Tempos de guerra, tempos de aprendizado

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Jorge Schwerz-2.png Por Jorge Schwerz*

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Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial em Praga, Checoslováquia (Foto: Howlo/Trip Advisor).

A crise desencadeada pela pandemia do COVID-19 tem sido frequentemente comparada a uma guerra por alguns. Será mesmo o caso? Quais são as lições que poderíamos (e deveríamos) aprender (e aplicar) a nosso país a partir de uma real experiência de guerra?


Artigo postado originalmente no Blog Ao Bom Combate!

As provas às quais a disseminação do coronavírus tem submetido diversos países são, por vezes, comparadas a uma guerra. E, certamente, as restrições e dificuldades impostas pela propagação do vírus são uma novidade para a sociedade moderna, mas não se podem comparar com a tragédia de uma guerra.

Quando se fala em guerra, descreve-se um país totalmente destruído, sua economia, recursos naturais, perdem-se milhões de vidas humanas em sua idade produtiva. A esperança morre com as gerações de jovens.

O que essas tragédias humanas podem nos ensinar?

Visitando o Museu Imperial da Guerra, em Londres, conheci as ações inglesas de preparação do país quando Hitler iniciou a sua campanha contra a Inglaterra, durante a Segunda Guerra Mundial.

Uma das ações que atingiram profundamente a sociedade inglesa foi a retirada das crianças de Londres, no intuito de protegê-las dos ataques aéreos. Haveria destruição? Deixaram na cidade somente quem poderia responder aos ataques e às suas consequências, protegendo a vida do seu bem maior e o futuro do país.

Outra demanda que afetou diretamente o cidadão deu-se quando os submarinos alemães começaram a afundar os navios mercantes que levavam produtos alimentícios para a Inglaterra, a partir do qual impôs-se um racionamento de comida que se iniciou em 1940 e só terminou em 1954, nove anos após o final da Segunda Guerra.

Para diminuir a falta de comida, organizaram-se, nos bairros das grandes cidades, brigadas para recolher os restos de comida separados pelas famílias, os quais foram destinados às criações de porcos, pois não havia ração para eles. As famílias eram alertadas para separar os ossos do lixo para que não se prejudicasse a alimentação dos animais.

Na ausência de homens jovens para o trabalho, as mulheres foram para as fábricas, pilotaram aviões de caça, combateram e foram mortas.

Ampliaram-se as horas de funcionamento das fábricas para que fossem atendidas as necessidades da guerra. A atual monarca do Reino Unido deixou sua contribuição como motorista e mecânica no Exército Britânico, ao final da guerra.

Todos os que podiam lutar, lutaram. É famosa a história de Douglas Bader, um piloto de caça inglês amputado que se tornou um ás da aviação.

Depois do sacrifício, a vitória. A Inglaterra venceu porque não se dobrou ao medo, não se dobrou ao pânico. Como se diz na aviação, em uma emergência, mantenha a calma e o controle e, depois, faça o previsto.

Venceu porque havia um líder que dizia aos ingleses para não se dobrarem ao pânico e ao medo. Um líder que não deixou o país parar, congelar de pavor.

A guerra mostra o que aconteceu com quem se dobrou ao horror.

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Nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial havia um movimento, liderado pelo primeiro-ministro inglês Neville Chamberlain e pelo ministro francês Édouard Daladier, a política de apaziguamento, que traduzia o medo de um morticínio semelhante ao acontecido na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Para evitá-lo, muitas concessões foram feitas à Alemanha de Hitler, cujo ápice foi o Pacto de Munique, no qual França e Inglaterra entregaram os Sudetos à Alemanha, uma parte da recém-criada Checoslováquia. O pacto foi assinado em setembro de 1938, um ano antes de a Alemanha invadir a Polônia e dar início à Segunda Grande Guerra.

Os checos chamam este pacto de “traição de Munique”.

Conforme ouvi de um diplomata daquele país durante a comemoração do Dia da Vitória na Europa, 8 de maio: “Para nós, a guerra começou um ano antes por causa deles!”, visivelmente magoado com os franceses e ingleses, por terem se curvado ao terror.

França e Inglaterra tomaram caminhos diferentes no conflito.

Instalar o medo é o primeiro objetivo do inimigo.

A vitória inglesa nos ensina que devemos proteger os idosos e vulneráveis à doença, tal qual os ingleses protegeram suas crianças. As famílias que moravam nos campos ingleses comprometeram-se recebendo as crianças.

Nos ensina que temos que manter o país vivo. Se o interior do país era seguro, por que todos os ingleses não-combatentes não foram isolados? Porque o país precisava de trabalhadores. A sociedade entendeu o momento de perigo e trabalhou.

A economia continuou, as empresas continuaram, a vida continuou.

Todos esses ensinamentos fazem com que repensemos as nossas prioridades.

O Brasil não pode ter somente 50% do seu esgoto tratado; as pessoas não podem morar em lugares insalubres, o sistema de saúde deve ter prioridade, a segurança deve ter prioridade, a educação deve ter prioridade, o combate à corrupção deve ter prioridade.

Não, estádios não eram e não são prioridades; não, fundão eleitoral não é prioridade; não, um estado inchado não é prioridade; não, estatais inchadas e deficitárias não são prioridade.

Os políticos não devem se preocupar com a sua reeleição, mas sim em aprovar leis que permitam ao país crescer e vencer.

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Houve e sempre haverá oportunistas. Quanto pior for o quadro pintado, melhor parecerá a solução que os falsos salvadores oferecem. Profetas da desgraça. Salvadores ocasionais.

E, finalmente, não poderia deixar de fazer uma homenagem especial para aqueles que não podem ficar em quarentena: militares, policiais militares e civis, guardas municipais, bombeiros e, em especial, os profissionais da saúde, médicos(as), enfermeiros(as), auxiliares de enfermagem e todos os profissionais que fazem os nossos hospitais e centros de saúde funcionarem: vocês são os nossos soldados, vocês são os nossos heróis!

Ou, como disse Churchill ao final da Batalha da Inglaterra, referindo-se aos pilotos que defendiam o seu país: “…nunca tantos deveram tanto à tão poucos!”.

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*Jorge Schwerz é coronel-aviador da reserva da Força Aérea Brasileira, MsC pelo ITA, ex-Adido de Defesa e Aeronáutica na França e na Bélgica e coordenador do Blog Ao Bom Combate!.


2 comentários sobre “Tempos de guerra, tempos de aprendizado

  1. É uma excelente reflexão do que estamos enfrentando no Brasil. Devemos nis manter vigilântes, pois há alguns políticos que nos querem dividir através do medo e desta forma dar continuidade a corrupção!

    Curtido por 1 pessoa

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