Guerra justa e guerra injusta

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Monumento aos Mortos na Guerra das Malvinas na Plaza San Martín, em Buenos Aires, Argentina
(Roberto Fiadone/Domínio Público/Wikimedia Commons).

Monumento aos Mortos na Guerra das Malvinas na Plaza San Martín em Buenos Aires, Argentina (Roberto Fiadone/Domínio Público/Wikimedia Commons).

A história nos mostra que o Império Britânico sempre travou disputas colonialistas, e objetivos de mera conquista e expansão econômica geram guerras injustas.


Pela primazia do bem comum, que deve ser amado e servido e passa a ser identificado com patriotismo, cada cidadão está moralmente obrigado a promover, manter e defender tudo o que é devido à nação como comunidade política.

Podemos considerar que a disponibilidade permanente de doação ao bem comum é a justiça em seu mais alto grau, e isso se traduz em serviço e amor à pátria. A Pátria é, sem dúvida, o “lugar onde se nasceu”, segundo as palavras de Cícero; desde que a expressão “lugar” seja entendida como um elo verdadeiramente constitutivo do homem que carrega consigo sua geografia, sua paisagem e seu espaço. Só o homem é capaz de tal vínculo e, portanto, só o homem tem uma Pátria.

É aquele todo real constituído por uma comunidade acordada de pessoas substancialmente relacionadas com um território. Este último expressa a sua natureza em linguagem específica, transmitindo intrinsecamente uma tradição histórica e cultural orientada para a meta principal do homem, que é Deus e sua vontade soberana. Neste sentido, o patriotismo faz parte da justiça porque é piedade, como o amor que se tem pela terra dos pais, é reconhecimento e amor à Pátria como dom, pois é concedido junto com a existência.

Guerra justa

Por isso sublinhamos, mais uma vez, a doação permanente ao bem comum se define como justiça e patriotismo. E, especificamente no caso das Malvinas, o bem comum e a justiça foram gravemente feridos, violando assim o direito natural argentino devido à usurpação britânica das Ilhas Malvinas desde 1833.

É por isso que fomos moralmente forçados a recorrer à guerra justa. Seguindo os ensinamentos de São Tomás (S. Th. II, II, 40:1), assim como os de Santo Agostinho e de toda a tradição, o sábio espanhol criador do direito internacional, Francisco de Vitoria, resumiu a doutrina dizendo que a causa justa da guerra são os danos sofridos. E precisamente, a causa de uma guerra justa é, acima de tudo, a reparação do direito a um bem comum claramente violado.

É claro que, em se tratando da reparação de um direito já transgredido, como é o caso das Malvinas, a batalha foi essencialmente justa e, de nossa parte, ocorre a busca de justiça para reparar os danos causados, de uma restituição devida à Pátria pelo direito natural e pelo direito positivo. Na verdade, quando a Inglaterra atacou nosso direito efetivamente exercido sobre as Malvinas e as ilhas do Atlântico Sul, usurpando-nos a posse, em 1833, cometeu um ato de tal natureza que podemos dizer que continua até hoje atacando a Argentina, segundo a segundo, por mais de um século e meio.

Não foi um acontecimento que desapareceu imediatamente, mas, pelo contrário, continuou e continua a ocorrer contra a nossa soberania. Não nos façamos de desentendidos: a terra e os mares da Pátria estão usurpados! Por esta razão, em 1833 (não agora) a Inglaterra forneceu uma causa de guerra justa em nome da Argentina e, para nós, foi a causa motivadora em todos os momentos durante o tempo que passou até hoje.

Completa falácia

Neste sentido, a afirmação de diversos aliados da Inglaterra de que a Argentina é o país agressor porque tentou restaurar o controle das Malvinas e outras ilhas em 2 de abril de 1982, é uma completa falácia. Representa a falta de conhecimento integral de todas as coisas. Temos que deixar bem claro que, quando se trata de soberania, renunciar a alguma coisa equivale a renunciar a tudo. Poderíamos chamar isso de pecado de alta traição. Isso deve ficar definitivamente claro, especialmente diante de tanta confusão e tentativas burlescas de ficar bem com os poderosos, buscando fórmulas ridículas de “guarda-chuvas”, “Winnie-the-Pooh” e outras ervas…

Com este objetivo é importante lembrar que houve pelo menos cinco invasões inglesas ao nosso país: em 1762, 1806, 1807, 1833 e 1845. A primeira tentativa inglesa de invadir a Argentina foi na época do governador Cevallos, que mais tarde seria vice-rei do Rio da Prata. Tudo começou em 1762, quando foi organizada uma frota para capturar Buenos Aires sob comando do almirante John MacNamara. Ele veio com o “negreiro” John Reed, que passou algum tempo traficando escravos negros em Buenos Aires. Esta foi uma concessão que a Inglaterra obteve e que explorou durante muitos anos, introduzindo e comercializando escravos.

No Rio de Janeiro, navios portugueses juntaram-se à expedição, e como Cevallos havia tomado Colônia do Sacramento, MacNamara tentou primeiro ocupá-la e depois atacar Buenos Aires. Ele falhou em 24 de dezembro e retornou em 6 de janeiro de 1763. Não foi recebido pelos Três Reis Magos, mas pelos canhões dos defensores que destruíram o navio do almirante. Concluindo, MacNamara e Reed, entre outros, morreram, encerrando assim sua trágica aventura.

Depois ocorreram as invasões de 1806 e 1807, quando o inimigo encontrou uma derrota esmagadora nas mãos do injustamente esquecido Santiago Antonio María de Liniers y Bremond. Em 1833 ocorreu a usurpação das Ilhas Malvinas e, em 1845, na Vuelta de Obligado, tentaram novamente subjugar nossa soberania e entraram em confronto com o espírito altivo e nobre dos criollos comandados por Juan Manuel de Rosas. Como vemos nesta extensa história, nosso inimigo trava sempre disputas colonialistas; portanto, é óbvio que a mera conquista e expansão econômica geram guerras injustas.

Mas, paradigmaticamente, a agressão e anexação de territórios pela Inglaterra na Índia, Malásia, África, Europa e América nunca constituíram motivos de guerra legítimos e nem conferiram o direito à guerra. Portanto, vale a pena argumentar que, no geral, o império inglês dos séculos XVIII e XIX foi fundado inteiramente em confrontos injustos.

A usurpação das Malvinas e suas dependências deve situar-se neste quadro geral. Se somarmos a isto, hoje, as características destacadas pelos moralistas como típicas da guerra injusta, especificamente, o mero desejo de vingança e as reações de orgulho nacional herdado ou de prestígio violado, é ridículo observar como a Inglaterra consegue alcançar uma rara e nada desprezível posição mundial.


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Motivos legítimos

Nos enche de satisfação, tanto moral como intelectualmente, possuir a evidência total de um fato quase incomparável e único no mundo louco e instável de hoje e daquele de 1982. A Argentina reuniu e pode invocar todos os motivos legítimos de uma nação que lutou e luta de forma justa. Ninguém quer o conflito e este deve se encerrar com a paz.

Se acrescentarmos a isto a atitude cristã da Argentina, nada está mais longe disso do que o ódio ao inimigo. Desta forma, entende-se que, quando alguém está em batalha, seu espírito deve estar seguro e protegido. Estes soldados (jovens soldados e não chicos de la guerra), fidalgos modernos, enfrentaram o perigo e a morte como ato supremo de doação ao bem comum da Pátria com espírito magnânimo e heroico.

Por outro lado, aos elementos da guerra justa somam-se outras implicações históricas de importância transcendental como não ocorria desde 1845. A consciência cristã que descobriu a América Latina carrega em si a tradição bíblico-cristã, bem como as tradições grega, latina e ibérica.

Estas tradições dirigem-se, em primeiro lugar, ao Mediterrâneo como veículo natural das três principais penínsulas (Grécia, Itália, Espanha), devido ao trabalho da Espanha na travessia do Atlântico e sua transformação em um segundo Mediterrâneo. Ao final desta, outra península histórica, a do extremo sul da América Hispânica, aparece como herdeira, junto com a América Latina, daquelas tradições grega, latina, ibérica e cristã.

Estas nações, unidas por fé, história, cultura e língua comuns, representam um mundo completamente diferente daquele dos gigantes deste século. Somente esta parte mutilada do mundo, o conjunto das nações ibéricas, mantém a validade de uma concepção de vida que não é de forma alguma uma “síntese” ou solução intermediária entre as demais, mas, antes, algo essencialmente diferente e, por que não, uma última esperança para este mundo dilacerado e em processo de autodissolução.

União iberoamericana

O ato supremo da Argentina retomando as Malvinas naquele glorioso 2 de abril de 1982, diante dos poderosos que querem ignorar a justiça de sua ação, talvez possa abrir a porta para um futuro de união iberoamericana para nos fortalecer e restaurar a Reunificação da Hispanidade. Este é o objetivo perseguido em nosso próximo I Congresso de Reunificação da Herança Hispânica, que ocorrerá no próximo mês de maio na cidade de Cartagena de Indias, na Colômbia. A adesão de toda a Iberoamérica à façanha das e pelas Malvinas é um exemplo evidente da justa causa desta luta sustentada pela Argentina. Permitiu emergir na superfície histórica um mundo cristão mais justo, não coincidente com o das potências de hoje e que todos os povos iberoamericanos puderam perceber através dos fatos que esta luta trouxe à luz.

Por um destino que muitos não conseguem perceber, vale a pena lutar e morrer.

Apropriadamente, precisamos nos lembrar de nossos mortos, militares e civis, que deram a vida pela Pátria. A estas figuras exemplares que regaram com seu sangue as nossas ilhas e os mares gelados do sul, aos heróis que são tão necessários como os santos para que um povo se realize. Às famílias, aos pais que ficaram sem os filhos e aos filhos que ficaram sem os pais. Às mulheres que ficaram viúvas quando algumas apenas começavam a viver. Honramos profundamente a todos eles e muitos mais.

Conscientização e educação

Mas e agora? O resultado da luta foi adverso para nós e seria inútil esconder a dor profunda que isso nos causa. Mas seria no mínimo absurdo ignorar os benefícios produzidos pelo próprio fato da guerra vivida, em primeiro lugar, pelos soldados que lutaram com coragem e heroísmo e escreveram com seu sangue uma página brilhante da nossa história. E, sem dúvida, um combate vivido também por todos os argentinos cujos corações ardiam na unidade, inflamados pelo amor patriótico a uma causa nacional e pela justa consciência deste feito solene sustentado contra o usurpador inglês. Fomos derrotados, mas não vencidos. Tal como em 1833, um ato de força nos tirou o que sabemos ser nosso e que nos pertence por direito.

O resultado adverso da luta não altera a justa razão que temos sobre as Malvinas. Antes, pelo contrário, foram assinados com o sangue derramado, arejados por aquelas vozes inabaláveis ​​do além-túmulo que ainda clamam por justiça e pela vontade determinada de toda a Nação. A Pátria enriqueceu seu patrimônio de glória e honra.

A conscientização e a educação contínuas sobre essas questões são essenciais para manter intacta a nossa identidade. Não nos esquecemos disso no Instituto ELEVAN e incansavelmente, ano após ano, realizamos a diplomação universitária “Malvinas, Educação e Soberania” para ensinar a ensinar a Obra da Pátria, cuja informação está disponível no portal: www.elevanargentina.com.ar.

Por fim, queremos destacar que neste artigo nos inspiramos em dois textos publicados em 1982 pelo Dr. Alberto Caturelli e pelo Dr. Bernardino Montejano, a quem admiramos e seguimos.


Publicado no La Prensa.


Bibliografia

DE AQUINO, São Tomás. Suma Teológica II. Volumes I e II. Biblioteca de autores cristãos. Segunda edição, Madri, 1993.

DE VITORIA, Francisco. Reelecciones sobre los indios y el derecho de guerra. Espasa-Calpe. Terceira edição, Madri, 1975.

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