O fracasso da contraofensiva ucraniana é culpa do Ocidente?

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Soldado ucraniano em trincheira perto de Bakhmut (Libkos/Associated Press).

Por Olivier Dujardin*

Soldado ucraniano em trincheira perto de Bakhmut em março de 2023 (Libkos/Associated Press).

Independentemente da questão propagandística, o Ocidente levou a Ucrânia a acreditar que poderia derrotar a Rússia – uma promessa que não poderia cumprir.


A contraofensiva ucraniana suscitou enormes esperanças. Esperanças estas que, em grande parte, também foram criadas e mantidas pela propaganda do governo ucraniano. Os países ocidentais queriam acreditar, dadas as transferências de armas das quais cada um dos apoiadores se orgulhava. Mas foi um banho de água fria. O fosso entre a expectativa e a realidade é tal que começam a surgir questionamentos sobre os objetivos de Kiev (regresso às fronteiras de 1994) e instala-se a dúvida.

Como podemos explicar tal fracasso quando os ucranianos deveriam lutar contra “um bando de bêbados analfabetos mal treinados ou sem treinamento, equipados com material ultrapassado ​​ou ineficaz, mal comandados e que apenas pediam para se render?” Pelo menos este foi o retrato do exército russo pintado desde o início da invasão. Como declarou o secretário-geral da OTAN em setembro de 2023, “o exército russo era o segundo maior exército do mundo, e agora é o segundo na Ucrânia [1]”.

Desde então, o tom parece ter mudado de repente já que, em dezembro de 2023, o Institute for the Study of War (ISW) alerta, em tom alarmista, que se o exército russo não for detido na Ucrânia, poderá ser uma ameaça para os países da OTAN, incluindo a Polônia e os Estados Bálticos [2].

O mínimo que podemos dizer é que vamos de um extremo a outro…

O argumento mais frequentemente apresentado para explicar este fraco desempenho é que os ucranianos não tiveram os meios para vencer: “foi necessário dar à Ucrânia tudo o que ela precisava desde o início [3]”. Os países ocidentais teriam dado muito pouco e muito tarde, especialmente aviões, armas de longo alcance e munições. Os países ocidentais, por fraqueza, seriam, portanto, os principais responsáveis ​​por esta situação e cabe-lhes, portanto, inverter a tendência, ou seja, abrir finalmente as comportas e transferir em massa as armas que ainda possuem. Só que as coisas não são tão simples.

Treinamento, logística e manutenção

Três palavras não muito “sexy”, mas de importância capital. Os militares são sempre mais eficientes quando utilizam equipamentos que podem não ser tão bons, ou mesmo medíocres, mas dos quais sabem explorar 80 ou 90% das possibilidades. Equipamentos muito eficientes, mas dos quais só sabem extrair 20% do potencial, não são muito eficientes. É sempre melhor entregar a um exército um equipamento que ele domina do que um equipamento recente, mesmo que suas qualidades sejam potencialmente superiores. E foi isso que os países ocidentais fizeram. Primeiro se concentraram em dotar as forças ucranianas de equipamentos ex-soviéticos que já sabiam utilizar e para os quais já tinham cadeias logísticas adequadas. No entanto, como as reservas disponíveis eram limitadas, esgotaram-se rapidamente.

Foi-lhes então fornecido equipamento ocidental, mas mais tarde, porque não apenas os militares ucranianos tinham que ser treinados em sua utilização, mas também todos os técnicos responsáveis ​​pela manutenção e reparo. Tudo isso leva tempo, e esse tempo varia dependendo do tipo de equipamento. É preciso, por exemplo, muito mais tempo para transformar um piloto de um caça de origem soviética em um piloto de caça de origem ocidental do que treinar um artilheiro em uma nova peça de artilharia. O mesmo vale para carros de combate. Não é tão fácil passar de um tanque soviético com três tripulantes para um modelo ocidental com quatro tripulantes e muito mais digitalizado.

São mudanças culturais de grande importância, porque os equipamentos foram concebidos segundo lógicas e contextos de utilização muito diferentes. Se nos exércitos ocidentais são necessários vários anos para treinar uma tripulação de tanque, um piloto de caça ou um artilheiro e levá-los ao melhor nível possível, há uma razão. O mesmo vale para os mecânicos e técnicos responsáveis ​​pela manutenção.


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Os países ocidentais só forneceram determinados equipamentos depois que o pessoal ucraniano passou por um mínimo de treinamento e adestramento. Isto é totalmente consistente: entregar certos equipamentos muito cedo seria um desperdício incrível porque simplesmente não poderiam ser utilizados adequadamente. No entanto, frente a algumas observações e aos resultados da contraofensiva, podemos nos perguntar se, apesar de tudo, a entrega de determinados equipamentos não foi rápida demais. Na realidade, as decisões de transferência só foram anunciadas publicamente bem depois do início da formação dos ucranianos, simplesmente porque a opinião pública não é paciente e, portanto, os anúncios tiveram que ser feitos pouco antes das entregas. Isto causou a ilusão de que seria possível transferir material rapidamente e sem consequências.

Além disso, algumas adaptações levam tempo. Tomemos o caso dos mísseis AGM-88 Harm adaptados ao MiG-29, ou dos mísseis Scalp/Storm Shadow adaptados ao Su-24. Essas integrações de emergência ainda exigiram vários meses de trabalho. Sem dúvida estas transferências foram, portanto, decididas nas primeiras semanas da invasão, em 2022. Recorde-se que, normalmente, a integração de novas armas em um avião de combate demora bem mais de um ano.

Na realidade, teria sido difícil entregar equipamento ocidental ao Exército ucraniano muito mais rapidamente: ou não seria possível utilizá-lo, ou seria muito mal utilizado e provavelmente perdido em combate ainda mais rapidamente do que foi. Acrescente-se a isso o fato de, com exceção dos Estados Unidos, os países tem estoques limitados de equipamento militar.

Consistência do equipamento

Este é um aspecto pouco discutido, mas a falta de consistência nos equipamentos é hoje uma grande pedra no sapato dos ucranianos. A grande variedade de equipamentos que devem utilizar complica muito a manutenção e transmissão de competências (não se passa facilmente de um T-64 a um Challenger II ou a um Leopard 2A6), bem como a logística (as munições e peças sobressalentes são diferentes).

Recorde-se que o exército ucraniano utiliza hoje mais de 20 modelos de tanques de combate – sem contar as variantes – utilizando cinco calibres diferentes; mais de 80 modelos ou variantes de veículos blindados; cerca de 30 modelos de peças de artilharia em oito calibres diferentes; e o mesmo vale para outros equipamentos. Uma riqueza de material que causaria inveja a um museu! Mas compreendemos muito bem o pesadelo logístico que tal diversidade representa, para não falar dos problemas de gestão de recursos humanos: é difícil transferir soldados de uma unidade para outra.

O problema é que todos os países entregaram o que tinham… o que não necessariamente era o que os ucranianos precisavam. A ajuda racional teria exigido que qualquer equipamento entregue viesse dos grandes estoques americanos, a fim de manter a consistência no equipamento fornecido, mesmo que não fosse o mais moderno ou “mais eficiente” no papel.

* * *

O Ocidente tem alguma responsabilidade pelo fracasso da contraofensiva ucraniana? Sim, não devido a um volume muito baixo de doações, mas sim por falta de harmonização da ajuda. Dar mais, de imediato, sem coordenação, apenas agravaria ainda mais os problemas logísticos dos ucranianos, sem mencionar a questão da mão-de-obra: ter tanques ou outros veículos é bom; mas ter soldados para colocar em campo é melhor. Em última análise, a única área em que o Ocidente poderia ter feito melhor é no fornecimento de munições; mas os estoques são limitados e a indústria não consegue crescer rapidamente porque as ferramentas industriais e a mão-de-obra disponível simplesmente não permitem.

A verdadeira responsabilidade do Ocidente foi acreditar demais na propaganda ucraniana, subestimar seriamente o exército russo e fazer a Ucrânia acreditar que receberia ajuda suficiente para derrotar a Rússia sozinha – portanto, o Ocidente é culpado por ter feito à Ucrânia promessas que não podia manter.


Publicado no Cf2R.

*Olivier Dujardin é pesquisador associado do Cf2R (Centre Français de Recherche sur le Renseignement), chefe da seção de tecnologias e armamentos e consultor independente. Ele tem mais de 20 anos de experiência em guerra eletrônica, processamento de sinais de radar e análise de sistemas de armas. Ocupou cargos operacionais em guerra eletrônica, no estudo de sistemas de radar, guerra eletrônica e análise e coleta de sinais eletromagnéticos. Ele também ocupou o cargo de especialista técnico em sistemas de coleta SIGINT.


Notas

[1] https://www.lindependant.fr/2023/09/07/guerre-en-ukraine-larmee-russe-etait-la-deuxieme-armee-du-monde-elle-est-maintenant-la-deuxieme-en-ukraine-pique-le-secretaire-general-de-lotan-11437917.php.

[2] https://www.youtube.com/watch?v=zYH0L5O5X0Q.

[3] https://atlantico.fr/article/decryptage/une-victoire-militaire-de-l-ukraine-reste-possible-et-voila-comment-kiev-russie-moscou-vladimir-poutine-aide-occidentales-armes-otan-general-francois-chauvancy-alexandre-melnik.

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1 comentário

  1. Na realidade o ocidente achou que a guerra seria um Fla x flu, onde quem tivesse a maior torcida ganharia o jogo

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