Ofensiva de primavera da Ucrânia pode ser armadilha mortal para EUA e OTAN

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A subsecretária de Estado para Assuntos Políticos dos EUA, Victoria Nuland (Arquivos do Asia Times).

Por Stephen Bryen*

A subsecretária de Estado para Assuntos Políticos dos EUA, Victoria Nuland (Arquivos do Asia Times).

Documentos vazados do Pentágono indicam que a Ucrânia carece de blindagem e defesas aéreas necessárias para ter sucesso.


Sob a orientação dos EUA, a Ucrânia está planejando uma grande contraofensiva provavelmente no final desta primavera (n.t.: primavera na Europa), quando os campos e estradas secundárias que não são asfaltadas secarem. No momento, a maioria dos veículos militares não pode operar em campos abertos e tem dificuldade real em estradas secundárias não pavimentadas.

De acordo com supostos documentos vazados do Pentágono, a Ucrânia reuniu doze brigadas para o planejado ataque militar. Nove das doze brigadas estão equipadas com blindados e artilharia americana e europeia e as outras três são compostas por equipamentos mais antigos de origem russa, alguns deles modificados pela Ucrânia.

De acordo com os documentos vazados, a Ucrânia pode esperar grandes ganhos de sua ofensiva. Mas parece que a realidade é bem diferente. Até o Wall Street Journal, um impulsionador da Ucrânia, tem dúvidas. De fato, os próprios documentos contam uma história diferente, o que ajuda a explicar a corrida louca do governo Biden para tentar impedir a divulgação dos documentos vazados.

A planejada ofensiva ucraniana no final da primavera pode ser uma armadilha mortal para os EUA, a OTAN e até mesmo para os aliados asiáticos dos Estados Unidos.

Uma brigada normalmente tem entre 3.000 e 5.000 soldados. Usando o número mais alto, a Ucrânia planeja comprometer 60.000 soldados na contraofensiva, focada em um esforço para quebrar o controle da Rússia sobre outros portos do Mar Negro além de Sebastopol. No entanto, é provável que a Ucrânia lance algum tipo de ataque simultâneo à Crimeia e Sebastopol, se puder.

A ofensiva é em grande parte fruto da imaginação da subsecretária de Estado para Assuntos Políticos dos EUA, Victoria Nuland. Ela é a eminência parda no governo Biden quando se trata da Ucrânia. Nuland não escondeu sua ambição de que a Ucrânia reconquiste a Crimeia. Nuland, que é rigidamente antirrussa e anti-Putin, gostaria de ver o governo de Putin desmoronar: conseguir isso, em sua opinião, requer uma vitória absoluta da Ucrânia sobre a Rússia, o que significa que a Ucrânia retomará cada metro quadrado de sua terra perdida. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, concorda.

Nuland tem uma longa história com a Ucrânia. No governo Obama, ela apoiou os manifestantes do Maidan e a derrubada do governo da Ucrânia legalmente eleito, mas pró-Rússia. Há gravações secretas de suas conversas com o embaixador dos EUA na Ucrânia na época, decidindo quem seria o melhor para substituir Viktor Yanukovych, então presidente da Ucrânia. Yanukovych foi eleito em 2010 em um segundo turno entre ele e a primeira-ministra Yulia Tymoshenko. Yanukovych veio originalmente de Donetsk; ele agora está exilado na Rússia.

Os EUA apoiaram o golpe na Ucrânia, embora fosse ilegal e antidemocrático. Desde então, a maioria das partes de língua russa da Ucrânia não participou das eleições ucranianas, incluindo a eleição de Zelensky em 2019. Agora, após as anexações russas, a participação está impedida, já que as “repúblicas” da região de Donbass no leste da Ucrânia (Donetsk e Luhansk, Kherson, Zaporizhzhia e Crimeia agora são, na visão do governo russo, parte da Rússia).

A contraofensiva planejada, apesar do apoio dos EUA e da OTAN, enfrenta alguns obstáculos significativos. As nove brigadas equipadas pelos EUA-OTAN têm menor blindagem do que o prometido pela OTAN.

Abaixo, uma visão geral dessas brigadas ucranianas, de acordo com os documentos do Pentágono e conforme explicado por Simplicius em seu blog no Substack:

116ª Brigada:
90 x BMP (polonês/tcheco), já entregues;
13 x T-64 (ucraniano), disponível;
17 x tanques não especificados, a definir;
12 x AS-90 (obus britânico de 155 mm), entrega em abril (São obuses de 155 mm equivalentes a Krab, M109, PhZ2000 etc.).

47ª Brigada:
99 x M2 Bradley, entrega no final de março;
28 x T-55S (Eslováquia), disponível;
12 x M109 (155mm SPG americanos), disponível;
12 x D-30 (antiga artilharia rebocada soviética), disponível.

33ª Brigada:
90 x MaxxPro (MRAPS americanos), 20 em mãos, o restante no final de março;
14 x Leopard 2A6 (alemão), entrega prevista para abril;
4 x Leopard 2A4 (Canadense), entrega em abril;
14 x Leopard 2A4 (polonês), entrega em março;
12 x M119 (obuseiro leve de 105 mm dos EUA), disponível.

21ª Brigada:
20 x CVRT (antigo Scorpion britânico com canhão de 76 mm), entrega em abril;
30 x Senator (IMV canadense, equivalente a Humvee, etc., apenas metralhadoras leves), em mãos;
20 x Bulldog, 21 x Husky (APC leve britânico, semelhante ao M113), x 10 M113, em mãos;
30 x T-64 (ucraniano), disponível;
10 x FH70 (antigo obus italiano rebocado de 155 mm dos anos 1960), disponível.

32ª Brigada:
90 x MaxxPro (American MRAP), em mãos;
10 x T-72 (Holanda), entrega até abril;
20 x Tanques não especificados (pensamento positivo), a definir;
12 x D-30 (antigos obuses soviéticos), disponíveis.

37ª Brigada:
30 x Mastiff/Husky (MRAP britânico com armas leves), entrega em abril;
30 x Mastiff/Wolf (mesma coisa), entrega prevista;
30 x Senator (IMV canadense, equivalente a Humvee), entrega a definir;
14 x AMX-10 (“tanque” francês com rodas e canhão pequeno de 105 mm), entrega em março;
16 x tanques não especificados (pensamento positivo), a definir;
12 x D-30 (obuses soviéticos novamente), entrega a definir.

118ª Brigada:
90 x M113 (enlatado APC americana da era do Vietnã), disponível;
28 x T-72 (polonês), até abril;
6 x M109 (artilharia americana de 155 mm SPG), entrega em março;
8 x FH70 (antigo obus rebocado italiano), previsto para abril;
xxxx – Algo ilegível, mas possivelmente mais do Senator IMV.

117ª Brigada:
28 x Viking (APC pequeno da Holanda), disponível;
10/20 x XA185 (APC finlandês equivalente a BTR-82a, etc.), estimado em abril;
10 x Senator (Hummer canadense), entrega a definir;
31 x PT-91 (T-72 poloneses atualizados), entrega em abril;
12 x D-30 (artilharia soviética), em mãos;
(xxxx – Algo ilegível).

82ª Brigada:
90 x Stryker (IFV americano), previsto para março;
40 x Marder (IFV alemão), esperado para abril;
14 x Challenger-2 (MBT britânico), esperado para abril;
24 x M119 (obus leve rebocado dos EUA 105 mm), disponível.

Como se vê, manter um bando de equipamentos diferentes não será fácil e os reparos em campo serão quase impossíveis. Isso representará um desafio significativo para os ucranianos, que também não terão reservas de equipamentos para substituir o que pode ser perdido em batalha (os EUA e os europeus montaram algumas estações de reparo na Polônia e na Romênia, mas elas estão longe da zona de conflito).

Os papéis do Pentágono também nos dizem que as defesas aéreas da Ucrânia estão muito esgotadas, destruídas pelos russos ou sem munição. Mesmo os interceptadores do sistema de defesa aérea Patriot dos EUA entregues à Ucrânia estão atualmente indisponíveis, a menos que mísseis de substituição sejam retirados das unidades operacionais dos EUA e da Europa.

O significado disso é que os russos têm uma vantagem em superioridade aérea que, em qualquer ofensiva, usarão contra as forças ucranianas. A falta de munição também é um grande problema para sustentar a prometida ofensiva, até mesmo para continuar a própria guerra.

Considere, por exemplo, munição para artilharia. Os EUA forneceram obuses de 155 mm, principalmente com projéteis altamente explosivos. O obus M-777 tem um alcance de cerca de 21 quilômetros. Até agora, a Ucrânia disparou quase um milhão de projéteis de 155 mm, uma quantidade enorme.


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De acordo com o relatório do Pentágono, não há nenhuma no pipeline no momento. Embora alguns milhares adicionais possam ser encontrados, dada a enorme taxa de gastos do exército ucraniano, é difícil ver como o 155 mm ajudará muito na ofensiva planejada (assumindo que essas peças de artilharia sobrevivam aos ataques aéreos russos, uma grande suposição).

Os Estados Unidos forneceram 142 obuseiros M-177 rebocados para a Ucrânia e os EUA e Europa forneceram cerca de 300 sistemas de canhões de 155 mm rebocados e autopropulsados para a Ucrânia.

A Ucrânia também possui obuseiros D-30 de 122 mm de origem russa, embora estejam sendo constantemente destruídos por aeronaves, drones, foguetes e artilharia russos. A Rússia tem cerca de 6.000 sistemas de artilharia e foguetes na Ucrânia.

O mesmo vale para o M-142 HIMARS. A munição crítica para o HIMARS na Ucrânia é chamada de Foguete de Lançamento Múltiplo Guiado (GMLRS, do inglês Guided Multiple Launch Rocket), que tem um alcance de 15 a 70 quilômetros.

A Ucrânia já disparou 9.612 desses foguetes, cada um custando cerca de US$ 160.000 (custo total, sem contar frete e suporte, US$ 1,538 bilhão). De acordo com os documentos do Pentágono, não há mais desses foguetes na linha de abastecimento. Como os 155, o HIMARS teria que ser retirado dos ativos do Exército dos EUA e das unidades da Marinha para reabastecer a Ucrânia. Enquanto isso, os russos reivindicam sucesso crescente em derrubar foguetes HIMARS.

As brigadas ucranianas também podem não estar com força total, e o número de braçadeiras amarelas ou tropas experientes de elite provavelmente é baixo. Muitos dos que serão jogados na luta são novos soldados, marcados por braçadeiras verdes. No entanto, a Ucrânia até agora mostrou uma resistência considerável e, principalmente, boas táticas. Cada vez mais, os operadores de blindados da Ucrânia estão recebendo treinamento dos países da OTAN.

No entanto, o grande número de forças engarrafadas em Bakhmut (10.000 a 15.000) e em outros lugares (Avdiivka, Vuhledar, etc.) cria um problema duplo para a Ucrânia: aliviar essas forças antes que sejam destruídas ou continuar no final da primavera com uma ofensiva, deixando as forças existentes para tentar manter sua posição. A Rússia está obtendo ganhos constantes, embora lentos, nas batalhas de Bakhmut e Avdiivka, mas não em Vuhledar.

Caso os russos saiam das batalhas ao longo da linha de contato em Donbass e avancem para o oeste, não há muito para detê-los. Isso forçaria a Ucrânia a dividir suas brigadas da contraofensiva atualmente reunidas ou voltá-las completamente para impedir que a Rússia chegasse ao rio Dnieper e ameaçasse Kiev.

A Rússia também poderia realizar uma manobra no estilo Schlieffen e atingir as tropas ucranianas envolvidas na ofensiva do final da primavera em sua retaguarda e em seus flancos orientais.

Assim, o quadro para a ofensiva da Ucrânia não parece promissor. Talvez a Ucrânia possa tentar esperar até que os EUA e a OTAN sejam capazes de fornecer todo o equipamento pesado e munição necessários, mas isso provavelmente ainda levará alguns anos. No entanto, os russos podem não estar dispostos a permitir que esse cenário se desenrole.

A posição do governo Biden sobre a Ucrânia se opõe a negociações políticas, pelo menos por enquanto. Há rumores de que o governo pediu à Ucrânia para ser mais flexível sobre o assunto, mas isso não se confirmou. Nuland e outros na administração são contra qualquer acordo com os russos, mas há outras forças em ação.

A primeira é que a indústria russa está produzindo munição e novas armas em pé de guerra total (bem diferente dos EUA e da OTAN). A mão-de-obra russa foi em sua maioria reabastecida, ou o reabastecimento está em andamento, e as forças russas geralmente estão lutando com mais eficácia do que antes. O risco é que, se os russos prevalecerem, a Ucrânia como entidade política poderá entrar em colapso.

O segundo fator é a pressão sobre a OTAN vinda da guerra na Ucrânia. A OTAN está quase sem munição e suprimentos e até os políticos europeus pró-Ucrânia estão começando a ficar nervosos com a guerra. Também há uma repercussão da destruição dos gasodutos Nord Stream, algo que prejudicou as relações EUA-Alemanha.

Um terceiro fator é a capacidade da OTAN de proteger sua agora ainda mais longa fronteira com a Rússia, com a Finlândia como um novo membro da aliança da OTAN, caso os combates eclodam além das fronteiras da Ucrânia.

Alguns dos players da OTAN acham que são fortes, a Polônia é o melhor exemplo, mas outros estão em má forma militar. A Alemanha e o Reino Unido, duas grandes potências europeias, têm exércitos pequenos com sérias deficiências de equipamento.

Acrescente-se a isso o fato de que os EUA colocaram quase todos os seus recursos ELINT, COMINT e de imagética no apoio à Ucrânia, correndo o risco de que problemas surgissem em outros lugares da Europa ou do Pacífico.

Além de tudo isso, alguns outros players da OTAN, a Hungria por exemplo, não apoiam os EUA e a OTAN na Ucrânia, e pelo menos um membro importante, a Turquia, pode não apoiar a OTAN ou concordar com o Artigo 5 do sistema de defesa coletiva da OTAN, que requer a unanimidade dos membros. Desde que o documento do Pentágono vazou, também há dúvidas crescentes sobre a capacidade da Ucrânia de continuar a lutar.

Mais imediatamente, os EUA têm pouca coisa no armário para fornecer a Taiwan, Japão ou Coréia do Sul. As coisas estão particularmente tensas quando se trata de Taiwan, que pediu aos EUA armas que não está recebendo por causa da guerra na Ucrânia.

Exemplos incluem HIMARS, que estão encomendados, mas atrasados, e artilharia autopropulsada de 155 mm (M-198) que não estão disponíveis por causa da Ucrânia. Mesmo os novos F-16, prometidos a Taiwan, não estão sendo entregues no prazo. No caso de entregas para a Bulgária, o atraso é de pelo menos dois anos. Os aliados asiáticos dos Estados Unidos, que também leram o material vazado do Pentágono, devem estar preocupados.

Assim, a oposição dos EUA a um acordo negociado com a Rússia parece representar um grande risco estratégico de segurança, com poucas possibilidades de melhora, mesmo que a Ucrânia de alguma forma consiga ganhar algum terreno em sua ofensiva no final da primavera.

O curso de ação mais prudente seria pressionar por negociações com os russos. Isso não será fácil, porque os russos provavelmente não concordarão com nenhuma paralisação ou cessar-fogo e provavelmente exigirão que as sanções dos EUA e da UE sejam suspensas.

No entanto, a menos que o governo Biden mude de rumo, eles continuarão a brincar de roleta russa com o tambor cheio.


Publicado no Asia Times.


*Stephen Bryen é membro sênior do Center for Security Policy e do Yorktown Institute.

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2 comentários

  1. Um ponto que não foi citado e deveria ser considerado seriamente é a atual situação de Israel.
    Washington com seus gênios do Depto. de Estado conseguiram algo impensável até alguns anos atrás, ou seja dar ao Irã acesso a caças modernos e assessoria técnica Russa para seus já bem sucedidos projetos militares.
    Além de colocar a China no Oriente Médio (via Rússia) pois com a fraqueza russa houve um espaço a ser preenchido e Pequim assumiu a vaga com a benção de Moscou que esta simplesmente na condição de refém dos chineses.
    Pequim no Oriente ´Médio é uma catástrofe para o Ocidente pois ela não tem nada em comum com o que se entendia como geopolítica na região, ela é um elemento novo e completamente hostil aos interesses ocidentais e de Israel em particular.
    A Rússia apesar de tudo sempre teve mais em comum com a Europa e mesmo os EUA devido anos de guerra fria e coexistência no OM que promoveu um ambiente previsível, com a ascensão chinesa e o colapso russo (devido as sanções) Israel esta extremamente vulnerável pois em caso de agressão árabe ela não tem muita margem de manobra para conter os exércitos inimigos e a aviação deles já esta bem evoluída em relação ao que tinham nas guerras travadas anteriormente.
    Por último vale dizer que o uso do dólar como arma geoestratégica deve ter tido um peso essencial na guinada da Arábia Saudita em dar uma cambalhota e refazer laços com o Irã jogando terra sobre a notável aproximação que Israel estava tendo com os demais países árabes.
    Tudo graças a inesgotável capacidade de fazer m#$% dos novos governantes norte americanos , inacreditável.
    Obs: Quero ver como os EUA poderão ajudar Israel em uma guerra entre ela e o mundo árabe com os níveis absurdos de estoque de armas vitais para apoiar os esforços israelenses que foram comprometidas nessa sandice junto a Ucrânia…

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