A Guerra Já Não Termina no Donbass

Compartilhe:
Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

A guerra na Ucrânia transcendeu o campo de batalha local e se transformou em uma profunda disputa estratégica e tecnológica de longo prazo entre Rússia e OTAN, redefinindo toda a arquitetura de segurança global e exigindo um novo pensamento militar.


Toda guerra chega a um ponto em que não pode mais ser compreendida apenas por meio de suas operações de combate. Esse momento parece ter chegado na Ucrânia. Enquanto a atenção internacional permanece voltada para os avanços russos em direção a Kostiantynovka ou para os ataques de drones ucranianos em território russo, outros eventos aparentemente secundários revelam uma transformação muito mais profunda, e uma coisa é clara: o conflito deixou de ser uma guerra localizada e tornou-se uma disputa estratégica de longo prazo entre a Rússia e a OTAN.

Os acontecimentos dos últimos dias ilustram essa evolução com notável clareza. Em terra, as forças russas continuam a pressionar em múltiplas direções. Relatórios oficiais indicam novos avanços na região de Kharkov, a tomada de Kopani, em Zaporizhzhia, e, sobretudo, operações urbanas em curso em Kostiantynovka e Lyman. Embora cada localidade possa parecer de menor importância isoladamente, em conjunto elas revelam uma campanha com uma lógica operacional coerente: exercer pressão simultânea sobre vários setores para forçar o comando ucraniano a dispersar suas reservas e dificultar a estabilização da linha de frente.

A evolução da batalha por Kostiantynovka é particularmente significativa. Os comunicados russos já não descrevem apenas ataques aos arredores da cidade, mas sim operações para eliminar grupos ucranianos que permanecem no setor sudoeste. Se essa descrição reflete a realidade tática, isso implica que os combates entraram plenamente na fase urbana, na qual o objetivo muda da penetração na cidade para a consolidação progressiva das posições conquistadas. Ao mesmo tempo, o foco contínuo em Lyman sugere que Moscou pretende manter ativos, simultaneamente, múltiplos eixos de ofensiva.

Essa abordagem reflete uma característica histórica do pensamento militar russo: impedir que o adversário identifique com precisão onde reside o esforço principal. O conceito de “Batalha em Profundidade” (Deep Battle), desenvolvido por teóricos soviéticos no século XX, buscava não apenas romper um único ponto da frente de batalha, mas desmantelar todo o sistema defensivo inimigo por meio de ações convergentes em várias profundidades.

Outros Teatros

No entanto, limitar a análise ao combate terrestre seria insuficiente. A guerra desenrola-se simultaneamente em outras arenas menos visíveis.

Durante essa mesma semana, a Finlândia concluiu o processo legislativo que autoriza a entrada, o trânsito e o possível posicionamento de armas nucleares de aliados da OTAN em seu território. A decisão traz implicações que vão muito além da esfera estritamente jurídica. Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, a fronteira de mais de 1.300 quilômetros que liga a Finlândia à Rússia está sendo totalmente integrada à arquitetura militar da Aliança Atlântica. A resposta da Rússia foi imediata. Moscou anunciou o fechamento de várias passagens ferroviárias ao longo de suas fronteiras com a Finlândia, a Estônia e a Letônia, ao mesmo tempo em que continua a reforçar sua postura militar no flanco noroeste. Essas medidas, aparentemente administrativas, carregam um profundo significado estratégico. As ferrovias desempenham um papel central na logística militar russa desde as eras imperial e soviética. Reduzir os pontos de passagem significa aumentar o controle sobre a mobilidade, reforçar a segurança de infraestruturas críticas e preparar o território para um cenário de confronto prolongado.

Esse episódio confirma que a guerra na Ucrânia não pode mais ser interpretada apenas como um conflito entre Moscou e Kiev. Cada decisão tomada pela Finlândia, cada expansão da infraestrutura militar da OTAN, cada ataque ucraniano a refinarias russas e cada avanço terrestre no Donbas fazem parte do mesmo processo que transforma o equilíbrio estratégico europeu.

Tecnologia

A isso se soma uma terceira dimensão, em constante expansão: a tecnologia. Relatórios diários de ambos os lados detalham ataques a centros de controle de drones, o uso em massa de sistemas não tripulados, a guerra eletrônica e operações de precisão contra alvos logísticos. A guerra moderna não distingue mais claramente entre a linha de frente e a retaguarda. O combate terrestre, o domínio eletromagnético e a infraestrutura crítica fazem parte de um único sistema operacional.

No entanto, talvez a mudança mais significativa seja de natureza conceitual. Durante décadas, a “profundidade” foi entendida principalmente como uma questão geográfica ou operacional. Hoje, esse conceito adquiriu um significado muito mais amplo.

Existe uma profundidade operacional, na qual as forças terrestres buscam desmantelar o sistema defensivo do inimigo. Existe uma profundidade tecnológica, na qual drones, satélites e inteligência artificial possibilitam ataques contra alvos a centenas de quilômetros da linha de frente. Existe uma profundidade cognitiva, na qual ambos os adversários disputam diariamente a interpretação da guerra por meio de operações de informação e campanhas psicológicas. E, finalmente, existe uma profundidade estratégica, na qual a expansão da OTAN, a militarização do Ártico e a reorganização da postura militar da Europa estão alterando o equilíbrio de segurança do continente.


LIVRO RECOMENDADO:

Guerra Russo-Ucraniana: O Conflito que Redesenhou a Geopolítica Mundial

• Rodolfo Queiroz Laterza e Marco Antonio de Freitas Coutinho (Autores)
• Edição Português
• Capa comum


Nesse contexto, a Finlândia assume uma importância que vai muito além de sua fronteira com a Rússia. A questão não é mais apenas a possibilidade de abrigar armas nucleares aliadas. O verdadeiro significado reside no fato de que a Europa está começando a reorganizar sua arquitetura militar com base na premissa de que o confronto com a Rússia será prolongado. Da mesma forma, as respostas de Moscou indicam que o Kremlin também parece estar se preparando para um cenário de competição estratégica de longo prazo.

Por essa razão, a guerra não pode mais ser medida apenas por quilômetros conquistados ou pela tomada de uma cidade específica. A linha de frente permanece decisiva, uma vez que nenhuma tecnologia pode substituir o soldado que mantém o terreno. No entanto, uma competição muito mais ampla está surgindo em torno dessa frente, envolvendo economia, indústria, logística, inteligência, tecnologia, energia e a arquitetura de segurança.

Pontos a Considerar

Em uma extensa entrevista com Glenn Diesen, o coronel reformado dos EUA Douglas Macgregor argumentou que a guerra na Ucrânia está entrando em uma nova fase estratégica. Em sua visão, o Kremlin expandiu seus objetivos militares para além da consolidação do Donbass, visando agora o controle de toda a região histórica da Novorossiya – incluindo a cidade de Odessa – bem como o estabelecimento de extensas zonas de segurança nas regiões de Kharkov e Sumy. Segundo Macgregor, a evolução do conflito convenceu Moscou de que a profundidade estratégica inicialmente prevista já não é suficiente para garantir a segurança do território russo.

O analista americano também acredita que a Ucrânia vive um estado de profundo esgotamento militar e estatal. Embora reconheça que Kiev mantém a capacidade de lançar ataques com drones e mísseis contra o território russo, ele sustenta que isso depende quase exclusivamente do apoio financeiro, tecnológico e militar do Ocidente. Na visão dele, o governo do presidente Zelensky busca prolongar o conflito para garantir novos pacotes de ajuda econômica e militar, mesmo enquanto a situação interna do país continua a se deteriorar. Do ponto de vista operacional, Macgregor avalia que a Rússia detém atualmente a iniciativa estratégica e possui forças suficientes para lançar uma grande ofensiva. Entre os possíveis cursos de ação que ele cita estão a tomada de Odessa, o isolamento total da Ucrânia em relação ao Mar Negro e, eventualmente, uma operação contra Kiev mediante um avanço a partir da Bielorrússia. Embora observe que o momento de tais operações é incerto, ele sustenta que o Exército russo possui atualmente a capacidade de executá-las de forma metódica e com alta probabilidade de sucesso.

Uma parte significativa da entrevista concentra-se na análise da percepção russa sobre as declarações provenientes da Europa. Segundo Macgregor, muitos líderes europeus continuam a falar em infligir uma derrota estratégica à Rússia e em ampliar substancialmente suas capacidades militares. Embora considere que tais ameaças carecem de respaldo militar real, ele alerta que Moscou as interpreta como confirmação de uma hostilidade ocidental persistente, alimentando uma percepção histórica de uma nova ameaça comparável às invasões sofridas durante a Segunda Guerra Mundial. Em sua opinião, essa percepção fortalece politicamente o Kremlin e facilita a expansão de suas forças armadas.

Macgregor também tece duras críticas à liderança estratégica dos Estados Unidos. Ele afirma que Washington carece atualmente de uma estratégia coerente para o conflito, sustentando que as decisões são motivadas mais por exigências políticas de curto prazo do que por objetivos estratégicos claramente definidos. No âmbito econômico, o coronel da reserva alerta que tanto os Estados Unidos quanto a Europa enfrentam restrições fiscais crescentes, as quais limitam sua capacidade de sustentar o esforço de guerra indefinidamente.

Quanto a uma possível solução negociada, Macgregor mostra-se decididamente pessimista. Ele argumenta que a confiança entre as partes praticamente desapareceu e que, enquanto o Ocidente não definir claramente seus objetivos estratégicos, a diplomacia terá poucas chances de sucesso. Consequentemente, ele prevê que o conflito continuará a se desenrolar principalmente por meios militares.

Por fim, o ex-consultor do Departamento de Defesa sustenta que a guerra só chegará a uma resolução estável se os Estados Unidos reduzirem significativamente seu envolvimento militar na Europa e permitirem que as nações europeias assumam a responsabilidade direta por sua própria segurança. Em sua visão, quanto mais o conflito se prolongar sem negociações sérias, mais favorável será o cenário estratégico para a Rússia, e menor será a margem de manobra da Ucrânia e de seus aliados ocidentais. Ele conclui que o tempo joga a favor de Moscou e que quaisquer negociações futuras provavelmente ocorrerão em um contexto de equilíbrio de poder mais favorável ao Kremlin do que nas fases iniciais do conflito.

Lições, Sinais de Alerta e Muito Mais…

Para a Argentina, esses acontecimentos oferecem uma lição de imensa importância. Guerras do século XXI não podem ser improvisadas depois que o combate começa; elas são preparadas ao longo de décadas, mediante investimentos contínuos em doutrina, educação militar, pesquisa tecnológica e indústria de defesa. Embora drones, inteligência artificial e sistemas autônomos sejam ferramentas indispensáveis, eles não podem substituir a necessidade de um pensamento estratégico independente.

À medida em que a Europa reorganiza sua arquitetura de segurança para enfrentar um período de competição prolongada, nosso país deve se perguntar de que tipo de capacidades militares precisará daqui a 20 ou 30 anos. A principal lição extraída do caso da Ucrânia não reside apenas em como combater, mas em como pensar estrategicamente antes que a guerra chegue. Pois, como demonstra o conflito europeu, as batalhas começam muito antes de o primeiro tiro ser disparado e continuam muito depois de a última cidade ser conquistada.


Publicado no La Prensa.

Compartilhe:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn
____________________________________________________________________________________________________________
____________________________________
________________________________________________________________________

Veja também