclusive atinge partes expressivas do território do Níger. À oeste está o Oceano Atlântico, com suas linhas de comunicação marítimas e portos para desembarque de suprimentos em vários estados da ECOWAS, inclusive na Nigéria (porto de Lagos), mas também em um dos aliados de Níger, que é a Guiné (porto de Conakry). Ao sul da Nigéria, a floresta sofre um adensamento e os estados banhados pelo Rio Congo (ou suas imediações) constituem a fronteira meridional da ECOWAS. Por fim, à leste, a fronteira fica entre o vale de Benue e uma linha que vai do Monte Camarões até o Lago Chade.


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O Níger, propriamente, onde se espera que sejam conduzidas as principais operações militares, é um estado sem acesso ao mar e faz fronteira com Mali, Burquina Fasso, Benin, Nigéria e Chade (além de Líbia e Argélia, ao norte). Com cerca de 1,27 milhão de quilômetros quadrados, sua geografia é caracterizada por uma mistura de paisagens diversas, incluindo desertos, savanas, montanhas e vales fluviais.

Uma parte significativa do Níger é coberta pelo deserto do Saara, que ocupa a região centro-norte do país. Localizadas na parte norte do Níger, as montanhas do Aïr são uma cordilheira que se ergue do deserto circundante. À leste dessa cordilheira situa-se o deserto do Ténéré, que se incorpora à paisagem desértica do Níger. Ao sul do Saara, o Níger transita para o Sahel, uma zona semiárida caracterizada por savanas, prados e vegetação esparsa. O rio Níger atravessa a parte sudoeste do país, constituindo uma fonte vital de água para a agricultura e as comunidades locais. A parte sudeste do Níger faz parte da Bacia do Lago Chade, um ecossistema grande e diversificado que abrange vários países. A parte nigerina da bacia inclui zonas úmidas e lagos sazonais que suportam uma variedade de biodiversidade. Por último, situado no extremo nordeste do Níger, o Planalto de Djado apresenta um terreno plano e rochoso e formações geológicas antigas.

A verdade é que o Níger apresenta uma diversidade geográfica e enfrenta uma série de desafios ambientais, incluindo a desertificação, as secas e a escassez de água. A geografia do país também tem implicações para a sua economia e meios de subsistência, com muitas pessoas a depender da agropecuária de subsistência e do pequeno comércio para ganhar a vida.

Um segundo aspecto que merece análise é a questão do poder aéreo dos eventuais contendores. Dois quadros podem demonstrar com maior clareza como podem ser caracterizadas as diferentes composições de meios aéreos existentes. No Quadro 1, os meios aéreos dos estados-membros da ECOWAS que têm se posicionado contra o golpe no Níger, e o Quadro 2, com os meios aéreos do Níger e seus potenciais aliados.


QUADRO 1: Meios Aéreos da ECOWAS.

QUADRO 2: Meios Aéreos de Níger (e potenciais aliados).

Fonte: compilado do IISS (The International Institute for Strategic Studies). The Military Balance 2023, London: Routledge, 2023.

Legenda 1: FGA (Multimissão, Caça e Ataque); TRG (Treinador); FTR (Caça); ATK (Ataque); ATK HEL (Helicóptero de Ataque); MRH (Helicóptero Multimissão); TPT (Transporte); ISR/CISR (Inteligência, Vigilância e Reconhecimento); UAV (Veículo Aéreo Não Tripulado); MP (Patrulha Marítima).

Legenda 2: (a) Situação operacional duvidosa; (b) Condição duvidosa sobre a função operacional; (c) 3 de TPT; (d) 2 de TPT; (c) Não possui Força Aérea; (e) 6 de TPT; (f) 2 de TPT; (g) Todos de TPT; (h) 24 de TPT; (i) 2 de ELINT e 1 de ISR; (j) 8 de TPT; (k) 2 de TPT.


Algumas conclusões podem ser obtidas a partir dos quadros. Do lado da ECOWAS, apenas a Nigéria teria mínimas condições de empregar o poder aéreo em algumas capacidades específicas. A NAF possui três aeronaves JF-17 (Figura 4), que é um avião de combate leve, monomotor e multifunção, desenvolvido conjuntamente pela Chengdu Aircraft Corporation, da China, e pela Pakistan Aeronautical Complex. Possui 10 aeronaves F-7 (F-7NI), uma versão do Chengdu J-7, chinês, que por sua vez é baseado no Mikoyan-Gurevich MiG-21, russo. Além disso, a NAF possui seis EMB-314 Super Tucano, com mais outros seis encomendados. A NAF possui um esquadrão de helicópteros Mi-24/Mi-35 Hind, que é um helicóptero de ataque e de transporte de tropas. Há, ainda, uma razoável capacidade de transporte de carga e pessoal, principalmente pela presença de alguns C-130 Hércules no inventário.

Na ECOWAS é muito difícil perceber outros Estados que tenham condições de prover algum suporte de poder aéreo à uma eventual operação militar. Uma possível exceção a essa regra geral seria Gana (ATK ou TPT), Benin, Costa do Marfim ou Senegal (ATK HEL), ou Gâmbia, Senegal e Togo (TPT), que poderiam prover limitados meios de ataque, via aeronaves ou helicópteros, e transporte aéreo.


FIGURA 4: JF-17 da Força Aérea da Nigéria (Military Africa).

Pelo lado do Níger, a situação é ainda mais precária. Apenas se visualiza a possibilidade de emprego de poucos helicópteros de ataque, por parte do Níger e seus eventuais aliados. No caso do transporte aéreo, Burquina Fasso (C-295W e C-235-220) e Mali (C295, An-24 Coke ou An-26 Curl) possuem alguma capacidade para cooperar nesse tipo de missão.

Há que se destacar, contudo, que em todos os estados analisados, mesmo na Nigéria, pairam dúvidas reais quando à condição operacional das aeronaves. O esforço logístico de manutenção das aeronaves parece não ser uma qualidade significativa do poder aéreo nessa região. Além do mais, a condição de aeronavegabilidade dos meios aéreos, caso exista, não assegura que eles estejam em condições de cumprir missões operacionais, tais como atacar alvos terrestres. Também há uma outra condição a ser ponderada. Com exceção da Nigéria, onde foi possível se obter informações mais detalhadas, há dúvidas sobre os estoques de armamento aéreo (tipos, quantidades, condição operacional) dos estados-membros da ECOWAS ou do Níger e seus parceiros.

Do ponto de vista da doutrina de emprego, a NAF possui documentos importantes: o AFM-1 OP Operations and Planning Doctrine e o AFM-1 CL Counter Land Doctrine [14]. Devido à sua relativa condição operacional diferenciada, tanto em termos de meios aéreos como na questão de uma doutrina escrita, acredita-se que a NAF será a principal responsável pelo planejamento e condução de uma eventual campanha aérea contra o Níger. Por esse motivo, a análise deste artigo será conduzida a partir das premissas da NAF, no que tange às funções e missões do poder aéreo.

A NAF considera que o controle do ar é uma tarefa primária do poder aéreo. Entretanto, em face das condicionantes da situação analisada, é extremamente provável que não haja ameaça aérea do adversário (Níger e aliados), conforme apontamos acima. Há também poucas evidências de que um esforço de SEAD/DEAD (Suppression/Destruction of Enemy Air Defenses) seja necessário na campanha aérea, haja vista que o Níger não possui um IADS (Integrated Air Defense System), tampouco mísseis superfície-ar. Não há evidências de que as poucas aeronaves FGA da Guiné tenham capacidade de operar interceptação aérea. Na verdade, o Níger possui apenas poucos (10) canhões antiaéreos Panhard M3 VDAA, com tubos de 20mm.


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Em função dessas variáveis, como apontado acima, acredita-se que a primeira fase de uma campanha aérea da ECOWAS seria conduzida a partir do propósito concomitante de neutralizar alvos estratégicos no Níger e realizar interdição aérea.

No que tange à perspectiva estratégica, a doutrina da NAF entende que esses “ataques são operações que visam a capacidade fundamental de um adversário para fazer a guerra […], tais como elementos de liderança e comando, recursos críticos de produção de guerra ou infraestruturas de apoio fundamentais” [15]. Nesse aspecto, há adesão doutrinária a dois elementos significativos, que se alinham com a maioria das doutrinas ocidentais de poder aéreo.

O primeiro deles é o foco no Centro de Gravidade (CG). No caso específico, caberia aos planejadores militares identificar corretamente qual ou quais seriam os CG do Níger. Em operações contrainsurgência essa tarefa não tem sido fácil. Há de se especular sobre algumas possibilidades. A primeira delas seria indagar se o CG do Níger estaria concentrado naquilo que John Warden chamou de Liderança [16]. Em caso positivo, quais seriam essas lideranças? Dentre elas, provavelmente, o general Abdurahmane Tchiani (Figura 5)?

Uma segunda possibilidade de CG seria alinhar com uma visão oriunda do Método de Joe Strange [17], para análise de centros de gravidade, buscando considerar a vulnerabilidade crítica (VC) do Níger. Strange define VC como aqueles “Requisitos críticos ou seus componentes que sejam vulneráveis à neutralização, interdição ou ataque (danos morais/físicos) de forma a obter resultados decisivos”. Com base nessa metodologia, poderíamos especular sobre a natureza da força militar nigerina e identificá-la como um CG [18].


Figura 5: General de Níger Abdurahmane Tchiani (ORTN).

Um outro aspecto merecedor de avaliação é a adesão da doutrina NAF ao conceito de efeitos, mais especificamente à abordagem da Operação Baseada em Efeitos [19]. O Manual de Operações e Planejamento da NAF cita que a palavra “estratégico” descreve o efeito e não a localização ou a distância do alvo, ou o tipo de sistema de armas ou de plataforma de lançamento. É mais eficaz quando uma vasta gama de alvos é atacada simultaneamente, causando um efeito de choque máximo e colocando pressão significativa nos processos de um adversário, bem como limitando a sua capacidade de adaptação e de reação [20].

A avaliação que se pode ter desses apontamentos é que a NAF, mesmo que eventualmente carente de meios aéreos e armamentos para sustentar uma campanha estratégica, possui pensamento doutrinário que sustente essa concepção. Apesar disso, há ainda questões críticas, além dos meios aéreos, para a efetivação de uma campanha a partir dessa premissa. O processo de seleção dos alvos, onde a questão da identificação, análise, rastreamento e avaliação de danos é essencial, constitui-se em obstáculo duplo para a NAF. Há demanda de uma estrutura e recursos humanos adequados para tal tarefa (um centro de inteligência aérea) como meios aéreos com sensores e condição operacional suficiente. Perceba-se que no Quadro 1, apenas a NAF possui aeronaves de Intelligence, Surveillance, and Reconnaissance (ISR) [21]. Sendo duas aeronaves de ELINT [22] (ATR-42- 500 MP, vide Figura 6), originalmente adquirido para missões de MP, e uma de ISR (Beech 350 King Air).


FIGURA 6: ATR-42-500MP da NAF, missão MP. Observe a condição operacional, foto de 04/12/2022 (Finnographie/NetAirSpace).

Outro problema crucial está associado ao Direito Internacional Humanitário, e a possibilidade de os ataques aéreos gerarem danos colaterais (vítimas civis, por exemplo) que seriam condenados pela opinião pública internacional e pudessem contabilizar os responsáveis pela campanha militar da ECOWAS, perante fóruns jurídicos com essa função.

Em paralelo com a abordagem estratégica, uma outra possibilidade é a realização de um esforço voltado para a interdição da capacidade militar do Níger. Da forma como entende a doutrina da NAF, “A Interdição Aérea é definida como a operação aérea conduzida para desviar, perturbar, atrasar ou destruir o potencial militar do inimigo antes que este possa ser utilizado eficazmente contra as forças amigas” [23], e o efeito desejado recai sobre as linhas de comunicação e a capacidade de combater do oponente.

Níger possui precária infraestrutura rodoferroviária. Alguns eixos, como a autoestrada Trans-Sahara, a Rota Nacional 1 ou a Rota Nacional 6 podem ser considerados nos movimentos em superfície. Apesar disso, as condições de tráfego podem ser difíceis devido ao ambiente desértico, à falta de manutenção e aos recursos limitados para o desenvolvimento de infraestruturas. Esse quadro de precariedade nos transportes também se estende à geração de energia, aos ativos de Petrol, Oil and Lubricants (POL) [24] e ao sistema de telecomunicações.

Restaria, portanto, em uma seleção de alvos para essa fase da campanha, algumas opções: concentrações de tropas ou de material militar; depósitos de combustível para as forças militares; artérias rodoviárias alternativas onde haja escoamento de material militar e fluxo de tropas. Considerando a recente experiência da NAF contra o grupo Boko Haram, essa vertente da operação aérea torna-se plausível. Entre 9 e 11 de junho de 2023, um desses ataques foi documentado (Figura 7). Segundo a notícia, “após a operação, a avaliação no terreno revelou que o avião Super Tucano da NAF atingiu com precisão, matando muitos dos comandantes das unidades do Boko Haram e combatentes de alto valor, enquanto muitos dos que escaparam ficaram gravemente feridos” [25].


FIGURA 7: Imagem da explosão de uma bomba em acampamento do Boko Haram, entre 9 e 11/06/2023. (The Cable).

Há de se considerar, também, que a presença estrangeira na região pode ser fator de ampliação de capacidades, via intercâmbio operacional, que venha a capacitar o pessoal da NAF. Em 2022, um periódico afirmou que “Os EUA […] forneceram secretamente informações ou outro tipo de apoio às forças armadas nigerianas” [26], em um ataque aéreo em 2017, contra o Boko Haram, em um acampamento situado em Rann, na Nigéria, perto das fronteiras com os Camarões e o Chade.

Em outra fase da campanha aérea o esforço poderá ser direcionado para o suporte à invasão terrestre do Níger ou a operações especiais isoladas. Aqui surge, na doutrina da NAF, o conceito de Close Air Support (CAS). Segundo o documento AFM- 1 CL, o CAS “fornece poder de fogo em operações ofensivas e defensivas, de dia ou de noite, para destruir, suprimir, neutralizar, perturbar, fixar ou atrasar as forças inimigas nas proximidades das forças terrestres amigas” [27].

Consideramos que essa venha a ser a principal função a ser cumprida pelo poder aéreo da ECOWAS contra uma eventual ação militar no Níger. Essa percepção se fundamenta nas análises anteriores, que indicam a potencial caracterização do evento como uma guerra irregular, conduzida por forças regulares e insurgentes de Níger contra a possível tentativa de destituição da junta militar que governa o país.

Podemos, inclusive, especular sobre um processo que se consagrou no Afeganistão, onde controladores táticos no terreno guiavam os ataques aéreos, naquilo que Anthony Schinella chamou de “Modelo Afegão” [28]. Durante a Operation Enduring Freedom, a partir de 2001, forças especiais, militares qualificados como Joint Terminal Attack Controller (JTAC), associados à descontentes locais, conduziram uma campanha aérea de eliminação de lideranças talibãs, em operações conjuntas de pequena intensidade, cujos efeitos táticos foram positivos. Conceitualmente, apesar da grande disparidade tecnológica, técnica e de adestramento envolvida nessa comparação, a NAF, e seus parceiros da ECOWAS que venham a integrar a força terrestre multinacional, podem ajustar procedimentos CAS inspirados nesse modelo para tentar cooperar com a campanha de superfície.

Por fim, uma outra capacidade que pode ser utilizada durante toda a campanha aérea é a mobilidade. Como se observou anteriormente, há meios suficientes, mesmo que haja dúvida sobre a condição operacional, para prover suporte para a força de superfície em ações de transporte logístico (pessoal e material), assalto aeroterrestre, infiltração e exfiltração de forças de superfície, evacuação aeromédica ou evacuação de não combatentes, dentre outras que estejam no contexto da mobilidade aérea.

Desde 2020, há notícias sobre a NAF conduzir lançamento de suprimentos para populações em áreas carentes. Em setembro desse ano, a NAF conduziu lançamentos aéreos de alimentos às pessoas deslocadas internamente em locais de difícil acesso, no estado de Borno [29]. O Exército da Nigéria possui unidades aeroterrestres, como a 16ª Brigada de Assalto Aéreo (Figura 8), que teriam condições de ser utilizadas em incursões explorando o princípio da manobra, durante uma eventual ação militar aeroterrestre contra o Níger.

Além dos aviões, os helicópteros de TPT ou MRH podem colaborar na maioria das ações para prover mobilidade às forças da ECOWAS, principalmente os AW101, os H215 (AS332) Super Puma, os AS365N Dauphin, o Mi-171Sh e os Mi-171E.


FIGURA 8: G.222 da NAF lançando paraquedistas do Exército da Nigéria (begeagle).

Concluída essa breve análise de como o poder aéreo poderia ser aproveitado na atual crise do Níger, considerando uma eventual operação militar na região, é importante destacar alguns pontos.

Uma intervenção no Níger dependeria fortemente da Nigéria, que tem as aeronaves e helicópteros mais modernos do entorno, a experiência mais significativa contra grupos insurgentes e, ao menos, uma doutrina escrita sobre como melhor utilizar o poder aéreo. Além desse foco operacional, logisticamente a Nigéria seria o principal suporte na região. Há portos, centros populacionais e vias de acesso ao Níger que colocam a Nigéria em evidência [30].

Apesar de notícias de que a intervenção militar estaria em consideração, não há evidências de que isso venha acontecer imediatamente. O Senegal, o Benim, a Nigéria e a Costa do Marfim afirmaram estar prontos a enviar tropas, mas enfrentam críticas internas e hesitações de outros países da África Ocidental [31]. Contudo, ainda não está claro quando ou onde a força será destacada e que países do bloco contribuirão [32]. Há uma dependência de acertos políticos no âmbito da ECOWAS, com outros estados da região que não são membros dessa organização, com as potências extrarregionais e com órgãos multinacionais, como a ONU.

Apesar de ser uma análise direcionada à uma operação militar, aquilo que realmente esperamos é pela solução política, e que essa solução não se inspire no corolário de Clausewitz: “a guerra é a continuação da política por outros meios[33].


Notas

[1] https://www.bbc.com/news/world-africa-13943662

[2] https://www.reuters.com/world/africa/recent-coups-west-central-africa-2023-07-26/

[3] Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO).

[4] https://ecowas.int/member-states/

[5] https://www.reuters.com/world/africa/military-interventions-by-west-african-ecowas-bloc-2023-08-04/

[6] https://peacekeeping.un.org/en/terminology

[7] https://www.premiumtimesng.com/news/top-news/613369-burkina-faso-mali-guinea-declare-support-for-niger-coup-as-soldiers-arrest-politicians.html

[8] https://www.aljazeera.com/opinions/2023/8/15/niger-coup-will-the-west-change-its-security-approach-to-the-sahel

[9] https://www.dni.gov/nctc/groups/boko_haram.html

[10] Abioyep, Joel. Nigerian Air Force: projecting air power, restoring peace. The Airman Magazine, vol. 30, jul-dec 2022, p. 26.

[11] https://www.dw.com/en/niger-russia-sahel/a-66494597

[12] https://www.bbc.com/news/world-europe-66576990

[13] Preferimos adotar o termo “poder aéreo” ao invés de “poder aeroespacial”, em função da análise enfatizar exclusivamente a questão da aviação. Não há elementos suficientes para se considerar o espaço exterior (satélites, por exemplo), ou a questão das capacidades counterspace, no contexto do artigo. Mesmo a Nigéria, que já possuiria satélites (as séries NigeriaSat ou NigComSat), não torna possível a inserção do domínio espacial na apreciação do artigo.

[14] Doutrina de Planejamento e Operações; Doutrina Contra Superfície.

[15] Nigerian Air Force. AFM-1 OP Operations and Planning Doctrine. 2021, p. 13-14.

[16] Warden, John A., III. The Enemy as a System. Airpower Journal, vol IX, september, 1995; Warden, John A., III. Smart Strategy, Smart Airpower. In: Olsen, John A. (Ed.) Airpower Reborn: the strategic concepts of John Warden and John Boyd. Annapolis: Naval Institute Press, 2015. p. 93-127.

[17] Strange, Joe. Centers of Gravity & Critical Vulnerabilities: Building on the Clausewitzian Foundation so that we can all speak the same language. (2 ed.) Quantico: Marines Corps University, 2005.

[18] O leitor deve compreender que todas as apreciações do texto são especulativas, pois não houve a aplicação integral de metodologias nem, tampouco, há dados suficientes para se conduzir essas análises.

[19] Deptula, David A. Effects-Based Operations: change in the nature of warfare. Arlington: Aerospace Education Foundation, 2001.

[20] Nigerian Air Force. AFM-1 OP Operations and Planning Doctrine. 2021, p. 14.

[21] Inteligência, Vigilância e Reconhecimento.

[22] ELINT: Electronic Intelligence (Inteligência Eletrônica).

[23] Nigerian Air Force. AFM-1 CL Counter Land Doctrine. 2021, p. 5.

[24] Petróleo, óleo e lubrificantes.

[25] https://www.thecable.ng/again-over-100-fighters-killed-as-naf-bombs-boko-haram-base-in-borno

[26] https://theintercept.com/2022/07/28/nigeria-civilian-displaced-bombing-us/

[27] Nigerian Air Force. AFM-1 CL Counter Land Doctrine. 2021, p. 30.

[28] Schinella, Anthony M. Bombs without Boots: the limits of airpower. Washington: The Brookings Institution, 2019. p. 100.

[29] https://www.premiumtimesng.com/regional/nnorth-east/412739-nigeria-air-force-to-air-drop-food-for-idps-in-remote-locations-official.html?tztc=1

[30] https://www.dw.com/en/niger-how-might-an-ecowas-military-intervention-unfold/a-66431072

[31] https://www.africanews.com/2023/08/14/niger-an-uncertain-and-risky-ecowas-military-intervention/

[32] https://time.com/6304017/niger-ecowas-troops/

[33] Clausewitz, Carl von. On War. Edited and translated by Michael Howard and Peter Paret. Princeton: Princeton University Press, 1976. p. 87.

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