
Ucrânia e Irã são capítulos de uma mesma guerra global fragmentada; sob a lógica da Guerra Irrestrita e da Névoa da Guerra 2.0, a desinformação, o desgaste logístico e a saturação tecnológica redefinem a segurança mundial, e entender essa sinergia é essencial para não ser arrastado por ela.
Atualmente, em abril de 2026, as guerras na Ucrânia e no Irã estão profundamente interligadas pela convergência de interesses militares, competição por recursos pelo ocidente e estratégias de evasão econômica. O início da guerra contra o Irã, em 28 de fevereiro de 2026, impactou e remodelou o cenário para Kiev e Moscou.
Interconexão Estratégica e Militar: A relação entre os dois conflitos se manifesta principalmente por meio de três eixos fundamentais:
• Desvio de Recursos e Atenção: O presidente Volodymyr Zelensky alertou em veículos de comunicação como a BBC que uma guerra prolongada no Irã beneficia Vladimir Putin, pois força os Estados Unidos a desviar mísseis antiaéreos críticos (como o Patriot PAC-2 e o PAC-3) para o Oriente Médio, deixando a Ucrânia com suprimentos limitados para sua defesa.
• Troca de Tecnologia de Drones: A colaboração que começou com o fornecimento de drones Shahed do Irã para a Rússia evoluiu para uma “convergência estratégica”. Segundo a CNN em Espanhol, a Rússia está agora transferindo versões atualizadas desses sistemas para o Irã, incorporando inovações aprendidas na frente ucraniana.
• Evasão de Sanções: De acordo com uma análise do The Conversation, a Rússia está usando redes de comércio informal e métodos virtuais (criptomoedas) desenvolvidos pelo Irã ao longo de décadas para contornar as sanções internacionais.
Tensões Diplomáticas
A hostilidade entre a Ucrânia e o Irã aumentou diretamente devido ao novo conflito no Golfo:
• Ucrânia como Alvo: Em março de 2026, parlamentares iranianos declararam a Ucrânia um “alvo legítimo” após acusarem Kiev de fornecer drones a Israel.
• Cooperação com o Golfo: Zelensky ofereceu aos estados árabes do Golfo (também ameaçados pelo Irã) tecnologia de interceptores e drones marítimos em troca de sistemas antimísseis balísticos para a frente ucraniana.
• Impacto Energético: A Rússia aproveitou a alta dos preços do petróleo causada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz para financiar e fortalecer sua atual ofensiva na Ucrânia. Embora tenham sido tentadas tréguas temporárias frágeis na Ucrânia, como a da Páscoa Ortodoxa em abril de 2026, a guerra no Irã permanece extremamente intensa, com ataques a infraestruturas críticas e bloqueios navais que impactam a economia global.
Neste momento (final de abril de 2026), observa-se uma espécie de pausa operacional e um certo impasse estratégico. Embora a rasputitsa (fenômeno da lama da primavera) historicamente dificulte a movimentação de veículos blindados e logística, a situação atual combina fatores climáticos, políticos e táticos, como a desaceleração dos avanços: analistas indicam que os avanços russos diminuíram significativamente nos primeiros meses de 2026, de uma média de 11 quilômetros por dia em 2025 para cerca de cinco quilômetros atualmente. Em fevereiro de 2026, a Rússia registrou sua taxa de avanço mais lenta desde meados de 2024.
Guerra Mundial por Partes
Para nossos leitores do Velho General, queremos explicar como o que está acontecendo nessas frentes de uma “guerra mundial em partes” se relaciona com a doutrina da guerra irrestrita dos generais chineses Qiao Liang e Wang Xiangsui.
De acordo com nossa análise, a conexão reside no fato de que os conflitos atuais na Ucrânia e no Irã são aplicações práticas da Guerra Irrestrita (doutrina publicada em 1999 pelos então coronéis Qiao Liang e Wang Xiangsui). Essa teoria argumenta que a guerra moderna não se limita mais ao campo de batalha tradicional, mas deve ser travada “além dos limites”, integrando meios militares e não militares para derrotar um oponente superior (por exemplo, os Estados Unidos).

LIVRO RECOMENDADO:
Guerra Russo-Ucraniana: O Conflito que Redesenhou a Geopolítica Mundial
• Rodolfo Queiroz Laterza e Marco Antonio de Freitas Coutinho (Autores)
• Edição Português
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Relação com os Conflitos na Ucrânia e no Irã
Os princípios de Qiao e Wang refletem-se hoje na forma como esses cenários se entrelaçam para desestabilizar a ordem liderada pelo Ocidente:
• Exaustão por Múltiplas Frentes: A doutrina propõe atacar o inimigo em tantos pontos quanto possível, de modo que sua capacidade de resposta entre em colapso. A abertura da frente no Irã, em fevereiro de 2026, força os EUA a dividir seu arsenal (como mísseis Patriot e muitos outros) entre Kiev e Teerã, uma tática clássica de “sobrecarregar” o sistema defensivo do rival.
• Guerra Econômica e Financeira: Qiao e Wang consideram o controle de recursos e a manipulação de mercado como armas de guerra. A Rússia e o Irã utilizam redes comerciais informais e criptomoedas para contornar a eficácia das sanções ocidentais, transformando a economia em um escudo defensivo irrestrito. A coalizão liderada pelos EUA faz o mesmo com um bloqueio bancário, já que todas as transações com bancos iranianos, incluindo o Banco Central do Irã, são proibidas. O uso do sistema financeiro americano para quaisquer transações comerciais com o Irã é bloqueado.
• Agnosticismo Tecnológico (Drones): O livro argumenta que nações menos poderosas podem vencer utilizando tecnologia civil ou de baixo custo de maneiras inovadoras. O uso massivo de drones iranianos na Ucrânia e a transferência de atualizações tecnológicas russas para o Irã exemplificam como as “regras” da superioridade tecnológica convencional são quebradas.
• Desfoque de Fronteiras: Ao declarar a Ucrânia um “alvo” por seu suposto apoio a Israel, o Irã opera sob a premissa de que “não há regras e nada é proibido”. Isso transforma um conflito regional em uma guerra global interconectada, onde atores civis, midiáticos e tecnológicos são combatentes.
Em resumo, o que estamos testemunhando é a sinergia da “guerra sem fronteiras”: enquanto a Rússia mantém o desgaste militar na Europa, o Irã exerce pressão sobre a artéria energética global (o Estreito de Ormuz), e ambos dependem da “rede transacional” que autores como Qiao e Wang previram que marcaria o fim da guerra exclusivamente convencional.
A Névoa da Guerra 2.0
Para esclarecer esse fenômeno da guerra global fragmentada, devemos considerar o que temos chamado de “Névoa da Guerra 2.0” já há alguns anos. O conceito de névoa da guerra 2.0 que propomos é a ponte que conecta a doutrina chinesa de “Guerra Irrestrita” com a realidade atual na Ucrânia e no Irã. De acordo com nossa análise, essa “névoa” não é mais apenas a falta de informação no campo de batalha descrita por Clausewitz, mas um fenômeno causado pela sobrecarga de informações e manipulação digital que obscurece a realidade do conflito.
Essa conexão se articula da seguinte forma:
1. Desinformação e Guerra da Informação: Sustentamos que a mídia e as redes sociais geram uma sobrecarga de informações que atua como uma cortina de fumaça tecnológica. Na Ucrânia: Apontamos que o que é noticiado no Ocidente é frequentemente uma “realidade fabricada” que obscurece a dinâmica operacional real, conforme detalhado em nosso livro, A Guerra na Ucrânia, Volumes I, II e III.
No Irã: Essa névoa permite que as operações sejam realizadas sob premissas como “nós vamos cair, mas vamos levar vocês conosco”, onde a percepção pública é tão importante quanto o impacto dos mísseis.
2. Guerra Irrestrita na Prática: Dessa forma, a Argentina e o mundo estão imersos em uma guerra global irrestrita onde a névoa 2.0 é a principal ferramenta:
Exaustão e Saturação: Assim como os generais chineses, hoje podemos observar como o uso de drones e mísseis busca “cegar, exaurir e sobrecarregar” não apenas os radares, mas também a vontade política e a economia do adversário.
Além do Militar: A Névoa 2.0 permite que conflitos econômicos (como o bloqueio do petróleo) ou conflitos cibernéticos sejam apresentados de forma fragmentada, impedindo a população de compreender que faz parte da mesma guerra total.
3. Perspectiva Estratégica: Nossa visão, do Instituto ELEVAN, insiste que para “dissipar a névoa” é necessário retornar aos princípios estratégicos clássicos, mas adaptados à era da inteligência artificial e do big data. Nossa visão sugere que a guerra entre a Rússia e a OTAN na Ucrânia e o conflito com o Irã são capítulos do mesmo livro: a reconfiguração do poder global rumo à multipolaridade.
Conclusões e Reflexões
O que está acontecendo na Ucrânia e no Irã não são crises isoladas, mas sim de uma mesma guerra global fragmentada. A doutrina de Qiao Liang e Wang Xiangsui não é mais teoria: é prática diária. Nesse cenário, a “Névoa da Guerra 2.0” não obscurece o conflito; ela o define. Desinformação, saturação e desgaste são armas tão decisivas quanto os mísseis.
O problema não é que o mundo esteja entrando em um tipo diferente de guerra. O problema é que muitos ainda não entendem que já estão nela. Para a Argentina (Nota do editor: também vale para o Brasil), o maior risco não é ficar de fora do conflito, mas sim não entender em que tipo de guerra já está imersa.
Publicado no La Prensa.









