O antigo Império Persa, Parte 2: O multiculturalismo

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Ruínas de Persépolis (Getlstd/TripAdvisor).

Por Elizabeth Hautz*

Ruínas de Persépolis (Getlstd/TripAdvisor).

As ruínas de Persépolis, destruída por Alexandre, o Grande, são capazes de contar muito sobre o povo persa e sua herança multicultural.


LEIA A PRIMEIRA PARTE DESTE ARTIGO.

O multiculturalismo presente no antigo império persa, bem como a política de tolerância aos costumes dos povos dominados são marcantes e inéditos para um período da história caracterizado por conquistas sangrentas acompanhadas de uma postura geral de desprezo pelos povos vencidos.

A postura geopolítica diferenciada adotada pelos antigos dominadores persas pode ser observada em artefatos que expressam manifestações desse ideário cosmopolita e pluricultural, como caracterizado nas imagens do ritual de oferendas no Palácio de Apadana, cujas ruínas encontram-se em Persépolis.

Quase totalmente destruída por Alexandre, o Grande, a cidade de Persépolis, localizada ao nordeste do Irã, encontra-se atualmente em ruínas. Essa preciosidade que restou do império antigo é capaz de contar muito sobre o povo persa e sua herança multicultural.

Em termos sociológicos, o multiculturalismo descreve a maneira pela qual uma determinada sociedade lida com a diversidade cultural. Com base no pressuposto subjacente de que membros de culturas diferentes podem coexistir pacificamente, o multiculturalismo expressa a visão de que a sociedade é enriquecida pela preservação, respeito e até incentivo à diversidade cultural. Na área da filosofia política, o multiculturalismo refere-se às formas pelas quais as sociedades optam por formular e implementar políticas oficiais que lidam com o tratamento equitativo de diferentes culturas.


FIGURA 1: Ruínas de Apadana em Persépolis (Enciclopédia Britânica. https://cdn.britannica.com/94/94894-050-C40775EF/Apadana-Darius-I-Persepolis-Iran.jpg)


FIGURA 2: Reconstrução gráfica do Palácio de Apadana (Wordhistory.org. https://www.worldhistory.org/uploads/images/12925.png?v=1614546903).


Segundo Dell’Olio (2018) o multiculturalismo, no discurso político e filosófico a partir da segunda metade do século passado, é usado como um termo geral para, simplesmente, mostrar a existência, ou entender e dar uma resposta à diversidade cultural. Ainda segundo a autora, com base em Song (2017), atualmente o termo multicultural é frequentemente usado para indicar a existência da diversidade vinda do processo migratório, mas, no contexto político das democracias ocidentais, o multiculturalismo é considerado como uma forma mais justa de integração das minorias. Assim, as políticas multiculturais indicam, portanto, políticas de reconhecimento identitário oriundas de reivindicações de diferentes grupos marginalizados.

Para Moawad e Shoura (2017), o multiculturalismo representa uma questão importante do discurso político e intelectual. É considerado um novo modelo para sociedades cujas populações se tornaram multiétnicas através da imigração. Segundo as autoras, um dos méritos da sociedade multicultural é que sociedades que abrigam várias nacionalidades e etnias podem conviver livres de conflitos étnicos e religiosos:

(…) A melhor definição de multiculturalismo é: A crença de que todos os cidadãos são iguais. As diferenças culturais fazem uma grande contribuição para a unidade e o multiculturalismo celebra essa contribuição. O multiculturalismo também garante que todos os cidadãos possam manter suas identidades, orgulhar-se de sua ancestralidade e ter um sentimento de pertencimento. (MOAWAD e EL SHOURA, 2017, p. 803)

As autoras supra enfatizam o fato de que alguns estudiosos, como Gay (2000) e Watson (2002) definem o multiculturalismo em termos de pluralismo de grupos raciais e étnicos, outros argumentaram que o significado do multiculturalismo está além do pluralismo e abarca o desejo de criar novas realidades sociais a partir de grupos minoritários marginalizados (Appiah, 1998; Gay, 1983; Glazier 1998; Goldberg, 1994; Nieto, 1999; Sleeter & Montecinos, 1999).

Promover uma revisitação aos estudos referentes ao império aquemênida e seu multiculturalismo ímpar (e muitas vezes negligenciado pelos estudos ocidentais) mostra-se necessário a fim de conceber uma quebra de paradigmas e construções ideológicas cristalizadas durante séculos nos quais a versão “grega” ou “ocidentalizada” da história mostrou-se hegemônica. Assim, conforme salienta BEER (1957, p. V-VI):

Antes de proseguir el estudio del mundo mediterráneo, de los países y de las agrupaciones en las cuales han coincidido las condiciones particulares de progreso que hemos hecho resaltar, se hace necesario extender la mirada hasta las grandes masas de seres humanos que Roma ha dejado fuera, al margen de su imperio (…) estos pueblos del Extremo Oriente que, sin que se pueda hablar de aislamiento, se han desarrollado en una independencia relativa y sólo tardíamente han ligado su historia de manera estrecha a la del resto de la Humanidad. Pero, en primero lugar, debemos insistir sobre un pueblo intermedio, el de los persas (…) precisa de un grande esfuerzo para comprender cuál ha sido la función, en algún modo, del Irán en la Antigüedad. Hoy, esta región cae fuera de los grandes caminos del mundo: sirvió en otro tiempo de lazo de unión entre el Extremo Oriente y el Occidente (…) ha sido una de esas encrucijadas de pueblos donde se encuentran las civilizaciones.1


1 Tradução livre: “Antes de continuar o estudo do mundo mediterrâneo, dos países e grupos nos quais coincidiram as condições particulares de progresso que destacamos, é necessário estender o nosso olhar às grandes massas de seres humanos que Roma deixou de fora, independentemente de seu império (…) esses povos do Extremo Oriente que, sem poder falar em isolamento, desenvolveram-se em relativa independência e só tardiamente se vincularam estreitamente sua história à do resto da humanidade. Mas, antes de tudo, devemos insistir em um povo intermediário, o dos persas (…) requer um grande esforço entender qual foi a função, de alguma forma, do Irã nos tempos antigos. Hoje, esta região quase fora das grandes estradas do mundo: outrora serviu de elo entre o Extremo Oriente e o Ocidente (…) foi uma daquelas encruzilhadas de povos onde as civilizações se encontram.”


Nessa perspectiva, desejamos trazer à baila o legado da cultura persa à civilização ocidental, notadamente, no que diz respeito ao multiculturalismo e o respeito ao “outro” que, em tempos tão remotos, já se manifestavam nas posturas geopolíticas da dinastia Aquemênida. Nesse sentido, podemos identificar, através da simbologia presente nos relevos do mural de Apadana, o ideário cosmopolita e multicultural dominante nas relações geopolíticas da dinastia Aquemênida com os povos subjugados que busca estabelecer uma relação de interação cultural materializada através da visitação ao rei.

Nosso marco temporal delimita-se entre os séculos VI e IV a.C., correspondendo ao período de ascensão e queda do império persa sob a tutela dos Aquemênidas no espaço que compreendia aos antigos limites territoriais desse imenso império do planalto iraniano.

Um mosaico de nacionalidades representadas nos relevos de Apadana

Como dito anteriormente, em seu auge, por volta do século V a.C., o Império Aquemênida governou praticamente metade da população mundial da época, o número mais alto de qualquer império na história, além de ter sido o primeiro estado-nação centralizado tornando-se o primeiro império global ao governar porções significativas do mundo antigo.


FIGURA 3: Império Aquemênida (Museum of People of Iran. http://www.peoplemuseum.ir/images/PEMassivesub3.jpg).


As escadas leste de Apadana em Persépolis mostram uma procissão de pessoas trazendo presentes em homenagem ao rei aquemênida. Os relevos foram feitos nos últimos anos do sexto século e primeiros anos do século V a.C., e provavelmente foram executados por artistas gregos. Podemos identificar o rei na cena central com Dario, o Grande (r. 522-486), mas o relevo também é uma idealização: o rei que recebe os presentes não é um indivíduo em particular, mas encarna o domínio persa.


FIGURA 4: Persépolis, Apadana, Escadas do Norte, Relevo Central. Cena de Proskynesis (Museu Nacional de Teerã. https://www.livius.org/pictures/iran/persepolis/persepolis-apadana/persepolis-apadana-north-stairs/persepolis-apadana-central-relief/proskynesis-relief/).


A iconografia denota a legitimidade do monarca persa aquemênida (possivelmente Dario, o Grande) a partir da prática de reverência pelos dignitários das nações subjugadas através do oferecimento de presentes/oferendas. Dario é representado como um monarca poderoso, mas também respeitoso para com os povos submetidos. O relevo abaixo consiste em três partes e é ladeado pela inscrição persa antiga conhecida como XPb:


FIGURA 5: Ruínas da antiga Persépolis, Irã. Relevo das nações trazendo homenagem, escada para Apadana (Alamy.com. https://www.alamy.com/stock-photo-iran-persepolis-the-eastern-stairway-of-the-apadana-shows-a-procession-136027403.html).


FIGURA 6: Persépolis, Apadana, escadaria Leste, parte Sul (Real History WW. http://realhistoryww.com/world_history/ancient/Misc/Elam/Apadana_layout/Apadana_layout_2.htm).


FIGURA 7: Escadaria em Apadana (Tehran Times. https://www.tehrantimes.com/news/421092/Apadana-Staircase-a-way-to-fabled-Persian-art).


Os relevos acima nos trazem representações de todos os tipos de dignitários persas, cavaleiros e carros e todas as nações do Império Persa, na seguinte disposição: Trácios, Sagartianos, Bactrianos, Egípcios, Arianos, Partas, Elamitas, Medos, Carians, Árabes, Sogdianos, Gandaranos, Sacaes, Sírios, Babilônios, Armênios, Núbios, Líbios, Hindus, Arachosianos, Gregos, Capadócios, Lídios.

A seguir, a identificação de alguns dos diversos povos presentes nos relevos dos murais de Apadana.


FIGURA 8: O Palácio Apadana, Século V a.C. Relevo aquemênida mostra um soldado medo e um soldado persa em Persépolis, Irã (Alamy.com. https://www.alamy.com/stock-photo-ancient-relief-of-the-achaemenids-medes-and-persians-apadana-palace-92765054.html).


FIGURA 9: Delegação da Capadócia (Oriental Institute, The University of Chicago. https://oi.uchicago.edu/gallery/apadana).


FIGURA 10: Delegação da Sagartia (Oriental Institute, The University of Chicago. https://oi.uchicago.edu/gallery/apadana).


FIGURA 11: Delegação da Bactria (Oriental Institute, The University of Chicago. https://oi.uchicago.edu/gallery/apadana).


FIGURA 12: Delegação da Babilônia (Oriental Institute, The University of Chicago. https://oi.uchicago.edu/gallery/apadana).


FIGURA 13: Delegação da Síria (Oriental Institute, The University of Chicago. https://oi.uchicago.edu/gallery/apadana).


FIGURA 14: Delegação Núbia/Etíope (Oriental Institute, The University of Chicago. https://oi.uchicago.edu/gallery/apadana).


FIGURA 15: Persépolis, Apadana, Escadaria Leste, Parte Sul, Núbios, circa 520 a.C.-485 a.C. (Marco Prins/CC0 1.0).


Nesse sentido, tomando as devidas precauções aos aspectos anacrônicos que comparações entre épocas e dinâmicas sociais tão distantes no tempo podem criar, seria válido nos questionarmos: poderíamos identificar a experiência de respeito aos costumes e a dignidade dos povos vencidos pelos aquemênidas como germe do que atualmente denominamos multiculturalismo? Em caso positivo, seria a experiência aquemênida a precursora na quebra do paradigma até então vigente no mundo antigo de supressão total dos direitos dos povos vencidos? Em que medida o multiculturalismo presente nas relações da dinastia aquemênida se aproximaria do que entendemos hoje por multiculturalismo?

Acreditamos que identificar atributos simbólicos nas imagens do mural de Apadana que coadunam com a hipótese da existência de um ideário multicultural, multiétnico e cosmopolita estimulado pelos dirigentes persas é essencial para que possamos estabelecer um debate historiográfico no qual percebemos a construção ideológica (bastante equivocada) feita pelo Ocidente na representação do Oriente.

Esse paradigma ideologicamente distorcido e eivado daquilo que Said chama de o “orientalismo” praticado pelos intelectuais e políticos ocidentais deve ser revisitado e superado. Afinal, não podemos nos esquecer que aquela que é considerada como a primeira declaração de direitos humanos na história da antiguidade foi expressa no edito do monarca aquemênida, muitas vezes identificado como “o libertador dos povos”: Ciro, o Grande.

É sobre essa grande figura histórica, cujo legado ecoa até hoje entre os iranianos, que falaremos no terceiro artigo desta série sobre o grande Império Persa.

LEIA A TERCEIRA PARTE DESTE ARTIGO.

Referências bibliográficas

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. História Geral das Civilizações: o Oriente e a Grécia Antiga. Volume 1. Rio de Janeiro: Bertrand, 1977.

ASHERI, David. O Estado Persa. Tradutor: Paulo Butti de Lima Coleção Debates. Editora Perspectiva, 2006.

AXWORTH, Michael. A History of Iran. Empire of the Mind. Basic Books, Nova York, 2008.

BEER, Henri. La Evolución de la Humanidad. Síntesis Colectiva. UTEHA, México, 1957.

COGGIOLA, Osvaldo. A Revolução Árabe e o Islã: Entre pan-arabismo, pan-islamismo e socialismo. São Paulo 2016.

CURTIS, J.; TALLIS, N. (eds.) (2005). Forgotten Empire, The World of Ancient Persia. London, The British Museum Press.

DELL’OLIO, F. Multiculturalismo, interculturalidades e rupturas: Uma análise epistemológica desses conceitos no encontro com o outro. Revista Desempenho, n. 28, v.1, 2018.

FOLTZ, Richard. Iran in World History. Nova York: Oxford University Press, 2016.

FUNARI, Pedro Paulo. Arqueologia. 3ª ed., São Paulo: Contexto, 2018.

HERÓDOTO. História. Tradução de J. Brito Broca; estudo crítico Vitor de Azevedo. 3ª ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019.

HOLLAND, Tom. Fogo Persa. Tradução de Luiz Antonio Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2008.

MOAWAD, Nadia; SHOURA, Sherine Mostafa El. (2017). Toward a richer definition of multiculturalism. International Journal of Advanced Research. 5. 802-806. 10.21474/IJAR01/4783.

MENESES SOUSA, P. Â. (2010). O debate persa em Heródoto. Teresina, Ed. UFPI.

MOURAEAU, Jean-Jaques. Grandes civilizações desaparecidas: A Pérsia dos grandes reis e de Zoroastro. Rio de Janeiro: Edições Ferni, 1978.

SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Tradução: Rosaura Eichenberg. 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

TEIXEIRA, Pedro, [Mir KHWAND e Turan SHAH] The History of Persia. Tradução do capitão John Stevens, feita em meados do século XVIII. PDF disponível no site da World Digital Library: https://www.wdl.org/en/item/2399/.

XENOFONTE. A educação de Ciro. Trad. Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 1985.

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3 comentários

  1. Estou adorando a série. É a primeira vez que leio um trabalho bem detalhado sobre os persas.

    Obrigado.

    1. Que bom que gostou! Realmente, a academia ; em especial a ocidental, não se dedica muito aos persas, mas aqui no Velho General, temos a oportunidade de mudar isso. Aguarde ” as cenas dos próximos capítulos “, esse povo trm muita história! Abraços!

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