Putin e uma estranha decisão

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O presidente da Rússia, Vladimir Putin (Mikhail Klimentyev/Sputnik/AFP).

O presidente da Rússia, Vladimir Putin (Mikhail Klimentyev/Sputnik/AFP).

Quase desde que o exército russo entrou na Ucrânia, um porta-voz do Ministério da Defesa da Rússia relata diariamente as ações e o progresso das forças armadas russas. Há vários dias, não há relatos de progresso. A avaliação das informações do campo de batalha mostra que o avanço terrestre russo está parado e provavelmente deverá abandonar a ideia de uma ocupação completa da Ucrânia e derrubada do governo. Pouco a pouco, é hora de nos perguntarmos por que Putin entrou nessa crise.


Embora a história contemporânea mostre que nenhuma guerra tem vencedor, as guerras geralmente trazem benefícios para alguns países. É verdade que o resultado direto das guerras é a destruição de cidades, a matança de inocentes e o não retorno de homens e pais vestidos com roupas de batalha, mas os que inflam de longe o fogo da guerra assam seus pães em forno quente e obtém benefícios. Na verdade, somente as partes em conflito nunca ganham ou lucram com a guerra.

A guerra da Ucrânia não é uma exceção. Não demorou muito para que os russos falassem com otimismo sobre o fim da guerra, ou sobre o julgamento e talvez execução de Zelensky. Os eventos subsequentes, no entanto, como alguns analistas previram, mostraram que o conflito não estava se encaminhando na direção que a Rússia havia previsto. Não importa que combatentes chechenos tenham vindo em auxílio do exército russo ou se outros países e grupos militares amigos da Rússia foram enviados ao campo de batalha. A máquina militar russa ficou presa no atoleiro ucraniano e em um mês sofreu as perdas de mais de uma década de guerra na Chechênia.

Uma guerra prolongada para a Rússia, muito atingida por sanções, causa sérios danos e estima-se que custe cerca de US$ 20 bilhões por dia. Isso se somará aos custos que a Rússia pode vir a sofrer mais tarde devido à destruição de cidades ucranianas. Uma avaliação superficial revela que as perdas russas podem ser de trilhões de dólares e seguem crescendo. Embora a Rússia tenha conquistado quase 70% do território das autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Luhansk com a ajuda de insurgentes locais, de acordo com Oleksiy Aristovich, assessor do chefe de gabinete do presidente ucraniano, se a Rússia retirar suas forças de Kiev, Kharkov, Sumy e Chernihiv, poderá ser capaz de manter pelo menos esta conquista desta grande guerra do milênio atual.

As consequências globais da guerra na Ucrânia

Além da Ucrânia, que sofre diretamente com a devastação da guerra, e da Rússia, que sofre danos econômicos irreparáveis, os povos do mundo também sofrem com o conflito devido ao aumento dos preços da energia.

Os exportadores de energia, especialmente GNL, e os fabricantes de armas, estão entre os poucos beneficiários da guerra. Deste ponto de vista, podemos observar enormes lucros para os Estados Unidos (tanto nas vendas de armas quanto no aumento das vendas de GNL para a Europa), receitas consideráveis ​​que compensam a ajuda bilionária dos EUA à Ucrânia. Embora esse número não seja grande em comparação aos gastos de um trilhão de dólares no Afeganistão, esta não obteve renda direta.

Por outro lado, a guerra ocorre entre os maiores exportadores de trigo do mundo, afeta o preço desse bem estratégico, as perdas se transferem para os importadores e resultarão em benefícios para outros fornecedores.

Além disso, a guerra tem outras consequências.

Quebra da dignidade da Europa

A União Europeia tem 26 membros além da Ucrânia, que poderá vir a ser aceita. É uma união que inclui diversas potências, como Alemanha, França, Itália, Espanha etc., e reivindica uma Europa forte, unida e coesa. A UE é hoje um símbolo da Comunidade Europeia dos anos 1990, que o Ministro das Relações Exteriores belga, Mark Eyskens, na sequência da ocupação do Kuwait pelo Iraque, descreveu como “um gigante econômico, um anão político e um verme militar”.

Esta guerra mostrou que não apenas a União Europeia, mas toda a Europa, é um anão político que se autoproclamou grande potência e tentou esconder-se atrás de sua outra face durante muitos anos. A guerra na Ucrânia mostrou que a UE sozinha é incapaz de lidar com crises. É claro que, neste conflito, a Grã-Bretanha, que deixou a União Europeia, tem uma história diferente e conseguiu manter alguma credibilidade.


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Perdas irreparáveis para a Rússia

1) Destruição fundamental das capacidades da Rússia: Se algo pudesse acontecer no mundo que enfraquecesse a segunda superpotência do mundo e a devolvesse a décadas atrás, nada poderia ter feito isso melhor do que a guerra da Ucrânia. Trilhões de dólares em danos materiais, juntamente com dezenas de milhares de vítimas, foram até agora apenas alguns dos danos à Rússia.

2) Declínio da credibilidade da Rússia: Esta guerra, ao contrário do que a mídia estatal russa mostra, prejudicou a credibilidade e popularidade do governo russo na opinião pública daquele país. Além disso, quase todos os países do mundo participaram ativamente das duas resoluções adotadas nas Nações Unidas contra a Rússia. Uma olhada nas estatísticas divulgadas pela ONU mostra que dos cerca de 180 países que participaram das duas votações, apenas quatro, exceto a Rússia, discordaram das resoluções, mostrando um consenso global. Mesmo aliados proeminentes da Rússia, como China, Irã, Cuba, Cazaquistão, Armênia e Quirguistão, não se opuseram às resoluções e se abstiveram.

3) Afastamento da doutrina de profundidade estratégica: a Rússia, que foi acusada de se intrometer na eleição anterior dos EUA, está agora em uma situação em que o presidente dos EUA discursa sobre remover Putin e o senador norte-americano Lindsey Graham fala sobre o assassinato de Putin.

4) Russofobia e expansão da OTAN: A OTAN, que ficou conhecida como um tratado contra a expansão da influência russa, tem sido notada pela adesão de países preocupados com sua segurança futura. Embora uma das razões para a invasão da Ucrânia pela Rússia tenha sido a tentativa da Ucrânia de aderir à OTAN, esta guerra não só não vai parar o processo, mas também encorajou outros países a aderir à aliança. Mostra o quanto as ameaças da Rússia foram desvanecidas contra a adesão à OTAN por seus países vizinhos.

5) Presença dos chechenos na guerra e prováveis ​​consequências para a Rússia: Ramzan Kadyrov, atual presidente da República Autônoma da Chechênia da Federação Russa, com sua presença e envio de combatentes chechenos para a Ucrânia, apoiou oficial e seriamente a Rússia nesta guerra. Este acompanhamento, que agrada à Rússia neste momento, pode causar problemas no futuro. Os chechenos são um povo corajoso que lutou por sua independência por quase duzentos anos. A primeira consequência esperada de sua presença são suas possíveis demandas futuras para a Rússia. Mais importante, no entanto, esses chechenos não são como aqueles que foram para a Síria e Iraque na esperança de formar um estado islâmico, formaram o maior percentual entre as nacionalidades do ISIS e nunca voltaram para casa após a derrota.

Aumento do orçamento militar dos países europeus

A guerra na Ucrânia forçou os países europeus a considerar o aumento de seus orçamentos militares. Isso tanto pressiona a economia quanto aumenta sua dependência dos fabricantes de armas modernas. Essa mudança significa que a força econômica da União Europeia está enfraquecendo na competição com os Estados Unidos. Além do aumento dos gastos de defesa, a nova situação pode levar a disputas e tensões fronteiriças entre as potências europeias.

O aumento acentuado e imediato dos gastos de defesa de países europeus como França, Espanha, Itália etc. e, principalmente, a Alemanha, tem colocado grande pressão nas economias desses países, e pode despertar ambições dos governos uns contra os outros nos próximos anos. Essa consequência inesperada poderá confrontar a Europa com o desafio de uma guerra civil que, embora possa ser ostensivamente favorável para a Rússia e seus interesses estratégicos na Europa e no mundo, na verdade terá maior benefício para os Estados Unidos.

A posição da China

A China, que, de acordo com Jake Sullivan, conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos do presidente Joe Biden, estava ciente dos planos de Putin muito antes da invasão da Ucrânia, tem um importante papel nessa nova situação. Maior parceiro econômico da Rússia, respondendo por cerca de 14% das exportações russas e 19% de suas importações, tem agora uma grande oportunidade de comércio de energia com a Rússia.

A China está apenas observando os desenvolvimentos e quase não arcando com nenhum custo por seu aliado. Claro, é compreensível que a China não desgaste suas relações com o Ocidente, especialmente os Estados Unidos, com mais de US$ 600 bilhões em comércio anual, para apoiar a Rússia. Assim, o silêncio de Pequim sobre a atual crise na Ucrânia mostra que Xi Jinping está buscando seriamente os interesses de seu próprio país. Esta guerra pode trazer ainda alguns benefícios inesperados para a China: a possibilidade de explorar o espaço para avançar seus objetivos na questão de Taiwan e na disputa das Ilhas Curilas com o Japão.

Essa rápida olhada nas consequências globais desta guerra mostra que os Estados Unidos podem obter vantagens, então os formuladores da política russa podem precisar pensar nas crescentes desvantagens da guerra o mais rápido possível. Pode ser necessário que Putin decifre todos os fatores reais desse ato injustificável, que trouxe inúmeros benefícios para os Estados Unidos, defendendo e revelando se há luz verde ou possíveis promessas sedutoras nos bastidores. De qualquer forma, o mundo pode se mover em direção à unipolaridade enquanto a guerra na Ucrânia continua.

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2 comentários

  1. Nos bastidores da crise na Ucrânia são os Estados Unidos que ganham mais benefícios. Você está certo

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