Antônio Dias Cardoso: Mestre das Emboscadas e Patrono das Forças Especiais Brasileiras

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Cristiano Leal.png Por Cristiano Oliveira Leal*

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A Batalha dos Guararapes, obra de Victor Meirelles. Antônio Dias da Costa é o soldado a pé, atrás do cavalo empinando, este montado por Vidal de Negreiros (Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro).

Arquiteto do grupo considerado a Celula Mater do Exército Brasileiro, Antônio Dias Cardoso teve papel de grande destaque na Insurreição Pernambucana, movimento que expulsou os holandeses do Nordeste. Ele especializou-se num tipo de guerra de guerrilha que consistia em ataques rápidos e furtivos às forças holandesas e que ficou conhecido como “Guerra Brasílica”.


Antônio Dias Cardoso teve importante papel na expulsão dos holandeses no nordeste, o que lhe garantiu diversos títulos, como Precursor do Exército Brasileiro, Arquiteto Militar da Restauração Pernambucana, Vencedor da Batalha do Monte das Tabocas, Mestre das Emboscadas (meu favorito), Abastecedor do Exército Restaurador, Espada da Restauração de Pernambuco, Organizador e Primeiro Comandante do Exército Brasileiro e Patrono das Forças Especiais Brasileiras. Mas mesmo com todos esses merecidos títulos, como mostrarei nesse artigo, só começou a ter o reconhecimento adequado pela historiografia brasileira a partir dos anos 1970.

Natural do Porto, no início do século XVII, ainda jovem, mudou-se para o Brasil, sentando praça como soldado na Bahia em fevereiro de 1624. Quando houve a invasão holandesa, participou ativamente da resistência organizada pelo bispo Dom Marcos Teixeira nas Companhias de Emboscadas, compostas por 25 a 30 homens dedicados a atacar o inimigo de surpresa. Essa estratégia teve grande sucesso, pois restringiu a ocupação holandesa ao interior das muralhas de Salvador, impedindo a expansão pelo litoral até que uma força ibérica chegasse para libertar a cidade e capturar os invasores.

Em 1630 os holandeses retornam, invadindo Pernambuco. Entre 1630 e 1637, Antônio Dias Cardoso participou de diversos combates na região de Olinda e Recife, com destaque para a emboscada na Campina da Taborda e os combates em Salinas, Olinda, Afogados e na Praia do Recife.

Liderados por Matias de Albuquerque, os pernambucanos resistem, mas não conseguem impedir a tomada de Recife pelos holandeses. Tendo em mente a experiência das Companhias de Emboscada, Matias de Albuquerque adota um tipo de guerra de guerrilha muito característico, que ficaria conhecido como “Guerra Brasílica”, muito semelhante ao praticado hoje em dia pelas forças especiais e na qual Dias Cardoso se tornou mestre. Esse modelo tinha por base o aproveitamento do terreno e o emprego de táticas nativas de guerra.

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A exemplo do que havia acontecido em Salvador, os patriotas vinham com sucesso restringindo a presença holandesa ao litoral, porém em 1632 o desertor pernambucano Domingos Fernandes Calabar passou para o lado dos invasores, servindo-lhes de guia e tornando possível a expansão holandesa pelo território. Durante cinco anos Matias de Albuquerque resistiu aos holandeses, tendo por fim sendo obrigado a se retirar para Alagoas juntamente com 4.000 habitantes, sob a proteção de Antônio Dias Cardoso. Durante essa marcha, participou do cerco a Porto Calvo, onde Calabar foi preso e justiçado. Entretanto, por hora, os holandeses haviam vencido.

Em 1644, Dias Cardoso foi mandado secretamente pelo Governador Geral do Brasil, Antônio Teles da Silva, para organizar os pernambucanos num exército para reiniciar a luta contra os holandeses. Durante sua viagem observou a disposição das tropas e defesas holandesas, informando a Fernandes Vieira, líder da insurreição, quando chegou (mais uma semelhança com as forças especiais). Durante seis meses, escondido nas matas e engenhos, recrutou e treinou 900 patriotas pernambucanos, grupo que hoje é considerado a Celula Mater do exército brasileiro.

Em 23 de maio de 1645 teve início a Insurreição Pernambucana e os holandeses iniciaram uma caçada ao exército rebelde, dando início a batalha do Monte das Tabocas. Mesmo sendo Fernandes Vieira o líder, por não ter a mesma experiência militar, deixou o comando do exército com Antônio Dias, preferindo ficar no comando da reserva, composta de homens armados com bordões e lanças.

O tenente-coronel Hendrik Haus, comandante-em-chefe dos holandeses no Brasil, contava com 1.500 homens bem treinados, incluindo vários mercenários, armados com 1.200 modernas armas de fogo. Já Dias Cardoso contava com 900 homens armados com 250 armas de fogo de diversos tipos e nas mais diversas condições. Compensando a diferença numérica com o pleno conhecimento do campo de batalha, ele organizou três zonas de emboscadas, sendo a terceira a mais forte. Ao chegarem à primeira, os holandeses foram atacados pelo fogo e flechas dos homens de Dias Cardoso, usando a floresta como cobertura, causando pesadas baixas entre os batavos. Furiosos, os holandeses perseguem os rebeldes, sendo levados à segunda zona, onde sofrem mais baixas. Ainda assim eles continuaram a perseguição, caindo na terceira zona. As baixas foram tantas que os holandeses ficaram completamente desmoralizados e decidiram bater em retirada, com medo de caírem em outra emboscada. Essa foi uma vitória extremamente importante, pois, além das enormes perdas em homens, uma grande quantidade de armas e suprimentos foram capturados; mas o principal foi que mostrou aos patriotas que os holandeses podiam ser vencidos.

Na sequência, orquestrou a batalha da Casa Forte, onde os holandeses sobreviventes do monte das Tabocas foram mais uma vez derrotados, se renderam e Dias Cardoso foi ferido. Logo em seguida, tomou parte em diversas ações na Ilha de Itamaracá, participando de inúmeros ataques e contra-ataques nos Afogados. Juntamente com Fernandes Vieira e de Vidal de Negreiros, capturaram três embarcações holandesas fundeadas entre Itamaracá e o Continente e atacou as fortificações de Itamaracá, ocasionando o abandono holandês desta ilha. Juntamente com a ela foram capturadas diversas peças de artilharia, com algumas utilizadas para reforçar as defesas da ilha, e outras enviadas ao continente para serem usadas em outros lugares.

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Os contínuos sucessos dos patriotas fizeram com que os holandeses ficassem encurralados em Recife. Dia 18 de março de 1648 chegou reforço aos sitiados, composto de nove vasos de guerra, quatro iates e 28 navios carregados de suprimentos e 6.000 soldados. Com esta força, os holandeses decidiram romper o cerco da cidade e conquistar o interior pernambucano, em mãos dos patriotas, dando início à primeira Batalha dos Guararapes.

Durante essa batalha Antônio Dias Cardoso, que era o segundo em comando no Terço de Fernandes Vieira, destacou-se ao realizar um ataque frontal sobre os holandeses, através do Boqueirão, entre o monte do Oitizeiro e os Alagados, que resultou no rompimento das defesas holandesas.

Ainda em 1648, Dias Cardoso foi enviado por Barreto de Menezes até Igaraçu com 200 homens do seu terço na busca por mantimentos (mandioca) nas plantações abandonadas. Durante essa expedição armou diversas emboscadas, prendeu 33 holandeses e queimou três lanchas inimigas. No final do ano, foi mandado à Paraíba com a missão de distrair os holandeses e destruir plantações e gado. Após marchar 25 léguas abrindo picadas pela mata, terminou com sucesso sua missão, capturando grande quantidade de armas e suprimentos.

Em 19 de fevereiro de 1649 teve início a segunda Batalha dos Guararapes, na qual Dias Cardoso recebeu como missão um ataque combinado juntamente com Vidal de Negreiros sobre a retaguarda dos holandeses localizados nas alturas da atual igreja N. S. dos Prazeres, onde fez uso de suas técnicas de emboscadas, o que lhe rendeu o título de “Mestre das Emboscadas”. Após a batalha foi acertado um armistício para troca de mortos e feridos, e Dias Cardoso foi encarregado de representar os luso-brasileiros neste intercâmbio.

Em janeiro de 1651 foi enviado à Bahia para expulsar os holandeses de Penedo, no rio São Francisco, mas estes se retiraram para Recife ao saberem da aproximação de Dias Cardoso. Em seu retorno, fez os moradores da região voltarem aos seus lares e retomarem as atividades produtivas. Ele retornaria mais duas vezes para adquirir mantimentos para o exército restaurador.

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Em maio de 1652, novamente por ordem de Barreto de Menezes, marchou com 500 homens e 100 índios e negros para destruir as lavouras e feitorias de pau-brasil que os holandeses possuíam na Paraíba e no Rio Grande do Norte, apossando-se da fonte de água que abastecia a fortaleza holandesa no Rio Grande do Norte e assim forçar a rendição. Alertados da missão, os holandeses tomaram medidas que impediram a conclusão do objetivo, mas mesmo assim, retornou mais uma vez carregado de suprimentos para o exército restaurador.

No dia 26 de janeiro de 1654 a Insurreição Pernambucana terminou com a assinatura de um acordo. Em 1655 Dias Cardoso foi sagrado Cavaleiro de Ordem de Cristo e assumiu o comando do terço de Fernandes Vieira, que havia se tornado governador da Paraíba. Em 1656 foi nomeado Mestre de Campo, morrendo em Recife, em 1670.

Observando os feitos de Antônio Dias Cardoso durante o combate aos holandeses no nordeste, constatamos sua importância durante esse período conturbado da história do Brasil e que todos os títulos que recebeu a serviço da pátria são mais do que merecidos.

Bibliografia

BENTO, Claudio Moreira. As Batalhas dos Guararapes. Análise e descrição militar. 2ª ed. Porto Alegre: Gênesis, 2004.

BENTO, Claudio Moreira. Mestre de Campo Antônio Dias Cardoso. Academia de História Militar Terrestre do Brasil, 2003. Disponível em http://www.ahimtb.org.br/mcadcardoso.htm.

FREYRE, Francisco de Brito. História da Guerra Brasílica, A Puríssima Alma do Sereníssimo Príncipe de Portugal e do Brasil. 1675, Oficina de Joam Galram, Lisboa, 600 p.

MIRANDA JR., Manoel Rodrigues de. A “Insurreição Pernambucana”: Uma Historiografia a Serviço do Exército Brasileiro. 1999. Monografia de Graduação – Universidade do Rio Grande do Norte, Natal.


*Cristiano Oliveira Leal é aficionado em história e aviação militar desde a infância, iniciando suas primeiras pesquisas ainda na adolescência. Após o serviço militar no 2º Regimento de Cavalaria Mecanizada, cursou graduação em História na Unisinos, período em que passou a estudar Teoria Militar e estagiou durante um ano no Museu Militar do Comando Militar do Sul. Realizou pesquisas em alguns dos principais museus militares britânicos, em especial os da Royal Air Force. É titulado Especialista em História Militar pela Unisul.


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