O AC-130H Spectre da USAF

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Felipe-Ferrari-02 Por Felipe Ferrari*

O AC-130H Spectre, aposentado em 2015, é uma variante do C-130 Hercules, cuja função foi de apoio às tropas terrestres, contando com equipamentos sofisticados para a época, o que a tornou uma aeronave muito útil. Neste artigo vamos apresentar a necessidade do AC-130H Spectre, suas ações em combate, noções do interior da aeronave, além de suas armas e táticas.

A necessidade de uma aeronave de combate

No início da década de 60, as Forças Armadas dos Estados Unidos travavam a Guerra do Vietnam, iniciada em 1954 e encerrada em 1975, no sudeste da Ásia. Milhares de caminhões transportavam suprimentos para os soldados inimigos, sendo que estes caminhões operavam em estradas no meio da mata à noite. Portanto, a USAF necessitava de um tipo de avião específico para destruir estes caminhões de carga.

Este avião seria um “gunship”, que deveria viajar longas distâncias e permanecer voando por longos períodos, além de voar em baixas velocidades para que a tripulação pudesse avistar os caminhões inimigos à noite. O avião também deveria carregar armas poderosas o suficiente para destruir caminhões de grande porte.

DESENVOLVIMENTO DO AC-130H

A USAF realizou mudanças nos aviões conhecidos como AC-47 e o AC-119 para deixá-los mais capazes de destruir caminhões inimigos. Após operarem com sucesso, a Força Aérea decidiu modificar um avião cargueiro, o C-130, transformando-o em um avião armado, um “gunship”. No início de 1967, o fabricante finalizou o primeiro modelo de testes do avião. Pilotos o levaram à sua primeira missão contra caminhões inimigos em 1967. A Força Aérea então solicitou sete modelos finais do avião, os AC-130A.

Posteriormente, a Força Aérea melhorou o AC-130A. Já em 1971, começou a operar o AC-130E: esta versão possuía armamento maior e dispositivos de visão noturna melhorados.

Curiosidade: Além dos EUA, um grupo muito pequeno de países operou ou opera “gunships”, como a Colômbia, por exemplo.


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Em 1967, os pilotos começaram a operar os AC-130A (Foto: Air Force Magazine)

Em 1973, o fabricante finalmente modificou o AC-130E para AC-130H. Este avião já possuía equipamentos de comunicação e mira mais desenvolvidos, além de motores mais poderosos.

POR DENTRO DO AC-130H

O AC-130H é um avião grande e robusto, com quase 30 metros de comprimento e mais de 11 metros de altura. A distância entre as pontas das suas asas, ou seja, sua envergadura, é de aproximadamente 40 metros. Esta dimensão de asas facilita a decolagem e o pouso da aeronave.

O tamanho do AC-130H permite lhe carregar armamentos e um grande contingente de tripulantes. A aeronave pesa até 69.750 quilos (69,7 toneladas) quando carregada em sua capacidade máxima.

PROTEÇÃO

O AC-130H frequentemente voava baixo e em baixa velocidade sobre os alvos. Esta prática permitia que a tripulação protegesse seus soldados e atacasse os alvos, porém, voar baixo nesta situação é perigoso. Tropas inimigas podem atingir aeronaves a baixas altitudes facilmente, por isso, o AC-130H possui placas de metal resistentes, uma blindagem para proteger as partes importantes da aeronave.

O AC-130H também possuía proteção contra mísseis guiados por calor, com sensores em suas pontas. O sensor guia o míssil em direção ao exaustor do avião. Pensando nisso, este avião possuía coberturas em seu exaustor para dispersar o calor produzido.

A tripulação também podia liberar calor na forma de objetos luminosos, os “flares”, para proteger o avião deste tipo de míssil, fazendo com que ele siga os “flares” ao invés da aeronave, como na imagem abaixo.


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AC-130 liberando flares (Foto: U.S. Air Force /Senior Airman Julianne Showalter)

A aeronave também conta com jammer de radar para proteção contra mísseis guiados por radar. O jammer envia sinais eletrônicos fortes o suficiente para confundir o funcionamento preciso do radar inimigo.

Não obstante, a tripulação ainda tinha a disposição os “chaffs”, pequenas barras de metal lançadas pelo avião que refletem energia de volta ao emissor do radar, dificultando assim a sua localização.

MOTORES

O AC-130H possuía grandes motores turboélices. Cada turboélice tem um jato e uma hélice; o motor liga a hélice, e cada hélice ativada produz thrust (impulso). Os turboélices do AC-130H o levavam a uma velocidade aproximada de 480km/h.

EQUIPAMENTOS DE VISÃO NOTURNA

O AC-130H era normalmente operado à noite, e possuía um sistema Forward-Looking Infrared (FLIR) que lhe permitia una melhor visão dos alvos e das redondezas. O sistema FLIR detecta o calor de objetos no ar e no solo. A localização dos objetos é mostrada no cockpit (cabine de comando).

O AC-130H também possuía um sistema de radar para auxiliar a localizar os alvos. Um segundo sistema de radar detectava sinais de sensores eletrônicos no solo.

ESPECIFICAÇÕES DO AC-130H

  • FUNÇÃO: Suporte aéreo aproximado e proteção de tropas
  • FABRICANTE: Lockheed Martin
  • LANÇAMENTO: 1972
  • COMPRIMENTO: 29,8m
  • ENVERGADURA: 40,4m
  • ALTURA: 11,7m
  • PESO: 69.750kg (69,7 toneladas)
  • MOTORES: Quatro turbohélices
  • VELOCIDADE: 483km/h
  • RAIO DE ALCANCE*: 2.414km (ou ilimitado, havendo reabastecimento em vôo)
  • TRIPULAÇÃO: 14 militares

*Não confundir com AUTONOMIA, que é o tempo de voo. O cálculo militar é feito sobre essa variável.

O sistema de televisão de baixo nível de luz ASQ-145A (em inglês, LLLTV – Low Light Level Television), era capaz de captar luz de todas as fontes disponíveis. O sistema pode detectar luzes de difícil visualização para os olhos humanos. O ASQ-145A faz uso da luz para detectar objetos.


Assista ao Vídeo 600 do CANAL ARTE DA GUERRA: Lockheed AC-130: as Versões armadas do Hercules


TRIPULAÇÃO DO AC-130H

A aeronave comportava 14 membros em sua tripulação. Nove tripulantes operavam sensores e armamentos. Operadores de sensores utilizavam equipamentos especializados para localizar alvos. Os militares encarregados dos armamentos operavam as armas e procuravam estar prontos para abrir fogo.

Os outros cinco tripulantes incluíam o piloto, o co-piloto, o navegador, o oficial de controle de fogo e o oficial de guerra eletrônica. O navegador auxiliava os dois pilotos a localizar os alvos. O oficial de controle de fogo garantia o funcionamento das armas, enquanto o oficial de guerra eletrônica protegia o avião des ataques inimigos.

Curiosidade: Todos os “gunships” da USAF são baseados em Hurlburt Field, na Flórida.

ARMAS E TÁTICAS

Os primeiros gunships da USAF tinham apenas armas de curto alcance, e por isso os pilotos precisavam voar a altitudes muito baixas para fazerem uso delas. Nessa situação as tropas inimigas tinham uma ótima oportunidade de abater aeronaves desse tipo.

O AC-130H possui dois canhões capazes de atirar grandes munições chamadas de “shells”. Os canhões são mais poderosos e possuem mais alcance que as metralhadoras.


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Exemplo de munição de 105mm nas mãos de um militar (Fonte: Shapeways)

CANHÕES

O AC-130H portava um canhão de 40mm e outro de 105mm. Os tripulantes geralmente utilizavam o canhão de 40mm contra soldados e veículos inimigos, enquanto que o canhão de 105mm era usado contra carros de combate e bunkers.

A tripulação carregava os canhões de 40mm com as shells, podendo atirar 100 shells por minuto, sendo capaz de perfurar estruturas blindadas, pois esta munição tem seu final pontiagudo feito de aço maciço. O AC-130H também carregava 100 shells de 105mm. Os tripulantes carregavam uma shell por vez no canhão, sendo capaz de disparar 10 shells por minuto. A aeronave possuía um acurado sistema de controle de fogo, possibilitando que a tripulação o acertasse logo no primeiro tiro.


Assista ao vídeo do CANAL AVIAÇÃO MILITAR: Salto operacional do C-130 ao KC-390


TÁTICAS

Muitos modelos de aeronaves podem atirar apenas quando voam em direção a seus alvos. Aeronaves de tiro frontal devem manobrar para realizar o segundo e o terceiro ataque a um alvo em terra, por isso, os soldados inimigos conseguem se abrigar ou fugir antes do próximo ataque.

O AC-130H voava em círculos para atacar alvos em terra. Seus canhões se localizam no flanco esquerdo. Um padrão de ataque circular permite que os canhões atinjam os alvos continuamente. Esta capacidade permanece nos modelos atuais de AC-130.

Em missões de proteção de tropas, o AC-130 não abre fogo, pois caso o faça, o gunship chamará a atenção das forças inimigas. A aeronave voa próxima aos soldados, estabelecimentos ou recursos que está protegendo. A tripulação permanece pronta para abrir fogo se for preciso.

Curiosidade: O canhão de 105-mm é o maior canhão já utilizado em uma aeronave. As munições (shells) do canhão são aproximadamente do tamanho do fêmur de um ser humano adulto.


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Canhões do AC-130 Spectre (Foto: Clemens Vasters/Wikimedia)

SERVIÇO NA FORÇA AÉREA DOS EUA (USAF)

O AC-130 tem sido um equipamento importante da Força Aérea por mais de três décadas. Tripulantes dessas aeronaves tem participado de inúmeras operações militares. Em 1996, um AC-130H participou da Operation Assured Response (Operação Resposta Garantida, em tradução livre). Esta operação socorreu cidadãos dos EUA na Libéria, onde eclodiu um intenso conflito que exigiu o resgate de civis americanos.

Em 2001, o AC-130H participou de missões na Operation Enduring Freedom (Operação Liberdade Duradoura), cujo objetivo era combater os terroristas do Afeganistão.

EVOLUÇÃO DA AERONAVE

A USAF tem desenvolvido o AC-130H durante seu longo período em atividade, atualizando seu sistema FLIR, seu radar e seu sistema de controle de fogo. Os canhões também foram modificados para se tornarem mais leves. No início dos anos 90, a USAF adicionou um GPS no AC-130H, permitindo que os tripulantes tenham mais precisão de sua localização em voo.

AC-130U

Em 1994, a USAF começou a operar o AC-130U, que por sua vez é um substituto do AC-130A. O AC-130U foi construído pela Boeing.


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AC-130U do 4º Esquadrão de Operações Especiais voa perto de Hurlburt Field, Flórida (Foto: USAF/Senior Airman Julianne Showalter)

Esta aeronave possuía um dos mais avançados sistemas de armas do mundo. Os sensores de seus sistemas de controle de fogo podem mirar dois alvos distintos ao mesmo tempo. Ambos os alvos podem estar a até um quilômetro de distância um do outro. Nenhum outro avião de ataque no mundo teria esta capacidade.

Em 2001, os militares anunciaram planos para atualizar e possivelmente substituir os modelos AC-130 por novos gunships com sensores e armamento mais avançados.

Os AC-130H já não estão mais em serviço, porém atualmente, ainda há modelos de AC-130 no serviço ativo da USAF, como o AC-130U, AC-130W e AC-130J que serão utilizados até tornarem-se obsoletos.

BIBLIOGRAFIA

  • U.S. Air Force Special Operations. Roberts, Jeremy.
  • U.S. Armed Forces. Minneapolis: Lerner, 2005.
  • The U.S. Air Force. Doeden, Matt.
  • The U.S. Armed Forces. Mankato, Minn.: Capstone Press, 2005.
  • Warplanes. Graham, Ian.
  • The World’s Greatest. Chicago: Raintree, 2006.

*Foto de capa: AC-130H  Gunship (Military.com)


*Felipe Ferrari é graduado em Logística com foco em suprimentos, familiarizando-se com conceitos de logística militar desde cedo. Fez os cursos Pré-Militar de Oficiais Intendentes da Marinha do Brasil e Gerenciamento de Projetos do Supremo Tribunal Militar. Estudou com  professores do Corpo de Intendentes da Marinha. Aborda o apoio logístico a tropas terrestres, além de navios das Marinhas Mercante e de Guerra. Já esteve a bordo do NDM Bahia, da Corveta Barroso, do Navio de Patrulha Gurupá e do Aviso de Patrulha Marlim.


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