Por que a Rússia Não Romperá Acordos com Organizações Ocidentais?

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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A Rússia não rompeu com a ordem ocidental: mantém pontes enquanto desafia sua hegemonia, avançando de forma gradual rumo a um mundo multipolar, muito distante da realidade revolucionária vendida por influenciadores pró-russos.


Garry Minkh, representante plenipotenciário de Putin na Duma, declarou à agência TASS, no final de agosto, que “os ministérios especializados são contra a denúncia de nossos [acordos de] parceria com a OTAN ou com organizações financeiras globais, incluindo a OMC, o FMI e o Banco Mundial”. A justificativa é que tais parcerias “não esgotaram seu potencial” e Putin deseja manter o diálogo aberto com essas entidades. A TASS também relatou que Minkh afirmou que a Rússia sempre assume a responsabilidade por suas obrigações, ao contrário do Ocidente.

Essa reafirmação de política provavelmente surpreendeu muitos “pró-russos não russos” (NRPRs), que foram levados a acreditar, por influenciadores de destaque do grupo, que a Rússia se tornara um Estado revolucionário desde 2022; daí a expectativa de que o país já tivesse rompido esses acordos há muito tempo. Tratava-se de uma realidade alternativa cuidadosamente arquitetada pelos principais influenciadores NRPR para ganhar relevância, promover uma ideologia e/ou angariar doações, com a anuência tácita dos “supervisores de soft power” da Rússia, seguindo a abordagem de soft power ao estilo “Potemkin”.

Esse conceito se refere à criação de tais realidades alternativas para fins estratégicos. o que pode ser descrito, de forma cínica, como a estratégia de conquistar o maior número possível de estrangeiros para apoiar a Rússia, ainda que com base em premissas falsas, como a infame ideia de que Putin seria, secretamente, um antissionista. Deixando de lado as questões éticas e estratégicas, que são muitas e deveriam ser discutidas urgentemente pela comunidade NRPR, é importante esclarecer a realidade político-jurídica objetiva que Minkh trouxe à tona.

Embora a Rússia esteja, de fato, desafiando a unipolaridade ocidental por meio de sua operação especial, que visava inicialmente, sobretudo, neutralizar as ameaças da OTAN oriundas da Ucrânia, concebidas para colocar a Rússia em uma posição de permanente chantagem estratégica, conforme explicado aqui, esse desafio não é absoluto. Desde o início, como comprovam as exigências de Putin aos demais escalões, pelo levantamento de todas as sanções, a Rússia sempre esperou retomar seus laços comerciais (inclusive no setor de energia) e de investimento com o Ocidente.


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A diferença entre o cenário anterior à operação especial e o que se projetava para o período posterior, no entanto, é que a Rússia teria se tornado uma parceira militar e política em pé de igualdade após alcançar seus objetivos máximos. A Rússia se beneficiaria, então, de seus laços com essas organizações (como a manutenção da estabilidade pós-guerra na Europa no que tange à OTAN), ao mesmo tempo em que as reformaria internamente (no caso das instituições econômicas) e lideraria a criação de instituições alternativas não ocidentais por meio do BRICS e grupos similares.

O grande objetivo estratégico da Rússia sempre foi acelerar os processos de multipolaridade. O que os principais influenciadores do NRPR raramente esclareceram, se é que o fizeram, é que isso deve ocorrer de forma incremental, visando minimizar ao máximo o risco de choques sistêmicos que poderiam prejudicar os interesses russos. A ordem mundial pela qual a Rússia luta é aquela em que ela se encontra em pé de igualdade político-militar com o Ocidente e, posteriormente, mina pacificamente a hegemonia econômica ocidental por meio do BRICS, a fim de inaugurar gradualmente a multipolaridade.

Independentemente da opinião que se tenha sobre esse grande objetivo estratégico e seu ritmo gradual, essa é, de fato, a política que a Rússia formulou e está implementando ativamente, tanto no passado quanto no presente. Para tanto, a Rússia precisa manter seus acordos com organizações ocidentais a fim de promover a futura ordem mundial que idealiza, o que constitui uma explicação, e não uma justificativa, vale ressaltar. Contudo, caso a Rússia venha a romper tais acordos, isso sinalizaria uma mudança radical em sua grande estratégia.

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