EUA x Irã: Tensão no Golfo de Omã

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Albert-VF1Por Albert Caballé Marimón

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O grupo de batalha do USS Abraham Lincoln e um B-52H Stratofortress da USAF designado para o 20º Esquadrão Expedicionário de Bombardeiros, realizam exercícios conjuntos no Mar Arábico em 2 de junho de 2019 (Foto: US Navy/Mass Comm Specialist 1ª Class Brian M. Wilbur)


A US Navy apresentou mais detalhes que evidenciariam a responsabilidade do Irã ao ataque ao Kokuka Courageous, um dos navios-tanque atacados no Golfo de Omã. Sean Kido, Comandante da US Navy responsável pela Unidade Móvel de Eliminação de Material Explosivo 11 (EODMU 11, Explosive Ordnance Disposal Mobile Unit 11), falou à imprensa nos Emirados Árabes Unidos no último 19 de junho.

“A mina usada no ataque é distinguível e tem uma semelhança impressionante com minas iranianas já exibidas publicamente em paradas militares”, disse Kido. Militares dos EUA já haviam mostrado à imprensa um ímã circular recuperado do casco do Kokuka Courageous. Ambos os navios atacados, o Kokuka Courageous e o Front Altair, encontram-se agora no porto de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos.


Vídeo 637 do Canal ARTE DA GUERRA sobre o incidente


De acordo com Kido, pessoal da US Navy no local informou que os iranianos foram observados retirando a mina usando um pé de cabra. Ele acrescentou que foram encontrados fragmentos de “material de alumínio e material composto” da mina que detonou, acrescentando que foram obtidas informações biométricas – impressões digitais – que poderão ser usadas para responsabilizar criminalmente o autor.

“O dano no buraco da explosão é consistente com um ataque de mina”, continuou ele,  “não é consistente com um objeto voador externo atingindo o navio”. Isso contradiz as declarações de Yutaka Katada, presidente da empresa de navegação Kokuka Sangyo, dona do Kokuka Courageous, que na semana passada afirmou que a tripulação do navio relatou pelo menos um “objeto voador” atingindo o navio.


Vídeo 646 do Canal ARTE DA GUERRA: Prof. Luiz Reis fala sobre o Oriente Médio


O Irã nega veementemente qualquer envolvimento. O ministro da Defesa iraniano, general Amir Hatami, disse ao Pravda que “as acusações contra o Irã são totalmente mentirosas e eu as descarto com firmeza”, acrescentando que os EUA “podem mostrar qualquer filmagem, mas ela não pode ser usada como prova”. Ainda segundo o Pravda, o chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Ali Shamkhani, disse que “apesar de uma campanha de propaganda contra o Irã por seus inimigos, nenhuma guerra se manifestará porque não há razão para uma guerra”, acrescentando que “o Irã mais uma vez transformará todas as sanções dos EUA em oportunidades”.

A DERRUBADA DO RQ-4

Na sequencia de acontecimentos, o Irã derrubou um drone RQ-4 Global Hawk na última quinta-feira, afirmando que ele estava em uma missão de espionagem em seu território. Os EUA afirmam que a aeronave foi alvejada no espaço aéreo internacional, num claro ataque não provocado.


Vídeo 638 do Canal ARTE DA GUERRA: LIVE sobre o incidente


Os RQ-4 Global Hawk, fabricados pela Northrop Grumman, carregam um avançado conjunto de sensores e sistemas de coleta informações de inteligência e operam a grande altitude, sendo capazes de perscrutar seus alvos nos limites territoriais a partir de um ângulo inclinado. Com treze metros de comprimento, trinta e cinco de envergadura e pesando doze toneladas, podem voar a 60 mil pés de altitude por até 32 horas e são bastante ativos na região do Golfo Pérsico e no Golfo de Omã.

A agência de notícias iraniana IRNA informou que a aeronave foi abatida ao entrar no espaço aéreo iraniano próximo ao distrito de Kouhmobarak, na província de Hormozgan. Esta região é próxima de ambos os lados do Estreito de Ormuz.

A região de Hormozgan é uma área patrulhada por aeronaves de vigilância aérea americanas, principalmente não-tripuladas, com o objetivo de colher informações sobre atividades militares, monitorar comunicações e atualizar as bibliotecas de sinais eletrônicos do Irã. Na sequencia dos ataques aos petroleiros, essa atividade é importante também para obter informações e evidências sobre a atuação do Irã na no incidente.


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Mapa divulgado pelo Pentágono mostrando as localizações aproximadas do drone RQ-4 e do local de lançamento do míssil terra-ar iraniano


Os EUA negam que a aeronave tenha entrado em território iraniano. O Tenente General da USAF Joseph Guastella, comandante do Comando Central das Forças Aéreas dos EUA e do Comando Aéreo das Forças Combinadas do Comando Central dos EUA, falou em coletiva de imprensa sobre a derrubada da aeronave e divulgou um mapa mostrando os locais onde o RQ-4 caiu e o ponto de origem do míssil iraniano. Guastella afirmou que, no momento do ataque, a aeronave voava a “elevada altitude” a 34 quilômetros de distância da costa iraniana e caiu em águas internacionais.

Guastella acrescentou que “este ataque perigoso e escalatório foi irresponsável e ocorreu nas proximidades dos corredores aéreos existentes entre Dubai, Emirados Árabes Unidos e Mascate, possivelmente colocando em perigo civis inocentes”.


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O Ayatollah Ali Khamenei inspeciona um sistema 3rd Khordad em uma exposição de armas do IRGC em maio de 2014 (Fars News/Wikimedia Commons/CC BY 4.0)


A mídia estatal iraniana divulgou que a aeronave foi derrubada pelo sistema de defesa aérea 3rd Khordad, um sistema SAM (Surface to Air Missile) com capacidade de abater aeronaves em altitudes médias a altas. O sistema de defesa aérea 3rd  Khordad é uma variante do Raad/Thunder do Irã, que por sua vez á similar ao russo SA-11 Buk.

O Raad foi projetado para atacar aviões de combate, helicópteros, mísseis de cruzeiro, bombas inteligentes e drones. É equipado com os mísseis “Taer” e pode atingir alvos a distâncias de até 50 km e altitudes de 25 a 27 km.

O governo do Irã também divulgou um vídeo mostrando o que seria o momento do ataque do Raad e uma animação da suposta rota de vôo do drone.


Video divulgado pelo governo iraniano


A RETALIAÇÃO AMERICANA

A derrubada levou o governo dos EUA  considerar “medidas de resposta”. As forças armadas americanas poderiam retaliar destruindo alvos relacionados à rede de defesa aérea do Irã. No entanto, o sistema usado para derrubar o RQ-4, o 3º Khordad, é móvel e pode não ser um alvo tão fácil. Donald Trump pode usar medidas diplomáticas e econômicas, aumentando a pressão das sanções e intensificando o isolamento do Irã na comunidade internacional.

Não é uma decisão tão simples: a aeronave derrubada pelo Irã não causou baixas, mas um ataque americano potencialmente causaria muitas baixas iranianas, o que poderia provocar uma nova resposta de Teerã, escalando ainda mais o conflito.

Há controvérsias se o presidente Trump precisa ou não de autorização do Congresso para este ataque. Quando autorizou um ataque de mísseis contra alvos na Síria em abril de 2018, a justificativa foi baseada na autoridade do Presidente de agir no interesse nacional como Comandante em Chefe.

Depois de uma reunião de líderes do Congresso na Casa Branca na noite de quinta-feira, o líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, disse que o governo está considerando “medidas de respostas”, mas não deu detalhes. Já o Senador Chuck Schumer, líder da minoria, disse que a posição do Partido Democrata é que Trump deve obter aprovação do Congresso antes de lançar um ataque. “Uma das melhores maneiras de evitar a guerra, uma guerra que ninguém quer, é um debate aberto e robusto no Congresso”, acrescentou ele.

A presidente da Câmara, Nancy Pelosi, que participou da reunião, disse que é essencial que os EUA continuem “engajados com nossos aliados”. Ela disse em um comunicado que os EUA devem reconhecer que “não estamos lidando com um adversário responsável e faremos tudo o que está em nosso poder para diminuir a escalada”.


Vídeo 643 do CANAL ARTE DA GUERRA sobre o incidente:


Mesmo o presidente Trump parecia estar tentando evitar o conflito, mas afirmou que a derrubada da aeronave não pode ficar sem resposta: “esta é uma nova ruga, uma nova mosca na sopa. Este país não suportará isso, eu posso lhe dizer”, afirmou ele numa coletiva de imprensa conjunta com o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau na Casa Branca.

Segundo divulgado na imprensa na sexta-feira (ontem), Trump aprovou ataques militares contra o Irã em retaliação, mas cancelou os ataques no último minuto, informou o New York Times. O jornal citou uma autoridade dos EUA, que falou sob condição de anonimato, e disse que os alvos incluiriam radares e baterias de mísseis.

Os ataques foram programados para ocorrer pouco antes do amanhecer da sexta-feira para minimizar o risco para os militares iranianos ou para civis. “Aviões estavam no ar e navios estavam em posição, mas nenhum míssil havia ainda disparado quando chegou a ordem de abortar”, disse o oficial. A Casa Branca não fez comentários.

Autoridades iranianas disseram na sexta-feira que Teerã recebeu uma mensagem de Trump através de Omã durante a noite, alertando da iminência de um ataque dos EUA ao Irã. “Na mensagem, Trump disse que era contra uma guerra com o Irã e queria conversar com Teerã sobre várias questões… ele deu um curto período de tempo para nossa resposta, mas a resposta imediata do Irã foi que cabe ao Líder Supremo Aiatolá Ali Khamenei decidir sobre esta questão”, disse um funcionário iraniano à agência Reuters.


Iran Persian Gulf Tensions

O chefe das Forças Aeroespaciais do IRGC, o General Amir Ali Hajizadeh, analisa os escombros do que seria o RQ-4 abatido (Meghdad Madadi/Tasnim News Agency/via AP)


O Irã insiste que o drone foi abatido no espaço aéreo iraniano em uma missão de espionagem, e exibiu partes do que seriam os destroços do RQ-4, que teriam sido recuperados em águas territoriais iranianas. O chefe das Forças Aeroespaciais do IRGC (a Guarda Revolucionária do Irã), General Amir Ali Hajizadeh, disse foram feitas duas advertências antes de derrubar a aeronave.

O presidente Donald Trump afirmou que cancelou o ataque porque as baixas estimadas não eram proporcionais ao abate de um avião não-tripulado. “Nós estávamos prontos para retaliar a noite passada em três locais diferentes quando eu perguntei quantos morreriam. 150 pessoas, senhor, foi a resposta de um general”, disse Trump através de um tweet na manhã de sexta-feira.

Na noite de quinta-feira, Trump disse que os EUA impuseram novas sanções unilaterais contra o Irã. Ele não especificou as novas medidas. “Eu não estou com pressa, nosso Exército está reconstruído, novo e pronto para agir, de longe o melhor do mundo. As sanções estão atuando e mais foram adicionadas na noite passada”, observou ele.

Ainda através do Twitter, Trump também alertou que os EUA nunca permitirão que o Irã tenha armas nucleares. “O Irã nunca poderá ter armas nucleares, não contra os EUA e não contra o mundo!”, enfatizou.


Vídeo 645 do CANAL ARTE DA GUERRA sobre o incidente (Live com o jornalista Roberto Caiafa):


Trump mais tarde qualificou as declarações em uma entrevista no programa Meet The Press, da rede NBC, afirmando que não havia realmente dado a aprovação final para a operação. “Mas ela teria sido dada em breve, e as coisas teriam acontecido a partir do ponto em que você não pode voltar atrás”, disse Trump a Chuck Todd na entrevista, quando perguntado se os aviões já estavam no ar. “Não foi dada luz verde no último momento porque as coisas mudam”.

Não se sabe quais recursos podem ter sido usados na operação. O grupo de batalha do USS Abraham Lincoln inclui o cruzador classe Ticonderoga USS Leyte Gulf, cinco destroieres classe Arleigh Burke e um submarino de ataque da classe de Los Angeles. Todos tem capacidade para disparar mísseis Tomahawk. Os B-52 também podem realizar ataques com mísseis de cruzeiro.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Abbas Mousavi, disse à agência de notícias Tasnim que “independentemente de qualquer decisão tomada pelos oficiais dos EUA, não permitiremos que nenhuma das fronteiras do Irã seja violada. O Irã enfrentará com firmeza qualquer agressão ou ameaça da América”. O General Hajizadeh, disse que “esta é a nossa resposta a uma violação do espaço iraniano e se a violação for repetida, então a nossa resposta será repetida. É possível que essa violação dos americanos tenha sido feita por um general ou por alguns operadores”.


Video divulgado pelo DoD com a trilha de fumaça do drone após ser atingido


Ainda assim, é interessante notar que os próprios iranianos também parecem ter tomado precauções  no ataque ao RQ-4. O General Hajizadeh afirmou que uma aeronave tripulada também violou o espaço aéreo iraniano ao mesmo tempo que o drone, mas que suas forças se abstiveram de destruí-lo. “Com o drone norte-americano na região, havia também um avião americano P-8 com 35 pessoas a bordo”, disse Hajizadeh, segundo a agência de notícias Tasnim. “Esse avião também entrou em nosso espaço aéreo e poderíamos te-lo derrubado, mas nós não o fizemos.”

O P-8 não transporta 35 tripulantes, mas segundo o Washington Post, citando fontes anônimas, um P-8 estaria voando na mesma área naquele momento. A presença do P-8 pode explicar o vídeo divulgado pelo DoD (Departamento de Defesa), mostrando a trilha de fumaça do RQ-4 após ser atingido pelo míssil iraniano.

De qualquer modo, a mensagem implícita do General Hajizadeh é que o Irã poderia ter matado militares americanos, mas decidiu não fazê-lo; talvez ainda haja espaço para evitar uma guerra.


Fontes: China Daily, Defense News, DVIDS (Defense Visual Information Distribution Service), Pravda, Reuters, Tass, The Drive/The War Zone, The Guardian


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  2 comments for “EUA x Irã: Tensão no Golfo de Omã

  1. Jeimes Queiroz
    24/06/2019 às 11:14

    O que chama a atenção e que Trump chegou ao cargo com um discurso de Atirar primeiro e perguntar depois. Mais aparentemente os meadros da Previdência não são simples como ele achava.
    Ou será que ele vai querer passar para a história como pacificador ???

    Curtido por 1 pessoa

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