O Barril de Pólvora Asiático

Cel-Paulo-Filho Por Cel Cav Paulo Roberto da Silva Gomes Filho*

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Ásia (Imagem: Koyos+Ssolbergj/National Geographic/Wikimedia Commons/CC BY-SA 4.0)


Tornou-se uma obviedade dizer que o século XXI é o “Século da Ásia”. O continente já abriga mais da metade da população do planeta. Vinte e uma, dentre as trinta maiores cidades do mundo, são asiáticas, e a região tornou-se o centro da atividade econômica mundial. Igualmente impressionante é o crescimento do poderio militar dos países daquele continente.

A página eletrônica Global Firepower (https://www.globalfirepower.com/) acaba de publicar seu índice anual, que mede o poderio militar de 137 países. O ranking resultante da pesquisa é fruto de uma metodologia que utiliza 55 fatores, que incluem aspectos militares, econômicos, fisiográficos e políticos.

De acordo com o estudo, dentre os 10 países com maior poderio militar em 2019, 6 localizam-se na Ásia. São, pela ordem: Rússia (2º lugar), China (3º lugar), Índia (4º lugar), Japão (6º lugar), Coréia do Sul (7º lugar) e Turquia (9º lugar). O 1º colocado é obviamente os EUA, que, apesar de não ser um país asiático, possui uma expressiva presença militar na costa asiática do Oceano Pacífico, além de manter tropas no Afeganistão e Iraque. Assim, 7 das 10 maiores potências militares do planeta estão ou têm interesses vitais no continente asiático.

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A julgar pelas tensões geopolíticas atualmente em curso no continente, os países da região parecem analisar corretamente a realidade que os cerca ao decidir dispor de um grande poderio militar.

Na Península da Coreia, parece ser inexorável o fato de que a Coreia do Norte se tornará (se já não for) uma potência nuclear. O país possui mísseis capazes de atingir a Coreia do Sul e o Japão, além de ilhas norte-americanas no Pacífico e o Alasca. As conversas entre o Presidente Trump e o líder norte-coreano, apesar do ineditismo da iniciativa, até agora não parecem indicar que há um acordo a caminho.

A questão de Taiwan permanece sem solução. A China considera a ilha uma província rebelde e sua reincorporação ao país uma questão de honra. A recente decisão norte-americana de vender 2,2 bilhões de dólares em armamentos para as Forças Armadas de Taiwan enfureceu o governo chinês.

Os movimentos separatistas nas províncias chinesas de Xinjiang e Tibete, além das tensões políticas causadas pelos protestos em Hong Kong, também preocupam muito as autoridades chinesas, que acusam o ocidente, em especial britânicos e norte-americanos, de insuflar os protestos.

A China tem disputas territoriais com praticamente todos os seus vizinhos na costa do Pacífico. Disputa com o Japão a posse das ilhas Senkaku. No Mar do Sul da China, disputa as Ilhas Spratly com Vietnã, Filipinas, Malásia e Brunei, além da exclusividade da exploração econômica da área marítima que cada um desses países considera ser sua por direito.

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A cooperação militar entre Rússia e China vem se intensificando. Depois de, no ano passado, tropas chinesas terem participado da Operação Vostok, um grande exercício militar russo, em julho deste ano, a primeira patrulha aérea de longo alcance realizada em conjunto por aeronaves russas e chinesas foi recebida literalmente “à bala” por aeronaves sul-coreanas, que acusaram os russos de terem invadido o espaço aéreo do país.

Em Mianmar, 700 mil muçulmanos da minoria Rohingya foram expulsos de suas aldeias, que foram destruídas, e fugiram para o Bangladesh, gerando uma enorme crise humanitária. Apesar das promessas do governo de recebê-los de volta, não houveram medidas efetivas, e os sinais de perseguição às minorias continuam.

Na região da Caxemira disputada por Índia e Paquistão, duas potências nucleares, as tensões atingiram o ápice. Após ter perdido 42 militares no maior ataque suicida em décadas na região, e de ter uma aeronave abatida pela Força Aérea Paquistanesa em um combate aéreo, a Índia resolveu recentemente retirar a autonomia da área, aumentando a presença militar e causando protestos veementes da população majoritariamente islâmica da região e do governo do Paquistão.

No Afeganistão, a guerra civil, que se seguiu à invasão norte-americana de 2001, permanece. É considerada a mais longa guerra travada pelos EUA, que ainda mantém um considerável efetivo militar no país. O Talibã foi retirado do poder central, mas permanece controlando partes do território e praticando atentados terroristas contra alvos governamentais e norte-americanos.

No Iêmen, a guerra civil travada por forças apoiadas, de um lado por Irã, e de outro pela Arábia Saudita, já levaram 13 milhões de pessoas a passarem fome, segundo dados da ONU, no que já é considerada a pior crise humanitária dos últimos cem anos.

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No Golfo Pérsico, a reação do Irã à decisão dos EUA de ampliar os embargos econômicos ao país elevou as tensões perigosamente. O Irã abateu uma aeronave remotamente pilotada da Força Aérea norte-americana, que voava em missão de reconhecimento na Região. Além disso, aprisionou um petroleiro britânico que passava pelo Estreito de Ormuz. A crise tem reflexos até no Brasil, onde a Petrobras se recusou a abastecer navios iranianos temendo retaliações do governo norte-americano contra a empresa.

A Turquia, país integrante da OTAN, sob o governo Erdogan vem estreitando seus laços com a Rússia, inclusive militarmente, tomando a decisão de adquirir baterias de mísseis antiaéreos daquele país. Além disso, o governo Turco posiciona-se militarmente de forma contrária aos interesses da própria OTAN na guerra da Síria, por exemplo, atacando os Curdos, aliados dos norte-americanos naquele conflito.

Como se vê, não são poucos os pontos de tensão existentes na Ásia. Outros ainda poderiam ser citados, inclusive a questão árabe-israelense, mas não caberiam neste espaço. Disputas geopolíticas, conflitos étnicos e ideológicos, rivalidades ancestrais, tudo isto convive com uma expressiva expansão do poderio militar dos países da Região. Os tambores da guerra já se fazem ouvir por toda a Ásia. Que não se tornem ensurdecedores.


*Paulo Roberto da Silva Gomes Filho é Coronel de Cavalaria formado pela Academia Militar das Agulhas Negras em 1990. Foi instrutor da ECEME. Realizou o Curso de Estudos de Defesa e Estratégia na Universidade Nacional de Defesa, em Pequim, China, entre 2015 e 2016. E-mail: paulofilho.gomes@eb.mil.br


 

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