Guerra a serviço de Netanyahu

Compartilhe:
Foguetes lançados da Faixa de Gaza em direção a Israel, quarta-feira, 10 de maio de 2023 (Fatima Shbair/AP).

Foguetes lançados da Faixa de Gaza em direção a Israel, quarta-feira, 10 de maio de 2023 (Fatima Shbair/AP).

A resposta palestina à morte de um prisioneiro em greve de fome resultou na reconciliação do governo de Netanyahu com alguns oponentes.


O ministro das Relações Exteriores do Irã, Hossein Amirabdollahian, disse na reunião quadrilateral dos ministros das Relações Exteriores da Rússia, Irã, Síria e Turquia, que, de acordo com analistas, o governo israelense está na pior situação social e de segurança e procura encobrir os problemas internos com ataques cegos e violações das leis internacionais.

Embora a situação atual em Israel não possa ser considerada a pior em Israel nos últimos anos ou mesmo décadas, não se deve esquecer que houve protestos em várias cidades israelenses por quase 20 semanas. Protestos em cuja origem, segundo alguns, o Mossad desempenhou um papel. De qualquer forma, o ponto básico da alegação do chanceler iraniano é que o governo israelense se engaja em ações militares para administrar a opinião pública de seu país. Significa que, em princípio, algumas hostilidades podem, às vezes, beneficiar o governo israelense.

Assim, se o governo de Israel precisa de oposição armada para sobreviver, grupos armados palestinos irão fornecê-la, grupos tidos como forças por procuração do Irã. O primeiro-ministro israelense também reconheceu isso quando disse que considera o Irã a causa de 95% dos problemas de segurança do país. Apontando que o Irã está tentando lançar uma campanha multilateral contra Israel, ele disse: “Estamos nos preparando para esta questão. Ordenei ao Ministério da Defesa e outros departamentos de segurança que se preparem para uma campanha multifacetada, se necessário”.

Evidência de reivindicação

O que o ministro das Relações Exteriores do Irã disse na semana passada se manifestou esta semana. Mesmo o partido árabe Ra’am, liderado por Mansour Abbas, embora condene os ataques do exército israelense nesta semana, considerou uma tentativa de resolver a crise interna da coalizão. O motivo dos ataques desta semana começou com a morte de Khizr Adnan em uma prisão israelense devido a uma greve de fome. Depois disso, grupos palestinos lançaram ataques com foguetes contra Israel.

Em resposta, aviões israelenses atingiram 133 alvos na Faixa de Gaza na manhã de terça-feira, e ao bombardeá-los, 15 palestinos foram mortos e 20 ficaram feridos. Nesta ação, três comandantes da “Saraya Al-Quds” (Brigada Quds) do ramo militar da Jihad Islâmica Palestina (PIJ, Palestinian Islamic Jihad), chamados Jihad Shaker al-Ghanam, Khalil al-Bahtini e Tariq Muhammad Ezzeddine, foram alvejados. O braço armado da PIJ confirmou que o chefe de sua unidade de mísseis, Ali Hassan Ghali, também conhecido como Abu Muhammad, também morreu nos ataques de quinta-feira. As esposas e alguns filhos desses comandantes também morreram no ataque. Em seguida, a câmara conjunta dos grupos de resistência palestinos anunciou em comunicado que Israel pagará pela agressão.

Em reportagem sobre a situação após o assassinato dos três líderes do movimento Jihad Islâmica e suas famílias, o canal de televisão israelense I24 News havia dito que o exército israelense e funcionários do gabinete estavam em alerta e aguardando a resposta dos palestinos. Citando alguns especialistas, o I24 News havia previsto que entre 1.000 e 1.500 foguetes seriam disparados contra Israel pela Jihad Islâmica. Mas o exército israelense anunciou que, desde a noite de quarta-feira, grupos palestinos dispararam cerca de quinhentos mísseis e foguetes, causando danos financeiros. Claro, o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, disse que a maioria caiu em áreas abertas. Isso, mesmo com algumas fontes dizendo que o sistema de Domo de Ferro de Israel teria atingido cerca de 96% dos mísseis. Embora grupos palestinos tenham afirmado que 16 israelenses foram feridos na retaliação dos militantes palestinos, a mídia independente ainda não confirmou este dado.


LIVRO RECOMENDADO:

Uma história concisa do Oriente Médio

• Arthur Goldschmidt Jr. e Ibrahim Al-Marashi (Autores)
• Em português
• Kindle ou Capa comum


Agora, Israel recorreu ao Egito, Catar e às Nações Unidas, e estes contataram Ismail Haniyeh, chefe do Hamas, para a questão do cessar-fogo. Enquanto o Canal 13 da televisão de Israel afirmou que o país estava pronto para cumprir o cessar-fogo, Haniyeh teria enfatizado a unidade dos grupos de resistência e sua total prontidão para enfrentar qualquer ataque. Em outras palavras, Israel conseguiu três objetivos nesses ataques: desferiu um golpe em grupos militantes palestinos, apresentou-se como reclamante da paz e de um cessar-fogo e, por outro lado, convenceu a opinião pública.

Interesses do governo israelense

A resposta do exército israelense aos ataques de foguetes ocorreu, na verdade, para satisfazer a opinião pública, porque vários partidos israelenses exigiram resposta imediata e punição dos grupos de resistência. Especialmente o Religious Zionist Party, liderado por Bezalel Yoel Smotrich e o Otzma Yehudit, liderado por Itamar Ben-Gvir, tomaram atitudes drásticas a esse respeito.

Antes disso, questões de segurança fizeram com que o exército israelense não intensificasse a reação aos foguetes do movimento de resistência na primeira fase e limitasse o número de ataques na retaliação. Isso fez com que especialmente Ben-Gvir e representantes de seu partido criticassem a inação de Tel-Aviv contra a resistência, e avaliassem a resposta do governo como “muito fraca”. Ben-Gvir disse que até que o governo desse uma resposta mais adequada aos ataques de Gaza, iria boicotar as votações do Knesset.

Ele disse ainda que se tal reação não ocorresse, o Partido não participaria das votações do Knesset. Em um tuite, Ben-Gvir mencionou cinco de suas condições: ele propôs “punir os grupos de resistência em Gaza” como pré-condição e depois pediu para “ser convidado para os briefings de segurança”, “conduzir operações militares na Cisjordânia para coletar armas ilegais”, “aprovar pelo menos parte das reformas da Suprema Corte” e finalmente “tornar as condições mais difíceis para os prisioneiros”. O boicote liderado por Ben-Gvir continuou até que os drones israelenses atacassem Gaza.

Após os recentes ataques de Israel a Gaza, ao expressar sua satisfação e parabenizar Netanyahu, Ben-Gvir considerou a ação um “bom começo” para mudar a política de Israel em relação a Gaza. Poucas horas depois, o Partido anunciou em comunicado oficial que, devido ao cumprimento da primeira condição de Ben-Gvir, o partido encerraria o boicote ao governo e ao Knesset e retornaria às reuniões. Embora os problemas internos de Israel não se limitem à Gaza, o fato é que Netanyahu aproveitou ao máximo essa questão com a ajuda de outros fatores para satisfazer seus adversários.

Em termos mais simples, a morte de um prisioneiro em greve de fome foi recebida com ataques de foguetes por grupos palestinos, fornecendo uma desculpa para a reconciliação do governo em colapso de Netanyahu com seus oponentes. Quem pode dizer que, mesmo no aspecto militar, as conquistas de ambos os lados foram comparáveis?

Compartilhe:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

V-UnitV-UnitPublicidade
AmazonPublicidade
Fórum Brasileiro de Ciências PoliciaisPrograma Café com Defesa

Veja também