O fim da ordem unipolar e o destino da Europa

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O presidente russo Vladimir Putin e o líder chinês Xi Jinping conversam durante uma partida amistosa de hóquei no gelo entre equipes juniores em Tianjin, China, em junho de 2018 (Sputnik/Kremlin via Reuters).

O presidente russo Vladimir Putin e o líder chinês Xi Jinping conversam durante uma partida amistosa de hóquei no gelo entre equipes juniores em Tianjin, China, em junho de 2018 (Sputnik/Kremlin via Reuters).

O modelo multipolar proposto pelo bloco euroasiático começa a ganhar força, e a União Europeia pode estar se encaminhando para uma encruzilhada histórica.


O foco geopolítico da Rússia é criar com a China uma nova potência asiática. Os preços do petróleo e gás têm sido fortemente descontados para outros destinos, dando-lhes uma vantagem econômica sobre os chamados “países hostis” à Rússia.

Os sauditas, por exemplo, reconhecem que seu futuro não é com europeus que – mesmo amplamente dependentes – odeiam combustíveis fósseis. Por isso, os árabes buscam cada vez mais uma aproximação com asiáticos, africanos e sul-americanos, especialmente o Brasil.

Uma nova página da história está sendo escrita, buscando limitar os caprichos unilaterais de uma polícia hegemônica. A ascensão pacífica da China e sua filosofia desenvolvimentista em contraste com uma ordem unilateral de violência, sabotagens e desenvolvimento desigual, leva o mundo árabe a apoiar o projeto da China que, por sua vez, tem na Rússia uma aliada inseparável.

Este novo cenário geopolítico já tem sido consolidado na realidade política. A Liga dos Estados Árabes (LAS) acaba de adotar uma resolução sobre as relações sino-árabes, prometendo apoio ao princípio de “Uma China” e buscando fortalecer a cooperação sob a Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI, Belt and Road Initiative). Além disso, a LAS declarou seu apreço pelos esforços diplomáticos da China em apoiar as causas árabes, como a questão da Palestina, e promover uma solução pacífica para crises regionais.

Enquanto isso, as potências ocidentais vivem hoje um declínio econômico de difícil reversão, o que tem sido visto como um obstáculo aos investimentos e que acaba por encorajar os governos do campo asiático a liquidar seus títulos e moedas do governo dos EUA, Reino Unido e União Europeia (UE).


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Com relação à UE, devemos lembrar que a economia da Alemanha já está à beira do colapso. Em se tratando da potência industrial da UE, uma Alemanha em declínio acentuado levanta todos os tipos de questões: o futuro dos bancos, o futuro do sistema de liquidação do euro (TARGET2) e o futuro do próprio euro.

Isso sugere que os movimentos da Rússia e da China devem levar à aceleração do declínio europeu, com uma posterior apresentação de soluções condicionadas à redução da influência dos EUA na Europa Ocidental.

Apenas como exemplo, a UE já critica abertamente os EUA pela elaboração de um projeto de lei para reduzir a inflação que, entre outros pontos, define que os consumidores podem ter isenção de impostos ao comprar automóveis produzidos no país ou nas regiões que têm acordos de livre comércio com os EUA. A crítica dos europeus diz que esse projeto de lei inclui conteúdos discriminatórios.

Para além da LAS, da União Africana e muitos países da América do Sul, se Pequim e Moscou conseguirem negociar o resgate europeu do sequestro energético imposto pela própria Rússia, dificilmente o atual modelo unipolar conseguirá ser mantido pelos EUA.

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7 comentários

  1. A UE provalmente vai colapsar. Os interesses de cada país estão cada vez mais a divergir ao invés de unir.
    Excelente artigo.

  2. O artigo apresenta interessantes possibilidades. A questão da moeda norte americana ser (ainda) a reserva internacional por excelência implica em poder nada desprezível, equivalente a vários Task Force da US Navy (senão a todos).

  3. EUA e Europa sempre se acharam seres superiores explorando e roubando as riquezas de países de terceiro mundo.

  4. O mundo aos pouco vem tendo uma mudança em como ver o sistema unipolar e o multipolar. Qual é o melhor para as nações. Já chegou o multipolar ismo. O império estadunidense vai ter de aceitar o novo modelo. Entretanto, o EUA por ser uma potência econômica e militar, faça algo para retroceder o multipolarismo, há qualquer custo.

  5. Chegamos à configuração 2 + x da balança de poder mundial, onde o “2” representa os EUA e a China. Essa configuração foi aventada como hipótese provável pelo Embaixador João Paulo Alsina Jr no seu livro “Política Externa e Poder Militar no Brasil”, publicado em 2009.

  6. A análise acertada do Wellington só mostra a agonia de uma ordem decadente, intervencionista e predatória. Parabéns Wellington!

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