Ofensiva de primavera da Ucrânia: Mito ou realidade?

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Voluntários da Brigada de Assalto “Espartana” da Guarda Nacional da Ucrânia, parte da “Guarda Ofensiva”, em aulas de direção e evacuação de um veículo blindado BTR-4E durante exercícios de treinamento na região de Kharkov, 21 de abril de 2023 (Sergey Bobok/AFP via Getty Images).

Voluntários da Brigada de Assalto “Espartana” da Guarda Nacional da Ucrânia, parte da “Guarda Ofensiva”, em aulas de direção e evacuação de um veículo blindado BTR-4E durante exercícios de treinamento na região de Kharkov, 21 de abril de 2023 (Sergey Bobok/AFP via Getty Images).

É legítimo perguntar se a ofensiva ucraniana de primavera realmente vai acontecer ou se é apenas uma operação diversionária destinada a manter o apoio do Ocidente.


No final de 2022, mesmo com o acúmulo de tropas russas na fronteira, muitos analistas acharam que a Rússia não invadiria a Ucrânia, porque os custos políticos e econômicos seriam muito altos. No entanto a invasão aconteceu e realmente está custando muito caro à Rússia, tanto em termos econômicos, como em perdas humanas. Pouco mais de um ano depois, a mesma questão surge “do outro lado”: Kiev vai lançar uma contraofensiva para recuperar o terreno perdido e, como pretendem alguns, inclusive recuperar o controle do território anterior a 2014?

Todas as informações disponíveis, inclusive os controversos vazamentos do Pentágono, apontam para o fato de que os ucranianos não têm meios humanos, materiais e nem munição para lançar uma ofensiva em larga escala com chance de romper as linhas russas. Além disso, os russos estabeleceram fortes linhas defensivas e, portanto, têm uma vantagem tática. Ao mesmo tempo, aumentam as reportagens e análises sobre a crítica falta de munição no Ocidente – além de uma aparentemente crônica falta de capacidade industrial para repor os estoques, ao menos nos prazos necessários.

A ofensiva de inverno de Moscou não se materializou, apesar da mobilização de centenas de milhares de homens. Vladimir Putin, ao que parece, aproveitou esse meio tempo para treinar os recrutados na convocação de setembro passado. Ao mesmo tempo, a Ucrânia não recuperou território. Kiev parece estar tentando reunir novas tropas para usar as armas que vem recebendo do Ocidente, embora os rumores sobre o recrutamento ucraniano não sejam auspiciosos. Por outro lado, sempre é bom lembrar que “armas milagrosas” não existem além das especificações dos folders de marketing da indústria bélica.

A anunciada contraofensiva ucraniana é sempre considerada “iminente”, a julgar pelos pronunciamentos, entre outros, das autoridades ucranianas: o primeiro-ministro Denys Shmyhal declarou, no início de abril, que está “convencido de que a contraofensiva ocorrerá em um futuro próximo”. Segundo ele, “os Estados Unidos nos apoiam absolutamente”.

No entanto, de acordo com os vazamentos do Pentágono que vem chegando ao noticiário, os maiores problemas de Kiev não são apenas a escassez de armas antiaéreas, mas também uma grave falta de munição em geral; e isso ocorre em um cenário em que a Ucrânia precisa de vitórias para garantir a continuidade da ajuda militar e financeira do Ocidente à medida em que o apoio público ocidental está diminuindo.


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A atual linha de frente se estende do leste ao sul da Ucrânia por centenas de quilômetros. Se realmente for lançar uma contraofensiva, Kiev teria que escolher cuidadosamente onde contra-atacar. Especula-se inclusive que poderá haver duas ofensivas, a primeira servindo de engodo para fixar as forças russas e a seguinte, a principal, para tomar áreas politicamente significativas. Tudo isso sendo amplamente anunciado pela mídia, enquanto alguns parecem esperar que os russos serão “pegos de surpresa”.

Enquanto isso, no Kremlin, os objetivos atuais poderiam ser diferentes daqueles do início da guerra. Se, por um lado, Moscou supostamente falhou em tomar Kiev e derrubar o governo de Zelensky logo no início da invasão, provavelmente aprendeu com seus erros e agora pode estar simplesmente ganhando tempo, consolidando seu controle sobre os territórios ocupados. Ao mesmo tempo em que faz isso, Moscou sangra a Ucrânia e e mantém uma ameaça de retomada da ofensiva, o que poderia desencorajar investidores e levar mais ucranianos a deixar o país, tanto por razões econômicas como de segurança.

Nesse contexto, é legítimo perguntar se a tão propalada ofensiva ucraniana de primavera realmente vai acontecer ou se é apenas uma operação diversionária, destinada a contrapor a estratégia de Moscou e a manter o apoio do Ocidente.

É revoltante ouvir os warmongers do Ocidente empurrando a Ucrânia para o sacrifício, aparentemente sem se importar com o fato de que milhares de jovens ucranianos estão perdendo suas vidas por um resultado militar incerto: já se fala na perda de toda uma geração de homens ucranianos.

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2 comentários

  1. Considerando todo o desenrolar dos acontecimentos, cada vez mais me convenço que não se trata de questão meramente territorial ou de bloqueio ao avanço da OTAN. Os russos já sabem como lidar com o “ocidente” desde o Vietnã. Cada vez mais me parece uma “investigação”, tendo cuidado para que não se destruam “informações”.

  2. De fato, esses vazamentos são controversos.
    Na parte onde é dito que a Ucrânia não tem condições de executar uma contraofensiva, eu consideraria que teria condições e dobraria a defesa. *

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