A guerra na Ucrânia e os “superficiais”

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O atual presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, em cena da série “Servant of the People” (“Servo do Povo”), em cartaz em alguns serviços de streaming.

O atual presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, em cena da série “Servant of the People” (“Servo do Povo”), em cartaz em alguns serviços de streaming.

A ignorância é frequentemente a base das grandes certezas.


Os “superficiais”

A invasão levada a cabo pela Rússia ao território soberano da Ucrânia tem sido analisada e discutida publicamente em inúmeros fóruns e por todos aqueles que, mais ou menos informados nas televisões, redes sociais ou grupos mais restritos, dão sua opinião categórica sobre o conflito, suas origens, ou sobre como vai terminar. O debate e a discussão deste tema são sempre interessantes, especialmente entre pessoas informadas e não dogmáticas.

Quando se iniciou este conflito, arrisco dizer que a quase totalidade dos opinantes que atualmente despejam sua verborragia a respeito dele nunca tinha ouvido falar no Donbass, Luhansk, ou Donetsk, e a Ucrânia era, em seu imaginário, um país lá para os lados da Rússia, do qual ninguém fazia ideia de como era governado nem como apareceu em 1991, ano em que se tornou independente.

Esse desconhecimento sobre um dos lados do conflito foi-se atenuando por força das circunstâncias. Muitos de nós iniciamos um quase “curso intensivo” sobre a história daquele país que passou a nos ser mostrado como um modelo de virtudes e invadido agora por ordem de um considerado louco assassino, que estaria apenas dando vazão ao seu ímpeto imperialista. Outros, pouco ou nada se preocuparam em aprofundar o que quer que fosse sobre esse enorme e importante país europeu. Foram assimilando o que lhes era vendido pelos jornais e televisões, acreditando na narrativa oficial e sem contraditório público e publicado, o que, na perspectiva dos crentes, lhes dava um nível de conhecimento suficiente para argumentarem com qualquer historiador, estudioso, ou mesmo militares com experiência em cenários de guerra semelhantes.

Por sua falta de espírito crítico, recusa sistemática em aprofundar as questões, negação de toda e qualquer informação com origem diferente das fontes oficiais e pela sua simplicidade de argumentação, chamei a essas pessoas de “superficiais”. Um “superficial” pode, ainda simplificando, enquadrar-se em vários subgrupos conforme seu nível de superficialidade, podendo ser definido como “superficial primário” aquele cuja informação vem apenas do que ouve, até o “superficial esclarecido”, este já com preocupações de informação de outro tipo e de várias origens. Entre estes dois, existem outros patamares que me abstenho de mencionar aqui, deixando para o leitor fazer ou não esse exercício.

Devo dizer desde já que me considero em um patamar intermediário, portanto sujeito à crítica dos mais esclarecidos…

Vamos então ao tema.

Os “superficiais” e a guerra

Os “superficiais” rebatem qualquer tentativa de explicação das causas da guerra com a simplicidade de um ignorante ou a convicção de um crente: “Há um invasor e um invadido” ou “Putin é um ditador assassino e ele é a primeira e última causa da guerra”. Estes são os principais argumentos de rejeição de qualquer debate sobre as origens e a culpabilidade compartilhada da guerra.

Os “superficiais”, a exemplo do que aconteceu em outras guerras, a veem pelos olhos dos EUA/OTAN/UE e respectivas fontes oficiais. Quando confrontados com fatos históricos e realidades inquestionáveis, continuam a negar as evidências e a considerar análises lógicas como manipulações putinistas e tendenciosas.

Seguem alguns exemplos do pensamento superficial sobre a guerra da Ucrânia.

1. Para os “superficiais” a guerra só começou em 24 de fevereiro. Não procuram saber, ou negam, que desde 2014 a Ucrânia está em guerra contra os movimentos separatistas no Donbass, e que até 2021 morreram mais de 14 mil pessoas entre soldados, milícias separatistas e civis. Acreditam piamente que esta é uma guerra apenas entre russos e ucranianos, desvalorizando a determinante influência americana no golpe de 2014 que depôs o então presidente pró-russo e colocou à frente do novo regime quem os influencers dos Estados Unidos no terreno (Victoria Nuland e Geoffrey Pyatt) quiseram, através de eleições ou simplesmente com manobras de bastidores[1];

2. Apesar de todas as evidências e relatórios internacionais, os “superficiais” desvalorizam e até negam a influência nazista na vida política e social da Ucrânia; baseiam-se apenas nas informações filtradas de mão única da imprensa ocidental;

3. Os “superficiais” glorificam o comediante Zelensky e não querem saber nem ler sobre sua trajetória política e a corrupção desenfreada que alimenta, nem como está levando seu país à total destruição e seu povo à miséria e ao exílio. Porque só acreditam no que lhes enfiam goela abaixo na comunicação social que adotam, não acreditam que ele é tão bom ou pior que Putin e que é completamente manipulado pelos EUA;

4. Um bom “superficial” não passa um dia sequer sem proferir impropérios contra os russos e contra Putin, especialmente quando assiste às reportagens das TVs sobre os bombardeios e a mortandade provocada pelos russos. Para ele, os soldados ucranianos são impolutos, em especial os do Batalhão Azov, e põe as mãos no fogo pela sua seriedade e ética militar. Quando lhe são mostradas as evidências de iguais atrocidades cometidas pelo exército ucraniano, reage como sendo propaganda russa;

5. Por mais desmentidos e evidências da propaganda do governo ucraniano na divulgação de “massacres” e de bombardeios de alvos civis, escolas, hospitais, um “superficial” nunca reconhece que essa informação pode ser um veículo de propaganda e de mistificação tendenciosa da guerra. Não se consegue convencer um “superficial” de que os milhares de militares ucranianos, defensores em uma cidade, se acantonam em habitações civis ou instalações públicas e que, em uma guerra, o primeiro objetivo de qualquer dos beligerantes é atingir as tropas inimigas onde quer que estejam. Num local habitado, um alvo civil facilmente se torna um objetivo militar. Veja-se o que aconteceu em conflitos liderados pelo Ocidente, com muito maiores consequências de destruição;

6. Um “superficial” (mesmo que já mais esclarecido…) não sabe que existe um documento encomendado pelo governo dos EUA com o título Extending Russia: Competing from Advantageous Ground[2] que tem sido a “Bíblia” e a bandeira da estratégia americana no plano de enfraquecimento da Rússia, como consta no prefácio do documento: “… Com base em dados quantitativos e qualitativos de fontes ocidentais e russas, este relatório examina as vulnerabilidades e ansiedades econômicas, políticas e militares da Rússia. Em seguida, analisa as opções políticas potenciais para explorá-las – ideológica, econômica, geopolítica e militarmente (incluindo opções aéreas e espaciais, marítimas, terrestres e de vários domínios) …”. Este documento, a exemplo de outros também com origem na RAND Corporation (desde a guerra do Vietnã), foi elaborado em 2019, tem sido seguido à risca pela administração americana e esta guerra estava ali prevista;


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7. Mesmo o mais bem informado dos “superficiais” não aprofunda e nega as razões objetivas que levaram a que a Rússia se antecipasse à Ucrânia na escalada da guerra que já existia no Donbass desde 2014. Em um artigo do jornalista suíço Guy Mettan[3], com base em várias fontes mencionadas, é relatada a razão pela qual a Rússia decidiu avançar com a invasão. “Desde a declaração de Zelensky, em abril de 2021, sobre a possível recaptura da Crimeia à força, ucranianos e americanos decidiram desencadeá-la o mais tardar no início deste ano. A concentração das tropas ucranianas no Donbass desde o verão, as entregas maciças de armas pela OTAN durante muitos meses, o treinamento acelerado de combate dos regimentos Azov e do exército, a intensificação dos bombardeios de Donetsk e Luhansk pelos ucranianos, em particular entre 16 e 23 de fevereiro (tudo isso permaneceu ignorado pelos meios de comunicação ocidentais, claro), provam que uma grande operação militar estava planeada por Kiev para o final do inverno, sem dar tempo de reação aos russos, de modo a tomar o controle de todo o território ucraniano e tornar possível a rápida adesão do país à OTAN e à UE.” Documento da OSCE (Organization for Security and Co-operation in Europe) confirma que a Ucrânia, em apenas um dia (19 de fevereiro), tinha feito mais de 1.500 bombardeios nas regiões de Donetsk e Luhansk, o que representa quinze vezes mais do que a média diária dos últimos 30 dias[4];

8. Os “superficiais”, em seus comentários e nos apoios que manifestam, mostram, indiretamente, seu amor à guerra e ao seu prolongamento indeterminado, até às consequências que se recusam admitir ou prever. Interessante é que mesmo alguns mais bem informados seguem este padrão belicista, desvalorizando as consequências imprevisíveis para a humanidade que daí podem advir. Para eles, a guerra só deve terminar quando a Rússia estiver totalmente derrotada, se for preciso até ao último ucraniano. Como se o país com o maior poderio nuclear e bélico iniciasse esta agressão com alguma perspectiva de derrota ou de submissão aos interesses dos seus inimigos do Ocidente;

9. Os “superficiais” adoram e aplaudem a cada vez que são aprovadas sanções econômicas contra a Rússia. Em sua ignorância ou desprezo pela situação dos europeus mais desfavorecidos, o que inclui seu próprio destino, ignoram as repercussões que esses “pseudo-castigos” terão nas economias europeias, com os aumentos de preços e custo de vida e respectivas consequências políticas e sociais. A festa mal começou e já começamos a sentir que os mais castigados seremos nós;

10. Os “superficiais” esquecem que, logo no dia 3 de março, uma semana depois do início da invasão, a Rússia se dispôs a iniciar conversações e que o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que “Moscou exige que a Ucrânia acabe com a ação militar (iniciada em 2014), mude sua constituição para garantir neutralidade, que reconheça a Crimeia como território russo e as regiões separatistas de Donetsk e Luhansk como estados independentes”[5]. É claro que o comediante instigado pelos americanos rejeitou liminarmente qualquer negociação. Preferiu, como marionete dos EUA que é, levar seu país e seu povo para esta guerra cada vez mais difícil de terminar e da qual ninguém prevê o desfecho. Os “superficiais” também acreditam (?) no que ouvem dos comentaristas alinhados que não deixam de repetir que o objetivo dos russos é a ocupação e submissão total da Ucrânia. Como se comprova isso sempre foi falso, resultado da manipulação da propaganda americana;

11. Os “superficiais” são muito ativos nas redes sociais. É lá que apontam o dedo a quem procura explicações e tem algum pensamento crítico sobre o que se está acontecendo, recorrendo ao insulto fácil, classificando-os de putinistas, russófilos, traidores etc. Como superficiais que são, ainda não perceberam que a Rússia já não é comunista e utilizam esse pretenso insulto como provocação a quem ousa criticar as políticas belicistas dos EUA/OTAN/UE, ou a quem apela à realização de conversações de paz. É também nas redes sociais que participam ativamente com likes ou com comentários de alta aprovação em todos os posts que glorificam o comediante ou os “valentes” do batalhão Azov;

Os “superficiais” e o Donbass

O Donbass é uma importante região mineira e industrial da Ucrânia, marcada pelo curso do rio Donetsk, cuja bacia é atualmente a segunda região mais densamente povoada do país, com destaque para as cidades de Donetsk, Luhansk e Kharkov.

O que os “superficiais” não sabem, negam ou desvalorizam:

12. Os “superficiais” desvalorizam que em 2014 os russos ou seus descendentes eram, e ainda são, a grande maioria dos habitantes daquela região e que, pela discriminação que lhes foi imposta pelo governo de Petro Poroshenko, alçado ao poder depois do golpe do Maidan, se revoltaram e iniciaram uma guerra de guerrilha contra os ucranianos, a quem passaram a considerar ocupantes. Os “superficiais” desconhecem que os acordos de Minsk, que implicavam em um cessar fogo entre as partes, nunca foram cumpridos pela Ucrânia e não conhecem o que disse Poroshenko em seu discurso de 15 de maio de 2015, em Odessa, referindo-se a essa população russa[6]: “Nós teremos trabalho, eles não; teremos pensões, eles não; teremos apoio para as pessoas, crianças e pensionistas, eles não; nossas crianças irão às escolas e jardins-de-infância, as crianças deles irão para os abrigos.” Isso se verificou e agravou a revolta e a guerrilha. Alguns, que enchem a boca com o direito à autodeterminação dos povos, desvalorizam esta passagem da história e negam a legitimidade da população russa no Donbass em lutar pela sua independência. Muitos desses militam em partidos ditos de esquerda …;

13. Entre 2014 e 2021, os bombardeios do exército ucraniano às populações de Luhansk e Donetsk provocaram mais de 14 mil mortos (3.500 civis), mais de 1,4 milhões de deslocados e foram responsáveis por obrigar algumas dessas populações a passar grande parte das suas vidas em abrigos sem as condições de sobrevivência mais básicas. Essas situações estão bem documentadas por reportagens independentes de jornalistas ocidentais[7]. Apesar dessas evidências, os “superficiais” acham que a guerra teve início em 24 de fevereiro de 2022;

14. Os “superficiais” não conhecem a “Lei dos Povos Autóctones” que foi editada e promulgada por Zelensky em julho de 2021. A lei estipula que os povos originários da Ucrânia são as comunidades étnicas formadas no país, portadoras de uma língua e cultura distintas e que “não contam com uma formação estatal própria” no estrangeiro”[8]. Os russos (eslavos que representam cerca de 20 % da população da Ucrânia e mais concentrados no Donbass), não têm o direito de usufruir desta lei, sendo discriminados e não podendo continuar com o aprendizado da língua russa, entre outras situações ultrajantes para a sua existência como etnia própria. Zelensky, mais uma vez, mostra seu racismo e xenofobia em relação aos russos, situação que os “superficiais” simplesmente desconhecem ou fingem desconhecer.

Epílogo

Anteriormente publiquei aqui um artigo sobre os “novos inquisidores”[9]. Embora muitos fóruns, como as redes sociais, possam confundi-los, existem diferenças marcantes entre os “superficiais” e os “novos inquisidores”. Estes últimos manipulam e supervisionam a informação consumida pelos “superficiais” mais primários, crentes menos informados e seguidores sem contestação das políticas e estratégias daqueles que estão nos conduzindo ao abismo.

Ser ou não “superficial” será sempre um conceito relativo e todos seremos mais ou menos “superficiais” em qualquer tema que venha à discussão. Nunca ninguém terá o conhecimento absoluto sobre assuntos que tenham alguma complexidade ou interpretações múltiplas. Como eu disse no início, haverá sempre vários níveis de superficialidade. Cada um de nós que se autoavalie e se coloque no seu nível, conforme o tema que queira abordar.

Encerro com duas citações que acredito que se adaptam bem ao ambiente que vivemos atualmente:

“O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, mas sim a ilusão da verdade.” (Stephen Hawking)

“Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com pedras e paus.” (Albert Einstein)


Publicado originalmente no Mais Ribatejo.


Notas

[1] https://www.youtube.com/watch?v=L2XNN0Yt6D8

[2]https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/research_reports/RR3000/RR3063/RAND_RR3063.pdf

[3] https://www.afrique-54.com/2022/04/04/guerre-en-ukraine-la-suisse-capitule-la-soumission-europeenne-aux-americains-prend-de-lampleur/?fbclid=IwAR1VlBWjbYBqgopMgV4IqvZQbNoCmxKeODx1CuUa1dBILncUOOrrK2Uw1fg

[4] https://www.osce.org/files/2022-02-19%20Daily%20Report.pdf?itok=95901

[5] https://www.dn.pt/internacional/russia-apresenta-as-condicoes-para-parar-a-invasao-a-ucrania-14656801.html

[6] https://www.youtube.com/watch?v=fRso46iepho

[7] https://www.youtube.com/watch?v=b8j0tJsKltg&t=19s

[8] https://www.noticiasaominuto.com/mundo/1787034/ucrania-aprova-lei-sobre-povos-autoctones-que-exclui-russos

[9] https://velhogeneral.com.br/2022/09/02/a-guerra-na-ucrania-e-os-novos-inquisidores/

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1 comentário

  1. Um excelente artigo. Esclarecedor para a grande maioria que se informa apenas pela grande mídia, especialmente emissoras de televisão.

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