A invasão da Polônia pela Alemanha

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Por Reis Friede*


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Segundo a quase unanimidade dos estudiosos sobre o tema, ADOLF HITLER tinha como principal objetivo de governo a expansão da nação germânica em direção às vastas extensões territoriais do Leste europeu, sendo certo, segundo afirmação corrente na historiografia, que a obtenção de uma hegemonia ideológica mundial, nos exatos moldes do comunismo stalinista, jamais fez parte do desígnio hitleriano, de forma diversa do senso comum, tão defendido por uma expressiva parcela de estudiosos, cuja percepção, a nosso ver equivocada, não condiz com a realidade dos fatos históricos.

Em perfeita consonância com essa meta finalística, em 7 março de 1936, fazendo ouvidos moucos para o Tratado de Locarno (concluído em 16 de outubro de 1925, pelos governos da Alemanha, Bélgica, França, Inglaterra e Itália), – pacto que permitiu o ingresso da Alemanha na Liga das Nações, integrando-a aos termos do Tratado de Versalhes (1919), e que, dentre outros, previa que a nação germânica mantivesse a área da Renânia desmilitarizada –, HITLER denunciou unilateralmente o mencionado acordo, determinando, por meio de seu Ministro da Guerra, General WERNER VON BLOMBERG (1878-1946), que as tropas alemães reocupassem a área em questão, uma vasta região fronteiriça localizada entre a Bélgica, a França e a Alemanha, território que, segundo as cláusulas do aludido tratado, deveria permanecer desmilitarizado, isto é, sem a presença de efetivos militares, quartéis ou fortificações defensivas alemães. A ideia central dos belgas e franceses era que a região da Renânia funcionasse como uma espécie de “zona tampão”, evitando, assim, futuras agressões por parte da Alemanha. Com efeito, aos 7 de março de 1936, em uma clara ofensa ao princípio da santidade dos tratados, e através de um movimento de “surpresa”, tropas alemães cruzaram as pontes do Rio Reno e entraram na zona desmilitarizada1.

Não obstante a remilitarização alemã, na referida região, constituir uma grave e flagrante violação das regras do mencionado acordo internacional, tal proceder não foi rechaçado por franceses e ingleses, tornando-se, rapidamente, um “fato consumado”. É fato histórico que o máximo que o General MAURICE GAMELIN (1872-1958), então Chefe do Estado-Maior Geral da França, efetivamente fez foi reforçar a denominada Linha Maginot, o que se deu através da concentração de 13 divisões próximas à fronteira franco-germânica. Por sua vez, o passivo Reino Unido, acreditando que a ação de HITLER não constituía uma real ameaça de que novas e subsequentes hostilidades seriam perpetradas pelo líder nazista (e, também, a par das razões expostas por HITLER para a ação epigrafada), não se encontrava disposta a enveredar por uma ofensiva militar contrária à audaciosa medida tomada por HITLER, ainda que o poderio militar britânico, naquela ocasião, fosse muito superior às forças da Reichswehr.

Cumpre registrar que tal inércia francesa e britânica aviltava os próprios termos do que havia sido acordado em Locarno, uma vez que, segundo o texto subscrito em 1925, a França encontrava-se perfeitamente autorizada a intentar medidas contra a presença militar germânica na Renânia. Da mesma forma, consoante o mesmo tratado, cumpria ao Reino Unido, por intermédio de suas forças armadas, apoiar os franceses em tal empreitada. Entretanto, o que se observou naquela quadra foi não apenas o esquivo, por parte de franceses e britânicos, mas também um determinado “crédito” dado por estes às persistentes propostas de “paz” formuladas por HITLER, em seus enfáticos discursos seguintes aos fatos, – com fundamento em apontadas e supostas violações ao Tratado por parte dos demais signatários2 –, que, em certa medida, acabou por explorar a ausência de determinação nacional revelada pelas lideranças de ambos os países. Em suma, a ação contra a Renânia, não obstante refletir muito pouco em termos operacionais, funcionou como uma espécie de incentivo aos propósitos hitlerianos, abrindo para o Führer outras possibilidades, fundamentadas em novos argumentos, no seio da Europa, o que não tardaria a acontecer.

Nesse sentido, em 1938, fortalecido pela reorganização e recomposição de suas forças armadas, HITLER anexou o território austríaco3, episódio que restou conhecido como Anschluss, palavra do idioma alemão que, em tradução livre, possui o significado de anexação. Os britânicos e franceses, muito embora tenham externado grande insatisfação com mais essa desafiadora empreitada do líder do Terceiro Reich, novamente quedaram inertes quanto a qualquer resposta efetiva.

Ainda no mesmo ano, HITLER decidiu retomar os sudetos tchecos, região de fronteira com o território da Alemanha à época, argumentando, para tanto, que grande parte da população daquela região era composta por alemães étnicos. Utilizando-se da mesma linha argumentativa, HITLER exigiu e obteve a anexação de tais territórios. Houve protesto por parte de franceses e ingleses, mormente através de duras críticas de ÉDOUARD DALADIER (Presidente do Conselho de Ministros, correspondente ao cargo de Primeiro-Ministro) e de NEVILLE CHAMBERLAIN (Primeiro-Ministro da Inglaterra), episódio que culminou em uma longa negociação com a Alemanha, e que acabou por envolver, inclusive, BENITO MUSSOLINI, ditador da Itália fascista.

Como resultado da árdua negociação, um acordo (Acordo de Munique, vulgarmente denominado de “Sentença de Munique” ou “Traição de Munique”) foi firmado no sentido de que os sudetos seriam o último ato de anexação alemã, proposta aceita pacificamente pelos ingleses, franceses e italianos. Historicamente, esse episódio ficou conhecido como a “política do apaziguamento”4, um ato que buscava fazer concessões à HITLER, – mormente porque todas elas, de alguma forma, encontravam abrigo em interpretações das próprias leis internacionais e em específicas hermenêuticas do próprio Tratado de Locarno –, imaginando-se, portanto, que, dessa forma, o ditador da Alemanha se contentaria e cessaria sua política destinada à novas conquistas.

A percepção de CHAMBERLAIN quanto ao pactuado com os alemães parecia ser a melhor possível. Ao retornar à Inglaterra, o Primeiro-Ministro britânico foi simplesmente ovacionado. Quando de sua chegada, NEVILLE, no seu célebre discurso proferido ainda no aeroporto, revelou acreditar solenemente que HITLER cumpriria a promessa firmada. Na ocasião, paz em nosso tempo (peace in our time) foram as históricas e emblemáticas palavras esperançosamente ditas por um crédulo Primeiro-Ministro perante uma multidão que o aguardada delirantemente. Mais enfático ainda é momento em que CHAMBERLAIN acena com uma folha de papel branca nas mãos, gesto realizado em alusão ao pactuado em Munique.

Entretanto, HITLER, – que jamais planejou uma guerra contra os franceses e britânicos, entendendo perfeitamente legítimas suas aspirações e conquistas –, interpretou a celebração do acordo como uma espécie de “carta branca” para a anexação de grandes extensões da então Checoslováquia, o que, em certos aspectos, transcendia as inexatas fronteiras delimitadoras dos sudetos.

Para “surpresa” dos menos incautos, em março de 1939, exatamente um ano após a primeira ação anexadora, HITLER ignorou o que fora finalmente acordado, acreditando novamente em uma fraqueza de determinação nacional dos franceses e ingleses (considerando o não-enfrentamento perante suas ações iniciais) e, numa audaciosa ação, terminou por tomar a totalidade do território da Checoslováquia. Mesmo diante de inúmeros protestos diplomáticos por partes dos britânicos, e com o povo francês solicitando que a França e o Reino Unido entrassem imediatamente em guerra com a Alemanha, nenhuma medida bélica em represália foi, naquela ocasião, efetivamente tomada pelas lideranças das democracias ocidentais. O próprio comando militar alemão tinha como plano de contingência a retirada forçada de HITLER do poder, caso a invasão resultasse em uma guerra como resposta.

Após a remilitarização da Renânia e as anexações da Áustria e da Checoslováquia, havia chegado a vez da Polônia “acertar as contas” com as ambições político-territoriais do Führer alemão. E tal “ajuste”, conforme relata a história, além de ter sido “quitado” com muito sangue polonês, revelou, de certa forma, o poderio militar alemão e o caríssimo “preço” a ser “pago” também pelas vacilantes democracias ocidentais europeias, vale dizer, a França e o Reino Unido.

HITLER ostentava uma subjetiva certeza de que os franceses e os britânicos não se colocariam em seu caminho, isto é, em seu projeto de retomar o Corredor Polonês, faixa de terra transferida à Polônia em decorrência da imposição do Tratado de Versalhes (1919), e que, ao mesmo tempo, conferia a este Estado um acesso ao mar Báltico, separava a Prússia Oriental do restante do Reich.

Da mesma forma, apesar de se encontrar sob a supervisão da Liga das Nações, a Cidade Livre de Dantzig, criada em conformidade com o mesmo tratado, o qual determinou que a região deveria permanecer separada da Alemanha derrotada, era dominada economicamente pela Polônia, situação que, a toda evidência, HITLER, mais ou mais tarde, não toleraria. Afinal, como ele mesmo dizia em suas arengas: “Dantzig é alemão, será sempre alemão, e mais cedo ou mais tarde voltará a fazer parte da Alemanha”. Por conta disso, a nação polonesa tornou-se o novo alvo das investidas expansionistas do Terceiro Reich.

A Polônia, assim como a Checoslováquia, possuía um pacto de defesa com a França e o Reino Unido. Todavia, exatamente como ocorrera no episódio tcheco, o Führer acreditou que o pacto entre a Polônia, a França e a Inglaterra também seria ignorado, e que aquelas potências não retaliariam a mais recente agressão alemã destinada a buscar o Lebensraum5. Com esse pensamento em mente, HITLER, no dia 1° de setembro de 1939, com um efetivo de dois milhões de soldados, apoiados por cerca de dois mil e oitocentos blindados, nove mil peças de artilharia e dois mil e trezentos aviões, invade a Polônia6 pelo norte, a partir da Prússia Oriental, e também pelo oeste e pelo sul, através da Checoslováquia.

As três frentes de ataque tinham como ponto de convergência a capital polonesa, a Cidade de Varsóvia. Os polacos, com cerca de seiscentos mil soldados na ativa e trezentos mil na reserva, não eram minimamente equiparáveis à máquina de guerra germânica. Novamente, como se estivessem seguindo uma espécie de “manual” para, na concepção franco-britânica manipuladamente, forjar situações que lhe permitiriam pôr em prática seu intento beligerante, os alemães criaram uma série de justificativas para a invasão da Polônia, argumentando, por exemplo, que eles haviam sido atacados por primeiro, e que a ação militar desencadeada no dia inaugural do mês de setembro de 1939 configurava apenas uma medida defensiva. Neste dia, por volta das quatro da manhã, as forças alemães realizam um bombardeio à cidade de Wielun, episódio que constituiu, assim, o primeiro ato de guerra, e que ensejou mais de mil e duzentas baixas civis. Minutos depois, um encouraçado alemão abre fogo contra Dantzig. Às oito da manhã, as tropas alemães invadem a cidade de Mokra.

Ao fim de sua ação inicial, a Alemanha recebia veementes protestos do Reino Unido e da França, que exigiam o imediato recuo das tropas alemães para seu lado da fronteira, pedido completamente ignorado por Berlim. Era tarde demais. Os poloneses já experimentavam na carne o rugir do poderio alemão, cuja tática Blitzkrieg (“guerra-relâmpago”), aplicada em nível operacional, promovia ataques rápidos e de surpresa contra uma Polônia literalmente indefesa, atônita e aterrorizada7, terror que se tornaria habitual para centenas de milhares de pessoas na Europa e na Ásia durante os seis próximos anos, e que culminaria com o lançamento da primeira bomba atômica sobre o Japão (integrante do Eixo), em 1945, revelando, pois, a absoluta possibilidade de extermínio total da espécie humana.

Finalmente, no dia 3 de setembro de 1939, e após uma série de sinais vacilantes, britânicos e franceses, em resposta às agressões aos poloneses, declararam guerra à Alemanha, oficializando o início da Segunda Guerra Mundial, conflito que gerou mais de 70 milhões de baixas civis e militares, sendo, de longe, o maior e mais sangrento conflito bélico da história da humanidade

Notas Complementares

1 A Remilitarização da Renânia sob a Ótica de HITLER

Vale lembrar que o Tratado de Versalhes, abrangendo inicialmente todos os seus signatários, propunha a redução bélico-militar de todos os países envolvidos (e não apenas da nação germânica), ainda que seu processo fosse objetivamente iniciado pelo Estado alemão, que, de fato, cumpriu com o tratado, chegando a não possuir Força Aérea e mantendo um efetivo ativo de apenas 15.000 homens na Força Naval e 100.000 nas Forças Terrestres.

No entanto, França e Reino Unido, segundo a ótica de ADOLF HITLER, seguiram na contramão do tratado, assegurando investimentos na modernização de suas tropas. Posteriormente, em 1937, em Genebra, HITLER sugestionou a limitação de certas categorias de armas, como bombardeios e armas pesadas para todos os Estados membros da Liga das Nações, incluindo a URSS, recém ingressada em 1934. Porém, como suas propostas não foram concretizadas, o então líder do Reich sentiu-se completamente livre das restrições gerais impostas pelo acordo e começou a reconstruir suas Forças Armadas.

2 As Supostas Violações Franco-Britânicas ao Acordo de Locarno

Nos anos de 1921 e 1923, França e Bélgica se aproveitaram da desmilitarização alemã no Reno para ocupar a região do Vale do Ruhr (rica em carvão mineral). Em 1925, a Alemanha assinou o Pacto de Locarno, concordando em manter seu compromisso com a desmilitarização na área da fronteira oeste. Essa medida lhe assegurou um assento na Liga das Nações. Em troca, França, Bélgica e Alemanha acordaram não mais reclamar territórios uma das outras.

No entanto, dez anos após a assinatura do acordo, a França, sob a ótica alemã, passou a violar seus termos, assinando um Tratado de Cooperação Mútua com a URSS, recém incorporada à Liga das Nações (em 1934). A partir dessa iniciativa, HITLER não se viu mais obrigado a respeitar o Pacto de Locarno, enviando então, em março de 1936, suas tropas para o território alemão do Reno. Mesmo sendo desaconselhado por seus líderes militares e pelos principais responsáveis pelas relações exteriores germânicas, – por conta de uma possível reação militar francesa –, HITLER decidiu seguir seu curso de ação na região do Reno, acreditando que a resposta de Paris seria tímida e meramente retórica.

3 A Anexação da Áustria pela Alemanha

O próximo passo da política externa de HITLER foi buscar a reanexação da Áustria ao Reich (lembrando que este país, antes da Primeira Guerra Mundial, era parte integrante da Alemanha e mais de dois terços de seu povo era alemão), ainda que, com um histórico de diversas tentativas anteriores frustradas, conduzidas por agentes externos, que permitiu que a Áustria seguisse separada da Alemanha até o ano de 1938, quando, durante um regime ditatorial, foi votado um plebiscito (supostamente manipulado) com o propósito de se decidir (ou não) pela reanexação alemã. O então Secretário de Estado Alemão, HERMANN GÖRING, que assim como HITLER, nasceu na Áustria, assistia inquieto a uma pouco disfarçada manipulação de votos, ocorrida durante o plebiscito, e ameaçou o envio de tropas para a capital austríaca, fazendo com que KURT SCHUSCHNIGG, então ditador austríaco, renunciasse. No dia seguinte, as tropas alemãs tomavam as ruas do país austríaco e eram recebidas com grande jubilo pela população, o que foi amplamente documentando em filmes da época. Tendo, logo em seguida, as tropas austríacas, em reciprocidade, desfilado em território alemão, como uma demonstração de anexação pacífica (e duplamente desejada), afastando qualquer versão de conquista territorial, tendo sido esta firmada oficialmente em abril de 1939, através de um referendo onde 99,73% da população votou pela reanexação do País à Alemanha.

4 O Mito sobre a Política do Apaziguamento de CHAMBERLAIN

Algumas correntes de pensamento conduziram o senso comum a conceber uma imagem distorcida de NEVILLE CHAMBERLAIN, rotulando-o como um Primeiro-Ministro fraco e ingênuo perante as ações de ADOLF HITLER. Porém, naquela época, eram conhecidas (até porque foram publicadas no livro Mein Kampf, Minha Luta, 1925) as ambições territoriais de HITLER na direção do leste europeu, sobre a União Soviética, uma inconveniente nação totalitária, com viés ideológico comunista e, portanto, contrária às concepções capitalistas liberais inglesas e francesas.

Nesse sentido, CHAMBERLAIN tinha grande convicção de que a expansão alemã se daria exclusivamente para os territórios da União Soviética, e não sobre a França e os países ocidentais. A única falha de percepção estratégica que se pode atribuir ao então Primeiro-Ministro britânico reside no fato de que ele não percebeu que um novo paradigma para as guerras encontrava-se em formação naquele momento histórico. Equivocamente, NEVILLE acreditava que aquele novo conflito que já se aventava no horizonte não ostentava um caráter ideológico, mas sim uma clássica motivação territorial expansionista (Lebensraum).

WINSTON CHURCHILL, por sua vez, tinha outra percepção, que acabou por se tornar a tônica da Segunda Guerra Mundial, bem como a razão fundamental da luta impendida pelo Reino Unido contra a Alemanha Nazista. Para este grande estadista inglês, ainda que os Nazi não estivessem com suas intenções voltadas diretamente para o Reino Unido e a França, as concepções político ideológicas de HITLER eram invariavelmente contrárias à instituição do Estado Liberal, modelo defendido por ambas as nações.

“A diferença entre as facções de CHAMBERLAIN e CHURCHILL não é que houvesse entre elas uma que estivesse disposta a capitular frente ao imperialismo e outra que não. Era um conflito sobre a maneira mais efetiva de preservar o Império e opor-se a Hitler […] por um curto período; alguns dos ‘apaziguadores’ jogaram com a ideia de desviar a agressiva dinâmica do imperialismo alemão contra a URSS, mas depois da ocupação de Praga ficou claro para eles que a conquista do Leste da Europa por Hitler daria a este uma força formidável para chocar contra o Império Britânico.” (ERNEST MANDEL; El Significado de la 2ª Guerra Mundial, México, D.F., Fontamara, 1991, p. 30)

Vale frisar, por oportuno, que as posições francesas e britânicas, expostas publicamente, dentro da chamada “política do apaziguamento”, não eram simplesmente “ingênuas” como muitos historiadores sustentam, posto que já eram muito bem conhecidas as aspirações expansionistas soviéticas, – de irradiação ampla do comunismo sobre todo o mundo, com o início sobre a chamada Hertland (Eurásia) –, e do plano de STALIN de “jogar” a Alemanha contra a França e o Reino Unido em um confronto europeu de autodestruição (ou, no mínimo, de enfraquecimento), permitindo a um renovado Exército Vermelho (à época ainda em desenvolvimento) dominar completamente toda a Europa Central e Ocidental, razão da não participação da URSS em todos encontros e tentativas de acordos de paz com a Alemanha e motivo principal da recusa da França e do Reino Unido (e da própria Polônia) de celebrar com a URSS um pacto de defesa (ampliado) em relação a uma previsível invasão germânica ao território ocidental polonês, lembrando, ainda, que a URSS invadiu, sem qualquer oposição por parte dos franceses e britânicos, a parte leste da Polônia, dividindo-a com os alemães.

5 O Conceito de Espaço Vital (Lebensraum) em suas Vertentes Ampla e Estrita

O tema concernente ao denominado Lebensraum (espaço vital), de forma diversa da simplicidade com a qual é frequentemente abordado, revela uma certa complexidade conceitual, uma vez que pode ser classificado em duas diferentes categorias. Nessa perspectiva, é possível conferir ao termo em questão um sentido amplo (relativo à expansão territorial deflagrada por ADOLF HITLER, quer sobre territórios outrora pertencentes à Alemanha, e habitados por pessoas de nacionalidade germânica, quer sobre regiões que jamais pertenceram à nação alemã e/ou foram, no passado, habitadas por seus nacionais), bem como um sentido estrito (alusivo à reanexação de territórios pertencentes à Alemanha, mormente em ocasiões pretéritas à Primeira Guerra Mundial, e ocupados por integrantes de seu povo, em sua esmagadora maioria).

Destarte, interessante registrar, por oportuno, alguns momentos anteriores da política externa nazista, especificamente quanto ao período compreendido entre 1933 a 1938, quando o Terceiro Reich deflagrou uma política que restou conhecida por seu aspecto revisionista, e na qual o objetivo declarado era a superação de diversas restrições impostas pelo Tratado de Versalhes (1919) à Alemanha derrotada na Primeira Guerra Mundial, e, particularmente, a reanexação de territórios outrora pertencentes à Alemanha e povoados por habitantes germânicos. A propósito, um dos exemplos mais incipientes e emblemáticos desse período histórico foi a remilitarização do território da Renânia, episódio ocorrido em 7 de março de 1936, evento este que, embora não tivesse o propósito direto de promover uma política de obtenção de espaço vital em seu sentido estrito, pode ser perfeitamente inserido na vertente ampla do conceito de Lebensraum.

Nesse sentido, era um tanto evidente que o Chanceler nazista não se contentaria com singelas revisões a serem empreendidas, com ou sem o acordo das potências ocidentais, no Tratado de Versalhes. Seus objetivos, obviamente, eram muito maiores, uma vez que ADOLF HITLER acreditava solenemente que a criação de um Estado dotado de grandes dimensões territoriais, e que unificasse todos os alemães sob o mesmo teto nacional, era fundamental para o povo alemão e para forjar a Grande Alemanha, o que se iniciaria com a noção de Lebensraum em seu sentido estrito.

Porém, muito além desse objetivo inicial, a ideia preponderante na liderança nazista era que a raça ariana, tendo em vista sua suposta superioridade, demandava e merecia um espaço territorial ainda mais amplo, condizente, pois, com a sua autoproclamada grandeza, mormente no que se refere ao abastecimento de matérias-primas e de alimentos. Era necessário, dizia HITLER, garantir a segurança e a sobrevivência do Terceiro Reich, cuja longevidade, na ótica hitleriana, duraria mil anos (o propalado “Reich de Mil Anos”), mas que durou apenas doze, isto é, de 1933 a 1945, dentro de um contexto de Lebensraum, notadamente em seu aspecto conceitual mais dilatado.

“‘O objetivo da política alemã’, [disse HITLER], ‘é tornar firme e preservar a comunidade racial e engrandecê-la. Trata-se, por conseguinte, de uma questão de espaço (Lebensraum)’. Os alemães, [expôs HITLER], tinham ‘o direito de um maior espaço vital que os demais povos (…). O futuro da Alemanha achava-se, portanto, inteiramente condicionado à solução do problema da necessidade de espaço’”. (WILLIAM L. SHIRER; Ascensão e Queda do Terceiro Reich: Triunfo e Consolidação (1933-1939), vol. I., Rio de Janeiro, Agir, 2010, p. 409).

Conforme amplamente relatado pelos historiadores, HITLER, no contexto de sua doutrina racista e de sua política externa, entendia que, segundo as leis da natureza, os povos considerados mais “fortes” (o que incluía, obviamente, a raça dita por ele “superior”, isto é, os arianos) deveriam subjugar aqueles rotulados como “fracos”, tese que, a toda evidência, trazia no seu bojo um suposto “direito” de lutar pelo denominado Lebensraum, expressão que, considerada em sua tradução mais elástica, “era um elemento importante da ideologia imperialista alemã desde a década de 1890” (IAN KERSHAW; Hitler, São Paulo, Companhia das Letras, 2010, p. 186), muito anterior, portanto, à própria edificação do Terceiro Reich, mas da qual HITLER se apropriou.

Tal expressão, originalmente formulada pelo geógrafo político alemão FRIEDRICH RATZEL (1844-1904), autor da obra Politische Geographie (Munique, Leipzig, 1897), e considerado o fundador da geografia humana, bem como o responsável pelo estabelecimento da geografia política como disciplina, foi posteriormente encampada pelo também geógrafo político e general alemão KARL ERNST HAUSHOFER (1869-1946), para quem a designação em tela traduziria um pretenso “direito”, inerente à uma determinada nação, de buscar e anexar os territórios considerados imprescindíveis para a satisfação das demandas de seu contingente populacional, independente do pertencimento territorial por razões históricas ou étnicas e, portanto, muito diferente dos argumentos iniciais que foram usados por HITLER para a ocupação (ou reanexação) da Áustria, dos Sudetos, do restante da Checoslováquia e de parte do território polonês, no início da Segunda Guerra Mundial.

Segundo relata a literatura (IAN KERSHAW; Hitler, São Paulo, Companhia das Letras, 2010, p. 132 e 651), a aproximação, pelo mesmo no campo das ideias, entre HAUSHOFFER e HITLER ocorrera por intermédio de RUDOLF HESS, que estudou geopolítica com o aludido geógrafo. Não obstante a influência exercida por KARL HAUSHOFER, no que concerne à política expansionista do Reich Nazista, ainda ser objeto de controvérsia, IAN KERSHAW a reconhece como algo provável.

“HITLER dificilmente deixou de ler os escritos imperialistas e geopolíticos em circulação sobre ‘espaço vital’. Entre eles, parece altamente provável que as obras de KARL HAUSHOFER, o maior expoente da ‘geopolítica’, tenham sido uma fonte significativa para sua noção (ampla) de Lebensraum, lidas em primeira mão ou de forma resumida. Por intermédio de RUDOLF HESS, HITLER já conhecia KARL HAUSHOFER antes de 1922. A influência desse autor foi provavelmente maior do que esse então professor de Munique se dispôs a reconhecer mais tarde. Se não conhecia suas obras antes, é certo que HITLER teve tempo de lê-las na prisão [de Landsberg, quando lá esteve pelo fato de ter sido condenado em decorrência do fracassado golpe de Estado perpetrado por ele e outras lideranças do Partido Nazista, episódio ocorrido em 9 de novembro de 1923], bem como as de FRIEDRICH RATZEL, o outro teórico importante da geopolítica”. (IAN KERSHAW; Hitler, São Paulo, Companhia das Letras, 2010, p. 187).

FRIEDRICH RATZEL, na seção1, capítulo 2, do referido texto de 1897, assevera que “a forma correta de entender o Estado é considerá-lo como um organismo, que se encontra enraizado ao solo”. Tal frase expressa, portanto, uma certa unidade orgânica entre o homem e a sua pátria (Heimat), cuja definição, consoante assevera JEFF MALPAS [Geografia, Biologia e Política: Heidegger Sobre Lugar e Mundo, Natureza Humana 11(1): 171-200, jan./jun. 2009], “está ligada às ideias do lugar de origem de alguém, o lugar ao qual se pertence, não somente no sentido da região de onde se vem e onde ainda se poderia morar; mas também no sentido de lar da infância de alguém”. Nesse sentido, a ideia de espaço vital ainda resta adstrita a condicionantes de pertencimento por razões históricas, étnicas ou culturais e, portanto, ainda não pode ser considerada em sua vertente ampliada.

Tal conexão (entre o homem e a sua pátria) permite compreender o porquê de as ideias de RATZEL terem sido apropriadas por HITLER para dar cabo à sua política não propriamente expansionista, mas de recuperação territorial, deflagrada em março de 1938 (quando se deu o chamado Anschluss, vocábulo alemão que significa anexação, mas que ilustra, na prática, a reanexação político-militar da Áustria por parte da Alemanha Nazi), cujo objetivo era retomar antigos territórios ocupados por alemães étnicos.

Todavia, a noção de Lebensraum não foi somente apropriada por HITLER. A bem da verdade, dito em sua linguagem mais objetiva, o conceito em questão foi ampliado em sua hermenêutica originária, de modo que ele pudesse abarcar também a ocupação (mediante anexação por invasão) de outras terras, mormente as habitadas por aqueles que os nazistas pejorativamente denominavam de “sub-raças” (vale dizer, “racialmente inferiores”), tais como os eslavos, cujo destino, na ótica de HITLER e de seus sectários, deveria ser a escravização, a expulsão ou o extermínio. Percebe-se, portanto, a simbiose programática entre o pensamento geopolítico alemão daquela quadra (e sua duplicidade interpretativa) e a doutrina de guerra desenvolvida pela Alemanha a partir da chegada de HITLER à Chancelaria do Reich, em 1933.

Nessa linha de raciocínio, HITLER, convencido de que a noção de Lebensraum instrumentalizava, com perfeição, a política externa nacional-socialista, visão de mundo evidenciada nas programáticas (e, paradoxalmente, tão desconsideradas) páginas de Mein Kampf (Minha Luta), livro escrito por ele em 1925, começa a aplicar tal conceito a fim de amparar um dos propósitos do Estado Nazista. Com efeito, HITLER, empregando o termo em questão, e pretendendo muito mais do que a simples reanexação de territórios que supostamente pertenciam ao povo alemão (e que eram habitados por germânicos), põe em prática seus indisfarçados objetivos expansionistas, seja no que se refere ao aspecto econômico (busca e incorporação de terras ricas em matérias-primas e dotadas de solos férteis, que viabilizassem, assim, o cultivo de alimentos necessários à sobrevivência e ao desenvolvimento da “superior” nação alemã), seja no sentido biológicodemográfico (busca e incorporação de espaços necessários para a fixação geográfica do contingente populacional de origem germânica).

Pensando economicamente, HITLER explanou que os problemas econômicos da Alemanha somente poderiam ser “resolvidos pela obtenção de maior Lebensraum na Europa”, o que seria “impossível sem invadir outros países ou atacar as possessões de outros povos” [WILLIAM L. SHIRER; Ascensão e Queda do Terceiro Reich: Triunfo e Consolidação (1933-1939), vol. I., Rio de Janeiro, Agir, 2010, p. 638]. Tendo em vista esse propósito, HITLER, então, passa a calibrar a máquina nazista de guerra para a obtenção de terras ricas em recursos que, a seu ver, garantiriam a sobrevivência do Estado alemão. E em seus inúmeros discursos, o Führer sinalizava claramente que a Alemanha intencionava se expandir para a Europa Oriental, em especial (vale dizer, não exclusivamente) à custa da Rússia.

A concepção a respeito do denominado Lebensraum, por essa razão, e em nome de um maior rigor acadêmico, necessita de uma impositiva análise classificatória quanto à amplitude terminológica. Nessa perspectiva, conforme delineado, é imprescindível conferir ao termo em questão um sentido amplo, de modo a abarcar a disputa por territórios ocupados por povos germânicos ou não-germânicos, tal como o que HITLER pretendia fazer, neste último caso, ao invadir a Rússia, dando início à Operação Barbarrosa, em 1941. Nesta derradeira hipótese, após a conquista territorial, o próximo passo seria promover o deslocamento forçado (ou até mesmo o aniquilamento) das populações não-germânicas que ali se encontravam. Simultaneamente, ao marchar para o Leste e travar uma guerra com a Rússia, HITLER tinha como um dos propósitos destruir o bolchevismo (o comunismo), evidenciando, de certa forma, o embate ideológico que tão bem caracterizou a Segunda Guerra Mundial.

Por outro prisma, o aludido vocábulo também admite um sentido estrito, de maneira a abranger somente a retomada de regiões historicamente ocupadas por alemães étnicos, os quais, por diversas razões históricas, viviam fora das fronteiras da Alemanha, tais como a Áustria, os Sudetos e a Cidade Livre de Dantzig.

“Por mil anos [disse HITLER em sua proclamação ao protetorado da Boêmia e da Morávia] as províncias da Boêmia e da Morávia fizeram parte do Lebensraum do povo alemão (…). A Checoslováquia demonstrou sua incapacidade inerente para sobreviver, e caiu, portanto, vítima, agora, de verdadeira dissolução. O Reich alemão não pode tolerar contínuos distúrbios nessas regiões (…). Por conseguinte, o Reich alemão, mantendo a lei da autopreservação, está agora decidido a intervir firmemente para reconstruir as base de uma ordem razoável na Europa Central. Por milhões de anos de sua história, já provou que, graças à grandeza e às qualidades do povo alemão, é o único destinado a empreender essa tarefa”. [WILLIAM L. SHIRER; Ascensão e Queda do Terceiro Reich: Triunfo e Consolidação (1933-1939), vol. I., Rio de Janeiro, Agir, 2010, p. 591].

6 HITLER não foi um Mero “Acidente” no Curso da História da Alemanha

É indubitável que o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP – Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), desde os seus primórdios, foi fundamental para a ascensão de HITLER. Não obstante, o Partido, a bem da verdade, revelou-se apenas como mais um “dente” integrante da ampla engrenagem que, como um todo, elevou HITLER ao cargo de Chanceler, em janeiro de 1933, sem que, para tanto, precisasse ser promovido algum golpe, tal como a tentativa que ocorrera em 1923, e que restou conhecida como o Putsch da Cervejaria.

De fato, houve mesmo uma grande coalizão (plenamente democrática, uma vez que constitucionalmente prevista e normatizada) que permitiu que HITLER chegasse ao poder. Entretanto, tal coalizão, tendo em vista o que dispunha a Constituição da Weimar (editada, em 1919, sob um leque de circunstâncias difíceis, notadamente no bojo de um profundo sentimento de derrota nacional) sobre o sistema eleitoral, era, na ocasião, invariavelmente necessária, qualquer que fosse a agremiação partidária. Não se trata, portanto, de um algum mecanismo que tenha alçado especificamente HITLER à Chancelaria.

Como se sabe, a Constituição de Weimar havia introduzido a denominada representação proporcional absoluta. Por conseguinte, se um determinado partido conseguisse apenas 2% do voto popular, receberia 2% das cadeiras no Reichstag. Isto permitiu que partidos “nanicos”, tal como o NSDAP na sua acepção embrionária, pudessem alçar voo e sobreviver no seio da instável política alemã daquela ocasião.

Para compensar, e até mesmo por precaução, uma vez que a democracia alemã estava dando os primeiros passos, a mesma Constituição conferia ao Presidente da República poderes para governar por meio de decreto de emergência (art. 48). A propósito, PAUL VON HINDENBURG (o 2º Presidente da Alemanha, nos idos de 1925 a 1934), ao observar que o sistema de coalizões havia fracassado (uma vez que era quase impossível construir uma maioria parlamentar), usou e abusou do referido instrumento (excepcional) constitucional.

Em suma, o governo era, invariavelmente, por coalização, sendo que a construção de coalizões não era nada fácil, tendo em vista a quantidade de partidos dotados de assento no Parlamento. É fato que o sistema de representação proporcional absoluta conduziu à fragmentação da política partidária alemã, o que se deu com algumas consequências que hoje conhecemos, entre as quais a ascensão de HITLER ao poder.

Some-se a isso o fato de que havia uma multiplicidade de interesses (de diversas naturezas, convém registrar) aos quais os partidos políticos alemães estavam ligados. Por exemplo, enquanto o SPD (Sozialdemokratische Partei Deutschlands; Partido Social-Democrata) representava os membros da classe trabalhadora, o DVP (Deutsche Volkspartei; Partido Popular Alemão) defendia os interesses do grande negócio. Obviamente, tendo em vista a Grande Depressão (1929), – que, dentre outros efeitos, fez cessar os vultuosos empréstimos norte-americanos para a Alemanha –, conciliar os interesses de ambos os partidos revelou-se difícil, o que também contribuiu para que a coalizão entrasse em colapso, dando margem a um período de governo presidencial (1929-1930).

E, da mesma forma, as dificuldades econômicas decorrentes das severíssimas condições impostas pelo Tratado de Versalhes (1919) provocaram, inegavelmente, um profundo ceticismo em relação à incipiente República de Weimar e à própria democracia. A propósito, segundo argumenta DICK GEARY (Hitler e o Nazismo, São Paulo, Paz e Terra, 2010, p. 25), “desnecessário dizer que o Tratado de Versalhes alimentou a propaganda nacionalista”, afirmando, ainda, que, “mesmo no resto da Europa, havia aqueles que acreditavam que a Alemanha fora tratada muito duramente”, crença esta que, de acordo com o mesmo autor, “explica, ainda que apenas parcialmente, as políticas de apaziguamento britânica e francesa ao final dos anos 1930”.

Além disso tudo, “o medo agudo do bolchevismo compartilhado por amplos setores da população deram a HITLER sua plataforma” (IAN KERSHAW; Hitler, São Paulo, Companhia das Letras, 2010, p. 290).

Com efeito, o que HITLER fez, melhor do que qualquer outro, foi beneficiar-se de toda essa conjugação de fatores que vieram à tona naquela quadra, o que lhe permitiu se apresentar como uma espécie de redentor da Alemanha, quando não como um messias, o que, segundo o ditador, teria ocorrido por obra da Providência divina.

Com efeito, forçoso reconhecer, conforme registra IAN KERSHAW (Hitler, São Paulo, Companhia das Letras, 2010, p. 290), que HITLER não foi um mero “acidente” no curso da história da Alemanha: “Sem as condições peculiares em que chegou à proeminência, ele não teria sido nada”, sendo mesmo “difícil imaginá-lo subindo ao placo da história em qualquer outra época”.

7 A Versão Alemã e Soviética da Invasão da Polônia

Não obstante as versões, prevalentes após o final da Segunda Guerra Mundial sobre o tema em epígrafe, vale registrar, com fundamento em diversos documentos soviéticos secretos, os quais vieram a público em 1989, que a invasão da Polônia efetivamente decorreu de uma estratégia adotada por ADOLF HITLER e JOSEF STALIN para promover a divisão, entres si, dos territórios situados no Leste da Europa, tais como a Polônia, Lituânia e Estônia. Tal revelação documental demonstra o real (mas sempre negado) interesse de STALIN em anexar aquela região do Leste europeu, sepultando, em definitivo, toda a linha histórico-argumentativa que apregoava pela existência de uma “pseudo autorização” da Polônia para o ingresso, em 1939, das tropas soviéticas em território polonês.

Nos meses que antecederam a invasão alemã à Polônia, episódio ocorrido em 1º de setembro de 1939, e que deu início à Segunda Guerra Mundial, STALIN (1878-1953), – ainda ressentido, com a França e o Reino Unido, em virtude da ausência da União Soviética, quando da celebração do Acordo de Munique (29 de setembro de 1938) –, deflagrou uma série de negociações com a Alemanha nazista que acabaram culminando na celebração, em 1939, do Pacto de Não-Agressão Nazi-Soviético, assinado pelos Ministros das Relações Exteriores JOACHIM VON RIBBENTROP e  VYACHESLAV MOLOTOV, representando, respectivamente, a Alemanha e a URRS.

Apesar de ser pouco lembrado pela história, é fato que, anteriormente a tal acontecimento, o líder soviético tentou estabelecer uma aliança militar formal com o Reino Unido, a França e a Polônia, visando uma reação coordenada, entre estes países, caso houvesse um eventual e presumível ataque alemão à Polônia. Todavia, além da lentidão dos franceses e dos britânicos no envio de suas respectivas respostas aos soviéticos (desconfiados das futuras intenções expansionistas soviéticas em direção ao Oeste europeu), os poloneses, igualmente receosos quanto às reais intenções de STALIN, recusaram a exigência dos soviéticos, que postulavam a possibilidade de avançar livremente o exército russo sob o território polonês para um pretenso combate aos alemães.

Dessa forma, HITLER, vislumbrando o cenário geopolítico que se desenvolvia na região central da Europa, começou a oferecer vantajosas propostas ao líder soviético, considerando que, em seus termos, além de não lhes exigir nenhuma mobilização militar, ainda lhes oferecia toda a parte oriental da Polônia, – que seria integrada ao território da URSS –, em caso de sucesso na ocupação polonesa pela Alemanha, algo que provavelmente não exigiria grandes esforços militares, posto que o exército polonês, àquela altura, já estaria altamente fragilizado, notadamente em razão dos combates travados com a poderosa máquina de guerra alemã.

Por meio deste acordo, a União Soviética passaria a anexar grandes extensões territoriais que também serviriam, futuramente e sob seu ponto de vista, como uma espécie de “zona tampão” frente a própria Alemanha, além de ter facilitada a sua estratégia de transformar os Países Bálticos (Lituânia, Estônia e Letônia) em parte integrante das repúblicas soviéticas, como, ainda, garantiria tempo suficiente para a reorganização do Exército Vermelho, que ainda se ressentia das graves consequências do grande expurgo de seus mais capacitados líderes militares.

Vale lembrar que, nesse momento histórico, entre os anos de 1936 e 1938, foram promovidas, por STALIN, uma série de violentas perseguições contra militares de alta patente, o que se deu com o objetivo de eliminar o que o ditador soviético denominou de “os inimigos do povo, os arrivistas, os sabotadores hipócritas, os bêbados e os degenerados”.

Contudo, os expurgos, procedidos em proporções gigantescas, revelaram-se uma simples perseguição a qualquer um que levantasse alguma objeção ao regime stalinista. A propósito, estima-se que o número de vítimas orbita na ordem de 950.000 a 1,2 milhões de patrícios, sendo que, entre os mortos, contabilizaram-se 93 dos 139 membros do Comitê Central, 81 dos 103 generais e almirantes do Exército Vermelho, e cerca de um terço dos 3 milhões de membros do Partido Comunista.

No entanto, era imperativo que as negociações com a Alemanha se desenvolvessem de modo secreto, posto que STALIN não queria atrelar a imagem da União Soviética a de uma nação agressora, tal como era considerada, à época, a Alemanha, segundo a ótica das potências europeias ocidentais (França e Reino Unido). Com efeito, o Pacto de Não-Agressão Nazi-Soviético foi cuidadosa e silenciosamente costurado pelos Ministros das Relações Exteriores (RIBBENTROP e MOLOTOV) de ambos os países, tendo sido segmentado em uma parte pública e outra secreta, sendo certo que a parte ostensiva do documento se resumia a um simples pacto de não-agressão, nele não constando nenhuma previsão de invasão (ou “ocupação pacífica”) de forças da União Soviética sobre o território polonês.

Por outro lado, no conteúdo secreto do aludido pacto estava prevista a divisão territorial da Polônia entre a Alemanha e a União Soviética, trecho que restou veementemente negado pela União Soviética até o ano de 1989, quando, finalmente, tornou-se público. Os artigos secretos previam a troca de cidadãos poloneses entre ambos os países, bem como a realização de ações coordenadas de combate a movimentos subversivos.

Entretanto, a União Soviética, até o ano de 1989, e sempre de acordo com a sua versão oficial, insistia em afirmar que a entrada do Exército Vermelho na parte oriental da Polônia objetivava tão somente proteger os cidadãos ucranianos e bielorrussos que viviam nesses territórios, uma vez que, com a invasão alemã, o Estado da Polônia foi oficialmente extinto. Todavia, esse argumento teve sua “verdade” finalmente negada, de modo oficial, pela própria Rússia, tendo em vista a abertura de seus arquivos secretos relativos aos eventos da Segunda Guerra Mundial, quando, então, passou-se a admitir o real interesse de STALIN em anexar aquela região do Leste europeu, sepultando, em definitivo, toda a linha histórico-argumentativa que apregoava pela existência de uma “pseudo autorização” da Polônia para o ingresso, em 1939, das tropas soviéticas em território polonês.

Referências Bibliográficas

  • GEARY, Dick. Hitler e o Nazismo, São Paulo, Paz e Terra, 2010.
  • KERSHAW, Ian. Hitler, São Paulo, Companhia das Letras, 2010.
  • MALPAS, Jeff. Geografia, Biologia e Política: Heidegger Sobre Lugar e Mundo, Natureza Humana 11(1): 171-200, jan./jun. 2009.
  • MANDEL, Ernest. El Significado de la 2ª Guerra Mundial, México, D.F., Fontamara, 1991.
  • SHIRER, William L. Ascensão e Queda do Terceiro Reich: Triunfo e Consolidação (1933-1939), vol. I., Rio de Janeiro, Agir, 2010.

 


*O Desembargador Reis Friede é Presidente do Tribunal Regional Federal da Segunda Região (biênio 2019/21), professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e professor Honoris Causa da Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica. É autor do livro Ciência Política e Teoria Geral do Estado. E-mail: reisfriede@hotmail.com


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  12 comments for “A invasão da Polônia pela Alemanha

  1. Rafael Jesus
    05/07/2019 às 18:26

    Como sempre, excelente artigo

    Curtido por 2 pessoas

  2. dbatta
    06/07/2019 às 14:22

    Excelente!
    Quem quer aprender um pouco e resumidamente sobre um dos maiores fato do sec. XX. a leitura deste artigo é indispensável.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Gabriel M. Gonçalves
    06/07/2019 às 15:45

    Parabéns pelo artigo blog Velho General, em especial ao Reis Friede. Mas quero ponderar os seguintes erros ortográficos: 1º: no 3º parágrafo, 1ª linha está escrito constituir e pelo contexto seria constituiu; 2º: no 13º parágrafo, 4ª linha está escrito mais ou mais tarde, e eu acho que seria mais cedo ou mais tarde. Esses foram os erros ortográficos que eu percebi. Os livros indicados são bem bons. Parabéns pelo artigo Reis Freire, e parabéns pelo trabalho: Albert, Luiz Reis, Valter Andrade, Comandante Robinson Farinazzo, Angelo Nicolaci, Roberto Caiafa e parabéns a todos do Velho General, do GBN News, da revista Tecnologia e Defesa e do canal Arte da Guerra. Parabéns pelo trabalho blog Velho General e muito obrigado por disponibilizar conteúdos de alta qualidade e artigos excelentes, gratuitamente.

    Curtido por 2 pessoas

  4. Luís Fellipe Moreira
    07/07/2019 às 01:22

    Texto Magnífico, parabéns.

    Curtido por 1 pessoa

  5. Carlos Spindula
    09/07/2019 às 16:02

    Excelente texto, parabéns ao articulista e ao site O Velho General por nos brindar com conteúdo tão rico!

    Curtido por 2 pessoas

    • 10/07/2019 às 09:16

      Obrigado Carlos, seus cumprimentos serão transmitidos. Grato por nos acompanhar!

      Curtir

  6. Enoque Lopes Moreira
    10/07/2019 às 10:47

    Parabéns pelo excelente artigo que todos do velho general vem desenvolvendo,este artigo está excelente muito rico em detalhes históricos datas e conhecimento de causa.

    Curtido por 1 pessoa

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