Desdobramentos estratégicos e operacionais depois de dois anos de Guerra Russo-Ucraniana

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Soldados russos em um tanque T-80 em direção à fábrica de Azovstal, Ucrânia, em 16 de abril de 2022 (Maximilian Clarke/SOPA Images/LightRocket via Getty Images).

Soldados russos em um tanque T-80 em direção à fábrica de Azovstal, Ucrânia, em 16 de abril de 2022 (Maximilian Clarke/SOPA Images/LightRocket via Getty Images).

Por qualquer perspectiva, a Guerra na Ucrânia mudou o mundo, e a narrativa ocidental construída para o conflito não foi suficiente para deter uma nova realidade geopolítica.


Introdução

A captura da cidade-fortaleza de Avdeevka em 17 de fevereiro de 2024 pelas forças russas teve um efeito tático-operacional bastante importante para o desenvolvimento de novas progressões no teatro de operações que tendem a gerar novos controles de território por parte da Federação Russa na guerra contra a Ucrânia-OTAN.

Embora os avanços sejam graduais pela dinâmica do conflito, caracterizado por amplo uso de sistemas de reconhecimento, vigilância e monitoramento das forças inimigas, bem como danos infligidos por drones kamikaze e do tipo FPV (First Person Vision, ou seja, operado em primeira pessoa) e emprego maciço de minas antitanque e antipessoal em fortificações que nivelam a linha de frente, a iniciativa operacional ofensiva por parte da Federação Russa nas circunstâncias atuais molda a natureza dos combates e permite que a força atacante crie condições favoráveis taticamente no teatro de operações que podem se refletir na esfera estratégica.

As forças russas atualmente empreendem operações ofensivas pontuais e de alcance limitado em cinco eixos de progressão, os quais destacamos: a linha de contato de Svatovo-Kreminna à margem do Rio Oskol e na altura de Kupyansk-Sinkovka; em direção a Terny com foco em Yampolovka próximo a Lyman; em Belohorivka visando a cidade -fortificação de Belohorivka; os flancos de Bakhmut, notadamente em Bogdanovika visando Chasov Yar, importante centro logístico ucraniano; os assentamentos adjacentes a Avdeevka a sudoeste e oeste (respectivamente Severne e Lastochino, que foram controladas pelas forças russas até a elaboração deste ensaio), além de controlar Orlovka, importante ponto de concentração de forças ucranianas residuais na área; a oeste de Marjinka, em operação de manobra para controle dos assentamentos limítrofes de Georgievka e Novomikhailovka, visando controle da estrada que leva a Ugledar, alvo notório das forças russas ao sul de Donetsk; e finalmente operações de expulsão de forças ucranianas na saliência de Rabotino-Verbovoye, alvo da fracassada contra ofensiva ucraniana de 4 de junho passado e que se tornou uma kill zone para tais forças.

Embora haja batalhas em outros setores do perímetro operacional, os eixos de progressão principais deflagrados pelas forças russas com seus objetivos militares maiores nesta ofensiva limitada de inverno são os acima analisados.

Buscaremos neste artigo analisar os desdobramentos posteriores à queda de Avdeevka, que terá repercussão em todo conflito e poderá definir novas dinâmicas no teatro de operações ao longo do ano de 2024.

Operações para controle dos assentamentos limítrofes à Avdeevka

Após o controle de Avdeevka, as Forças Armadas russas lançaram uma ofensiva nos dois pontos mais próximos: Lastochino, Severne e Orlovka. As principais rotas de abastecimento de Avdeevka passavam por Lastochino e Orlovka, de modo que as Forças Armadas da Ucrânia (FAU) recuaram para tais assentamentos depois de perderem aquela cidade.

Em Lastochino, os ataques russos logo se firmaram, tendo tomado parte da aldeia e os ataques se desenvolveram para oeste da cidade. Após a consolidação, foi feita uma breve pausa – a artilharia e a aviação trabalharam ativamente nos alvos ucranianos identificados. O controle rápido de Lastochino permitiu um rápido cerco operacional a Orlovka, que foi controlada por grupos de assalto após pesado ataque de artilharia e de aviação.

A queda de Tonenkoye pelas forças russas na adjacência a Orlovka teve um efeito psicológico favorável à Federação Russa perante sua população russófona em Donetsk, uma vez que a partir deste assentamento partiam ataques de barragem de artilharia àquela cidade, infligindo vítimas civis e destruição de infraestrutura crítica e residencial.

A combinação “aviação + artilharia + infantaria” pelos russos permitiu desenvolver um esquema de ataque próximo do ideal de saturação de forças adversárias, além de garantir que sejam minimizados atrasos na transferência de informações dos grupos de assaltos e drones de reconhecimento e detecção de alvos para a aviação e artilheiros.

O uso coordenado de tropas de engenharia pelas forças russas tem assegurado neste eixo de progressão um controle de área mais rápido. Durante sua retirada, as Forças Armadas da Ucrânia espalharam um grande número de minas que tiveram que ser neutralizadas pelas unidades de engenharia.

Observando os problemas das forças ucranianas neste setor, verificaram-se problemas de diluição de forças de elite e recentemente mobilizadas que evidenciam problemas de coordenação na retirada das unidades de combate e graves lacunas de comunicação entre o comando e as forças envolvidas.

A título de exemplo, apenas duas semanas antes do avanço das Forças Armadas russas, na parte central de Avdeevka, não apenas a 3ª Brigada de Operações Especiais “Azov”, mas também a 47ª Brigada de Infantaria Mecanizada “Magura” foram reforçadas por soldados recentemente mobilizados a partir da 111ª Brigada de Defesa Territorial. Esta decisão indicou que para a defesa de toda área de Avdeevka e assentamentos próximos, as brigadas mais motivadas, mais bem treinadas e equipadas com equipamento ocidental mostraram menor eficiência do que nas áreas que anteriormente lhes foram confiadas.

Aquelas brigadas foram transferidas para Avdeevka de direções particularmente perigosas: a 3ª Brigada Separada Azov a partir de Kremennaya e dos flancos de Bakhmut, enquanto a 47ª Brigada Separada da direção Zaporizhzhia, onde sofreram perdas contínuas desde junho do ano passado e foram reforçadas várias vezes com batalhões territoriais para compensar as perdas.

Vale ressaltar que todos os menores de 35 anos foram ativamente transferidos para a 3ª Brigada Especial Azov e para a 47ª Brigada “Magura”. Neste contexto, as pesadas perdas recentes de homens em idade adulta ideal para combate prejudica ainda mais a degradação progressiva das eficiências operacionais das forças ucranianas. Para operações militares bem-sucedidas, além de armas, ainda são necessários homens jovens e com certo nível físico e mental, em resistência e força, com adequada aptidão física, realidade cada vez mais escassa na sociedade ucraniana, diante da escala de perdas no conflito e milhões de homens em idade militar refugiados.

Uma miscelânea de ex-oficiais terrestres e combatentes da 3ª Brigada Especial levou ao fato de que, no final das contas, apenas 12 combatentes permaneceram integrados às demais unidades das Forças Armadas Ucranianas. A mesma abordagem foi testada nas 36ª e 37ª Brigadas de Fuzileiros Navais em Krinky, região de Kherson, que se misturaram com formações das 116ª, 117ª e 118ª Brigadas de Infantaria Mecanizada vindas da seção de Rabotino e com a 82ª Brigada Aerotransportada Especial na mesma direção. Em todos os casos, a diluição de uma brigada inicialmente bem treinada e equipada levou a uma perda quase completa da eficácia do combate, por problemas de coordenação e sincronia de combate.

Na batalha de Avdeevka, as forças russas tiveram muito melhor coordenação ao promoverem ataques e incursões em quatro eixos de progressão concomitantes. As forças envolvidas foram centralizadas no comando do agrupamento de tropas “Centro”, englobando as seguintes unidades: 30ª brigada de fuzil motorizada separada do 2º Exército; 35ª brigada de Rifles Motorizada Separada, 55ª Brigada de Rifles Motorizada Separada (Montanha), 74ª Brigada de Rifles Motorizada Separada do 41º Exército; 1ª Brigada de Rifles Motorizada Separada, 9ª Brigada de Rifles Motorizada Separada, 114ª Brigada de Rifles Motorizada Separada, 1454 Regimento de Rifles Motorizado, 10º Regimento de Tanques do 1º Corpo de Exército; 6º Regimento de Tanques, 80º Regimento de Tanques, 239º Regimento de Tanques da 90ª Divisão de Tanques.

Ataques simultâneos russos na saliência de Rabotino-Verbovoye

Os ataques das forças russas na saliência de Rabotino-Kopani-Novopropovka-Verbovoye se iniciaram ainda em janeiro, em operações de reconhecimento em força. Os ataques foram se incrementando em escala, com barragens de artilharia sucedidos por progressão ponto a ponto de grupos táticos de assalto russos que promoviam a eliminação de forças ucranianas em trincheiras e linhas defensivas precariamente estruturadas desde a ofensiva de 4 de junho do ano passado neste setor.

Aproveitando maior escassez de sistemas de artilharia e munições, as forças russas empreenderam a iniciativa, desalojando forças ucranianas do sul, oeste e na parte central de Rabotino, bem como de cinturões florestais e posições a oeste de Verbovoye.

O significado tático de Rabotino é basicamente voltado para expandir a zona de segurança da linha de contato ampliada ligeiramente pelas forças russas em fevereiro de 2023, desalojando as forças ucranianas e gerando impacto midiático negativo com a perda da pequena área retomada na ofensiva ucraniana do ano passado.

Entretanto, não é compensatório para nenhuma força beligerante se consolidar em Rabotino e nas áreas circundantes, pois é um povoado menor, em ruínas e o terreno é em planície e muito descoberto, facilitando ataques por drones kamikaze e FPV, bem como em ataques de artilharia.

Portanto, em nossa análise, os objetivos russos nesta saliência são limitados e pontuais durante o inverno.

A situação no setor de Bakhmut-Chasov Yar

Desde dezembro As forças russas promovem uma ofensiva neste eixo, a partir de duas direções: Bogdanovika e Krasny mais ao sul. As batalhas na aldeia de Bogdanovika estão em um impasse desde janeiro, com áreas se alternando em controle. Atualmente ocorrem no centro da vila, uma importante área de contenção para um ataque decisivo a Chasov Yar, um dos mais importantes centros logísticos das forças ucranianas em Donetsk.

Em Krasny, até o momento em que este ensaio se finaliza (1º de março de 2024) , os combates se situam no centro da cidadela, que está na iminência de ser tomada pelas forças russas. Consumando-se seu controle pelos russos, uma nova progressão poderá se desenvolver para Chasov Yar a partir do sul, contornando Bogdanovika.

Diferentemente da área de Avdeevka, considerarmos que qualquer avanço russo nesta área será mais difícil, diante das barreiras físicas naturais e menor concentração de efetivo.

A situação na seção da frente Marjinka-Ugledar

À medida que a situação na área da saliência de Avdeevsky se tornou cada vez mais crítica para as Forças Armadas da Ucrânia, as operações de combate no setor de Marjinka a Ugledar vão ganhando intensidade, onde o principal objetivo das forças russas é criar um trampolim para desenvolver uma ofensiva e cortar a linha de comunicações das forças ucranianas O fato de as Forças Armadas da Federação Russa estarem avançando para noroeste de Marjinka na direção de Georgievka foi confirmado pela maioria dos fontes russas, ocidentais e ucranianas.

As unidades também conseguiram se firmar a sudoeste de Marjinka e como resultado conseguiram expandir a zona de controle ao longo da rodovia Marjinka-Pobeda-Konstantinova, repelindo as formações ucranianas do 197º Batalhão da 124ª Brigada de Defesa Separada, bem como da 79ª Brigada de Assalto Aéreo Separada. Ao mesmo tempo, o flanco direito de forças russas que avançavam no nordeste de Novomikhailovka foi consolidado por ataques maciços de artilharia e infantaria. A queda do vilarejo de Pobeda mais ao sul permitiu novo eixo de progressão.

Isso permitiu que as formações de ataque das Forças Armadas russas ganhassem uma posição segura na periferia leste da vila de Novomikhailovka, derrubando a fortaleza ucraniana que se aproximava dela. Porém, as forças ucranianas com a ajuda do 3º Batalhão da 79ª Brigada de Assalto Aerotransportada, continuam a manter posições firmes no território agrícola adjacente à área leste atuando com o apoio do grupo de reconhecimento com drones Alcor, que infligem baixas e danos as forças russas com emprego maciço de drones FPV. Do sul daquela vila, o avanço russo é difícil devido à ocupação de posições pelo 2º Batalhão de Assalto Aéreo da 79ª Brigada de Assalto Aerotransportada das Forças Armadas da Ucrânia, que empreendem feroz resistência.

Entretanto, quatro quilômetros ao sul, avançando da área da vila de Sladkoe, as Forças Armadas da Federação Russa continuaram a se mover em ampla direção no sentido da rodovia Konstantinova-Ugledar, empurrando as forças ucranianas e forçando-as a recuar à área mantida pelo 12º Batalhão de Infantaria Motorizado Separado da 72ª Brigada Mecanizada Separada das FAU.

Paralelamente ao avanço aqui, ao longo de duas semanas, as forças russas lançaram uma série de ataques de alta precisão contra o ponto de controle da retaguarda, no território da antiga mina Yuzhnodonbasskaya, na área de Vodyanoye. Nesta área, as forças ucranianas começaram a recuar gradativamente, mas ainda mantém posições com as forças do 4° Batalhão da 72ª Brigada de Infantaria Mecanizada, bem como das 116ª e 128ª Brigadas de Defesa Territorial, espalhadas em postos avançados.

O avanço das Forças Armadas da Federação Russa na direção da rodovia Konstantinova-Ugledar no cruzamento com a rodovia S-05-11-02 (trecho Vodyanoye) resolve simultaneamente dois problemas: criar condições para um ataque a Ugledar pelo nordeste, já que pelo sul desta cidade houveram três tentativas fracassadas desde o início do conflito; estabelecer o controle de fogo sobre a rota de abastecimento da 72ª Brigada de Infantaria Mecanizada das FAU, principal unidade de combate ucraniana neste setor.

Atualmente, a logística das Forças Armadas da Ucrânia segue a rota Kurakhovo-Uspenovka-Bogoyavlenka-Ugledar, de 32 km, que fica em média a uma distância de até 18 km da atual configuração da linha de contato. Isso dificulta a realização de ataques direcionados a comboios logísticos e de reforços das forças ucranianas. O trecho da rodovia Konstantinova-Ugledar até uma profundidade de 15 km na direção de Elizavetovka, Uspenovka e Bogoyavlenka é um sistema em camadas de áreas fortificadas e linhas de defesa, coberto pelas forças da 148ª Brigada de Artilharia Separada de tropas de assalto aéreo. Qualquer ataque russo aqui terá que ter ampla concentração de forças e coordenação com aviação em operações de apoio aéreo cerrado que suprimam e degradem as linhas de defesa ucranianas.

Perspectivas da continuidade da Guerra Russo-Ucraniana ao longo de 2024 pela ótica dos objetivos estratégicos

Em nossa avaliação, o objetivo prioritário da Federação Russa será o controle de toda região de Donetsk, posto ser um componente crítico de seu objetivo estratégico. A região de Lughansk está praticamente controlada em sua inteireza pela Rússia.

O reconhecimento da Crimeia pela Ucrânia como parte da Federação Russa não foi cumprido e nem será obtido nem a médio prazo ainda que se logrem vitórias militares, diante da contenção ocidental.


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Guerra na Ucrânia: Análises e perspectivas. O conflito militar que está mudando a geopolítica mundial

• Rodolfo Laterza e Ricardo Cabral (Autores)
Pedro Silva Drummond (Editor)
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A invocada “desnazificação” declarada como objetivo estratégico da Federação Russa, sob sua perspectiva, não foi concluída, pois o regime político ucraniano que antagoniza ainda existe e permanece consistente, além de cada vez mais hostil a sua estratégia. Enquanto o regime ucraniano plenamente vinculado ao Ocidente existir, o objetivo de “desnazificação da Ucrânia” declarado pelo Kremlin não poderá ser alcançado, não se subsumindo, portanto, à destruição de formações de comando neonazistas como Kraken, Aidar, Azov, Svoboda ou Pravy Sector.

Quanto ao declarado objetivo estratégico russo de “desmilitarização”, se considerarmos a ordem de batalha pré-guerra da Ucrânia, então este foi parcialmente concluído, pois uma parte significativa da indústria militar e dos recursos militares da Ucrânia foram destruídos, incluindo centenas de milhares de soldados ucranianos mortos. Mas como os Estados Unidos e a OTAN continuam e continuarão a enviar armas e mercenários para a Ucrânia, o objetivo declarado da Federação Russa de “desmilitarizar a Ucrânia” ainda não foi alcançado. Do ponto de vista militar, o território da Ucrânia, que se encontra em processo de desenvolvimento militar pela OTAN, representa uma ameaça militar sistêmica para a Rússia.

Lembremos que a Ucrânia, antes do conflito, era o segundo maior Exército da Europa, com efetivo experimentado em combate, grandes inventários de sistemas de armas de todos os tipos e com maior quantitativo de tanques, artilharia rebocada e autopropulsada, Sistemas Múltiplos de Lançamentos de Foguetes (MLRS) e sistemas de defesa aérea do continente, depois da Rússia.

A adaptação constante da Federação Russa no conflito conforme a dinâmica operacional e a realidade mutante no teatro de operações, torna difícil para a OTAN e a Ucrânia nivelarem os objetivos estratégicos que não sejam o foco prioritário na retomada de território, em detrimento de um desgaste profundo estratégico à Rússia, que moldou metas que não foram traçadas inicialmente quando deflagrou sua intitulada “operação militar especial” focada nos objetivos de proteger seus interesses na Crimeia, Donbass e em impedir o ingresso da Ucrânia à OTAN.

Neste contexto, a maior parte da região de Zaporizhzhia tornou-se parte da Rússia em incorporação não reconhecida internacionalmente, mas que politicamente já é aceita nos bastidores das elites políticas do Ocidente coletivo como território perdido. Inicialmente, essa tarefa não existia (como inclusive se depreende do teor dos fracassados Acordos de Istambul, proposto e quase assinado pelas forças beligerantes em março de 2022). Agora, a Federação Russa, para conduzir qualquer negociação que congele ou ponha termo ao conflito, somente avançará se a inclusão de Zaporizhzhia na Federação Russa for levada em consideração, cenário impensável em março de 2022. Alcançar esse objetivo deu origem a um novo objetivo estratégico para a Rússia – estabelecer o controle sobre a cidade de Zaporizhzhia e a parte norte da região que falta ser incorporada em sua área territorial.

Da mesma forma, parte significativa da região de Kherson tornou-se parte formal da Federal Russa, tornando-se um outro objetivo estratégico originalmente não planejado, pois também não existia tal meta ou exigência nos Acordos de Istambul. Assim, a Federação Russa também irá condicionar quaisquer negociações apenas se a inclusão da região de Kherson for levada em conta. E, por consequência, atingir este objetivo deu origem a um novo objetivo estratégico – o retorno do controle sobre a cidade de Kherson e toda margem direita do Rio Dnieper.

Alguma parte da região de Kharkov está sob controle da Federação Russa. Apesar de não terem sido estabelecidas metas oficiais para a inclusão de toda a região de Kharkov ou de suas partes na estrutura territorial da Rússia e controle sobre parte do território da região de Kharkov foi perdido após a ofensiva ucraniana deflagrada pelo eixo da cidade de Balakleya no final de agosto de 2022, é plausível a pretensão da Rússia em ao menos recuperar toda a área perdida, principalmente Kupyansk e Izium.

Através de uma visão mais sistêmica que vincula o conflito ao seu escopo geopolítico mais profundo, podemos extrair as seguintes considerações que influenciam na continuidade do conflito por meios militares neste ano e pelo menos no próximo:

1. A Federação Russa está travando uma guerra por procuração com os EUA e a OTAN no território da Ucrânia. Sem os Estados Unidos e a OTAN, a Ucrânia não tem as capacidades para travar uma guerra com a Federação Russa e manter uma sustentabilidade a médio prazo das linhas de defesa, fortificações e território. A natureza desta guerra e a estratégia escolhida pela Ucrânia – baseada no máximo de controle de terreno ainda que em detrimento de preservação de suas forças – levarão a uma maior redução da população da Ucrânia e à destruição plena de sua base econômica e infraestrutura, já bastante desgastadas, além de custos cada vez mais proibitivos de recuperação, ainda que parcial, da realidade pré-guerra.

2. Esta guerra continuará por muito tempo ainda que com momentos de trégua ou congelamento das hostilidades, considerando todos os fatores críticos acima mencionados, uma vez que a profundidade das contradições entre os Estados Unidos e a Federação Russa vai além da questão ucraniana apenas – estamos falando do futuro da ordem mundial e de uma mudança que pode se revelar definitiva na configuração da arquitetura de segurança global e consolidação de novos blocos de poder no Oriente. Estas contradições não são apenas político-militares ou econômicas, mas também de natureza existencial entre ambas as potências envolvidas, além do envolvimento cada vez maior da China e do Irã em apoio à Federação Russa.

3. Para a cúpula política da Rússia, para suas forças militares e para ampla maioria de sua sociedade, a continuidade da operação militar especial não é um capricho ou meta flexível quanto aos objetivos estratégicos declarados de contenção da OTAN e máxima destruição militar e mudança do regime ucraniano visto como ameaça hostil permanente na configuração atual, mas uma necessidade vital que mobiliza a economia e pensamento político do qual emerge um novo escopo de sociedade, remodelada em sua mentalidade, cultura e visão de futuro a partir da guerra na Ucrânia. Na perspectiva de praticamente a quase totalidade das classes políticas, instituições e inúmeras esferas da sociedade russa, a concretização dos objetivos estratégicos da Federação Russa na Ucrânia é o que permitirá à nação ocupar “o seu lugar de direito na ordem mundial”, que ainda está em remodelação em desconformidade total do que o mundo atlanticista liderado pelos Estados Unidos define como as regras a serem observadas no mundo. Dessa forma, os países ocidentais líderes dessa ordem pós Segunda Guerra Mundial buscarão de todas as formas salvar a velha ordem mundial e farão tudo para impedir que Rússia, China e Irã alcancem seus objetivos de reconfiguração de influências na ordem global. Portanto, é bastante improvável qualquer renúncia ou concessão a estas premissas pelas potências em confronto, o que indica que haverá a permanência de um estado de tensão e riscos de escalada a partir da guerra na Ucrânia.

4. Por todo esse raciocínio, a probabilidade de um conflito direto entre a Federação Russa e a OTAN aumentará com risco de um evento imprevisível gerar uma cadeia de acontecimentos igualmente não previstos, inclusive com o risco de uma guerra nuclear (ainda que limitada em dimensão e emprego de artefatos). Se o mundo conseguir ultrapassar estes cenários terminais e impasses, décadas de uma “nova Guerra Fria” e guerras locais no território de terceiros países certamente que irão se disseminar.

De qualquer forma ou por qualquer perspectiva, o mundo mudou com esta guerra, e a influência sobre a humanidade é determinante para seu futuro e sobrevivência. A narrativa ocidental construída para este conflito não foi suficiente para deter uma nova realidade geopolítica mundial.

Fontes consultadas

GATOPOULOS, Alex. Analysis: How Russia, Ukraine’s militaries stack up after two years of war. Aljazeera, 21 de fevereiro de 2024. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2024/2/21/analysis-how-russia-ukraines-militaries-stack-up-after-two-years-of-war.

ELLYATT, Holly. Ukraine war updates: Russia claims to have inflicted massive losses on Ukraine as defense ministry hails gains in east. CNBC, 27 de fevereiro de 2024. Disponível em: https://www.cnbc.com/2024/02/27/ukraine-war-live-updates-latest-news-on-russia-and-the-war-in-ukraine.html.

GRESSEL, Gustav. Ukraine’s survival: Three scenarios for the war in 2024. European Council on Foreign Relations, 31 de janeiro de 2024. Disponível em: https://ecfr.eu/article/ukraines-survival-three-scenarios-for-the-war-in-2024/.

Is Ukraine losing the war against Russia? The Economist, 21 de fevereiro de 2024. Disponível em: https://www.economist.com/graphic-detail/2024/02/21/is-ukraine-losing-the-war-against-russia.

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RODKIEWICZ, Witold; IWAŃSKI, Tadeusz. The long war. Ukraine and Russia after the failure of the Ukrainian counteroffensive. Centre for Eastern Studies, 6 de novembro de 2023. Disponível em: https://www.osw.waw.pl/en/publikacje/osw-commentary/2023-11-16/long-war-ukraine-and-russia-after-failure-ukrainian.

POSANER, Joshua; MELKOZEROVA, Veronika; LAU, Stuart; MCLEARY, Paul; e DONOVAN, Henry. Ukraine’s war strategy: Survive 2024 to win in 2025. Politico, 22 de fevereiro de 2024. Disponível em: https://www.politico.eu/article/ukraine-war-hang-on-in-2024-to-win-in-2025-putin-zelenskky-russia-counteroffensive/.

WATLING, Jack; REYNOLDS, Nick. Russian Military Objectives and Capacity in Ukraine Through 2024. RUSI, 13 de fevereiro de 2024. Disponível em: https://www.rusi.org/explore-our-research/publications/commentary/russian-military-objectives-and-capacity-ukraine-through-2024.

O’GRADY, Siobhán; GALOUCHKA, Anastacia; e LAMOTHE, Dan. Ukraine suffered losses during chaotic withdrawal as Russia seized Avdiivka. The Washington Post, 21 de fevereiro de 2024. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/world/2024/02/21/avdiivka-retreat-casualties-ukraine-russia/.


Publicado no História Militar em Debate.

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