Tanques para a Ucrânia: Escalada ou mistificação?

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Carro de combate (main battle tank) alemão Leopard 2 A7+ (KMW).

Por Jean-Luc Baslé*

Carro de combate (main battle tank) alemão Leopard 2 A7+ (KMW).

A Ucrânia deve receber mais de cem tanques que só estarão operacionais em alguns meses. Farão diferença na guerra, ou são parte de uma operação de mídia para convencer os ocidentais de que seus governos fizeram de tudo para ajudar Kiev?


A guerra na Ucrânia não é resultado do acaso ou de uma agressão russa repentina e inexplicável, mas de uma política deliberada dos EUA cujo objetivo final é a hegemonia mundial.

Os Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, junto com Finlândia, Polônia e Espanha, entregarão tanques pesados ​​à Ucrânia, totalizando 125 tanques – um número bem abaixo dos 300 tanques solicitados pelo general ucraniano Valerii Zaluzhny durante sua entrevista ao The Economist em dezembro passado.

Se somarmos a isso o fato de que os Leopard 2 alemães só serão entregues em três ou quatro meses, que os Abrams americanos terão que ser fabricados para serem entregues em um ano, que o treinamento das tripulações é uma questão crucial segundo o general Mark Milley, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas americanas, e que a manutenção desse equipamento requer pessoal qualificado, conforme explica Scott Ritter [1], ex-oficial do serviço secreto americano, é lícito questionar qual será o real impacto desses tanques que estarão em quantidade insuficiente e sem apoio aéreo [2].

Pela admissão do general Erich Vad, ex-conselheiro militar de Angela Merkel, mesmo 100 tanques Leopard 2 não mudariam a situação militar [3]. O coronel Douglas McGregor, ex-assessor do Pentágono, declara, por seu lado, depois de recordar a superioridade militar da Rússia, que “a Ucrânia está prestes a viver uma guerra numa escala que não conhecemos desde 1945” [4].

Se a Rússia lançar a campanha que vem preparando há vários meses nas próximas semanas, quer os tanques prometidos estejam prontos para o combate ou não, sua vitória está garantida. Os líderes ocidentais sabem disso.


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Portanto, é permitido levantar a seguinte hipótese: essas entregas são uma operação de mídia destinada a convencer os povos ocidentais de que seus governos fizeram de tudo para ajudar a Ucrânia. Washington e Londres camuflariam assim seu fracasso. A Ucrânia então desaparecerá da mídia para ser substituída pela China, seus objetivos expansionistas ou seu tratamento aos uigures. Esta é a política de comunicação adotada após a humilhante retirada de Cabul. Da noite para o dia, o Afeganistão desapareceu do cenário internacional. Ocorrerá o mesmo com Kiev.

Nesta guerra, cujo objetivo é enfraquecer a Rússia, a propaganda desempenhou um papel muito importante. Europeus e americanos foram submetidos a um excepcional hype de mídia [5] em novembro-dezembro de 2021, quando Moscou tentou em vão convencer Washington a chegar a um acordo para evitar a guerra. Essa extraordinária propaganda leva as nações europeias a aceitarem medidas contrárias aos seus interesses fundamentais!

Pierre de Gaulle [6], neto do general, manifestou-se contra esse absurdo. Emmanuel Todd [7], durante uma conferência na Sciences Po Bordeaux, lembrou que a atacada neste caso foi a Rússia através de uma expansão injustificada da OTAN que coloca os mísseis americanos a sete minutos de Moscou [8]. Observe-se que sua análise está de acordo com a de John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago [9]. A Rand Corporation – o think tank do Pentágono – não esconde seu desejo de ver os Estados Unidos reavaliarem sua política em relação à Ucrânia e à Rússia para chegar a um acordo de paz [10].

Isso é um revés para os Estados Unidos – um revés que condena uma política externa seguida pelos neoconservadores desde que a assumiram nos anos 1990. Portanto, não é a escalada que está em questão neste caso, como alguns temem, mas a mistificação. Dito isto, a ofensiva russa não acabará com a guerra na Ucrânia. Apesar das advertências da Rand Corporation, Washington ainda não desistiu de seus sonhos de hegemonia global. Esses sonhos só desaparecerão quando os neoconservadores, a quem George Bush pai chamou de “malucos do porão”, deixarem a Casa Branca.


Publicado no Cf2R.


*Jean-Luc Baslé é ex-diretor do Citigroup New York e autor de “L’Euro survivra-t-il?” (2016) e de “The International Monetary System: Challenges and Perspectives” (1982).


Notas

[1] “The nightmare of NATO equipment being sent to Ukraine”, 24 de janeiro de 2023.

[2] É interessante notar que o presidente Zelensky pediu aos americanos que lhe fornecessem F-16 – aviões de caça – enquanto o Fairchild Republic A-10 Thunderbolt – aviões de ataque ao solo – seriam mais apropriados para apoiar os tanques ocidentais.

[3] Erich Vad, “What are the war aims?”.

[4] “Ukraine: Is the Hammer About to Fall?”, 19 de janeiro de 2023.

[5] “Le brouhaha médiatique autour de l’Ukraine est une guerre de diversion”, 2 de fevereiro de 2022; Erich Vad, “What are the war aims?”.

[6] “Peut-on séparer la France de la Russie?”, dezembro de 2022.

[7] “Crise de la société occidentale et guerre en Ukraine”, 9 de dezembro de 2022.

[8] Essa expansão também foi imoral, pois renegou o compromisso assumido por James Baker, secretário de Estado de George Bush, com Mikhail Gorbachev de “não avançar a OTAN nem uma polegada a leste da fronteira alemã” (cf. “How America double-crossed Russia and shamed the West”, 9 de setembro de 2001).

[9] https://www.youtube.com/watch?v=JrMiSQAGOS4

[10] Avoiding a long war, The Rand Corporation, janeiro de 2023.

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3 comentários

  1. Não me canso de elogiar a postura do site, sempre com claras informações não manipuladas sobre o conflito na Ucrânia e sem qualquer temor de não ecoar a midia mainstream. ”Na Guerra, a primeira vítima é a verdade”.

    P-A-R-A-B-É-N-S-!

  2. Canal excelente, parabéns aos organizadores. As matérias contribuem, de forma admirável, para nosso discernimento sobre esse conflito, marcado pelas mentiras hegemônicas da mídia dominante, Por um Mundo Multipolar! Obrigado por tudo.

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