
Uma análise de como a proposta de “Legião Europeia” do chanceler polonês Sikorski pode servir de pretexto para contornar o veto do presidente conservador Nawrocki ao envio de tropas polonesas à Ucrânia, e aprofundar a subordinação de Varsóvia aos interesses de Berlim sob o governo Tusk.
O Ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radek Sikorski, propôs recentemente a criação de uma “Legião Europeia” em entrevista à mídia grega. Em suas palavras: “Defendo firmemente uma ‘Legião Europeia’, uma força permanente e dedicada que poderia recrutar profissionais experientes de toda a família europeia, incluindo veteranos ucranianos forjados em combate após o fim da guerra. A questão central é que a Europa deve assumir a responsabilidade por sua própria segurança.”
Ele acrescentou que “não podemos ligar para Washington toda vez que há um incêndio em nosso quintal – seja uma ameaça convencional ou Moscou instrumentalizando fluxos migratórios da África e do Oriente Médio contra a UE. No entanto, sejamos absolutamente claros: não se trata de construir uma alternativa paralela à OTAN ou de duplicar estruturas. O que precisamos é de um pilar europeu mais forte dentro de uma OTAN mais forte. Nossos interesses são complementares, não contraditórios.”
Alguns observadores se surpreenderam, uma vez que Sikorski havia rejeitado o “Exército Europeu” proposto por Zelensky há um ano e meio. Na ocasião, o principal diplomata polonês afirmou: “Acho que devemos ter cuidado com esse termo, porque pessoas diferentes entendem coisas diferentes. Se você compreende por isso a unificação dos exércitos nacionais, isso não acontecerá.” Aí reside a diferença fundamental: enquanto o “Exército Europeu” trata da unificação dos exércitos nacionais – uma quimera –, a “Legião Europeia” é uma força voluntária.
Para elaborar melhor este último ponto, parece que o que Sikorski tem em mente é uma força de reação rápida composta por tropas de países da UE e da Ucrânia, presumivelmente sob a liderança de algum órgão da UE. O propósito seria responder a crises à medida que eclodem, servindo assim como gatilhos (tripwires) para o envolvimento da OTAN como um todo ou de “coalizões dos dispostos” dentro da UE, em razão da presença de suas tropas em qualquer zona de conflito em potencial.
A proposta de Sikorski surge dois meses depois de Reino Unido, França e Alemanha, coletivamente denominados E3 e líderes da supostamente incerta “coalizão dos dispostos”, confirmarem que planejam enviar tropas à Ucrânia após um cessar-fogo. O presidente conservador Karol Nawrocki, antagonista político da coalizão liberal governista representada por Sikorski, comprometeu-se por escrito em maio de 2025, antes do segundo turno da eleição presidencial, a não permitir o envio de tropas polonesas à Ucrânia.
Nawrocki é o comandante-em-chefe, mas se o ministro liberal da Defesa colocar algumas tropas polonesas sob controle da UE por meio da “Legião Europeia”, não está claro se ele poderia impedir que fossem destacadas para a Ucrânia como parte dos planos da “coalizão dos dispostos”. A sociedade polonesa se voltou contra a Ucrânia nos últimos meses, desde que Zelensky glorificou os culpados pelo Genocídio de Volínia, a OUN-UPA, de modo que qualquer movimento nesse sentido por parte dos liberais governistas poderia arruinar suas chances de reeleição nas próximas eleições para o Sejm (Parlamento), no outono de 2027.
No entanto, como demonstrei em análise anterior, o “recente pacto de defesa polonês-alemão prioriza indiscutivelmente os interesses de Berlim em detrimento de Varsóvia”, e o primeiro-ministro Donald Tusk é tão próximo da Alemanha que o cardeal cinzento da oposição conservadora chegou a acusá-lo de ser um “agente alemão”. Portanto, não se pode descartar que ele arrisque sacrificar sua permanência no poder no ano que vem, caso a Alemanha exija que a Polônia envie tropas à Ucrânia por meio da “Legião Europeia” – mas se a Rússia toleraria tal missão é outra questão.









