
Da herança soviética à guerra multidomínio: a evolução das Forças Especiais ucranianas revela como descentralização, tecnologia e resistência redefinem as operações contemporâneas, e oferecem ao Brasil lições estratégicas para enfrentar conflitos complexos.
“Não há situações sem saída; há apenas situações cujas saídas você ainda não encontrou.” – Frase comum entre oficiais veteranos do Grupo Alfa (Spetsgruppa “A” do FSB) para definir a resolução criativa de problemas sob fogo.
A priori, destaca-se que a imagem que abre este artigo é um protesto lamentável sobre a luta inglória entre dois povos irmãos, representando nossa responsabilidade social e ética enquanto “formadores de opinião” na promoção da paz e da justiça mundial. No âmbito macro, infelizmente vivemos uma época da história humana, que em 2025 registrou 651 conflitos envolvendo pelo menos um Estado, número recorde desde 1946; já o número de conflitos interestatais chegou a oito, como o da OTAN contra a Rússia.
No âmbito micro, abordar o tema “evolução de operações especiais” com base em fontes abertas desclassificadas envolve vários subtemas, tais como: evolução doutrinária, estrutural-legal, seleção e recrutamento, ambiente operacional, tecnológica (IA, drones e cibernética), Comando e Controle, movimento e manobra, condicionamento físico etc. Por isso, o recorte temático desta análise destacará superficialmente alguns aspectos gerais, sem foco em um único.
A rigor, um estudo sobre Operações Especiais de países do Ocidente reflete apenas um processo científico correto, se considerar o ponto de vista de ambos os lados. Para que nossos Comandos de Operações Especiais (MB, EB e FAB) extraiam o máximo de lições do conflito moderno é imprescindível fomentar estudo e pesquisa cuja premissa adote uma análise com múltiplas perspectivas, por exemplo, conforme se vê da alínea “b” da “Concepção Geral” da “Diretriz para o aprimoramento da capacidade de Operações Especiais do Exército Brasileiro”2, onde: “as capacidades de Op Esp e Op Psc são empregadas em diversos Exércitos de Nações Amigas, com sua doutrina de preparo e emprego semelhantes ao modelo atualmente adotado pelo Exército Brasileiro”. Este é o objetivo do presente artigo.
Tal premissa auxilia uma melhor compreensão do Planejamento e do Processo Decisório Militar de ambos os lados, e a “forma” – Técnicas, Táticas e Procedimentos – sobre “como” são empregados os “meios” de “Operações Especiais” de forma estratégica.
Dito de outro modo, a historiografia e o estudo epistêmico das Operações Especiais em democracias ocidentais incorrem em viés analítico quando negligenciam a simetria metodológica, ou seja, a perspectiva das forças oponentes.
Para extrair lições epistêmicas e doutrinárias empiricamente válidas dos conflitos contemporâneos, como as ações simultâneas na linha de frente e retaguarda do oponente, é imprescindível adotar a triangulação de dados por meio da análise de múltiplas perspectivas. Essa abordagem metodológica holística viabiliza a compreensão rigorosa do processo decisório dos atores em disputa, descortinando como o vetor estratégico das Operações Especiais é articulado e desdobrado nos níveis tático, operacional e político-estratégico da guerra.
A propósito, é a maturidade da pesquisa científica que permite aos analistas entenderem e terem a liberdade, sob a égide da ética e do coleguismo acadêmico, de acolher ou rejeitar um ponto de vista de outro analista, sem jamais descredibilizá-lo em público ou apontar uma crítica que não lhe seja feita antes em particular.
Assim, sob o prisma da metodologia científica aplicada às Ciências Militares, a validação de lições doutrinárias exige um rigor epistemológico que transcende visões unilaterais, consolidando-se por meio do princípio da falseabilidade e do pluralismo analítico. Isto é, o desenho metodológico adequado para salvaguardar a neutralidade axiológica em investigações de alta sensibilidade estratégica se baseia na formulação de quadros conceituais integrados, nos quais o cruzamento de fontes de múltiplos atores atua como mecanismo de controle de vieses.
Portanto, a pesquisa científica pautada na simetria de perspectivas não é apenas uma escolha metodológica opcional, mas um imperativo metodológico correto para mapear com precisão as variáveis do processo decisório e o emprego tático e estratégico das Operações Especiais em cenários de fricção internacional.
Introdução
As Forças Especiais da Ucrânia, sob alguns aspectos, podem não ter o mesmo profissionalismo das armas3, nas palavras de Samuel Huntington e Morris Janowitz, de países do Ocidente, no sentido de uma “educação continuada”, durante a qual o militar profissional passa por um constante processo de formação, adestramento e aperfeiçoamento técnico e tático ao longo de toda a sua carreira, a “subordinação ao poder civil” ou o “domínio da força”.
E também como o ingresso por meio de concurso público, seja para praças, seja para oficiais oriundos, por exemplo, da Academia Militar das Agulhas Negras do Exército Brasileiro e depois um processo seletivo. Já o processo de qualificação ucraniano é baseado no rigoroso “Q-Course” (Curso de Qualificação com duração de 26 semanas), diretamente espelhado no Special Forces Qualification Course dos Green Berets (Boinas Verdes) dos Estados Unidos.
Por exemplo, o Curso de Ações de Comandos e FE do EB tem foco em sobrevivência e resistência, com testes físicos extremos, privação de sono, natação utilitária e marchas de longa distância em ambiente de selva/caatinga/montanha/mar/ar. No ucraniano4, o foco é em resiliência psicológica baseada nos Green Berets com marchas de esforço contínuo com cargas extremas em clima frio/temperado.
Portanto, aquelas unidades foram as primeiras forças de um país não pertencente à OTAN a serem certificadas para operar como parte da Força de Resposta da OTAN (NRF, NATO Response Force), o que comprova que seu nível técnico, interoperabilidade e profissionalismo parecem ser validados internacionalmente pelas próprias potências ocidentais.

O curso ucraniano, diretamente espelhado na matriz dos Green Berets norte-americanos, funciona de forma integrada, enquanto o sistema brasileiro divide rigidamente a progressão do operador em dois cursos sequenciais, realizado pelo Centro de Instrução de Operações Especiais5 (CI Op Esp) tanto no Curso de Comandos6 (CAC) com duração de 14 semanas e carga horária de 2.112 horas com 40 alunos por curso, quanto no Curso de Forças Especiais (CFEsp) com duração de 23 semanas7 e carga horária de 2.260 horas com 24 alunos por curso.
Assim, pode-se inferir que, do ponto de vista militar, o mais alto nível de profissionalismo é medido pela capacidade de cumprir missões complexas sob fogo. Atualmente, as forças especiais ucranianas detêm o maior volume de experiência em combate real de alta intensidade contra uma potência global em todo o mundo. Suas operações de guerra assimétrica, infiltrações profundas, sabotagem e uso avançado de drones superaram em complexidade prática os cenários enfrentados pela maioria das nações ocidentais nas últimas décadas, os quais eram majoritariamente focados em contrainsurgência (como no Afeganistão ou no Iraque).
Já sobre a criação da unidade8 de Forças de Operações Especiais (SSO)9 da Ucrânia, ela se iniciou em 2007 pelo ministro da Defesa Anatoliy Hrytsenko10, com foco em treinamento, preparação e desenvolvimento. Porém, somente em 2011 os EUA e a OTAN, em envolvimento direto e decisivo, convenceram a Ucrânia a levar o treinamento a sério e buscar a prontidão operacional. Somente em 2015 Serhiy Kryvonos11, chefe da Diretoria de Operações do Estado-Maior (nomeado em 7 de outubro de 2014), anunciou a criação de uma estrutura subordinada diretamente ao Ministério da Defesa, diferente do Brasil, por exemplo, onde na Marinha do Brasil, no Exército Brasileiro e na Força Aérea Brasileira, as Forças de Operações Especiais seguem rigorosamente a lógica de subordinação a comandos e setores operacionais, dividindo-se em uma subordinação administrativa e de preparo em tempos de paz e uma subordinação operacional quando desdobradas em missões.
A Efeméride de Dez Anos
Em artigo sobre o tema para o Blog Velho General, o coronel Marco Antonio de Freitas Coutinho escreveu de forma elucidativa o artigo Conhecendo a força ucraniana de Operações Especiais, do qual sugerimos a leitura integral para melhor entendimento do tema.
Embora operem de forma unificada sob o Comando das Forças de Operações Especiais (UKRSOCOM), a divisão interna de suas unidades é feita com base na especialidade da missão (terrestre, naval ou aérea) como:
Componente Naval: O 73º Centro Naval de Operações Especiais é a unidade de elite voltada para operações anfíbias, sabotagem marítima, mergulho de combate e reconhecimento costeiro, atuando de forma semelhante aos SEALs norte-americanos.
Componente Terrestre: Unidades como o 3º e o 8º Regimentos de Propósitos Especiais (Centros de Operações Especiais Leste e Oeste) focam em ações diretas por terra, infiltração profunda e reconhecimento especial.
Componente Aéreo: O 35º Esquadrão Misto de Aviação serve como braço aéreo dedicado exclusivamente a dar mobilidade, transporte rápido e suporte de fogo aos operadores especiais.

Pois bem, o estabelecimento das SSO como ramo independente das Forças Armadas da Ucrânia foi oficializado de forma definitiva pelo Decreto Presidencial nº 311/201612, assinado pelo 5º presidente, Petro Poroshenko13, em julho de 2016, bem como, a Rada Suprema (o Parlamento da Ucrânia) também aprovou, em julho de 2016, o Projeto de Lei nº 4.795, que alterou a legislação do país para definir o status legal, as funções e os procedimentos de engajamento das Forças de Operações Especiais em conformidade com os padrões da OTAN, vejamos:
Consolidação e Transição Padrão-OTAN (2016): Percebendo a vulnerabilidade de não ter uma força centralizada, o parlamento ucraniano aprovou leis de reforma de defesa e o presidente chancelou o Decreto nº 311/2016, que instituiu formalmente o feriado nacional do “Dia das Forças de Operações Especiais” e solidificou o UKRSOCOM (Comando de Operações Especiais da Ucrânia). Foi essa reestruturação “às pressas” iniciada entre 2014 e 2016 que permitiu afastar a doutrina ucraniana do modelo russo e integrá-la aos padrões operacionais e de treinamento da OTAN.
Assim, a evolução do emprego das forças ucranianas, especificamente suas Forças de Operações Especiais (SSO) e o Serviço de Inteligência de Defesa (GUR), reflete uma das maiores transições doutrinárias da história militar moderna, migrando de uma mentalidade de exército de massa soviético para um modelo híbrido focado em guerra assimétrica de alta tecnologia.
A doutrina de Operações Especiais da Ucrânia (SOF) moldou-se como um modelo híbrido único que funde a herança tática pós-soviética com os padrões operacionais da OTAN, forjada diretamente sob a fricção de um conflito de alta intensidade contra uma força convencional superior.
Os princípios fundamentais de Operações Especiais (Opesp) da OTAN são balizados para garantir que essas unidades de elite atuem como vetor político-estratégico de alta precisão e baixo impacto colateral. Diferente das forças convencionais, as Forças de Operações Especiais da aliança guiam-se por critérios rigorosos de triagem e execução.
Toda a doutrina, tarefas e princípios de emprego constam formalmente na publicação classificada NATO AJP-3.5: Allied Joint Doctrine for Special Operations14. Emitido pelo Escritório de Padronização da OTAN (NSO) em Bruxelas, este documento dita como as Forças Especiais de todos os países-membros devem planejar, coordenar e executar missões de forma interoperável.
A doutrina e os manuais de campanha ucranianos passaram por uma profunda reformulação durante o conflito. A principal fonte pública de manuais de campanha, táticas e diretrizes de combate das forças da Ucrânia (incluindo as forças de resistência e Operações Especiais) é mantida pelo Departamento de Treinamento (G7) do Comando das Forças de Defesa Territorial da Ucrânia, em coordenação com o Estado-Maior. Os principais manuais ucranianos disponíveis e os acervos onde constam seus acessos e links oficiais incluem:
Manuais de Campanha e Publicações Militares de Tática (G7): Este acervo centraliza manuais práticos de combate urbano, sobrevivência, táticas de pequenas frações, sabotagem e emprego de sistemas não tripulados (drones). Os documentos são disponibilizados digitalmente pelo arquivo oficial de treinamento no Sprotyv G7 Military Publications15.
Compilação e Repositório dos Manuais do Estado-Maior (Generalstab Archives): Um índice detalhado e centralizado que mapeia a transição doutrinária da Ucrânia, explicando o contexto de criação desses manuais de campo face à invasão russa, pode ser consultado diretamente através do The General Staff Archives – Ukrainian Field Manuals16.
Diretrizes e Organização do Comando de Operações Especiais (SSO): Para compreender a estrutura legal, os princípios de atuação na “zona cinzenta” e a coordenação do Movimento de Resistência (Resistance Movement), as diretrizes institucionais atualizadas estão detalhadas no portal oficial do Special Operations Forces Command (SOF UA)17.
Doutrina de Emprego Geral das Forças Armadas: Os conceitos-macro de interoperabilidade padrão-OTAN adotados pelas Forças Especiais e tropas regulares ucranianas são atualizados diretamente no repositório institucional do Ministry of Defence of Ukraine – Special Operations Forces18.
Com efeito, seus princípios fundamentais assentam-se na resistência nacional descentralizada, na adaptabilidade tecnológica assimétrica e no foco em Ações Indiretas, priorizando a infiltração profunda, a sabotagem de linhas logísticas atrás das linhas inimigas e a guerra de informação coordenada em tempo real.
Portanto, a principal idiossincrasia dessa doutrina reside na sua institucionalização legal da guerra de guerrilha cidadã, onde as Forças Especiais atuam como o núcleo organizador e multiplicador de forças de civis voluntários e movimentos partidários civis, operando de forma altamente fragmentada na “zona cinzenta” e utilizando tecnologia comercial, como drones civis modificados e redes de dados civis e criptografadas, para tentar anular a superioridade de fogo tradicional russa e as condicionantes russas (cenários do ambiente operacional que limitam, orientam ou determinam o planejamento e a execução de uma ação militar como “geografia” e “logística”).
A evolução das Forças Especiais ucranianas (SSO) exigiu alteração doutrinária em um Teatro de Operações do Oeste europeu, caracterizado por distâncias curtas e clima temperado, para enfrentar um Teatro de Operações no vasto território com 11 milhões de km2 e o rigor climático do leste russo com temperaturas médias de -50º, considerando o consumo calórico, a evacuação médica em combate, o desempenho de armas, a qualidade dos combustíveis e fluídos hidráulicos, comunicação, degradação eletrônica de baterias e problemas sobre miras optrônicas, bem como o terreno pantanoso da floresta de Taiga e de Permafrost.
Diante das imensas linhas logísticas e planícies abertas, os ucranianos reconfiguraram suas táticas descentralizando o comando, fortalecendo a resistência local e realizando profundas sabotagens transfronteiriças. Portanto, superaram os desafios geográficos e operacionais ao priorizar o uso de drones e tecnologia multidomínio, redefinindo a guerra assimétrica global contra forças mobilizadas até mesmo do Extremo Oriente.
O avanço geopolítico da OTAN em direção ao Leste Europeu reduziu drasticamente o espaço de “amortecimento” estratégico da Rússia, aproximando forças militares ocidentais das fronteiras de um território que, historicamente, sofreu invasões devastadoras devido à Planície Europeia Oriental, um imenso campo aberto desprovido de barreiras geográficas naturais substanciais que oferece uma “avenida” direta de avanço tático até Moscou.

Sob a perspectiva da Realpolitik e da Segurança Nacional, analistas internacionais apontam que a reação russa, ao estabelecer linhas vermelhas e projetar seu poder militar na região para conter o cerco e dissuadir a expansão da aliança, reflete o comportamento padrão de qualquer superpotência nuclear que enxerga a perda de sua profundidade estratégica e a presença de uma coalizão rival em seu entorno imediato como uma ameaça existencial inaceitável à sua soberania.
A premissa de que a expansão da OTAN violou a profundidade estratégica da Rússia na Planície Europeia e desencadeou uma reação defensiva típica de uma superpotência nuclear é amplamente discutida e endossada por influentes teóricos das relações internacionais, tanto na corrente do realismo ofensivo/defensivo quanto na geopolítica clássica.
Diversos autores americanos e europeus de destaque sustentam estes argumentos, como veremos a seguir.
John J. Mearsheimer (EUA): O Realismo Estrutural
O cientista político da Universidade de Chicago é o autor ocidental mais contundente ao afirmar que a expansão da OTAN causou a crise e que a reação russa é uma resposta lógica de sobrevivência de uma grande potência.
Obra: Why the Ukraine Crisis Is the West’s Fault: The Liberal Delusions That Provoked Putin. | Data: Setembro/Outubro de 2014 | Veículo: Foreign Affairs
Argumento Central (Páginas 77-80): Mearsheimer argumenta explicitamente que os líderes dos EUA e da Europa moveram a aliança militar em direção às fronteiras russas de forma imprudente. Na página 78, ele pontua: “A geopolítica de grandes potências exige a compreensão de esferas de influência. Para Moscou, a anexação da Crimeia e a intervenção na Ucrânia são puramente defensivas, destinadas a impedir que um território de importância estratégica crucial se torne um bastião militar do Ocidente.” Ele acrescenta que qualquer outra grande potência (como os EUA sob a Doutrina Monroe) faria exatamente o mesmo.
George F. Kennan (EUA): O Arquiteto da Contenção
O lendário diplomata e historiador americano, idealizador da estratégia de contenção contra a União Soviética durante a Guerra Fria, previu com exatidão o cenário atual ainda na década de 1990.
Obra: A Fateful Error | Data: 5 de fevereiro de 1997 | Veículo: The New York Times.
Argumento Central (Página A23): Kennan declarou que a decisão de expandir a OTAN seria “o erro mais fatídico da política americana em toda a era pós-Guerra Fria”. Ele justificou afirmando que tal decisão inflaria o nacionalismo e o sentimento de cerco na mentalidade de segurança russa, prejudicaria o desenvolvimento da democracia russa e “comprometeria a capacidade de Moscou de cooperar em segurança internacional”, forçando o país a respostas militares robustas para proteger suas fronteiras.
Tim Marshall (Reino Unido): A Vulnerabilidade Geográfica
Jornalista e especialista em geopolítica britânico, Marshall detalha especificamente a armadilha topográfica da Planície Europeia que foi mencionada.
Obra: Prisioneiros da Geografia: Dez mapas que explicam tudo o que você precisa saber sobre política global | Data: 2015.
Argumento Central (Capítulo 1: Rússia, págs. 13-22): Marshall detalha minuciosamente a Planície Europeia Oriental. Na página 15, ele explica que a Rússia é geograficamente indefesa a partir da Polônia: “Do ponto de vista estratégico, a Planície Europeia se estreita na Polônia, criando um corredor de apenas 480 km. No entanto, à medida que se move em direção à Rússia, esse corredor se alarga por milhares de quilômetros de campos abertos e planos, sem barreiras montanhosas ou rios intransponíveis diretos até Moscou”. Na página 19, ele conclui que nenhum líder russo pode permitir que uma aliança militar hostil domine o final desse funil geográfico sem reagir.
Jack F. Matlock Jr. (EUA): O Olhar Diplomático
Último embaixador dos EUA na União Soviética (1987-1991), Matlock testemunhou o fim da Guerra Fria e corroborou o argumento de que as promessas de não expansão foram ignoradas.
Obra: Superpower Illusions: How Myths and False Ideologies Led America Astray – And How to Return to Reality | Data: 2010 | Editora: Yale University Press.
Argumento Central (Páginas 175-182): Matlock argumenta que a expansão da OTAN para o leste foi um ato de arrogância triunfalista ocidental. Ele pontua na página 178 que a inclusão de estados ex-soviéticos na estrutura militar do Ocidente isolaria e antagonizaria o establishment de segurança de Moscou de forma desnecessária, forçando qualquer governo russo, independentemente de quem estivesse no poder, a restabelecer suas defesas de soberania por meio da dissuasão agressiva.
William J. Burns (EUA): O Alerta da Inteligência Americana
O ex-diretor da CIA no governo Biden e ex-embaixador americano em Moscou (2005-2008), ainda em 2019 enviou memorandos explícitos sobre as “linhas vermelhas” russas muito antes do conflito atual estourar.
Obra: The Back Channel: A Memoir of American Diplomacy and the Case for Its Renewal | Data: 2019 | Editora: Random House.
Argumento Central (Páginas 234-237): Burns transcreve o famoso telegrama secreto intitulada “Nyet Means Nyet” (“Não Significa Não”), enviado a Washington em 2008. Na página 235, ele adverte textualmente: “A entrada da Ucrânia na OTAN é a mais brilhante de todas as linhas vermelhas para a elite russa (não apenas para Putin). Em mais de dois anos de conversas com figuras-chave russas, desde liberais até os mais duros conservadores, ainda não encontrei ninguém que não veja a Ucrânia na OTAN como um desafio direto aos interesses de segurança da Rússia.”
O Emprego Histórico e o Momento da Mudança
“Plantação, colheita e guerra.” – Ditado ucraniano.
Historicamente, após a dissolução da União Soviética em 1991, a Ucrânia herdou as estruturas das unidades Spetsnaz do GRU, KGB e forças do Ministério do Interior (MVD). O emprego dessas forças seguia a Doutrina Soviética tradicional como: a) unidades pesadas utilizadas como infantaria de choque de elite ou batedores de reconhecimento tático direto para formações blindadas, e b) cadeia de comando altamente centralizada e burocrática, onde os oficiais subalternos tinham pouca ou nenhuma autonomia.
O ponto de inflexão decisivo, ictu oculi, ocorreu em 2014, com a anexação da Crimeia e a operação russa no Donbass. Ao perceber a ineficácia do modelo antigo, a Ucrânia iniciou uma reestruturação profunda com o auxílio do Comando de Operações Especiais dos EUA na Europa (SOCEUR) e da OTAN. Em 2016, as SSO foram oficialmente estabelecidas como um ramo independente e moderno das Forças Armadas da Ucrânia.
Aliás, ao contrário do modelo ocidental tradicional (onde cada ramo – Exército, Marinha e Força Aérea – possui e administra suas próprias unidades de elite, como os Navy SEALs na Marinha americana ou o SAS no Exército britânico), a Ucrânia adotou um modelo centralizado. Embora operem de forma unificada sob o Comando das Forças de Operações Especiais (UKRSOCOM), a divisão interna de suas unidades é feita com base na especialidade da missão (terrestre, naval ou aérea).
Evidências Documentais: Manuais de Campanha e Publicações Ocidentais
Essa transição está solidamente documentada em doutrinas oficiais e análises de institutos de defesa ocidentais:
Conceito de Operação de Resistência (ROC): Desenvolvido em conjunto com a OTAN antes de 2022, o Resistance Operating Concept (ROC)19 serviu como manual de campanha orientador para preparar a população e as Forças Especiais para uma guerra irregular e de resistência em território ocupado.
Plataformas de Instrução Oficiais: O site governamental gerido pelas SSO ucranianas disponibiliza manuais e guias de instrução pública para insurgência, detalhando técnicas modernas de sabotagem, comunicações seguras e mapeamento de alvos.
Publicações e Análises Estratégicas Ocidentais: O ecossistema dessas forças foi amplamente dissecado em relatórios analíticos de grande relevância internacional, incluindo o estudo A Primer on Ukrainian Special Forces publicado pelo Joint Force Quarterly20 (NDU), além de análises do Small Wars Journal21 e do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI). Esses documentos comprovam o abandono do engessamento soviético em prol da descentralização tática e da rápida integração cibernética e tecnológica.
Resultados, Eficiência e Eficácia Operacional
Uma análise superficial e limitada da campanha assimétrica executada pelas forças ucranianas demonstra relativa eficiência em termos de custo-benefício:
Campanha contra Infraestrutura Energética: Estudos acadêmicos publicados no Journal of Strategic Studies indicam que a Ucrânia alcançou uma eficiência estratégica ao utilizar drones domésticos baratos de longo alcance para desativar instalações críticas russas. A campanha de ataques profundos contra refinarias de petróleo causou escassez regional de combustível e forçou o racionamento na Rússia profunda, desregulando o fluxo financeiro que financia a guerra.
Guerra Naval Assimétrica no Mar Negro: Sem possuir uma frota de grandes navios convencionais, a Ucrânia reviveu e modernizou a doutrina francesa da Jeune École através do GUR e da Marinha. Utilizando enxames coordenados de drones marítimos (USVs) e mísseis de cruzeiro, Kiev impôs uma barreira de negação de área à Frota do Mar Negro da Rússia, destruindo ou avariando inúmeros navios e reabrindo de forma autônoma seus corredores comerciais de grãos.
Sobrecarga e Realocação da Defesa Aérea: Os ataques simultâneos forçaram o Kremlin a reposicionar cerca de 60% de seus sistemas de defesa aérea (como os S-400 e Pantsir) que protegiam o próprio território e regiões remotas (como o Ártico) para blindar refinarias e centros de comando na retaguarda, reduzindo a cobertura na linha de frente.
Condicionantes Para Alterar os Aspectos Estratégicos e Políticos da Guerra
Dois dos principais condicionantes estratégicos e políticos que definem a dinâmica de uma guerra são as alianças e a diplomacia internacional, em que, politicamente, as guerras raramente ocorrem de forma isolada. Ora, a capacidade de um Estado de construir coalizões, garantir apoio internacional (seja por meio de envio de armas, suporte financeiro ou sanções contra o inimigo) e isolar o adversário diplomaticamente é um aspecto estratégico crucial que pode determinar o resultado do conflito e a geopolítica e o controle de recursos críticos: em que estrategicamente, o controle de territórios de alto valor político e econômico, como rotas comerciais, fontes de energia (petróleo e gás), água ou pontos de estrangulamento marítimo (chokepoints), serve tanto como o principal motivador de um conflito quanto como objetivo militar direto para enfraquecer a soberania e a capacidade de resistência do inimigo, o que tem sido objeto das operações especiais.
Dentre os poucos trabalhos encontrados sobre o tema, a pesquisa do major Adriano Souza dos Santos sobre Operações Especiais na Ucrânia, apresentado à Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), se destaca, com algumas reservas, porquanto analisa o emprego tático e estratégico das Forças Especiais ocidentais e russas durante o conflito na Ucrânia no contexto da Guerra Irregular. A pesquisa investiga como ações de Guerra Híbrida e elementos como os spetsnaz atuam no teatro de operações, extraindo ensinamentos fundamentais voltados ao aprimoramento doutrinário das Forças Especiais do Exército Brasileiro, com foco específico na condução de Ações Indiretas. Assim, embora essas operações demonstrem brilhantismo tático, a capacidade de alterar o resultado estratégico-político final da guerra depende de variáveis complexas como a que favorece a mudança estratégica:
Dilema de Escolhas para Moscou: Como aponta o The National Interest, os ataques profundos forçam a liderança russa a escolher entre a proteção interna de sua infraestrutura civil e o suporte às suas tropas de invasão.
Quebra da Narrativa de Segurança: Politicamente, as incursões e explosões em cidades importantes como São Petersburgo e o porto de Novorossiysk quebram a promessa do Kremlin de que a guerra não afetaria o cotidiano da população russa.
E as limitações que impedem uma virada total:
Campanha de Punição Coercitiva da Rússia: Conforme relatórios do Center for Strategic and International Studies (CSIS), enquanto a Ucrânia ataca alvos econômicos específicos, a Rússia responde com uma campanha maciça de saturação de mísseis balísticos contra a infraestrutura crítica ucraniana.
Falta de Massa Crítica Convencional: As Forças Especiais e os ataques de drones atuam como multiplicadores de força, mas não substituem a necessidade de artilharia pesada, blindados e superioridade aérea convencional para retomar grandes extensões de território fortificado.
Portanto, o emprego inovador reúne condições para desgastar economicamente a Rússia e limitar sua liberdade de ação militar, equilibrando o jogo e forçando Moscou a moderar seus anseios geopolíticos no longo prazo. No entanto, isoladamente, essas ações não têm o peso de garantir uma vitória militar convencional decisiva sem o suporte contínuo de armamento pesado ocidental no front regular.
A evolução no emprego das Forças de Operações Especiais da Ucrânia transformou a unidade de uma força nos moldes da antiga Spetsnaz soviética para um ecossistema altamente adaptável e alinhado aos padrões da OTAN.É possível notar que o conflito provocou mudanças profundas em suas doutrinas, divididas principalmente em três grandes pilares.

Transição de Táticas Convencionais para o Uso Estratégico
No início de 2022, as Forças Especiais atuaram de forma direta na linha de frente, defendendo os subúrbios de Kiev (como Bucha, Irpin e Hostomel) e emboscando comboios logísticos russos. Com o amadurecimento do conflito, o foco mudou para o emprego estratégico atrás das linhas inimigas. É possível inferir que as missões passaram a priorizar:
• Desmantelamento de nós de comando e controle (C2) e neutralização de comandantes do alto escalão russo; e
• Ataques à infraestrutura crítica, centros logísticos e bases de longo alcance (como ataques a bases aéreas) tanto em territórios ucranianos ocupados quanto dentro da própria Federação Russa.
Guerra de Longo Alcance Coordenada por Drones
A presença da vigilância aérea forçou a reformulação da coordenação por drones das operações de campo, seja para reconhecimento seja de ataques. Onde snipers (atiradores de precisão) tradicionais, por exemplo, usam sistemas aéreos não tripulados (UAS), estendendo o raio de engajamento de 1-2 km para distâncias de 30 a 300 km. Igualmente, as equipes táticas operam de forma independente, mas integrando ativos de guerra eletrônica (EW), defesa aérea e inteligência multi-domínio.
Multiplicação de Forças e Guerra Não Convencional
Em vez de atuarem isoladas, as unidades SSO passaram a aplicar técnicas de guerra não convencional, inspiradas por forças ocidentais (como os Green Berets dos EUA). Assim, eles atuam como multiplicadores de força na linha de frente, treinando e equipando a infantaria convencional antes de assaltos em larga escala, o que estendeu drasticamente a capacidade de defesa de cidades estratégicas (como ocorreu em Pokrovsk). Além disso, coordenam e gerenciam células de resistência civil e sabotagem clandestina nas áreas temporariamente ocupadas.
Evolução Doutrinária
A transformação doutrinária das Forças de Operações Especiais da Ucrânia (SSO) e do Serviço de Inteligência de Defesa (GUR) é amplamente documentada por analistas de segurança e centros de pesquisa estratégica. O amadurecimento dessa força e sua capacidade sobre a retaguarda russa apoia-se em uma complexa engrenagem internacional de inteligência e no uso inovador da tecnologia, onde, às tradicionais capacidades e habilidades físicas e psicológicas, se somam novas capacidades e habilidades intelectuais das novas tecnologias, como veremos a seguir.
Ecossistema de Inteligência: Apoio Ocidental e Dados Satelitais
A condução de operações de longo alcance a mais de 1.000 km de distância exige um nível de precisão que só é alcançado pela fusão de dados da inteligência Ocidental:
Apoio da Inteligência Militar dos EUA e Europa: Conforme apontado por publicações de defesa e análises como Atlantic Council e Henry Jackson Society, instituições ocidentais como a OTAN22 fornecem inteligência de sinais (SIGINT) e cibernética em tempo real. Isso permite mapear as frequências da defesa aérea russa e identificar brechas em seus radares para criar “corredores” seguros para infiltração de drones ou comandos terrestres. O uso de IA e big data para o processamento rápido dessas ameaças (onde os EUA detêm superioridade computacional) é o que possibilita o planejamento dessas missões complexas.
Apoio de Dados Satelitais: A Ucrânia depende fortemente da constelação de satélites americanos e europeus para o reconhecimento de alvos. Embora o uso de redes comerciais e militares sofra flutuações geopolíticas e técnicas, agências como o GUR usam dados de radar de abertura sintética (SAR)23 fornecidos por parceiros europeus (como Alemanha, França e Itália) como a finlandesa ICEYE24, capazes de penetrar a densa cobertura de nuvens do inverno e expor movimentações em bases aéreas ou refinarias na Rússia profunda.

Ataques Simultâneos e Assimétricos à Retaguarda Russa
Para esticar ao máximo as capacidades logísticas e as defesas aéreas da Rússia, o comando ucraniano descentralizou as ações das Forças Especiais, coordenando investidas coordenadas nos quatro pontos cardeais russos:

Cidades e Datas Simbólicas
A guerra psicológica contra a Federação Russa é um componente central da doutrina ucraniana. Operações de alto impacto são meticulosamente agendadas para ofuscar comemorações e conquistas:
24 de Agosto (Dia da Independência da Ucrânia): Data frequentemente escolhida para desfechar ataques severos contra aeródromos ou depósitos de munição dentro da Rússia, servindo como resposta política e demonstração de resiliência nacional.
9 de Maio (Dia da Vitória na Rússia): O momento em que Vladimir Putin exibe o poderio militar na Praça Vermelha costuma ser respondido com enxames de drones ou sabotagens clandestinas contra a infraestrutura energética profunda da Rússia, demonstrando que a segurança interna russa é falha.
Aniversário de Vladimir Putin (7 de outubro) e eleições russas: Períodos marcados por incursões de Forças Especiais nas refinarias fronteiriças e ataques cibernéticos e físicos severos a postos de comando, com o objetivo de gerar crises logísticas no exato momento de foco propagandístico de Moscou.
Sebastopol e São Petersburgo: Cidades com peso histórico incomensurável para a Rússia. Ao explodir o centro de comunicações da Frota do Mar Negro em Sebastopol ou queimar terminais de combustíveis na terra natal de Putin (São Petersburgo), as forças ucranianas convertem o sucesso tático em uma humilhação estratégica explícita.
Possíveis Lições Extraídas Para as Forças Especiais Brasileiras
Pelo limite do trabalho, estendemos as lições apenas ao Exército, onde o cerne do desenho da Força 40 baseia-se no novo Conceito Operacional do Exército Brasileiro (COEB), que foca primordialmente em Operações Multidomínio (Terra, Mar, Ar, Cibernético, Espacial e Eletromagnético). A doutrina da Força 40 reconhece que o Brasil precisa estar preparado para enfrentar ameaças complexas em um ambiente de assimetria. Por isso a lição ucraniana de “impor custos econômicos e logísticos desproporcionais” é a essência do conceito de dissuasão estratégica defendido pelo Exército Brasileiro.
No aspecto tático, a Força 40 preconiza a tomada de decisão descentralizada (conceito ocidental de Mission Command ou Comando de Missão). Em um campo de batalha saturado por vigilância inimiga, o Exército Brasileiro estuda como pequenas frações dispersas precisam de autonomia tática e rapidez na inovação tecnológica para sobreviver e atacar. O uso de tecnologias civis adaptadas (como a explosão de drones FPV no conflito ucraniano) serve de alerta doutrinário para a Força 40 de que as aquisições de Defesa não podem mais demorar décadas; elas precisam de ciclos rápidos de inovação.
Com efeito, não se pode tão somente importar novas doutrinas de Forças Especiais estrangeiras sem considerar também os fatores determinantes das capacidades de Doutrina, Organização, Adestramento, Material, Educação, Pessoal e Infraestrutura, que formam o acrônimo DOAMEPI, somados aos fatores de decisão em cada Processo de Planejamento Militar Estratégico e Conjunto (MD30-M-01. vol. 2) como variáveis permanentes.
Essas variáveis constituem a base do planejamento tático, por exemplo, do Exército Brasileiro, consistindo na análise sistemática de seis elementos essenciais antes de qualquer tomada de decisão: a Missão (o objetivo), o Inimigo (um país nuclear com o maior território do mundo), o Terreno e as Condições Meteorológicas (o ambiente físico e o clima), os Meios (as tropas e recursos disponíveis), o Tempo (guerra de desgaste contra a OTAN) e as Considerações Civis (o impacto na população local).
Por fim, conforme a Portaria nº 1.514/2025 do Estado-Maior do Exército, alínea “c” da Concepção Geral da Diretriz para o aprimoramento da capacidade de Operações Especiais do Exército Brasileiro: “o aperfeiçoamento da doutrina de Op Esp e de Op Psc constitui-se em tema de grande relevância, trazendo a necessidade do aprofundamento dos estudos para que as OM estejam aptas e organizadas para o seu adequado preparo e emprego”, ao fim e ao cabo, as lições, em razão da natureza sigilosa destas operações, devem ser pormenorizadas por cada Força e pelo EMCFA em conjunto para eventual aperfeiçoamento doutrinário.

A seguir, na conclusão, apontamos algumas lições de nível operacional e outro de nível estratégico.
À Guisa de Conclusão
À luz da evolução das Forças de Operações Especiais ucranianas, observa-se uma reconfiguração doutrinária profunda: a transição do foco clássico de aliado da ex-URSS e depois da Rússia como primeira linha de defesa territorial do oeste europeu, de emprego em um cenário de alta intensidade, para ser contrapor a um oponente assimétrico e numericamente superior, com capacidade nuclear, para o extremo oriente. Essa mudança exigiu a descentralização do comando (mission command), fortalecimento da resistência local e execução de sabotagens profundas, aliando a higidez física e psicológica dos operadores a tecnologias disruptivas como Inteligência Artificial, vetores aéreos não tripulados e guerra cibernética.
No entanto, essa rápida adaptação revelou fragilidades estratégicas críticas, notadamente a dependência severa de cadeias de suprimento e sistemas digitais externos (como Starlink e inteligência da OTAN) e o desgaste de quadros altamente qualificados em missões atípicas de infantaria convencional, comprometendo sua capacidade nuclear de infiltração a longo prazo.
Sob a ótica das Ciências Militares e do rigor epistemológico pautado pela neutralidade axiológica, a análise do conflito exige o contraponto entre o pragmatismo tático ocidental e as premissas do realismo geopolítico. Enquanto as lições operacionais e estratégicas – como a integração, em tempo real, de infraestruturas civis; a condução de operações multidomínio; e as operações de desgaste de longo alcance – redefinem os parâmetros modernos, a lógica clássica da profundidade estratégica e da dissuasão permanece vigente.
A superação de vieses analíticos consolida-se, assim, como um imperativo metodológico essencial para mapear, com precisão, o emprego tático-estratégico de Operações Especiais em cenários de fricção internacional. Essa abordagem se alinha aos balizamentos conceituais do Exército Brasileiro para a Força 40 e à Diretriz para o Aprimoramento da Capacidade de Operações Especiais do Exército Brasileiro.
Para as Forças Especiais Brasileiras, os severos condicionantes do Teatro de Operações moderno destacam a urgência em assegurar a resiliência do Comando e Controle (C2), proteger a Infraestrutura Crítica Nacional (ICN) e mitigar ações cinéticas e ciber-eletrônicas adversárias na retaguarda.
No tocante aos aspectos político-estratégicos, jurídicos e institucionais, inclusive no âmbito de propostas como a conscientização da Base Industrial de Defesa, impõe-se a necessidade de adestramento na “zona cinzenta”, pautado pelo estrito cumprimento do Direito Internacional dos Conflitos Armados (DICA) e pelo aperfeiçoamento das regras de engajamento. Assim, a superioridade tecnológica oponente deve ser neutralizada pela resiliência humana, pela ocultação térmica-óptica e pela dispersão de frações de alta letalidade, convertendo o ambiente geográfico e urbano complexo em assimetria operacional em favor da soberania nacional.
Referências
BURNS, William J. The Back Channel: A Memoir of American Diplomacy and the Case for Its Renewal. New York: Random House, 2019.
KENNAN, George F. A Fateful Error. The New York Times, 5 de fevereiro de 1997. Disponível em: https://www.nytimes.com/1997/02/05/opinion/a-fateful-error.html.
MARSHALL, Tim. Prisioneiros da Geografia: Dez mapas que explicam tudo o que você precisa saber sobre política global. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
MATLOCK JR., Jack F. Superpower Illusions: How Myths and False Ideologies Led America Astray – And How to Return to Reality. New Haven: Yale University Press, 2010.
MEARSHEIMER, John J. Why the Ukraine Crisis Is the West’s Fault: The Liberal Delusions That Provoked Putin. Foreign Affairs, 18 de agosto de 2014. Disponível em: https://www.foreignaffairs.com/articles/russia-fsu/2014-08-18/why-ukraine-crisis-west-s-fault.
SANTOS, Adriano Souza dos. O Conflito na Ucrânia e as Forças Especiais: Os principais ensinamentos colhidos para o emprego nas Ações Indiretas. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Ciências Militares) – Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de Janeiro, 2023. Disponível em: https://bdex.eb.mil.br/jspui/handle/123456789/13475.
Notas
1 Mundo tem maior número de conflitos entre Estados desde o fim da Segunda Guerra. O Globo, 9 de junho de 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/06/09/mundo-tem-maior-numero-de-conflitos-entre-estados-desde-o-fim-da-segunda-guerra.ghtml.
2 Vide Portaria – EME/C Ex Nº 1.514, de 14 de abril de 2025, EB20-D-03.130, 1ª edição, 2025.
3 Nota, especialmente porque o país está em guerra e não tem o “luxo do fator tempo”, além da “doutrina de comando”, onde o EB mantém forte influência de técnicas consolidadas de comandos clássicos (ritmo acelerado, golpe de mão). A Ucrânia, depois de anos de integração e treinamento com forças da OTAN, absorveu totalmente a doutrina de descentralização (Mission Command), na qual pequenos destacamentos operam com total autonomia intelectual e estratégica por semanas sem contato com a base. Veja o site de recrutamento dos operadores especiais ucranianos para esta afirmação: https://sofua.army/.
4 Veja o treinamento em https://www.youtube.com/watch?v=H4XXGPq14vw.
5 Veja as condições de funcionamento do curso para oficiais: https://www.sgex.eb.mil.br/sg8/006_outras_publicacoes/07_publicacoes_diversas/04_estado_maior_do_exercito/port_n_1467_eme_10dez2024.html.
6 Veja: https://www.copesp.eb.mil.br/index.php/noticias/aula-inaugural-do-curso-de-acoes-de-comandos-2025.
7 Veja: https://www.sgex.eb.mil.br/sg8/006_outras_publicacoes/07_publicacoes_diversas/.
8 Vide SHADOW WAR: Inside Ukraine’s Special Operations Forces! SECRET Operations and “IMPOSSIBLE” Missions. https://www.youtube.com/watch?v=jLmKwIHYqvM.
9 Vide canal oficial: https://www.youtube.com/@sof_ua/videos.
10 Veja: https://rus.lb.ua/file/person/853_gritsenko_anatoliy_stepanovich.html.
11 Veja: https://rus.lb.ua/file/person/4544_krivonos_sergey_grigorevich.html.
12 Vale a pena ler a história completa: https://www.rbc.ua/rus/news/silam-spetsialnih-operatsiy-10-rokiv-istoriya-1779871231.html.
13 Os presidentes da Ucrânia são: 1º Leonid Kravchuk (1991-1994), 2º Leonid Kuchma (1994-2005), 3º Viktor Yushchenko (2005-2010), 4º Viktor Yanukovych (2010-2014), 5º Petro Poroshenko (2014-2019) e 6º Volodymyr Zelensky (2019–presente).
14 Veja: https://standards.globalspec.com/std/14362037/ajp-3-5.
15 Veja: https://sprotyvg7.com.ua/.
16 Veja: https://generalstab.org/links/ukrainian-field-manuals-a-collection/.
17 Veja: https://sofua.army/en/structure/komanduvannya-sso.
18 Veja: https://mod.gov.ua/en/about-us/special-operations-forces.
19 Veja: https://theresistancehub.com/resistance-operating-concept/.
20 Veja: https://digitalcommons.ndu.edu/joint-force-quarterly/vol119/iss4/8/.
21 Veja: https://smallwarsjournal.com/2025/01/31/ukraine-special-operations-forces/.
22 Veja: https://www.nato.int/en/news-and-events/articles/news/2025/11/26/nato-and-ukraine-announce-new-joint-initiative-to-accelerate-defence-innovation-unite-brave-nato.
23 O Radar de Abertura Sintética (SAR) é uma tecnologia de sensoriamento remoto ativo que emite pulsos de microondas para gerar imagens da superfície terrestre em alta resolução. Por possuir fonte própria de energia, ele opera de forma contínua e consegue “enxergar” através de nuvens, chuva, vegetação e na escuridão total.
24 Veja: https://www.iceye.com/newsroom/press-releases/ukraine-expands-partnership-with-iceye.










