O real significado da entrega de F-16 à Ucrânia

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Um F-16 Fighting Falcon da Força Aérea holandesa voa sobre o Mar do Norte durante o Exercício Bold Avenger em 23 de setembro de 2009 (Thomas Trower/Força Aérea dos EUA).

Por Jean-Bernard Pinatel*

Um F-16 Fighting Falcon da Força Aérea holandesa voa sobre o Mar do Norte durante o Exercício Bold Avenger em 23 de setembro de 2009 (Thomas Trower/Força Aérea dos EUA).

Em termos práticos, o burburinho em torno dos F-16 para a Ucrânia ajuda a abafar a derrota estratégica ucraniana em Bakhmut, além de abrir caminho para novos negócios para a indústria de defesa americana.


A autorização dada por Biden aos europeus para entregar caças F-16 à Ucrânia é, na verdade, uma forma de apagar, por meio de um golpe de comunicação, o revés estratégico de Bakhmut e, sobretudo, tirar proveito disso para a indústria.

A queda de Bakhmut, a Verdun ucraniana, ocorreu em 20 de maio de 2023 após uma heroica defesa ucraniana de 224 dias em que Zelensky engajou suas melhores forças com perdas de até 1.000 homens por dia, estima Gallagher Fenwick, grande repórter, especialista na Ucrânia.

Foi a última eclusa estratégica bloqueando o caminho para as forças russas em direção a Sloviansk e Kramatorsk, as duas últimas grandes cidades dos oblasts de Donetsk que ainda precisavam ser conquistadas antes de atingir suas fronteiras administrativas ocidentais.

Esta derrota deverá ter um impacto considerável no moral das forças ucranianas e seus apoiadores externos, cujos meios de comunicação e consultores sob ordens continuam a anunciar até hoje a iminência de uma contraofensiva que só poderia ser vitoriosa devido à enorme ajuda ocidental, especialmente em tanques pesados.

Obviamente, tudo tinha que ser feito para esconder e mitigar esse potencial impacto negativo de uma vitória russa sobre as forças ucranianas, na população da Ucrânia e dos países que a apoiam. Assim, a autorização dada por Biden aos europeus para entregar os caças F-16 com a condição de não sobrevoarem o território russo, chega no momento certo.

De fato, esta decisão de Washington é bem jogada porque é um golpe triplo:

  1. A mídia dos países europeus aproveitou este anúncio para reduzir o tempo e os comentários sobre a perda estratégica de Bakhmut a um mínimo estrito e imediatamente divulgar as qualidades do F-16 que é promovido ao posto de nova “poção mágica” permitindo continuar acreditando na vitória da Ucrânia;
  2. Não é provável que preocupe realmente o estado-maior russo e, portanto, não aumenta o risco de nuclearização do conflito que Washington quer evitar a todo custo. Bem explorado pela propaganda ucraniana, pode ter um impacto positivo no moral dos combatentes ucranianos, mas não terá impacto concreto a médio prazo no poder de fogo da Ucrânia e na defesa do seu espaço aéreo por duas razões:
    • Os europeus são equipados principalmente com a versão do F-16AM/BM MLU, fabricado sob licença na Europa até 1980, que está sendo substituído, por exemplo na Holanda, pelo F-35A. Esses F-16, que entraram em serviço há mais de 40 anos, são superados pelos caças russos mais modernos e não têm chance de colocar em risco o sistema russo protegido pelos S-400;
    • Mais importante, não poderão servir à Ucrânia para obter superioridade aérea por vários anos, porque saber pilotar um caça é uma coisa, lutar com ele é outra. Um experiente piloto ucraniano de MiG pode adquirir “competência consciente” no F-16 em um ano. Mas entrar em “competência inconsciente”, ou seja, ser capaz de lutar sob estresse por “reflexo” levará vários anos. Com efeito, num confronto aéreo com um piloto russo, este agirá com “reflexos” adquiridos ao longo de vários anos no MiG, enquanto “inconscientemente” um piloto ucraniano aplicará os reflexos que aprendeu no MiG porque ainda não terá “habilidade consciente” no F-16. O filme “Maverick” é a melhor ferramenta pedagógica desta realidade.
  3. Esta decisão é benéfica para a indústria americana porque irá acelerar o ritmo de construção e exportação do F-35, cujo custo unitário ronda os 200 milhões de dólares.

Publicado no Le Dialogue.


*Jean-Bernard Pinatel é general da reserva do Exército francês. Doutor em estudos políticos e mestre em ciências físicas (opção de física nuclear), é autor de seis livros sobre geopolítica, incluindo “Histoire de l’Islam radical et de ceux qui s’en servante”. É vice-presidente do think tank Geopragma.

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23 comentários

      1. A Europaocidental e os EUA é que parece degastar até tais manobras na america latina cheira desespero usando a amazonia como uma distração acachapante na ucrania economicamente a Rússia tem apoio do hemisferio sul o outro lado está cambaleando e dividindo numa clara manifestação de barco afundando com um rochedo a vista acompanhado de uma enseada com corais cortantes dificultando a qualquer manobra naval.

  1. Sem querer questionar a competência do doutor General francês, gostaria de saber porque as autoridades russas estão tão contrariadas com a decisão do presidente Biden de liberar o envio dos caças F16 para a Ucrânia. Lembrar que a Rússia prévia conquistar a Ucrânia em 2 semanas e a guerra já passa de 1 ano.

    1. Manobra de bastidores no senntido de atrair mais ainda nucleo de destruição das possibilidades de aramento da Ucrania por esse país está preso a iminente derrota,não vejo chance nenhuma de vitoria nesta guerra se até o Iraque eles estreparam imagine com a Rússia,o que me preocupa é o entreguismo do nosso exercito e a postura nada honesta por parte de alguns parlamentares diante das manobras dos EUA no Brasil quiçá no continente é mais do que necessário imobilização continental contra o imperialismo ianque.

    1. Eta filme de Rambo na cabeça de gente que acha entender historia e nada sabe a não ser oque é topgun e tio patinhas se Putin é criminoso de guerra a nato é o pinaculo da destruição em massa com perfil de gente boazinha parabéns burrice pega diante de qualqer jornalismo acritico que faz a cabeça dessa gente deve-se ler propaganda de guerra como instrumento de consciencia ingenua pequeno burguesa sem noção dos fatos seja assimilação que aconteceu em outros cenários como a Sérvia em Kosovo só que a Rússia tem força para aniquilar qualquer um.

  2. Parabéns baider presente americano
    Ós ucarianos não tem compa de um criminoso como vradimi pudim é muito corvardes si tiver uma guerra eu lidera 70 Taques de guerra contra ó russo covarde na linha de frente boa sorte uganianos

  3. Vitória???? KKK vitória de Pirlo!! Perderam milhares e milhares de soldados e centenas de equipamentos. Para uma cidade devastada que ainda pode ser cercada pelos flancos, e ser a moderna batalha de Cannas !!!

    1. A Russia tem uma experiencia enorme nesta região e aprendeu com seus erros do Afeganistão Putin é que está sendo acossado e não a Ucrânia bucho de canhão dos EUA só que os Pilros e não Pirros entende se faz com Hollywood e não com os fatos a Ucrania é que se ferrou alocando de modo sem necessidade sua força de amparo ou combate a economia europeia está de mau a pior e a América Latina está se mexendo,mesmo com manobras militares e entreguismo de debilóides.

  4. A sensações é que a mídia brasileira além de claro não ter credibilidade dentro do próprio país está apoiando a Rússia, e não o país agredido que está se defendendo de escrúpulos.

  5. O presidente da Rússia devia ser mais humilde e aceitar que não vai conseguir tomar a ucrania sem perder muito e também e ter mais aliados depois da derrota! O mundo condenou o ataque soviético e ele não quer aceitar!

  6. Presidente americano,esta e quebrando toda a europa;Velho carnissa;Russos são amigos e não covarde!

  7. COMENTÁRIO EDITADO DEVIDO À FALTA DE CONTEXTO. PARA TORCIDA, MELHOR PROCURAR EM OUTRO LUGAR.

  8. COMENTÁRIO EDITADO DEVIDO À FALTA DE CONTEXTO. PARA TORCIDA, MELHOR PROCURAR EM OUTRO LUGAR.

  9. acredito que não esteja acompanhando o desenrolar desse conflito desde o início, 24/02/2022. Nessa ocasião, em poucas semanas Kiev se sentou para negociar por intermédio de Belarus e Turquia. Após esse fato , EUA não aceitou os termos e o conflito se arrasta até hoje. Isso demonstra que quem manda não é a Ucrânia.

  10. Texto muito interessante, especialmente destacando a possibilidade de que os modelos disponibilizados devem ter como origem a reserva das forças aéreas que os cederam; operacionais certamente, mas com reservas frente ao equipamento russo. A questão do treinamento dos pilotos ucranianos é um ponto central, um caça não é uma caminhonete que basta dar a partida, independente do treino do motorista.

  11. Parabéns pelo artigo. Pelo que venho acompanhando tanto em seu blog quanto nos canais parceiros, as vitórias reais OTANISTAS se restringem a área midiática quase que na totalidade. Caballé, você acredita que a Ucrânia terá material humano para mais quatro anos de conflito caso ele continue, ou apostaria em um esgotamento mais rápido?

    1. Oi César.
      Difícil dizer, mas com certeza uma geração inteira de homens ucranianos está sendo destruída.
      Obrigado por comentar e nos acompanhar!
      Forte abraço, Albert.

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