
Da visão dos Pais Fundadores aos desafios do século XXI: como o retrocesso democrático e o distanciamento de princípios originais afetam a imagem e a influência dos Estados Unidos como potência global, em uma análise sobre estabilidade e hegemonia.
É indubitável que os Estados Unidos da América exerceram forte influência político-jurídica no Brasil: por exemplo, adotamos deles o sistema de governo (presidencialismo), a separação de poderes, a forma de Estado (federalismo), o sistema jurídico (modelo de jurisdição constitucional inspirada na Suprema Corte), a Common Law ou o Direito baseado em precedentes e súmulas de tribunais, o controle de constitucionalidade (a Constituição é o critério último das normas), o formado bicameral do poder legislativo (Câmara dos Deputados e Senado Federal), e por fim os mecanismos de Check and Balance, ou “Sistema de Freios e Contrapesos”, como a sabatina no Senado para altos cargos da República, como Poder Judiciário, Ministério Público, Órgãos de Controle como Banco Central, Tribunal de Contas da União e da Administração Federal, como embaixadores.
Tudo isso devemos à estrutura já pensada e montada pelos norte-americanos.
Pois bem, feitas as devidas homenagens.
Nesta oportunidade, este artigo explora a evolução da democracia americana, desde os princípios estabelecidos pelos Pais Fundadores até os desafios contemporâneos. Analisa as observações de Alexis de Tocqueville sobre a igualdade e os perigos da tirania da maioria, integrando as perspectivas de Emmanuel Todd, Paul Kennedy e Jared Diamond sobre o colapso de potências.
Por fim, discute o impacto do retrocesso democrático na imagem global dos Estados Unidos, utilizando como referencial teórico o artigo Democratic backsliding damages favorable US image among the global public, publicado pela Oxford Academic em 2025.
Destaca-se que a importância do tema reside na compreensão da estabilidade democrática dos EUA que é crucial para a ordem global, dado que o país atua como principal fiador do sistema liberal internacional e qualquer erosão em seus fundamentos impacta a segurança e a economia mundiais.
Como Pergunta de Pesquisa, busca-se responder “De que maneira o afastamento dos princípios originais dos Pais Fundadores e o atual retrocesso democrático afetam a imagem e a capacidade de influência dos Estados Unidos no cenário global”?
Como metodologia, esta pesquisa adota uma abordagem qualitativa e bibliográfica, baseada em análise documental de fontes históricas (escritos dos Pais Fundadores e Tocqueville) e revisão de literatura científica contemporânea de alto impacto.
A hipótese provisória: O retrocesso democrático contemporâneo prejudica severamente a percepção de legitimidade dos EUA no exterior, porém não anula a sua capacidade de liderança pragmática em alianças de segurança e economia.
Objetivo Geral: Analisar a trajetória da democracia americana e o impacto de suas transformações internas na sua projeção de poder internacional.
Objetivos Específicos: 1) Identificar as divergências entre a filosofia moral dos Pais Fundadores e as práticas políticas contemporâneas; 2) Avaliar a correlação entre o enfraquecimento das instituições democráticas internas e a favorabilidade global em relação aos EUA.
Introdução
Na clássica obra Como as Democracias Morrem, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, cientistas políticos e professores da Universidade de Harvard, argumentam que o colapso democrático contemporâneo ocorre gradualmente por meio da erosão de normas informais, como a tolerância mútua e a reserva institucional.
O processo é liderado por líderes eleitos que subvertem o sistema por dentro, cooptando o judiciário e neutralizando a oposição e a mídia. Assim, a morte da democracia não se dá mais por golpes violentos, mas pelo enfraquecimento das guardas institucionais que protegem o Estado de Direito.

1. Os Princípios Fundadores da Democracia Americana e os Alertas de Tocqueville
A fundação dos Estados Unidos da América representa um marco na história política moderna, estabelecendo um Estado-nação baseado em princípios liberais, democráticos e capitalistas.
Os Pais Fundadores, como George Washington, Thomas Jefferson, James Madison e John Adams, conceberam uma república com tripartição de poderes, sistema de freios e contrapesos (checks and balances) e federalismo, visando a liberdade individual, o Estado de Direito e a soberania dos cidadãos.
Eles acreditavam que o sucesso da nação dependia da virtude cívica e do engajamento de seus cidadãos, alertando contra a troca da liberdade pela segurança.
Alexis de Tocqueville (1805-1859), em sua obra clássica A Democracia na América, analisou os Estados Unidos em 1831. Ele ficou admirado pela igualdade de condições do país, que considerava o grande diferencial americano, moldando os costumes, as leis e a mentalidade social.
Tocqueville identificou três pilares para a sobrevivência da democracia americana:
• A descentralização administrativa;
• A forte religiosidade; e
• O associativismo.
Este último, em particular, era visto como um freio às ações do Estado e ao poder central, pois os americanos tinham o hábito de se organizar em grupos para resolver problemas comunitários, evitando a dependência excessiva do Estado.
Contudo, Tocqueville também alertou para os riscos e ameaças inerentes à democracia.
Ele destacou, por exemplo, a “tirania da maioria”, onde uma massa democrática poderia oprimir minorias ou pensamentos divergentes, criando uma ditadura do consenso.
Além disso, previu o perigo do conformismo e da centralização, onde a busca pela igualdade poderia transformar os cidadãos em seres apáticos, levando a um Estado provedor que, gradualmente, retiraria a liberdade das pessoas em troca de segurança.
1.1 Perspectivas sobre o declínio e o retrocesso democrático estadunidense
A trajetória norteamericana contemporânea é analisada por diversos autores sob a ótica do declínio imperial.
Emmanuel Todd, cientista político, sociólogo e ensaísta francês, formado no Institut d’Etudes Politiques de Paris, com doutorado em História pela Universidade de Cambridge, conhecido por prever a queda da União Soviética, argumenta que o “Império Americano” enfrenta uma desintegração do Ocidente devido a fatores demográficos e sociais.
Paul Michael Kennedy, professor da Universidade de Yale e diretor de Estudos Internacionais de Segurança com John Lewis Gaddis e Charles Hill, onde leciona sobre grandes estratégias, complementa e explora o conceito de “sobrecarga imperial”, onde os custos militares e econômicos para manter a hegemonia superam a capacidade de financiamento do Estado.
Jared Diamond, geógrafo, historiador e escritor norte-americano, atualmente professor de geografia na Universidade da Califórnia em Los Angeles, reforça essa visão ao analisar como respostas políticas equivocadas e o esgotamento de recursos levam civilizações ao colapso, traçando paralelos com o cenário atual.

Nesse contexto, o conceito de “retrocesso democrático” (democratic backsliding) reflete o enfraquecimento das instituições nos EUA no século XXI. Segundo Goldsmith et al. (2025), informações sobre o retrocesso democrático diminuem significativamente a favorabilidade internacional em relação aos Estados Unidos.
Através de experimentos em 12 países, os autores demonstraram que a erosão do soft power coloca em risco a reputação do país como líder democrático. Entretanto, a pesquisa revelou que isso não reduz necessariamente o apoio à cooperação em políticas críticas, como segurança e economia (GOLDSMITH et al., 2025).
2. O Afastamento dos Princípios Originais e a Evolução da Política Externa Americana
Os Pais Fundadores, como George Washington em seu Discurso de Despedida, defendiam a não intervenção em alianças estrangeiras permanentes, temendo que isso drenasse os recursos da jovem república e pusesse em risco sua liberdade. No entanto, o afastamento desses princípios ocorreu gradualmente, impulsionado por uma série de fatores históricos e geopolíticos.
No século XIX, a Doutrina Monroe (1823) declarou a América “para os americanos”, inicialmente buscando evitar a interferência europeia no continente. Contudo, essa doutrina evoluiu para justificar a hegemonia e o domínio econômico e territorial dos próprios EUA na região.
Veja-se, por exemplo, a Guerra Hispano-Americana (1898), que marcou indelevelmente o início do imperialismo naval ultramarino, com os EUA assumindo o controle de Porto Rico e Filipinas sob o pretexto de apoiar a independência cubana, iniciando um ciclo de intervenções militares diretas na América Central e no Caribe, que, como se vê pelas políticas atuais, retorna a sua área de influência primária: a América.
Com efeito, após a Segunda Guerra Mundial, os EUA abandonaram definitivamente o isolacionismo, assumindo o papel de “superpotência global”, e conseguiram “vender” essa imagem ao mundo até uma série de trapalhadas geopolíticas e intervenções militares, que levaram metade do mundo a perder confiança e se afastar de Washington, começando com os títulos da dívida americana, o fim da negociação internacional em dólar, a cansativa política externa de cerco e contenção da Rússia e da China, etc.
Pois bem, retornando.
A doutrina oficial à época, então, mudou para a contenção do comunismo, resultando em intervenções diretas, como nas Guerras da Coreia e do Vietnã, e operações secretas para derrubar governos estrangeiros.
Infere-se assim que três fatores principais contribuíram para o abandono do isolamento político:
• Interesses econômicos e comerciais;
• A ideologia de “missão civilizatória”;
• A segurança nacional.
Entretanto, a crescente Revolução Industrial exigia novos mercados e matérias-primas, necessitando de proteção militar e política. No final do século XIX, surgiu a crença de que os EUA tinham a responsabilidade de “civilizar” e promover a democracia em nações consideradas inferiores.
Já com as Guerras Mundiais e a Guerra Fria, a segurança nacional passou a ser vista como dependente da contenção de ideologias rivais além de suas fronteiras.

3. Desafios Contemporâneos à Democracia Americana e sua Imagem Global
A democracia americana, embora resiliente, enfrenta desafios significativos no século XXI. O conceito de “retrocesso democrático” tem sido objeto de crescente preocupação, com estudiosos apontando para o enfraquecimento das instituições democráticas nos EUA. Este fenômeno tem implicações não apenas internas, mas também para a imagem e o poder de influência dos Estados Unidos no cenário global.
O já citado artigo Democratic backsliding damages favorable US image among the global public, publicado na Oxford Academic em abril de 2025, investigou o impacto do retrocesso democrático na percepção internacional dos EUA.
Os autores, Benjamin E. Goldsmith, Yusaku Horiuchi, Kelly Matush e Kathleen E. Powers, realizaram experimentos em 12 países, com 11.810 entrevistados, e constataram que “informações sobre o retrocesso democrático dos EUA de fato diminuem a favorabilidade dos entrevistados em relação aos Estados Unidos”.
Este achado sugere que a reputação dos EUA como uma democracia forte, um pilar fundamental de seu soft power (capacidade de influenciar por atração), está em declínio.
No entanto, a pesquisa também revelou uma nuance importante: “em nossa análise exploratória, encontramos poucas evidências de que isso diminua o apoio à cooperação com os Estados Unidos.”
Isso indica que, embora a imagem global dos EUA possa sofrer com a percepção de um sistema democrático enfraquecido, sua capacidade de obter apoio para políticas críticas em países parceiros importantes parece ser resiliente, talvez devido a interesses pragmáticos e de segurança compartilhados, mas encontra limites na percepção de ameaças de seus próprios parceiros.
Essa dicotomia entre a imagem e a cooperação política levanta questões sobre a extensão em que o soft power realmente fornece alavancagem essencial para promover os interesses dos EUA.

A luta pelos direitos civis e a composição racial diversa da sociedade americana, uma amálgama de europeus, africanos e latinos, continua a moldar a dinâmica interna e a percepção externa do país.
A metáfora da “luz verde” em O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, simbolizando a esperança inatingível e o sonho americano sempre fora de alcance, ressoa com a complexidade dos desafios que a nação enfrenta para alinhar seus ideais fundadores com sua realidade contemporânea.
3.1 Análise Conclusiva sobre o Declínio e Afastamento dos Princípios dos Pais Fundadores
À luz dos fatos e referenciais teóricos apresentados ao longo do texto, pode-se desenhar uma ideia conclusiva no sentido de que, o abandono da neutralidade e das alianças permanentes reflete mais do que um simples desvio dos ideais dos Pais Fundadores, mas evidencia uma crise profunda no prestígio e na hegemonia global norte-americana.
Essa transição, que no tempo e no espaço começou de forma político-estratégica e agora parte para uma forma jurídico-militar e para um intervencionismo desgastante, sinaliza, indubitavelmente, a perda de capacidades econômicas frente a novos polos de poder e o enfraquecimento de alianças tradicionais que outrora garantiam estabilidade.
Em última análise, tal fenômeno configura uma evidência clara do declínio internacional e da perda irreversível de poder dos Estados Unidos no cenário mundial.

Conclusão
Isto posto, esta pesquisa, após reconhecer a importância do país para a origem de nossas instituições político-jurídicas, em homenagem aos 250 anos da independência dos Estados Unidos, buscou, por meio do ponto de vista dos próprios americanos, analisar o impacto das transformações democráticas dos EUA em sua imagem global.
Em resposta à pergunta de pesquisa, conclui-se que o afastamento dos princípios dos Pais Fundadores – como a não interferência em assuntos internos de outros países e a recusa em estabelecer alianças permanentes (a exemplo de Israel e Reino Unido, para evitar dependência) – e o retrocesso institucional contemporâneo, gera uma crise de imagem que enfraquece o poder de atração dos Estados Unidos.
Os objetivos foram cumpridos ao identificar as divergências históricas entre a moral fundadora e a prática atual, integrando as teorias de Todd, Kennedy e Diamond sobre o declínio sistêmico.
Tem-se que, a hipótese provisória foi acolhida, pois os dados demonstram que, embora o retrocesso democrático prejudique a percepção de legitimidade dos EUA, a cooperação estratégica em alianças de segurança e economia permanece resiliente.
O país continua a ser um parceiro necessário e estratégico sob a ótica pragmática da geopolítica, mas cum grano salis, equivale dizer: embora enfrente o desafio da sobrecarga imperial e da desintegração de seus valores democráticos fundamentais, permanece o desvio dos princípios morais e cívicos estabelecidos pelos Pais Fundadores, de não se imiscuir na soberania de outros Estados, igualmente soberanos, sob pena de, em algum momento, atrair a inimizade de todos os outros países e terminar isolado e enfraquecido, economicamente e militarmente.
Referências
DIAMOND, Jared. Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Rio de Janeiro: Record, 2005.
GOLDSMITH, Benjamin E.; HORIUCHI, Yusaku; MATUSH, Kelly; POWERS, Kathleen E. Democratic backsliding damages favorable US image among the global public. PNAS Nexus, v. 4, n. 4, pgaf104, 4 de abril de 2025. https://academic.oup.com/pnasnexus/article/4/4/pgaf104/8099475.
KENNEDY, Paul. Ascensão e queda das grandes potências: transformação econômica e conflito militar de 1500 a 2000. Rio de Janeiro: Campus, 1989.
TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. Belo Horizonte: Itatiaia, 1987.
TODD, Emmanuel. Depois do império: ensaio sobre a decomposição do sistema americano. Rio de Janeiro: Record, 2003.
TODD, Emmanuel. A derrota do Ocidente. Principia Editora. 2024.
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