A utilidade e moralidade do assassinato


Albert Caballé Marimón*

Artigo publicado por George Friedman no Geopolitical Futures.


Membros das forças iranianas carregam o caixão do cientista nuclear iraniano Mohsen Fakhrizadeh na cerimônia fúnebre em Teerã, Irã, em 30 de novembro de 2020 (Foto: Reuters).

A recente morte de Mohsen Fakhrizadeh, o cientista nuclear iraniano, suscita discussões a respeito da moralidade do emprego de assassinatos como ferramenta geopolítica. Neste artigo, George Friedman, articulista do Geopolitical Futures, discute essa questão, iniciando sua análise a partir do ponto de vista da praticidade da execução.


O chefe do programa de armas nucleares iraniano foi morto na sexta-feira perto de Teerã. A suposição é que ele foi morto pelos israelenses, cujo motivo era paralisar o programa de armas nucleares do Irã matando o homem que era mais crítico para seu sucesso. Podem muito bem ter sido os israelenses, mas há um número significativo de outros países que não querem ver o Irã com armas nucleares. Os Estados Unidos são um desses países, mas vários países árabes pensam o mesmo. Os russos podem não estar entusiasmados com um Irã com armas nucleares ao sul; Teerã e Moscou são amigáveis ​​agora, mas os adversários mudam e as armas nucleares são essencialmente para sempre. Dito isso, é razoável supor que foram os israelenses, já que, dadas as opiniões do Irã, eles eram os que mais estavam em jogo.

O assassinato não é fácil. Acarreta o risco de falha e retaliação. É um movimento racional apenas em dois casos: como um impedimento para assustar uma organização ou estado a mudar a política, ou quando a morte de uma pessoa seria decisiva para bloquear um desenvolvimento indesejado. Vou me concentrar na segunda categoria, que parece descrever o ataque no Irã. O chefe de um programa de armas nucleares pode ser um gênio ou simplesmente ser um substituto, remexendo papéis, e sua morte pode não levar a nada. Para ser um alvo válido, ele deve, em certo sentido, ser insubstituível. Não deve haver uma coorte de jovens gênios que o alvo nutriu ao longo dos anos, prontos para ocupar seu lugar. O assassinato deve ter um impacto significativo sobre uma ameaça para valer o esforço, os riscos e as consequências do fracasso e retaliação.

O indivíduo estrategicamente significativo é raro o suficiente, mas identificá-lo corretamente é ainda mais raro. Para encontrá-lo, os agentes de inteligência devem coletar informações elusivas e os analistas devem determinar se as informações são válidas, não apenas uma lenda gloriosa inventada pelo indivíduo ou por outros. Identificar a pessoa indispensável não é fácil, pois ela pode não existir.

Supondo que um alvo adequado seja encontrado, seus movimentos devem ser rastreados. Com os celulares, esse rastreamento pode ser mais fácil, mas existem outros dispositivos que podem, com dificuldade e perigo, ser usados ​​para rastreamento. Um padrão deve ser descoberto para que a equipe de assassinos possa atacar. Mais importante, são os movimentos futuros que devem ser identificados, não os passados. Além disso, o alvo não deve ser protegido de forma maciça e eficaz o tempo todo. Idealmente, ele está minimamente protegido e segue uma rotina altamente previsível de movimento por áreas onde assassinos podem esperar sem serem detectados. Os agressores precisam de aviso suficiente para poder planejar onde o alvo estará mais vulnerável.

Outro desafio inerente ao assassinato é a ameaça de vingança. O Irã não pode invadir Israel, e bombardear Israel abre a porta para uma retaliação intensa. O passo proporcional, se de fato foi Israel que executou o assassinato, é o contra-assassinato – ou, mais provavelmente neste caso, um ataque terrorista. Um ataque terrorista é indiferente a quem morre, desde que alguém seja morto e, portanto, é mais fácil de realizar.

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O perigo agora, no entanto, é que os assassinatos e contra-assassinatos podem ficar fora de controle. Uma vez que isso aconteça, tudo – até mesmo uma guerra total – é possível. Nem mesmo é importante se o primeiro ataque foi realizado por Israel ou algum outro país – talvez um país que espera desencadear um confronto militar colocando o Irã em uma posição onde sente que deve tomar uma ação militar. Neste ponto, o que importa é quem o Irã acredita ser o responsável.

Os “e se” são infinitos. A questão é que, embora o assassinato seja um evento autocontido, suas permutações são infinitas e potencialmente inesperadas. Portanto, a única circunstância em que o assassinato pode ser usado racionalmente é quando seu uso é decisivo contra um programa extremamente significativo. O programa de armas nucleares iraniano parece se adequar a essa condição, mas ainda não está claro se o cientista que foi morto era realmente significativo ou se sua morte não criará grandes danos colaterais.

A questão moral é, em minha opinião, mais simples do que as dificuldades práticas. É verdade que matar o cidadão de um país com o qual não há declaração de guerra é problemático. Mas as declarações de guerra foram postas de lado desde 1945. Houve muitas guerras e poucas tiveram declarações formais. Portanto, esta característica do direito internacional perdeu o sentido, o que considero uma pena, mas uma realidade. Se vai haver guerras, não posso imaginar por que é mais legítimo matar milhares de pessoas do que matar uma, só porque você declarou formalmente sua intenção com antecedência. Na verdade, se matar alguém pode evitar que milhares morram, então não é apenas moral, mas um imperativo moral. Portanto, se Israel temia legitimamente a aniquilação de sua nação se o Irã construísse armas nucleares, então as opções são submissão à própria destruição de Israel, um ataque preventivo ao Irã ou a morte da pessoa indispensável. Há uma forte defesa moral que pode ser feita contra a guerra, mas ao longo dos milênios tais argumentos foram apresentados sem efeito. Uma reivindicação moral pode servir de marcador, mas persistentemente ignorada, não pode guiar a ação das nações. As nações temem umas às outras, frequentemente por uma razão muito boa. Os medos geralmente são mútuos.

Tenho dificuldade em compreender o argumento moral contra o assassinato ou o propósito prático do pacifismo. Mas posso entender por que o assassinato é raro: é muito difícil de fazer e tem consequências potenciais que são estonteantes. Mas quando um ataque cirúrgico contra uma pessoa pode aumentar a segurança da nação que assassina, parece ser pelo menos tão legítimo quanto uma invasão. Mas as circunstâncias em que você pode identificar a figura indispensável e matá-lo são raras e extremamente difíceis. O problema não é moral, mas prático.


*Albert Caballé Marimón possui formação superior em marketing. Depois de atuar trinta e sete anos em empresas nacionais e multinacionais, há cinco anos dedica-se à atividade de pesquisador nas áreas de História Militar, Defesa e Geopolítica. É fotógrafo profissional e editor do blog Velho General. Já atuou na cobertura de eventos como a Feira LAAD, o Exercício CRUZEX, a Operação Acolhida, a Operação Treme Cerrado e proferiu palestras na AFA, Academia da Força Aérea. É colaborador da revista Tecnologia & Defesa e do Canal Arte da Guerra. E-mail caballe@gmail.com.

4 comentários sobre “A utilidade e moralidade do assassinato

  1. Excelente texto; compartilharei em aula.
    O autor escreveu duas obras, explicitando o que entende como cenário futuro, contemplando dois períodos: 10 e 100 anos. Vale a pena comparar o desenvolvimento teórico e a realidade.

    Curtido por 2 pessoas

  2. Movimentos aparentemente simples, mas que podem acarretar em consequências terríveis. Primeiro o Comandante da Força Quds, um alvo de importância inegável, agora o chefe do programa de armas nucleares iraniano, de importância ainda a ser confirmada. Não é seriado, filme ou romance, é a guerra sendo vivida e testemunhada. Forte abraço!

    Curtido por 1 pessoa

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