Logística nacional no pós pandemia

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Antonio Celente Videira.png Por Antonio Celente Videira*

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Terminal de cargas em Bukit Merah, Singapura (Foto: Unsplash/Chuttersnap).

A pandemia do COVID-19 evidenciou a dependência logística do planeta em relação à China, que ao descumprir prazos e transparecer tentativas de obter vantagens em meio à uma crise humanitária global, gerou uma quebra de confiança fundamental para a manutenção de qualquer relacionamento comercial.


Estamos diante de uma encruzilhada temporal. Quem pensa que o anormal vai voltar a ser normal se engana. O momento é de percepção e reflexão. Os que têm circunspecção podem navegar no universo da abstração e construir cenários os mais exóticos no porvir. Com certeza, o mundo dos negócios, da gestão, da superintendência e, por fim, da logística, sofrerá reveses intensamente capciosos. As concepções e as estratégias terão influências alienígenas no arranjo administrativo. Novos ingredientes terão que ser considerados, ingredientes esses conceituais que até então eram abjetos no jogo dos estratagemas organizacionais.

Goza hoje a logística de relevância dentro das corporações privadas e públicas, demandando processos sequenciais e ordenados, no âmbito de grandes espaços geográficos. Quero com isso dizer que, atualmente, o supply chain management, os canais de suprimento, as cadeias produtivas, enfim, vão ser questionadas e reconsideradas na busca do ponto ótimo de soluções rentáveis. O que tomou realce nas relações mercadológicas é a confiança. Aliás, esse atributo sempre prevaleceu no comércio global. JAMES HUNTER, na sua obra O MONGE E O EXECUTIVO, foi pródigo em afirmar que “a confiança é a cola do bom relacionamento”. O exercício das funções logísticas requer boa relação de convivência para o êxito do pleito funcional.

Vejam que a China, ao descumprir prazos para a entrega de respiradores a seus clientes pelo mundo, cometeu um dos maiores sacrilégios na esfera das transações comerciais. Foi inábil e tentou levar vantagens em um momento difícil para a humanidade. Com certeza, vai pagar um preço alto no comércio global. O pecado da falta de confiança é um crime inafiançável. Seus parceiros, no pós pandemia, vão dar as costas para negociações que, até então, eram seguras. Tanto os Estados Unidos e Europa, assim como o Japão e Austrália, e ainda o Brasil, prometem suspender compras estratégicas naquele país asiático. O retorno de empresas e fábricas aos países de origem se faz necessário. Postos de trabalho serão reabertos, com o desafio na busca da inovação e da restauração de processos manufatureiros. Tudo volta como dantes.

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O monge e o executivo

  • James C. Hunter (Autor)
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A atitude da China culminou na metamorfose dos princípios indutores da logística Global. Também transformou conceitos de material estratégico. Hoje, itens estratégicos são respiradores, máscaras e insumos para vacinas. O petróleo, o grafeno, as terras raras, a energia alternativa perderam, nessa crise epidemiológica, posicionamento na escala dos artigos sensíveis à Segurança Nacional. Tudo isso porque a guerra mudou de feição. O conflito híbrido, a insurgência, o ataque cibernético, o confronto de quarta geração, a disputa assimétrica tomou o lugar das refregas diretas entre exércitos.

Essas novas conflagrações apontam para mecanismos direcionados a autossuficiência das nações. A dependência de terceiros começa a trazer insegurança naquilo que achávamos seguro. Urge que se volte ao levantamento de meios institucionais que atendam às demandas presentes e aquelas que podem recrudescer a qualquer momento.

A grandiosidade territorial do Brasil e a heterogeneidade vocacional da nossa força produtiva devem ser exploradas. A maneira para alcançar esse desiderato, principalmente no campo da industrialização e das inovações tecnológicas, é explorar, com maior inteligência, o potencial das Federações Industriais Estaduais. Elas podem indicar, em suas regiões, talentos específicos de produtores nacionais. Com certeza, reposicionam-se no contexto do desenvolvimento nacional, aderindo, evidentemente, ao potencial logístico de que a nação pode dispor. Esse olhar, por parte do Governo, é o que deve ser levado em conta neste momento.

Notem que a manufatura de respiradores domésticos é o exemplo mais contumaz no momento. Esse fato, certamente, trará lições ao País, uma vez que poderá se esparramar ao parque industrial, depositando nele desafios tecnológicos na nacionalização e na inovação de componentes até então importados.

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Introdução à Logística: Fundamentos, Práticas e Integração

  • Marco Aurélio Dias (Autor)
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A Aeronáutica enfrentou situação semelhante, evidentemente em menor proporção, quando o Presidente ERNESTO GEISEL, em 1977, denunciou o Acordo Militar entre Brasil e Estados Unidos. Naquele período, a grande maioria da frota de aeronaves da Força Aérea Brasileira era oriunda dos EUA, e aquele ato implicaria na interrupção do fornecimento de suprimento. Imediatamente, um plano de contingência foi estabelecido para enfrentar a possível falta de itens aeronáuticos. A convocação do Chefe da Comissão Aeronáutica em Washington, acompanhada de um profissional de logística, o então capitão JOSÉ BRANCATO, somada à opinião do então tenente-coronel MASAO KAWANAMI, do Parque de Material Aeronáutico de São Paulo – que anos depois, já como tenente-brigadeiro, tornou-se comandante da ESG (Escola Superior de Guerra) –, foram cruciais na solução daquele problema. Surgia, naquele instante, a CONMA (Comissão de Nacionalização de Material Aeronáutico), cuja ousadia iniciou os processos na análise da composição química de materiais, de engenharia reversa, de elaboração de desenho técnico, do desenvolvimento de projetos de peças importadas, procura de fontes de matéria prima nacional, aquisição e traslado das peças prontas. Consegue assim manter nossas aeronaves voando e cumprindo suas missões aéreas. Hoje a CONMA denomina-se CELOG (Centro Logístico da Aeronáutica), sendo ponto de excelência, no contexto da indústria aeronáutica, tornando-se ponto focal de visitação de escolas e cursos militares, inclusive do exterior.

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Da mesma forma, as federações passam a ser entidades relevantes no ambiente industrial, revigorando nosso mercado, mas, mais do que isso, mantenedoras de meios garantidores da nossa Segurança Nacional. As que já entenderam o significado do trinômio desenvolvimento, segurança e defesa criaram em suas sedes o ConDefesa (Conselho de Defesa), aproximando o meio empresarial do militar. Esse congraçamento, entre militares e empresários, sendo a ESG um dos protagonistas através do seu CGERD (Curso de Gestão de Recursos Defesa), tem levado o avanço no desbravamento do conhecimento sensível, visando a dualidade de componentes para atender a demanda fabril. Destacam-se nessas alianças as Federações das Indústrias de São Paulo (FIESP), do Rio de Janeiro (FIRJAN), de Minas Gerais (FIEMG), do Rio Grande do Sul (FIERG) e de Santa Catarina (FIESC). São congraçamentos produtivos que induzem à prosperidade tecnológica profissional. Digno de louvor são os Ciclos de Estudos Estratégicos de Defesa promovidos por uma parceria saudável entre a FIEMG e ESG, cujos resultados robustecem, cada vez mais, a relação de profissionais das armas e industriais. Hoje esses ciclos começam a se disseminar, saindo Minas Gerais e indo a Santa Catarina, na FIESC. É o novo despontar de um Brasil que prima pelo crescimento nacional, buscando a autossustentabilidade em todos os ramos da sua força produtiva.

Conclui-se afirmando que a ausência de insumos hospitalares, que gerou pânico no mundo diante da pandemia do COVID-19, com ênfase no Brasil, implicará em alterações profundas nos conceitos de logística, em um novo entendimento das relações internacionais e geopolíticas e, por fim, terá reflexos positivos para o despertar da Indústria Nacional.


*Antonio Celente Videira, coronel reformado da Força Aérea Brasileira, é membro do corpo docente da ESG (Escola Superior de Guerra), presidente do Conselho Fiscal da ADESG (Associação dos Diplomados da ESG), membro da Academia Brasileira de Defesa (ABD) e membro do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHB). É autor do livro “Da Industrialização Militar à Mobilização Nacional – Escola Superior de Guerra – Uma História do Desenvolvimento e Defesa Nacionais”.


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