
O Brasil enfrenta risco energético com o fechamento de Ormuz? Não; porém, a somos economicamente vulneráveis: inflação, custos logísticos e dependência de fertilizantes ameaçam o agronegócio e o bolso do cidadão. Entenda os impactos da crise no Golfo sobre a resiliência nacional.
Introdução
O Brasil tem baixa dependência física do petróleo que passa pelo Estreito de Ormuz. A maior parte do petróleo consumido e processado no país vem da produção interna, especialmente do pré-sal, e as importações de petróleo bruto provenientes do Golfo são mínimas.
Entretanto, isso significa que não há risco imediato de desabastecimento caso o estreito permaneça fechado, já que a vulnerabilidade brasileira não está na oferta física, mas no impacto indireto sobre preços globais.
Passaremos a analisar a seguir os principais aspectos relativos à capacidade de resiliência do mercado brasileiro à crise no Golfo Pérsico.
Vulnerabilidade econômica e impacto sobre combustíveis
Mesmo com baixa dependência logística, o Brasil é altamente sensível ao efeito-preço, pois o petróleo é uma commodity global. O fechamento de Ormuz pressiona o preço internacional do Brent, que tende a subir de forma acentuada em cenários de conflito prolongado. Esse movimento encarece gasolina, diesel e gás de cozinha no mercado interno, já que os preços domésticos acompanham a paridade internacional. A alta dos combustíveis pressiona a inflação, dificulta a condução da política monetária e reduz o espaço para cortes de juros, afetando toda a economia.
Exportações brasileiras para o Golfo
Por outro lado, o Brasil depende das rotas que passam por Ormuz para exportar para os países do Golfo Pérsico. Em anos recentes, mais de uma centena de milhares de contêineres foram enviados para a região, com predominância de proteína animal, especialmente frango, além de madeira, papel e outros produtos industriais. Com o estreito fechado, navios brasileiros enfrentam dificuldades para acessar mercados como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait e Bahrein. O custo logístico aumenta, prazos se alongam e parte das exportações pode ser interrompida, afetando diretamente o agronegócio e setores industriais dependentes desses mercados.
Fertilizantes como ponto crítico
A maior vulnerabilidade brasileira está nos fertilizantes. O Brasil é um dos maiores importadores do mundo e depende de insumos que, em grande parte, transitam por rotas ligadas ao Golfo. Produtos como amônia, ureia, enxofre e derivados de gás natural são fundamentais para a produção agrícola. Com o fechamento de Ormuz, os preços desses insumos sobem de forma significativa, elevando o custo de produção no campo e criando risco de repasse para os preços dos alimentos. Esse é o ponto mais sensível da resiliência brasileira, pois afeta diretamente a competitividade do agronegócio e a inflação doméstica.

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Efeitos macroeconômicos internos
O Brasil apresenta vantagens e desvantagens diante da crise. Como exportador líquido de petróleo, o país pode se beneficiar de preços mais altos, aumentando a arrecadação com royalties e participações especiais. A produção interna robusta também garante segurança energética. No entanto, a inflação tende a subir com o encarecimento dos combustíveis e dos fertilizantes, o que pode manter os juros elevados por mais tempo. As exportações para o Golfo enfrentam interrupções e os fretes marítimos ficam mais caros globalmente, pressionando custos de importação e exportação. Por outro lado, importações de mercados alternativos, como a Rússia, encontram-se também restritos devido à Guerra Russo-Ucraniana.
Síntese da resiliência brasileira
A resiliência física pode ser considerada elevada, já que o Brasil não depende do petróleo que passa por Ormuz e não enfrenta risco de desabastecimento.
Por outro lado, a resiliência econômica pode ser considerada moderada, pois o país sofre com inflação, juros mais altos e custos logísticos.
A resiliência agrícola brasileira seria o calcanhar de Aquiles nacional. Ela pode ser considerada de baixa a moderada, devido à forte dependência de fertilizantes importados.
A resiliência comercial também seria outro calcanhar de Aquiles. Ela é baixa, já que as exportações para o Golfo são diretamente afetadas pelo fechamento das rotas.
Conclusão
O Brasil não enfrenta uma ameaça de crise energética direta, mas poderá enfrentar uma crise de preços, uma crise de fertilizantes e uma crise logística caso o Estreito de Ormuz permaneça fechado. A resiliência existe, mas é parcial e depende da duração e da intensidade do conflito no Golfo.
Publicado no Substack “GRU! Onde a Análise Geopolítica é a Missão”.








