
A guerra na Ucrânia revela que o poder militar não está nas armas, mas na rede que as sustenta: logística, energia, comunicações e inteligência. A lição é direta: adquirir equipamentos não basta; é preciso garantir disponibilidade, resiliência e autonomia de decisão.
A guerra na Ucrânia continua oferecendo lições que vão além da análise dos movimentos táticos e dos resultados obtidos no front. Os recentes ataques contra pontes sobre o rio Dnieper, a pressão russa sobre a infraestrutura civil e energética, e a incerteza quanto ao compartilhamento de inteligência ocidental revelam uma dimensão essencial do conflito: a luta para degradar o sistema que permite a um Estado sustentar suas operações militares.
Em uma guerra prolongada, não basta dispor de aeronaves, mísseis, drones ou veículos de combate. É necessário mantê-los operacionais, abastecê-los, proteger suas comunicações, contar com informações oportunas e garantir que as instalações e as redes logísticas continuem funcionando. A capacidade militar efetiva surge da integração de todos esses componentes. Quando um deles falha, o poder de combate pode diminuir, mesmo que o material principal permaneça intacto.
Um primeiro exemplo aparece na análise de Riccardo Renzi, de 11 de outubro de 2026. Seu artigo, “I ponti sul Dnepr, la strettoia che mette a rischio la resistenza dell’Ucraina” (“As pontes sobre o Dnieper: um gargalo que coloca em risco a resistência da Ucrânia”), examina a vulnerabilidade representada pelas travessias do Dnieper na região metropolitana de Kiev e a possibilidade de que ataques, mesmo sem destruir completamente as estruturas, reduzam a capacidade de trânsito e gerem restrições prolongadas. A questão central não é apenas o dano físico, mas a perda de regularidade no movimento de pessoas, equipamentos e suprimentos.
Relevância Militar
A relevância militar dessa situação é evidente. Uma ponte não é apenas uma obra de engenharia: ela integra uma rede de comunicações terrestres da qual dependem o abastecimento, a mobilidade das forças e a continuidade de diversas atividades civis. Quando uma travessia é inutilizada ou sua circulação precisa ser restrita, o tráfego é desviado para rotas alternativas que podem se mostrar insuficientes. Surgem atrasos, congestionamentos e maiores exigências para os meios de transporte. O resultado é uma perda de flexibilidade logística.
É preciso distinguir, contudo, entre o cenário de vulnerabilidade analisado por Renzi e a manifestação de suas consequências em escala nacional. A importância estratégica das pontes é indiscutível, mas o efeito concreto de sua degradação depende dos danos, das alternativas disponíveis e da capacidade de reparo. É precisamente aí que reside uma das lições do conflito: a resiliência de uma rede é tão importante quanto a resistência de cada uma de suas partes.
A segunda dimensão surge de uma entrevista concedida pelo coronel austríaco Markus Reisner e publicada pela n-tv em 12 de outubro de 2026, sob o título “Für Putin gibt es keine Tabus mehr” (“Para Putin, não existem mais tabus”). O entrevistado descreve uma campanha russa que, segundo sua avaliação, combina drones de ataque, mísseis balísticos e mísseis de cruzeiro contra alvos militares, energéticos e civis. A pressão sobre subestações elétricas, ferrovias, pontes, postos de abastecimento e outros serviços essenciais visa, em sua interpretação, aumentar o custo da resistência ucraniana e enfraquecer a capacidade da população de suportar a guerra.
Reisner também analisa os ataques contra centros de dados da empresa russa Yandex, que poderiam ter sido utilizados para sustentar atividades automatizadas de propaganda e influência. O próprio entrevistado ressalta que as consequências atribuídas a esses ataques nas redes sociais ainda não estavam comprovadas. Essa cautela é importante: na guerra contemporânea, a dimensão informativa adquire relevância crescente, mas as hipóteses sobre seus efeitos devem ser distinguidas dos resultados efetivamente verificados. É a Névoa da Guerra 2.0.
Dependência Ucraniana
O ponto mais significativo da entrevista refere-se à dependência ucraniana da inteligência norte-americana. Reisner sustenta que as informações via satélite e as ferramentas que integram dados de sensores, drones e comunicações contribuem para localizar alvos, planejar ataques e empregar os recursos disponíveis com maior eficiência. A França e o Reino Unido poderiam compensar parcialmente uma eventual interrupção, embora, segundo o analista, não em uma escala equivalente à dos Estados Unidos.
Aqui surge uma questão doutrinária fundamental: a tecnologia, por si só, não gera superioridade militar. Para transformar informações em resultados, é necessária uma cadeia integrada de sensores, comunicações, análise, comando e execução. Uma plataforma de armas pode manter suas capacidades técnicas e, ainda assim, perder eficácia caso a qualidade das informações que recebe diminua, ou se o apoio de que necessita para operar for interrompido.
A terceira dimensão refere-se a algumas declarações feitas pelo presidente ucraniano no dia 12 de outubro. Segundo a mídia, Volodymyr Zelensky denunciou que a Ucrânia não recebeu, por parte de seus parceiros, o habitual aviso prévio antes de um ataque russo com mísseis balísticos contra Kiev. O presidente ucraniano destacou a importância dessas informações para proteger a população.

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A declaração de Zelensky foi divulgada em 13 de outubro de 2026, após uma ofensiva noturna que atingiu infraestruturas civis na capital ucraniana (as informações foram fornecidas por veículos como Swissinfo.ch e Cadena SER).
O episódio foi associado às ameaças de Washington de restringir o compartilhamento de inteligência e a assistência militar, no contexto de suas pressões diplomáticas sobre Kiev. No entanto, é preciso ressaltar que a ausência de um aviso prévio sobre esse ataque não demonstra, por si só, que os Estados Unidos tenham suspendido formalmente toda a cooperação em inteligência. Em sua declaração, Zelensky não atribuiu publicamente a responsabilidade específica a Washington; além disso, a Ucrânia recebe informações de diversos parceiros.
A diferença não é desprezível. Na análise estratégica, uma denúncia, uma interpretação jornalística e uma decisão política oficialmente confirmada não são categorias equivalentes. O que o episódio evidencia, contudo, é a importância operacional do alerta antecipado. Diante de mísseis balísticos, alguns minutos de antecedência podem ser decisivos para acionar as defesas e permitir que a população busque refúgio.
As informações, portanto, não são um mero complemento à defesa: constituem parte integrante dela. Para ir montando o quebra-cabeças…
Uma Mesma Lógica
Os três casos revelam uma mesma lógica. O adversário pode tentar reduzir a capacidade de combate não apenas por meio da destruição de plataformas, mas também atacando os elementos que viabilizam o seu emprego: infraestrutura, logística, energia, comunicações e inteligência. A guerra desenvolve-se, assim, contra um sistema integrado. O objetivo nem sempre é destruir um recurso; pode bastar impedir o seu funcionamento contínuo, forçar o desvio de meios ou gerar uma incerteza que limite a liberdade de ação.
Para a Argentina (e também para o Brasil), essas experiências levantam questões relevantes para o planejamento de defesa. A incorporação de sistemas de armas modernos deve ser acompanhada por uma avaliação realista de seus custos de operação, manutenção, disponibilidade de peças de reposição, munições, formação de pessoal, infraestrutura e sustentação logística. Exige também considerar a proteção de bases, aeródromos, portos, depósitos, redes energéticas e de comunicações, tudo acompanhado da existência de alternativas e capacidades de recuperação.
A cooperação internacional é indispensável para numerosos sistemas contemporâneos. Contudo, depender de fornecedores externos não pode significar ignorar as consequências de uma interrupção no abastecimento, de uma restrição política ou da falta de acesso a informações críticas. A autonomia estratégica não pressupõe fabricar nacionalmente cada componente, nem prescindir de aliados. Significa conhecer as dependências, reduzir vulnerabilidades críticas e preservar a capacidade de decisão e operação diante de contingências.
A lição da Ucrânia não consiste em transpor mecanicamente sua experiência para a nossa realidade, mas sim em compreender que o poder militar é uma capacidade sustentada, e não uma mera soma de aquisições. O valor de uma aeronave depende também de suas peças de reposição, de seu armamento, de seus técnicos, de suas bases e das informações que ela recebe. O mesmo se aplica a qualquer outro sistema de armas.
Em uma guerra prolongada, o verdadeiro poder militar não reside no sistema de armas que se possui, mas sim naquele que pode ser mantido disponível, abastecido e em condições de combate. Comprar uma plataforma não equivale a adquirir uma capacidade estratégica. Sem manutenção, reservas, munições, pessoal especializado, infraestrutura e uma indústria capaz de sustentá-la, tem-se equipamento, mas não, necessariamente, poder militar.
Publicado no La Prensa.









