Ilusão da Conspiração: A praga do pensamento dos políticos – Parte 1

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Os líderes da Rússia, Vladimir Putin, do Irã, Ebrahim Raisi e da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. posam para foto antes de reunião no Palácio Saadabad, em Teerã, em 19 de julho (Sergei Savostyanov/Sputnik).

Os líderes da Rússia, Vladimir Putin, do Irã, Ebrahim Raisi e da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. posam para foto antes de reunião no Palácio Saadabad, em Teerã, em 19 de julho (Sergei Savostyanov/Sputnik).

Se os países do Golfo Pérsico não resolverem seus desentendimentos, estarão, consciente ou inconscientemente, jogando pelas regras de seus verdadeiros inimigos.


Existe uma famosa e envelhecida estratégia que preconiza: “dividir para reinar”. Embora quase todos já tenham ouvido falar dela, alguns países a utilizam com a ajuda de fantoches. Países de fora da região do Golfo Pérsico mantêm sua presença militar usando essa estratégia há vários anos; venderam armas, causaram guerras e perseguiram seus interesses. Os verdadeiros perdedores são os povos da região, que sofrem tanto perdas humanas quanto danos econômicos irreparáveis, e o futuro de suas nações é arruinado pela imigração para outros países. Uma das ferramentas usadas há anos por grandes potências na região é a iranofobia.

Iranofobia: espalhar ilusões ou tentar expor a realidade

Os seis países árabes ao longo do Golfo Pérsico, que juntos formam o Conselho de Cooperação do Golfo (Catar, Bahrein, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Omã e Arábia Saudita), formam um lado da costa do Golfo Pérsico e do mar de Omã, e o Irã sozinho compõe o lado oposto. Portanto, é compreensível porque as seis nações árabes, que têm muitas semelhanças étnico-culturais e religiosas, sempre consideraram o Irã como rival. Por outro lado, o Golfo Pérsico, o golfo energético do mundo que sozinho fornece 40% das necessidades energéticas mundiais, sempre foi foco dos principais países. Por isso, outras grandes potências usam esse espaço para controlar tarifas de energia, ganhar dinheiro com a venda de equipamentos e, finalmente, trocar alianças e inimizades de acordo com seus interesses. Alguns governantes de países da região jogaram, consciente ou inconscientemente, no terreno das grandes potências, e ao invés de resolver possíveis mal-entendidos, intervieram nos assuntos vizinhos e “jogaram gasolina” no fogo das disputas regionais.

O Irã, antes da revolução de 1979, com o apoio do Ocidente – principalmente dos Estados Unidos –, e à sombra de seus planos econômicos, alcançou um crescimento tal em economia e capacidade militar, em comparação com os países árabes, que chegou a ser chamado de “gendarmeria” da região.

Embora a revolução primeiro, e depois a guerra de oito anos com seu poderoso vizinho, o Iraque, tenham diminuído o poder do Irã por anos, o país conseguiu se tornar influente na região. Primeiro país da Ásia Ocidental a seguir a doutrina da profundidade estratégica, o Irã desempenhou um inegável papel em muitas mudanças na região.

Ao apoiar milícias e movimentos xiitas na região, conhecida como o Crescente Xiita do mundo, o Irã conseguiu mudar as equações políticas. Ajudou a impedir a queda do governo de Bashar al-Assad na Síria; se tornou o ator mais importante no cenário político do Iraque; ajudou no fortalecimento da posição do Hezbollah não apenas na arena política e militar do Líbano, mas mesmo de países vizinhos; desempenhou um papel efetivo na resistência dos houthis do Iêmen; e afetou inclusive a política interna do Afeganistão.

Além disso, o Irã se tornou uma das principais potências da Ásia Ocidental, alocando orçamentos significativos para suas atividades militares, no campo da indústria de mísseis – que tem um papel dissuasor –, e na indústria de drones, a nova abordagem das doutrinas militares de muitos países. Ao mesmo tempo, alcançou grande capacidade científica e tecnológica na indústria nuclear e, apesar da oposição de muitos vizinhos e mesmo da formação de um consenso global contra seus planos, seguiu adiante. O Irã, que sempre apresenta os objetivos de sua atividade nuclear como tendo fins pacíficos, deu continuidade a seu planejamento apesar de arcar com altos custos devido às sanções. Devemos lembrar que, de acordo com o ex-secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo, no think tank Heritage, as sanções contra o Irã são as mais duras da história. Mesmo que consideremos as recentes sanções contra a Rússia ainda mais duras, a gravidade das restrições contra o Irã ainda não diminui.


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O fato é que, embora os movimentos apoiados por Teerã estejam envolvidos em atividades políticas e às vezes militares em muitos países vizinhos, o Irã não atacou nenhuma nação nas últimas cinco décadas e não usou sua força militar para apoiar diretamente nenhum movimento. Sem dúvida, resolver desentendimentos entre os países árabes e o Irã, além de ser o desejo das nações da região, atende a inúmeros interesses nacionais e regionais dos povos locais. Basta que todos os países do Oriente Médio prestem atenção a dois princípios:

  • Diálogo próximo para resolver problemas; e
  • Não ingerência em assuntos dos vizinhos, respeito pelo direito natural e vontade de cada povo na administração de seu país.

Não se deve esquecer que a ideia de inimizade entre os dois lados do Golfo Pérsico, ou seja, entre árabes e iranianos, também tem seus próprios adeptos – aqueles cujos interesses são garantidos pela guerra e inimizade e perseguem, de forma consciente ou não, os objetivos políticos de países extrarregionais.

Vácuo de poder no Oriente Médio, a nova palavra-chave

Michael Hirsch, um conhecido analista político, acredita que, com a saída dos Estados Unidos do Afeganistão, o Irã está em vantagem no Oriente Médio. Segundo ele e alguns analistas ocidentais, o objetivo do Irã, um país poderoso à beira de se tornar nuclear, pode ser melhorar seu armamento nuclear – contrariando as frequentes alegações de seus dirigentes. Analistas de política externa tem afirmado que o Irã, com sua forte presença, quer preencher o vácuo de poder criado no Oriente Médio com a retirada dos EUA do Afeganistão. “Vácuo de poder” é o termo que vem sendo usado por alguns políticos para intensificar a fobia ao Irã. Eles também usam essa palavra-chave para justificar a presença de países extrarregionais na região. O presidente americano, Joe Biden, também a usou durante sua recente viagem à Arábia Saudita, quando afirmou que “A América não está indo a lugar algum”. Biden diz que os EUA não deixarão um vácuo de poder na região que beneficiaria Rússia, China e Irã.

Não é improvável que desde a última terça-feira, quando os presidentes da Rússia e da Turquia foram a Teerã e realizaram uma importante reunião tripartite, única em seu gênero, alguns a considerem como um sinal de cooperação entre o Irã e a Rússia, e até a Turquia, para preencher o vácuo de poder no Oriente Médio.

As aparências também podem indicar que a reunião persegue esse objetivo. Mas se prestarmos mais atenção ao encontro, veremos que:

  • Esses três países têm sido os atores mais importantes no cenário político sírio e essa é sua maior semelhança;
  • O ministro das Relações Exteriores da Síria também foi a Teerã no mesmo período da reunião, e isso não é uma coincidência acidental;
  • A questão síria foi mais discutida do que qualquer outra; e
  • O Irã criticou a presença militar da Turquia na Síria.

Portanto, os grandes países perseguem seus interesses na região com base na estratégia de dividir para conquistar. Então, se os desentendimentos entre os países da região não forem resolvidos e os governos não aderirem aos princípios do diálogo e da não intervenção, estarão, consciente ou inconscientemente, jogando pelas regras de seus verdadeiros inimigos. Farão um jogo ruim e destruirão os interesses de suas nações. Os países extrarregionais também atingem seus interesses vendendo armas, comprando energia barata sob sanções e concorrência desleal, desenvolvendo sua presença militar e, finalmente, impondo custos às nações que supostamente são apoiadas por eles.

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