Perfil: Kassym-Jomart Tokayev, presidente do Cazaquistão

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O presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev (AFP).

O presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev (AFP).

Com ampla experiência diplomática e governamental, Kassym-Jomart Tokayev representava a continuidade do regime autoritário de Nursultan Nazarbayev, mas desde maio de 2020 há rumores que poderiam indicar uma possível ruptura.


Em 19 de março de 2019, após 30 anos de poder (desde antes da independência em 1991), o presidente da República do Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev, renunciou voluntariamente ao cargo e deu lugar a um de seus funcionários de maior confiança, Kassym-Jomart Tokayev, então Presidente do Senado.

Alto funcionário com ampla experiência diplomática e governamental, tendo sido primeiro-ministro, ministro das Relações Exteriores e diretor-geral da sede da ONU em Genebra, Tokayev representava a continuidade do regime autoritário de Nazarbayev.

Ascenção na era Nazarbayev

Tokayev nasceu em Almaty, então chamada de Alma-Ata e capital da República Socialista Soviética do Cazaquistão, em maio de 1953, logo após o falecimento de Stalin. Seu pai, Kemel Tokayev, veterano da Segunda Guerra Mundial, adquiriu fama local como escritor de romances, e sua mãe, Turar Shabarbayeva, trabalhava no Instituto de Línguas Estrangeiras de Alma-Ata. Ambos eram membros do Partido Comunista do Cazaquistão (PCK) e do Partido Comunista da União Soviética (PCUS).

O jovem Tokayev estudou no Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou, instituição acadêmica soviética dedicada à formação de quadros do Ministério das Relações Exteriores, e depois de se formar, em 1975, sua primeira missão diplomática foi em Singapura. Em 1979 ele voltou a Moscou para servir como funcionário do ministério e, em 1985, foi trabalhar na Embaixada soviética em Pequim, onde ocupou os cargos de conselheiro, segundo secretário e primeiro secretário.

Com a queda da URSS em 1991, Tokayev voltou ao Cazaquistão para trabalhar no Executivo comandado por Nursultan Nazarbayev, anteriormente primeiro secretário do PCK e, desde 1990, presidente da República do Cazaquistão.

Em 1992, depois de um curso na Academia Diplomática do Ministério das Relações Exteriores da Federação Russa em Moscou, Tokayev foi nomeado Vice-Ministro das Relações Exteriores do Cazaquistão. Em 1993 foi promovido a Primeiro Vice-Ministro e em 1994 tornou-se chefe do ministério, cargo que ocupou por cinco anos. Como encarregado da diplomacia cazaque, teve um papel importante na desnuclearização do país que, com a Rússia, a Ucrânia e a Bielorrússia, herdou grande parte do antigo arsenal nuclear soviético. O processo de desarmamento foi iniciado em 1992 por Nazarbayev em coordenação com a Rússia e com os Estados Unidos no âmbito do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP).

Em março de 1999, Nazarbayev nomeou Tokayev como vice-primeiro-ministro. Sete meses depois, o presidente lhe confiou o cargo de primeiro-ministro. Em 28 de janeiro de 2002, Tokayev renunciou inesperadamente, e Nazarbayev nomeou Imangali Tasmagambetov como novo primeiro-ministro, mas manteve Tokayev como ministro das Relações Exteriores e secretário de Estado.


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Seu segundo mandato como chefe do Ministério das Relações Exteriores durou cinco anos. Em janeiro de 2007, foi empossado presidente do Senado, a câmara alta, com 47 membros sem filiação partidária, mas leais ao governo (eleitos indiretamente ou nomeados pelo presidente). A câmara baixa, (Assembleia, ou Mazhilis), com eleição direta, foi dominada pelo partido hegemônico do regime, o Nur Otan (“Pátria Radiante”, em tradução literal), lançado em setembro de 2006 a partir da fusão de várias formações pró-governo e do qual Tokayev era membro e líder. Depois da chegada de Tokayev ao Senado, em agosto de 2007, o Nur Otan recebeu quase 90% dos votos nas eleições legislativas e conquistou todos os 98 assentos do Mazhilis.

Em 15 de abril de 2011, Nazarbayev foi reeleito com 95% dos votos para um quarto mandato presidencial (pela reforma de 2007 ele poderia seguir por quantos mandatos quisesse), e nomeou Tokayev como diretor geral do Escritório das Nações Unidas em Genebra (UNOG), um alto cargo que acumula outras funções de destaque, como a Secretaria Geral da Conferência das Nações Unidas sobre o Desarmamento. Tokayev tinha a confiança de Nazarbayev e se identificava plenamente com o regime. Ele resumia sua visão do sistema cazaque como “um presidente forte, um parlamento com autoridade, um governo responsável”.

Sucessão presidencial

Em 16 de outubro de 2013, Tokayev renunciou à Diretoria Geral do UNOG e retomou a presidência do Senado do Cazaquistão. Em 19 de março de 2019 Nazarbayev anunciou sua renúncia. A constituição cazaque estabelece que, em caso de renúncia, o presidente do Senado deve assumir a chefia do Estado pelo restante do mandato. Tokayev, aos 65 anos, tornou-se presidente em exercício em um mandato que se encerraria em 2020.

No discurso de despedida, Nazarbayev disse que “Minha tarefa agora é facilitar o surgimento de uma nova geração de líderes que deem continuidade às reformas empreendidas no país”, e elogiou o sucessor, descrevendo Tokayev como “um reformista notável”. No entanto, a saída de Nazarbayev não foi completa, já que continuaria a ser presidente do Conselho de Segurança e do partido Nur Otan, bem como membro do Conselho Constitucional. O próprio Tokayev afirmou que a opinião de Nazarbayev teria uma “importância especial, para não dizer prioritária, na concepção e execução das decisões estratégicas”.

Tokayev foi substituído como presidente do Senado pela filha de Nazarbayev, Dariga Nazarbayeva, tida como herdeira política do pai, que já declarou que gostaria de vê-la na presidência do país.

A primeira ação de Tokayev ao tomar posse como presidente, em 20 de março, foi propor aos Mazhilis que a capital do país, Astana, fosse renomeada como Nur-Sultan, em homenagem a Nazarbayev, alteração que os deputados aprovaram em 23 de março.

Em abril, em sua primeira viagem ao exterior, visitou a Rússia, principal parceiro comercial, diplomático e de segurança do Cazaquistão. Cinco dias depois, Tokayev antecipou as eleições presidenciais, que aconteceriam em 2020, para 9 de junho de 2019, a fim de poupar o país de, segundo ele, “incertezas políticas” desnecessárias. Sem surpresas, em 23 de abril o Nur Otan o proclamou seu candidato presidencial.


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Depois de eleições com sete candidatos, a Comissão Eleitoral declarou a vitória de Tokayev com 70,9% dos votos. Setores da oposição mobilizaram protestos desde 20 de março, e centenas de manifestantes ligados ao partido de oposição Opção Democrática do Cazaquistão (QDT), banido sob acusações de extremismo, foram presos. A OSCE (Organization for Security and Co-operation in Europe, Organização para a Segurança e Cooperação na Europa), afirmou que não foi uma “verdadeira competição” e que as eleições se caracterizaram por “desrespeito aos direitos fundamentais, incluindo prisões de manifestantes pacíficos” e “numerosas irregularidades no dia da votação”.

Em 12 de junho, Tokayev inaugurou seu mandato de cinco anos em uma cerimônia no Palácio da Independência do Nur-Sultan, dizendo que seu slogan institucional seria “opiniões diferentes em uma nação unida”.

Reformas

No primeiro mês de seu mandato, Tokayev anunciou as diretrizes de seu governo e, apesar de manter alguns nomes em posições-chave, como o presidente do Comitê de Segurança Nacional, Karim Massimov – preso recentemente por alta traição durante a crise de janeiro de 2022 –, Tokayev implementou diversas reorganizações e nomeações no executivo e nos ministérios.

Em outubro de 2019, anunciou que os candidatos a cargos de Ministro teriam que ser aprovados por Nazarbayev, com exceção do Ministro da Defesa, Ministro do Interior e Ministro das Relações Exteriores. Em novembro, assinou uma lei sobre questões anticorrupção que obriga ministros e líderes regionais a renunciar se os principais funcionários das instituições fossem considerados culpados de corrupção.

Em 2 de maio de 2020, Tokayev destituiu da presidência do Senado a filha de Nazarbayev, Dariga Nazarbayeva. Isso deu origem a rumores de que ele estaria expandindo sua influência política e que haveria uma crescente rivalidade na cúpula do poder cazaque. Ainda em maio, ele afirmou que “o Cazaquistão deve criar um sistema multipartidário para construir um estado moderno e eficaz”, dizendo também que o partido hegemônico, Nur Otan, deveria colaborar mais com outros partidos, e assinou leis sobre a realização de assembleias, emendas constitucionais, medidas eleitorais e emendas à lei sobre partidos políticos.

Nos primeiros dias de janeiro de 2022, após aumentos no preço do gás, residentes de Zhanaozen, nas proximidades do Mar Cáspio, foram às ruas em protesto. As manifestações e tumultos se espalharam para diversas cidades, incluindo Almaty, a maior do país. Tokayev destituiu ministros, reverteu reformas sobre os preços do GLP e anunciou o retorno aos tetos de preços.

Assim que a situação deu sinais de agravamento, Tokayev invocou a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO, Collective Security Treaty Organization), no que foi prontamente atendido, e tropas russas (na maior parte) e dos demais países do tratado entraram no Cazaquistão.


Kassym-Jomart Tokayev é muçulmano praticante e fluente em cazaque, russo, inglês e mandarim, além de possuir conhecimentos de francês. É divorciado de Nadezhda Tokayeva, com quem teve um filho, Timur, nascido em 1984, hoje empresário do petróleo residindo em Genebra, na Suíça. Tokayev foi presidente da Federação de Tênis de Mesa do Cazaquistão por 13 anos.

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