Declaração do Secretário da US NAVY sobre o afastamento do Comandante do USS Theodore Roosevelt (CVN 71)

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Albert-VF1 Por Albert Caballé Marimón*

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Porta-aviões USS Theodore Roosevelt (Foto: US Navy).

O episódio da demissão do comandante do porta-aviões americano USS Theodore Roosevelt, o capitão Brett Crozier, encerram lições de liderança que vão muito além da competência para comandar um navio e ser reconhecido pela tripulação. Na decisão do Secretário da Marinha (US Navy) e dos altos comandantes que a subsidiaram, a questão não é o caráter do capitão Crozier, mas ele cometeu um erro grave ao expor a cadeia de comando, alarmar desnecessariamente a tripulação, as famílias e a população americana, permitir o vazamento de informações sensíveis e, principalmente, dentro do atual cenário geopolítico, passar uma percepção incorreta aos potenciais adversários dos EUA, num claro recado à China.


Tradução livre da declaração do Secretário da Marinha Americana sobre o afastamento do comandante do USS Theodore Roosevelt (CVN 71).


“Data de emissão: 02 de abril de 2020

Do Gabinete do Chefe de Informação da Marinha (americana)

Declaração do secretário interino da Marinha Thomas B. Modly, sobre o afastamento do comandante do USS Theodore Roosevelt.

Boa tarde. Agradeço novamente por sua diligência e coragem em manter o povo americano informado, pois todos lidamos com profundas ramificações e rápidas evoluções associados a esta crise.

Estou aqui hoje para informá-lo que, sob minha direção, o comandante do USS Theodore Roosevelt, Capitão Crozier, foi afastado pelo comandante do Grupo de Ataque, o contra-almirante Stuart Baker.

O oficial executivo, capitão Dan Keeler, assumiu o comando temporariamente até que o contra-almirante Carlos Sardiello chegue a Guam para assumir o comando. O contra-almirante Sardiello foi comandante do Theodore Roosevelt, por isso conhece muito bem o navio, muitos membros da tripulação, as operações e capacidades do navio. Ele é a melhor pessoa da Marinha no momento para assumir o comando nessas circunstâncias.

Como secretário da Marinha, eu não poderia ter mais orgulho de nossos homens e mulheres que servem na Marinha e no Corpo de Fuzileiros Navais. Posso garantir que ninguém se importa mais do que eu com a segurança e o bem-estar deles. Eu mesmo tenho um filho militar, que atualmente está servindo na Coréia – uma das primeiras nações do mundo a ter um aumento significativo nos casos de coronavírus. Entendo, tanto como pai quanto como veterano, quão críticas são nossas linhas de suporte à saúde e bem-estar de nosso pessoal, especialmente agora em meio a uma pandemia global.

Mas há um contexto estratégico mais amplo, cheio de imperativos de segurança nacional, dos quais todos os nossos comandantes devem estar cientes. Embora possamos não estar em guerra no sentido tradicional, também não estamos verdadeiramente em paz. Regimes autoritários estão em ascensão. Muitas nações estão procurando, de várias maneiras, reduzir nossa capacidade de cumprir nossos objetivos nacionais. Isso está acontecendo ativamente todos os dias. Já faz muito tempo que a Marinha e o Corpo de Fuzileiros Navais enfrentam essa ampla gama de capazes desafiadores estratégicos globais. É preciso uma mentalidade mais ágil e resiliente, de alto a baixo na cadeia de comando.

Talvez mais do que no passado recente, exigimos comandantes com capacidade de julgamento, maturidade e postura de liderança sob pressão que entendam as ramificações de suas ações nesse amplo contexto estratégico dinâmico. Todos nós compreendemos e valorizamos nossas responsabilidades e, francamente, nosso amor por todo o nosso pessoal, mas permitir que as emoções influenciem nosso julgamento ao comunicar o quadro operacional atual pode, na melhor das hipóteses, criar confusão desnecessária e, na pior, dar a nossos adversários uma imagem incompleta sobre a prontidão de combate americana.

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Quando o oficial comandante do USS Theodore Roosevelt decidiu escrever sua carta em 30 de março de 2020, descrevendo suas preocupações com a tripulação em meio a um surto de COVID-19, o Departamento da Marinha há dias já havia mobilizado recursos significativos em resposta a seus pedidos anteriores. Na mesma data de sua carta, meu chefe de gabinete havia telefonado diretamente para o comandante, a meu pedido, para garantir que ele tivesse todos os recursos necessários para a saúde e segurança de sua tripulação.

O comandante disse ao meu chefe de gabinete que estava recebendo esses recursos e estava plenamente ciente da resposta da Marinha, e apenas desejava que a tripulação pudesse ser evacuada mais rapidamente. Meu chefe de gabinete garantiu que o comandante soubesse que ele tinha uma linha aberta comigo a qualquer momento. Ele inclusive ligou novamente para o comandante um dia depois para fazer um acompanhamento. Em nenhum momento o comandante transmitiu os vários níveis de alarme sobre os quais eu, juntamente com o resto do mundo, soubemos pela carta dele publicada dois dias depois.

Depois de ler a carta, liguei imediatamente para o chefe de operações navais, almirante Gilday, e o comandante da frota do Pacífico dos EUA, almirante Aquilino. O almirante Gilday também acabara de ler a carta naquela manhã e o almirante Aquilino a lera no dia anterior. Fiz uma teleconferência poucos minutos depois da minha leitura com o comandante da Sétima Esquadra, o vice-almirante William Merz, o almirante Aquilino, o almirante Gilday, o cirurgião-geral da Marinha, contra-almirante Bruce Gillingham e outros. Ainda naquela noite realizamos outra teleconferência com toda a cadeia de comando.

No dia seguinte, conversei pessoalmente com o comandante do Theodore Roosevelt e hoje pela manhã conversei com o comandante do grupo de ataque de do TR, o contra-almirante Stuart Baker. O contra-almirante Baker não sabia da carta antes de ser enviada a ele, por e-mail, pelo comandante. É importante entender que o comandante do Grupo de Ataque, chefe imediato do comandante, está embarcado no Theodore Roosevelt, no corredor logo abaixo dele. A carta foi enviada através de e-mail não seguro e não classificado, embora esse navio possua alguns dos mais sofisticados equipamentos de comunicação e criptografia da esquadra.

Foi enviado para fora da cadeia de comando, ao mesmo tempo em que o restante da Marinha estava trabalhando numa resposta completa. Pior, as ações do capitão fizeram com que seus marinheiros, suas famílias e boa parte da população acreditassem que sua carta era a única razão pela qual a ajuda da Marinha estava sendo providenciada, o que dificilmente era o caso.

O comando é uma confiança sagrada que deve ser conquistada continuamente, tanto dos marinheiros quanto dos fuzileiros navais que lideramos, e da instituição que concede esse privilégio especial e honroso.

À medida que eu soube mais sobre os eventos da semana passada a bordo do USS Theodore Roosevelt (CVN-71), incluindo minhas conversas pessoais com o comandante do Grupo de Ataque, o comandante da Sétima Frota, o comandante da frota do Pacífico dos EUA, o chefe de operações navais e o capitão Crozier, não pude chegar a outra conclusão senão que o capitão Crozier havia permitido que a complexidade de seu desafio com a epidemia do COVID no navio sobrecarregasse sua capacidade de agir profissionalmente, quando agir profissionalmente era o mais necessário. Esperamos, e deveríamos, mais dos comandantes de nossos porta-aviões.

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Não tomei essa decisão de maneira despreocupada. Não tenho dúvidas de que o capitão Crozier fez o que acreditava ser o melhor interesse da segurança e do bem-estar de sua tripulação. Infelizmente, ele fez o oposto. Despertou desnecessariamente alarmes nas famílias de nossos marinheiros e fuzileiros navais, sem nenhum plano para resolver essas preocupações. Ele levantou preocupações sobre as capacidades operacionais e a segurança operacional do navio que poderiam ter encorajado nossos adversários a buscar vantagens, e minou a cadeia de comando que vinha se movendo e se ajustando o mais rápido possível para obter a ajuda de que ele precisava.

Por esses motivos, perdi a confiança em sua capacidade de liderar esse navio de guerra, enquanto ele continua lutando contra o vírus e mantendo a tripulação saudável, para que possa continuar a atender aos requisitos de segurança nacional. Em meu julgamento, afasta-lo do comando foi no melhor interesse da Marinha dos Estados Unidos e da nação neste momento em que o país precisa que a Marinha seja forte e confiante diante das adversidades. A responsabilidade por esta decisão cabe a mim. Não espero parabéns por isso e não me dá prazer fazê-lo. O capitão Crozier é um homem honrado que, apesar desse lapso de julgamento pouco característico, dedicou-se ao longo de uma vida de incrível serviço à nossa nação.

De acordo com essa ação, e com o meu total apoio, o chefe de operações navais, o almirante Gilday, instruiu o vice-chefe de operações navais, o almirante Robert Burke, a conduzir uma investigação sobre as circunstâncias e o clima de toda a frota do Pacífico para ajudar a determinar o que pode ter contribuído para esse colapso na cadeia de comando. Devemos garantir que possamos contar com o julgamento, o profissionalismo, a postura e a liderança corretas de nossos comandantes em toda a Marinha e Corpo de Fuzileiros Navais, especialmente no Pacífico Ocidental. Não tenho indicação de que exista um problema mais amplo a esse respeito, mas temos a obrigação de investigar calma e uniformemente isso.

Para nossos oficiais comandantes, seria um erro considerar esta decisão como de alguma forma que não seja apoio a seu dever de relatar problemas, solicitar ajuda, proteger sua tripulação e desafiar suposições como achar melhor.

Esta decisão não é sobre retaliação. É sobre confiança. Não é uma acusação do caráter, mas sim do julgamento. Embora eu discorde da validade de alguns dos pontos da carta do capitão Crozier, ele estava absolutamente correto em levantá-los.

Foi a maneira como ele fez isso, não trabalhando com o comandante do grupo de ataque e desenvolvendo uma estratégia para resolver os problemas que ele levantou, não enviando a carta para e através de sua cadeia de comando, não protegendo a natureza sensível das informações contidas na carta de forma adequada e, por último, não me procurar diretamente para dar voz a suas preocupações depois que esse canal foi aberto a ele por minha equipe, o que foi inaceitável.

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Deixe-me esclarecer, todos vocês têm o dever de serem transparentes com suas respectivas cadeias de comando, mesmo que temam que elas discordem. Esse dever exige coragem, mas também exige respeito por essa cadeia de comando e pela sensibilidade das informações que você decide compartilhar e da maneira que escolhe compartilhar.

Finalmente, e talvez o mais importante, gostaria de enviar uma mensagem à tripulação do Theodore Roosevelt e suas famílias em casa. Estou inteiramente convencido de que o seu comandante os ama e que ele os tinha no centro de seu coração e mente em todas as decisões que tomou. Sei também que vocês tem muito carinho e amor por ele também. Mas é minha responsabilidade garantir que o amor e a preocupação dele por vocês sejam correspondidos, se não excedidos, pelo julgamento sóbrio e profissional dele sob pressão.

Vocês merecem isso ao longo de todas as atividades perigosas para as quais treinam tão diligentemente, mas o mais importante, para situações imprevisíveis e difíceis de planejar. É importante porque vocês são o Theodore Roosevelt, vocês são o Big Stick, e o que acontece a bordo do Theodore Roosevelt importa muito além dos limites físicos do seu casco. Seus companheiros de navio em toda a esquadra precisam que vocês estejam fortes e prontos – e, principalmente, agora que eles precisam que vocês sejam corajosos diante das adversidades.

A nação precisa saber que o Big Stick é destemido, imparável – e que vocês permanecerão assim, enquanto nós, como marinha, os ajudaremos nesse desafio COVID-19. Nossos adversários precisam saber disso também. Eles respeitam e temem o Big Stick, e deveriam. Não permitiremos que nada diminua esse respeito e medo, enquanto vocês e o restante de nossa nação lutam contra esse vírus. Como afirmei, não estamos em guerra pelas medidas tradicionais, mas também não estamos em paz. A nação que vocês defendem está em uma luta agora por nossa segurança econômica, pessoal e política, e vocês estão na linha de frente dessa luta de várias maneiras.

Vocês podem oferecer conforto a seus concidadãos que estão lutando e com medo aqui em casa, vigiando e trabalhando nessa pandemia com coragem e otimismo e dar o exemplo para a nação. Temos a obrigação de garantir que vocês tenham tudo o que precisam o mais rápido possível, e vocês tem o meu compromisso de que não iremos decepciona-los. A nação que vocês juraram defender está em uma luta, e as nações e os maus atores de todo o mundo que nos desejam causar danos devem entender que o Big Stick está na vizinhança e que sua equipe está vigiando.

Obrigado e estou pronto a responder a qualquer pergunta que possam ter.”


ASSISTA AO VÍDEO 1113 DO CANAL ARTE DA GUERRA – Recado à CHINA: declaração do Secretário da US Navy é alerta a adversários dos EUA


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*Albert Caballé Marimón possui formação superior em marketing, é fotógrafo profissional e editor do blog Velho General. Já atuou na cobertura de eventos como a Feira LAAD, o Exercício CRUZEX e a Operação Acolhida. É colaborador da revista Tecnologia & Defesa e do Canal Arte da Guerra, onde, entre outras atividades, mantém uma resenha semanal de filmes e documentários militares. Entre suas atividades, já proferiu palestras para os cadetes da Academia da Força Aérea. Pode ser contatado através do e-mail caballe@gmail.com.


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