O novo submarino porta-mísseis (SSBN) classe Borei II da Marinha russa

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O submarino Yuriy Dolgorukiy (K-535) da Frota do Norte da Marinha da Rússia em Gadzhiyevo, região de Murmansk (Vadim Savitskiy/Marinha da Rússia).

O submarino Yuriy Dolgorukiy (K-535) da Frota do Norte da Marinha da Rússia em Gadzhiyevo, região de Murmansk (Vadim Savitskiy/Marinha da Rússia).

Os submarinos da nova classe “Borei II” devem cumprir o papel principal de dissuasão nuclear estratégica da Marinha russa.


Em meados de 1980, a Marinha Soviética iniciou o desenvolvimento do projeto de um novo submarino nuclear lançador de mísseis balísticos (SSBN), com designação “Projekt 935”, ou “Borei”, para empregar o Submarine-Launched Ballistic Missile – SLBM (Míssil Balístico Lançado de Submarino) R-39M (ou R-39 UTTH Bark), derivado do já então aposentado míssil R-39, que equipava a emblemática classe de submarinos “Typhoon”. Todavia, nos primeiros ensaios de lançamento do R-39M, uma explosão a cerca de 200 metros da superfície e diversas outras falhas resultaram no cancelamento do projeto em 1998.

Em seu lugar, foi criado um novo (e muito mais moderno e completo) míssil de alcance intercontinental, designado RSM-56 Bulava (SS-N-32), de três estágios de combustível sólido e um de combustível líquido, com capacidade de atingir alvos a mais de 8.000 km, com precisão de 120 m-350 m. Com 11,5 m de comprimento, dois metros de diâmetro e pesando 36,8 toneladas, o míssil empregou diversas soluções de engenharia originalmente desenvolvidas para o ICBM (Intercontinental Ballistic Missile, ou Míssil Balístico Intercontinental) Topol-M, mas, – ao contrário do que afirmam algumas fontes –, não deve ser considerado uma variante modificada e navalizada do mesmo.

Com a introdução desse novo sistema de mísseis, foi, entretanto, absolutamente necessário readequar o “Projekt 935”. Assim, prontamente os russos anunciaram o “Projekt 955”, ainda conhecido como “Borei”, dando origem à classe de SSBN do mesmo nome, conhecida na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) como classe “Dolgorukiy”, em alusão ao nome da primeira unidade da série. Após definir a nova conformação, foi planejada a construção de 10 submarinos: quatro já foram concluídos, quatro encontram-se em diferentes fases de construção e os outros dois ainda não tiveram sua construção iniciada, embora seus nomes já tenham sido divulgados. Os submarinos da classe são, em ordem cronológica: Yuri Dolgorukiy (K-535), Alexander Nevsky (K-550) e Vladimir Monomakh (K-551) – estes três do tipo “Projekt 955”; e Knyaz Vladimir (K-549), Knyaz Oleg, Generalissimus Suvorov, Imperator Aleksandr III, Knyaz Pozharskiy, Marshal Zhukov e Marshal Rokossovsky (estes todos do tipo “Projekt 955A”, ou classe “Borei II”, por vezes também referida como “Borei A”). Estaria sendo estudada a construção de algumas unidades do “Projekt 955K”, ou “Borei K”, um submarino lançador de mísseis de cruzeiro (SSGN), à semelhança das unidades da classe americana “Ohio” que foram convertidas para essa função.

Os “Borei” foram desenvolvidos pelo centenário escritório de projetos Rubin Design Bureau, ficando a construção a cargo do estaleiro Sevmash, localizado em Severodvinsk. Foi relatado que a chegada da classe “Borei” vem permitindo à Marinha russa retomar patrulhas estratégicas nas regiões ao extremo sul do planeta, áreas marítimas que há mais de 20 anos não viam um SSBN russo em operação rotineira.

O Yuri Dolgorukiy foi lançado ao mar em fevereiro de 2008, e foi considerado pronto para iniciar as provas de mar em 24 de outubro daquele ano, embora seu reator só tenha sido ativado em novembro de 2008. As provas do estaleiro só foram efetivamente iniciadas em junho de 2009. Em 28 de junho de 2011, o submarino lançou o primeiro míssil Bulava, e foi finalmente incorporado em 10 de janeiro de 2013.

O mais novo SSBN da Marinha russa, o Knyaz Vladimir, da classe “Borei II”, foi incorporado em 28 de maio de 2020, após ter realizado no Mar Branco, entre 12 de maio de 2019 e o final daquele ano, provas de controle (primeiramente na superfície e posteriormente em imersão), onde se verificou o lançamento bem-sucedido dos seus mísseis balísticos e demais armamentos, e se checaram os procedimentos de controle de avarias.

O batimento de quilha do navio havia sido realizado em 30 de julho de 2012, tendo o lançamento ao mar ocorrido em 17 de novembro de 2017, com a primeira etapa das provas do fabricante tendo lugar no final de novembro de 2018. Por fazer parte da classe “Borei II”, o Knyaz Vladimir incorpora melhorias em comparação aos seus antecessores, incluindo mudanças estruturais (inclusive com utilização de um aço de tipo diferente), assinatura acústica reduzida e equipamentos de comunicação mais modernos.


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A classe “Borei II” comporta seis tubos de 533 mm para o lançamento de torpedos, mísseis antissubmarino RPK-2 Vyuga (SS-N-15 Starfish na OTAN) ou mísseis antinavio (provavelmente 3M-54 Kalibr, designado como SS-N-27 Sizzler pela OTAN), além de 16 tubos para mísseis Bulava, cada um dotado de seis ogivas independentes (MIRV, Multiple Independent Targetable Reentry Vehicles) de 150 quilotons, além de cerca de 40 despistadores. Acima dos seis tubos de torpedos, é visível um conjunto de seis portas menores que, especula-se, seriam empregadas para o lançamento de despistadores ou até mesmo torpedos antitorpedo.

Além disso, parece haver uma porta central, cuja finalidade seria permitir o embarque de torpedos e mísseis antinavio. Este arranjo é o mesmo encontrado nos submarinos “Projekt 971U”, os “Improved Akula”, ou “Akula II”, e parece corroborar que na construção dos primeiros “Borei” teria sido utilizada a seção de proa que já havia sido construída para o submarino de ataque Cougar (K-337), cuja construção foi cancelada. Há informações que o segundo “Borei”, o Alexander Nevsky, teria utilizado algumas seções originalmente destinadas ao “Akula I” K-333, e que o terceiro “Borei” teria empregado seções originalmente pretendidas para o “Akula I” K-480.

O deslocamento dos “Borei II” na superfície de 14.720 toneladas, subindo para 24.000 toneladas quando em imersão; o comprimento é de 170 metros, a boca é de 13,5 metros e o calado é de 10 metros. Em relação ao “Borei”, a geometria da vela foi modificada, bem como a das superfícies de controle, na popa (os lemes agora são peças únicas, totalmente móveis, e nas extremidades dos lemes de profundidade foram colocadas aletas verticais fixas); a propulsão é por hidrojato (os “Borei” são os primeiros submarinos nucleares russos a empregar este arranjo), acionado por uma turbina a vapor cuja energia provém de um reator de fissão nuclear OK-650, o que lhes permite velocidade em imersão de cerca de 30 nós (15 nós na superfície). A cota operacional máxima de imersão do Knyaz Vladimir é de 400 metros (superior, portanto, aos 240 metros da classe estadunidense “Ohio”). A tripulação é composta por 107 militares, e os navios deverão realizar patrulhas de 90 dias de duração, embora sua autonomia seja, teoricamente, ilimitada.

A partir da aleta vertical de boreste (na popa, conforme mencionado anteriormente) é desdobrado o cabo de um sonar de hidrofone rebocado (o que nos “Borei” acontecia a partir do topo do leme). Além disto, na análise das fotografias mais recentes do Knyaz Vladimir, é perceptível a existência de um longo semicilindro no costado de boreste, que abrigaria um sonar do tipo flank array, – se realmente essa for sua função, deve existir um volume semelhante a boreste. Como isto ainda não foi confirmado, algumas fontes especulam que a protuberância poderia ser destinada ao armazenamento do cabo do sonar de hidrofone rebocado, quando este não estivesse desdobrado.

A expectativa é de que a nova classe cumpra o papel principal de dissuasão nuclear estratégica da Marinha russa, substituindo os antigos submarinos “Projekt 941” (classe “Typhoon”) e “Projekt 667” (classes “Delta III” e “Delta IV”). Vale observar que tanto a Rússia como a China vêm desenvolvendo e incorporando às suas Forças Armadas novos sistemas estratégicos (ICBM, SLBM, SSBN e bombardeiros de longo alcance), ao passo que os Estados Unidos continuam a depender de vetores construídos nas décadas de 1970 e 1980, como é o caso do ICBM LGM-30G Minuteman-III (desdobrado entre 1966 e 1970), do SLBM UGM-133 Trident II/D-5 (introduzido em 1990, com um programa de extensão de sua vida útil em curso, convertendo-os em D-5LE), dos SSBN classe “Ohio” (colocados em operação entre 1981 e 1997) e do bombardeiro estratégico B-2 Spirit (operacional a partir de 1997).

No mais, apenas projetos, – ainda sem qualquer data fixada para conclusão –, continuam a prover esperança de recomposição da anterior superioridade militar da tríade nuclear estadunidense: o novo ICBM Ground Based Strategic Deterrent (GBSD), em estágio de desenvolvimento pela Northrop Grumman e cuja entrada em serviço dar-se-á, na melhor das hipóteses, somente a partir de 2027; os SSBN da classe “Columbia” (que se imaginam operacionais em 2031 mas que, embora mais eficientes em vários aspectos, transportarão apenas 16 SLBM Trident II/D-5LE, contra 24 unidades na classe “Ohio”); e o novo bombardeiro Northrop Grumman B-21 Raider (este último já “clonado” pela espionagem chinesa, com a intenção de introduzir no serviço de sua Força Aérea o bombardeiro H-20 antes mesmo da chegada do B-21 à USAF, prevista para 2025).

Por fim, dignos de menção são os diversos tratados de limitação de armas, – em especial o START II (assinado em 1993) –, que paralisaram (sem uma contrapartida real por parte da Rússia, particularmente após a posse de Vladimir Putin, e da China de Xi Jinping, esta última sob o argumento de não ter assinado o acordo) o desenvolvimento e desdobramento de novos sistemas estratégicos norte-americanos, obrigando os EUA a desmantelar 50 de seus modernos ICBM LGM-118 Peacekeeper (com 10 MIRV); retirar diversos bombardeiros B-1B Lancer de operação (e restringir os demais a operações não-nucleares); reduzir a aquisição original de 73 bombardeiros B-2 Spirit para apenas 21 unidades e obrigando à destruição de todos os bombardeiros B-52D e G da frota americana (mantendo apenas os B-52H no inventário).







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