Cúpula China-EUA: Impressões

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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Entre a rivalidade estratégica e a interdependência econômica, China e Estados Unidos buscam administrar a competição: a cúpula de 2026 sinaliza que a estabilidade não elimina o conflito, mas pode conter sua escalada.


O encontro bilateral entre China e Estados Unidos, realizado em 25 de setembro de 2026, ocorre em um momento paradoxal: a interdependência econômica entre as duas maiores economias do mundo permanece profunda, enquanto a retórica e a prática da política externa americana sinalizam uma crescente percepção da China como principal ameaça estratégica.

É neste Zeitgeist1 que o presente artigo, com base nos estudos e pesquisas extraídos das aulas das professoras da Escola Superior de Guerra/PPGSID, Mariana Alves da Cunha Kalil e Lara Denise Góes da Costa, nas disciplinas “Teoria do Estado e Relações Internacionais” e “Segurança Internacional e Defesa”, analisa, en passant, as primeiras impressões da Cúpula China-Estados Unidos à luz das Teorias do Liberalismo Comercial e da Interdependência Complexa, examinando os principais pontos de conexão econômica, os gatilhos de ruptura e as perspectivas de uma estabilidade estratégica construtiva.

Introdução

A relação sino-americana constitui o eixo estruturante da geopolítica contemporânea. De um lado, os Estados Unidos sustentam uma Estratégia Nacional de Defesa (NDS, National Defense Strategy) que identifica a China como principal ameaça; de outro, ambos os países mantêm laços econômicos que movimentam centenas de bilhões de dólares anuais2.

Esse paradoxo, entre a competição estratégica declarada e a interdependência econômica persistente, define o contexto da Cúpula de 25 de setembro de 2026. Em razão disto, examinamos as primeiras impressões desse encontro, argumentando que, apesar das tensões estruturais, a interdependência recíproca impõe limites à escalada conflituosa e cria incentivos para uma estabilidade estratégica construtiva3.

1. A Guerra Econômica: Dimensões Implícitas e Explícitas

Em princípio, vale ler na íntegra o artigo China e Estados Unidos: Uma Visão Realista, de Sylvio Augusto De Mattos Cruz4, publicado pela Revista da Escola Superior de Guerra, em que o autor analisa a competição geopolítica entre as duas superpotências sob as vertentes do realismo político, destacando a preocupação americana com a expansão chinesa diante da própria desaceleração econômica.

Vale também o artigo de Cunha, Abreu e Vasconcelos, da mesma revista, que analisa a evolução histórica e o caráter transdisciplinar dos estudos sobre segurança internacional para examinar a atual rivalidade geopolítica entre Estados Unidos e China, investigando como essa competição estimula o desenvolvimento e a aplicação do conceito de Dissuasão Integrada no contexto das Américas.


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A Política Externa dos Estados Unidos em relação à China é pautada na contenção estratégica da ascensão chinesa para proteger a hegemonia global norte-americana, alternando entre momentos de confronto comercial e aberturas pragmáticas para negociação.

Em relação à China, evoluiu de uma aliança na Segunda Guerra Mundial para o isolamento diplomático após a revolução comunista de 1949, seguida por uma aproximação estratégica na década de 1970 que visava conter a União Soviética e acabou consolidando uma profunda interdependência econômica nos anos seguintes.

Contudo, nas últimas décadas, essa dinâmica se transformou em uma intensa competição global, marcada por guerras tarifárias, disputas pela liderança tecnológica em semicondutores e inteligência artificial, e crescentes tensões geopolíticas em torno da soberania de Taiwan.

Assim, a política externa dos Estados Unidos em relação à China opera em dois planos contraditórios:

Plano retórico-normativo: A NDS classifica a China como principal ameaça à segurança nacional, justificando restrições tecnológicas, sanções e alianças de contenção.

Plano prático-comercial: A interdependência econômica permanece robusta, com fluxos comerciais que sustentam setores vitais de ambas as economias.

Esse descompasso entre discurso e prática gera instabilidade e incerteza, mas também revela os limites materiais de uma ruptura completa.


Gráfico da evolução da relação econômica China-EUA entre 2015 e 2025.

A interdependência entre EUA e China não é simétrica, mas profunda, vejamos:

Comércio de bens: volumes expressivos, com destaque para eletrônicos, baterias e componentes industriais.

Dependência tecnológica: os EUA importam da China minerais processados, terras raras e componentes essenciais para semicondutores, IA e defesa.

Mercado consumidor: a China depende do mercado americano para escoar sua produção e sustentar seu crescimento industrial.

2. Fundamentos Teóricos: Liberalismo Comercial e Interdependência Complexa

Desde Montesquieu, com o conceito de doux commerce (1748), passando por Adam Smith e Richard Cobden, até Norman Angell em A Grande Ilusão (1909), pode-se vislumbrar que a tradição liberal sustenta que o livre comércio cria uma rede de interdependência que torna a guerra economicamente irracional e contraproducente, por exemplo:

A Teoria da Interdependência Complexa, formulada por Robert Keohane e Joseph Nye, descreve um cenário global marcado por:

Canais múltiplos: conexões que transcendem relações governo-a-governo, envolvendo corporações, ONGs e elites políticas.

Ausência de hierarquia entre temas: segurança militar perde centralidade exclusiva; temas econômicos, ambientais e de direitos humanos ganham relevância equivalente.

Inutilidade do poder militar: em regiões de alta interdependência, a força torna-se um instrumento ineficaz e custoso.

Os conceitos de sensibilidade (rapidez do impacto) e vulnerabilidade (capacidade de adaptação) explicam por que a ruptura total é improvável: o custo de romper laços seria catastrófico para ambos os lados.

3. Pontos de Interdependência e Gatilhos de Ruptura


Figura representativa de como o comércio, a tecnologia, as terras raras e o acesso aos mercados conectam as economias chinesa e norte-americana. Esses vínculos coexistem com a rivalidade estratégica e tornam a interdependência um elemento central da relação entre os dois países.

A ruptura total é considerada improvável no curto prazo, mas um desacoplamento fragmentado já está em curso, impulsionado por:

Guerra tecnológica: restrições a semicondutores e IA podem levar a China a retaliar com corte de terras raras.

Espionagem e segurança nacional: ciberataques a infraestruturas críticas podem gerar sanções e banimentos mútuos.

Blocos financeiros rivais: armamentização do dólar e desdolarização por parte do BRICS.

Subsídios e tarifas: escalada tarifária que inviabilize o comércio bilateral.


A tabela sintetiza os principais vínculos econômicos entre China e Estados Unidos – comércio, tecnologia, terras raras e mercado consumidor – que moldam a interdependência entre as duas potências e influenciam a gestão de sua rivalidade estratégica.

4. Evidências Empíricas e Perspectivas Acadêmicas

Chad P. Bown (2026): No artigo How did Trump’s 2025 trade war affect the decoupling of US-China supply chains? Bown demonstra empiricamente que, embora setores como eletroeletrônicos tenham migrado para Índia e Vietnã, indústrias como calçados e vestuário permanecem altamente dependentes da infraestrutura industrial chinesa.

Journal of Political Science (2026): O artigo US-China Relations: Economic Interdependence vs. Risk of Conflict contrasta as teorias da paz comercial com a realidade de que a assimetria na dependência de tecnologias de uso dual e o controle de minerais estratégicos transformaram a interdependência em fonte de insegurança nacional para ambos os lados.

5. A Cúpula de 25 de Setembro de 2026: Primeiras Impressões

A rigor, no contexto da diplomacia, das relações internacionais e da política externa, uma cúpula é uma reunião oficial ao mais alto nível político, que conta com a participação direta de chefes de Estado (presidentes, reis) ou chefes de Governo (primeiros-ministros).

O encontro bilateral de 25 de setembro de 2026 sinaliza uma tentativa de estabilização estratégica em meio à competição estrutural. As primeiras impressões apontam para:

Reconhecimento mútuo da interdependência: ambos os lados reconhecem que a ruptura total seria catastrófica.

Busca de canais de comunicação: criação de mecanismos para evitar uma escalada acidental.

Tensão entre retórica e prática: o discurso de ameaça coexiste com a necessidade de cooperação.

Estabilidade construtiva: a cúpula sugere uma gestão pragmática da rivalidade, não sua resolução.

Considerações Finais

Em suma, com base nos estudos e pesquisas extraídos das Disciplinas “Teoria do Estado e Relações Internacionais” e “Segurança Internacional e Defesa”, pode-se inferir, com base nos fatos apresentados, que a relação sino-americana se encontra em um ponto de inflexão: a interdependência recíproca, embora assimétrica, impõe custos proibitivos à ruptura total. Já as teorias do liberalismo comercial e da interdependência complexa oferecem lentes analíticas para compreender por que a guerra econômica total permanece improvável, mesmo quando a retórica estratégica se intensifica.

A cúpula de 25 de setembro de 2026 representa, portanto, uma tentativa de estabilidade estratégica construtiva: não uma superação da rivalidade, mas sua gestão consciente em um marco de interdependência inevitável.

No âmbito internacional, o desafio futuro reside em traduzir essa estabilidade tática em um regime duradouro de convivência competitiva. Já no âmbito doméstico, não devemos subvalorizar o papel do Brasil diante dos dois países, já que, por um lado, há dependência econômica e de investimentos estrangeiros, e de outro, dependência militar e tecnológica; e ambos colocam a soberania do país em um “encontro marcado” com o tema tanto para a geração atual como para as próximas.

Notas

1 Palavra de origem alemã que significa “espírito do tempo” ou “espírito da época”. Refere-se ao conjunto de ideias, valores, crenças, cultura e comportamento que definem um período histórico específico.

2 Ver os artigos: https://www.journalofpoliticalscience.com/uploads/archives/8-8-35-962.pdf e https://ideas.repec.org/a/kap/openec/v37y2026i2d10.1007_s11079-025-09838-0.html.

3 Conferir também: https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=7266378 e https://cepr.org/multimedia/decoupling-china-after-trumps-trade-wars.

4 CRUZ, Sylvio Augusto De Mattos. China e Estados Unidos: uma visão realista. Disponível em: https://revista.esg.br/index.php/revistadaesg/article/view/1158/981.

Referências

ANGELL, Norman. A Grande Ilusão. 1909.

BOWN, Chad P. How did Trump’s 2025 trade war affect the decoupling of US–China supply chains? Peterson Institute for International Economics, julho de 2026. Disponível em: https://www.piie.com/publications/working-papers/2026/how-did-trumps-2025-trade-war-affect-decoupling-us-china-supply.

CUNHA, Guilherme Lopes da; ABREU, Guilherme Mattos de; VASCONCELLOS, Carlos Antonio Raposo de. A competição estratégica sino-americana e a dissuasão integrada. Revista da Escola Superior de Guerra, Rio de Janeiro, v. 38, n. 84, p. 152-171, set./dez. 2023. Disponível em: https://revista.esg.br/index.php/revistadaesg/article/view/1319.

KEOHANE, Robert; NYE, Joseph. Power and Interdependence. Pearson, 2011.

MONTESQUIEU. O Espírito das Leis. 1748.

US-China Relations: Economic Interdependence vs. Risk of Conflict. Journal of Political Science, v. 37, n. 2, 2026. Disponível em: https://www.journalofpoliticalscience.com/uploads/archives/8-8-35-962.pdf.

SMITH, Adam. A Riqueza das Nações. 1776.

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