“De Oppresso Liber”: a primeira missão no Afeganistão

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Capa

O capitão Mark Nutsch liderou o ODA 595 do 5º Grupo de Forças Especiais (The Military Times/Mark Nutsch).

A ponta de lança da resposta dos EUA aos ataques de 11 de setembro de 2001 foi a mais famosa unidade das Forças Especiais do Exército americano, os Boinas Verdes, no apoio à Aliança do Norte em uma campanha que culminou com a derrota do Talibã e a tomada da cidade de Mazar-i Sharif, no Afeganistão.


Em 11 de setembro de 2001 ocorreram os ataques terroristas da Al-Qaeda de Osama bin Laden contra o World Trade Center, em Nova York; o Pentágono, em Washington; e na Pensilvânia, onde caiu um Boeing 757 da United Airlines derrubado num embate entre os sequestradores e os passageiros.

Na sequência de acontecimentos o então presidente americano, George W. Bush, autorizou o envio de forças especiais ao Afeganistão com a missão de assessorar e apoiar os comandantes da chamada Aliança do Norte na luta contra o Talibã. Além disso, outro objetivo dessas forças era capturar um aeródromo para que os EUA pudessem trazer suprimentos e mais tropas.

O grupo, a Task Force Dagger (“Força-Tarefa Adaga”), foi formado por duas equipes do 5th Special Forces Group (5º Grupo de Forças Especiais), ODA 555 e ODA 595 (Operational Detachment Alpha, Destacamento Operacional Alfa). Cada equipe era composta por doze Boinas Verdes e dois operadores da US Air Force Combat Control Team (Equipe de Controladores de Combate da USAF). A infiltração foi feita pelo 160th Special Operations Aviation Regiment (160º Regimento de Aviação de Operações Especiais), os Nightstalkers.

No Afeganistão, eles se juntariam à Aliança do Norte liderada pelo general uzbeque Abdul Rashid Dostum. Partindo da Base Aérea Karshi-Khanabad (anteriormente uma base aérea soviética), no Uzbequistão, voaram por mais de trezentos quilômetros através das montanhas Hindukush a 4.900 m de altitude e condições de baixíssima visibilidade em dois helicópteros MH-47E Chinook, escoltados por dois MH-60L Black Hawk. Foram lançados às 02h00 de 19 de outubro de 2001 a cerca de 80 quilômetros de Mazar-i Sharif, no vale Dari-a-Souf.

Cavalos, o melhor meio de transporte

Ao chegar, descobriram que o único meio de transporte adequado ao difícil terreno montanhoso do norte do Afeganistão eram os pequenos cavalos afegãos, garanhões que tendiam a lutar entre si mesmo quando os soldados estavam montados. O único que tinha alguma experiência com cavalos era o capitão Mark Nutsch, comandante da ODA-595, que tinha crescido em uma fazenda.


Equipe ODA 595 com guerreiros afegãos em 9 de novembro, um dia antes da liberação de Mazar-i Sharif (The Military Times/Mark Nutsch).

Os afegãos usavam pequenas e duras selas de madeira; após um curto período muito dolorido, os americanos conseguiram substituí-las por selas australianas, mais leves, lançadas por paraquedas em meados de novembro. A título de curiosidade, a última unidade do exército americano a lutar a cavalo foi o 26º Regimento de Cavalaria, em janeiro de 1942, quando o tenente Edwin P. Ramsey ordenou uma carga de cavalaria contra as forças japonesas em Morong, nas Filipinas; e a última tropa americana a receber treinamento com cavalos foi o 28º Regimento de Cavalaria em 1943.

Ataques ao Talibã

Em 21 de outubro o general Dostum preparou-se para atacar a vila fortificada de Bishqab, defendida pelo Talibã. Os homens de Dostum estavam equipados com fuzis AK-47, metralhadoras leves e lançadores RPG. Suas forças totalizavam cerca de 1.500 cavaleiros e 1.500 tropas de infantaria leve. Seriam apoiados pelas equipes de forças especiais dos EUA e por ataques aéreos americanos.

Bishqab era defendida por tanques T-54/55, veículos blindados BMP armados com canhões e metralhadoras e várias peças de artilharia antiaérea ZSU-23 que eles usavam como canhões, além de morteiros, metralhadoras, RPG e minas. Boa parte desse equipamento tinha sido abandonado pelos soviéticos quando deixaram o Afeganistão no final dos anos 1980.


Master Sargent Bart Decker, controlador de combate da USAF, cavalga no Afeganistão. Esta foto inspirou a estátua erigida em Nova York (Master Sargent Christopher C. Spence, 5th Special Forces Group).

Para chegar ao inimigo, as forças de Dostum deveriam cruzar uma área aberta de 1,6 km de largura através de sete colinas, cada uma com 15 a 30 m de altura e espaçadas em cerca de 180 m, portanto totalmente expostas ao fogo inimigo.

Apoiados pela USAF empregando PGM (Precision Guided Munitions, Munições Guiadas de Precisão), em 18 horas eles destruíram mais de 20 blindados e 20 veículos de apoio. Muitos talibãs depuseram armas e fugiram ou fizeram um pacto com Dostum para unir forças.

A Carga da Brigada Ligeira

Para os operadores americanos, a situação parecia uma mistura da Carga da Brigada Ligeira (Guerra da Criméia, 1854), com a Carga de Pickett na Batalha de Gettysburg e a Batalha de Fredericksburg (ambas na Guerra Civil Americana).

Num determinado momento, eles ouviram um rugido alto; não identificaram o que era, até que viram entre quinhentos e mil soldados da Aliança do Norte avançando a cavalo. O master-sargent Bart Decker, controlador de combate da equipe de operações especiais da USAF, relatou: “Isso era inacreditável em 2001. Olhamos uns para os outros e dissemos: estamos testemunhando uma carga de cavalaria!”.

O capitão Nutsch, que durante sua carreira militar trabalhou com diversos grupos étnicos, relatou que os afegãos eram guerreiros extremamente corajosos. Ele diz que testemunhou várias ocasiões em que eles passaram pelo seu flanco para atacar veículos blindados ou armas de defesa aérea, matando as tripulações e capturando a arma para seu próprio uso.

Ataques aéreos

Uma das principais funções das equipes, com apoio dos operadores do Comando de Operações Especiais da USAF, era requisitar e direcionar ataques aéreos. As forças armadas americanas vinham bombardeando o Talibã há algumas semanas, mas em uma terra de cavernas, montanhas e pequenas aldeias, era muito difícil distinguir os alvos.

Portanto, as equipes identificavam alvos inimigos e coordenavam os ataques aéreos. Eles também solicitavam e guiavam lançamentos de suprimentos. “O foco dos operadores da USAF era fazer essa interface ar-terra”, disse o chief-master-sargent Calvin Markham. Ele observou que essa foi a primeira vez que os B-52 foram usados para apoio aéreo desde a Guerra do Vietnã.


LIVRO RECOMENDADO

12 Heróis

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Ataques subsequentes

Quando a Aliança do Norte atacou Cobaki, a 121 km ao sul de Mazar-i Sharif, os americanos usaram Designadores de Alvo Laser SOFLAM (Special Operations Forces Laser Acquisition Marker, Marcador de Aquisição de Alvos a Laser das Forças de Operações Especiais) para identificar os alvos para os ataques aéreos. Na sequência desses ataques, Dostum lançou uma carga de cavalaria. Membros da ODA 595 ajudaram na batalha.

Nas duas primeiras semanas, a ODA 595 foi complementada por outros dois homens das forças especiais, elevando seu número para quatorze. Eles se dividiram em quatro equipes de três homens e se espalharam por mais de 60 km, em alguns casos com 12 a 18 horas de distância a cavalo uma da outra. Cada equipe assessorava um comandante da Aliança do Norte, coordenando ataques aéreos e reabastecimento das forças.

Em 2 de novembro, uma terceira equipe, a ODA 534, foi inserida para apoiar o general Atta Mohammad, da Aliança do Norte. Posteriormente ela se juntou às ODA 595 e 555 e ao general Dostum nos arredores de Mazar-i Sharif.

Por volta de 6 de novembro, a Aliança do Norte rompeu as defesas do Talibã no distrito de Darah Sof, na província de Samangan, a 200 km de Mazar-i Sharif. As três equipes participaram da captura e guiaram centenas de munições JDAM de duas mil libras lançadas por B-1B e B-52 contra as posições do Talibã. Em 10 de novembro, Mazar-i Sharif foi liberada.

“Basicamente, nós misturamos táticas do século XIX com armas do século XX e tecnologia do século XXI na forma de GPS, comunicações via satélite e poderio aéreo”, destacou Nutsch. Mesmo assim, apesar de todo o equipamento de alta tecnologia levado ao teatro de operações, os leves e confiáveis garanhões do Afeganistão foram essenciais para o sucesso da missão, e devido a eles esses homens ficaram conhecidos como Horse Soldiers (“Soldados a Cavalo”).

Estátua em Nova York


“De Oppresso Liber”, obra do escultor Douwe Blumberg (Douwe Blumberg/CC-BY-SA-30).

Em homenagem às primeiras equipes que atuaram no pós-11 de setembro, foi erigida uma estátua de bronze próxima ao Marco Zero, em Nova York. A estátua, chamada “De Oppresso Liber” (“Para Libertar os Oprimidos”, o lema das forças especiais do exército americano), mostra um soldado das forças especiais a cavalo. Ela é popularmente conhecida como Horse Soldier.

Após ver uma foto da ODA 595 cavalgando mostrada pelo então Secretário de Defesa americano, Donald Rumsfeld, em uma entrevista coletiva em novembro de 2001, o escultor Douwe Blumberg decidiu fazer a escultura. O trabalho foi custeado por membros de empresas financeiras de Wall Street.

Livro e filme

Essa história deu origem ao livro Horse Soldiers (em português 12 Heróis), de Doug Stanton, publicado em maio de 2009. O livro, por sua vez, serviu de base para o filme 12 Strong (12 Heróis, na versão em português). No filme, o personagem Mitch Nelson é inspirado no capitão Mark Nutsch.

Referências

COLLINS, Elizabeth M. “First to go: Green Berets remember earliest mission in Afghanistan”. US Army, 30 de janeiro de 2017. Disponível em: https://www.army.mil/article/181582/first_to_go_green_berets_remember_earliest_mission_in_afghanistan.

Wikipedia, “America’s Response Monument”, atualização de 25 de setembro de 2019. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/America%27s_Response_Monument.

CORRELL, Diana Stancy. “How the ‘Horse Soldiers’ helped liberate Afghanistan from the Taliban 18 years ago”. The Military Times, 18 de outubro de 2019. Disponível em https://www.militarytimes.com/news/your-military/2019/10/18/how-the-horse-soldiers-helped-liberate-afghanistan-from-the-taliban-18-years-ago/.

ERICKSON, Briana. “In Las Vegas, Afghanistan vets recall time as Horse Soldiers”. Las Vegas Review Journal, 11 de setembro de 2019. Disponível em: https://www.reviewjournal.com/news/military/in-las-vegas-afghanistan-vets-recall-time-as-horse-soldiers-1845768/.

O’SULLIVAN, Michael. “‘12 Strong’: Formulaic war movie tells the true story of American ‘horse soldiers’ of Afghanistan”. The Washington Post, 18 de janeiro de 2018. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/goingoutguide/movies/12-strong-formulaic-war-movie-tells-the-true-story-of-american-horse-soldiers-of-afghanistan/2018/01/17/4607d59a-f6f8-11e7-a9e3-ab18ce41436a_story.html.

QUADE, Alex. “Monument honors U.S. ‘horse soldiers’ who invaded Afghanistan”. CNN.com, 7 de outubro de 2011. Disponível em: https://edition.cnn.com/2011/10/06/us/afghanistan-horse-soldiers-memorial/index.html.

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7 comentários

  1. Mais um excelente artigo! Mostra que nem sempre a tecnologia supera a coragem e determinação! Como cavalariano sou suspeito em falar sobre nosso nobre amigo, o cavalo! Embora tenha sido “doutrinado” no emprego do “Cavalo de Aço”, o espírito continua! Carga! Aço!

  2. Ótimo texto.

    Fui eu que sugeri esse livro da Osprey, ninguém mais falava nisso.

    Outros livros excelentes são “A história secreta das forças especiais”, do Éric Denécé, e “Spec Ops: Special Operations Warfare: Theory and Practice”, do William H. McRaven.

  3. Já ia me esquecendo, o Leigh Neville publicou vários outros livros sobre OpEsp, com livros específicos sobre as SOF no Afeganistão e no Iraque, e um livro sobre os veículos modificados pelas SOF nessas duas guerras.

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