Os “warmongers” e a guerra na Ucrânia

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Líderes do G7 posam para foto em reunião de trabalho durante a cúpula da Baviera em junho de 2022, onde a guerra na Ucrânia esteve no topo da agenda (Jonathan Ernst/Reuters).

Líderes do G7 posam para foto em reunião de trabalho durante a cúpula da Baviera em junho de 2022, onde a guerra na Ucrânia esteve no topo da agenda (Jonathan Ernst/Reuters).

No Cambridge Dictionary, “warmonger” é um político ou outro líder que frequentemente encoraja um país a ir à guerra.


Quem são os “warmongers” atuais?

Como introdução e esclarecimento prévio fica aqui o que eu acredito que podem ser os três níveis de “warmongers” que, segundo a minha perspectiva, têm se revelado neste conflito e que passo a citar:

• Nível 1: Os verdadeiros puros e duros “warmongers” são aqueles que realmente alimentam esta guerra, como o são todos os dirigentes ocidentais que têm contribuído para o incremento do conflito;

• Nível 2: A seguir, podemos considerar os “ajudantes de warmongers”, onde se incluem todos os que comentam e informam na grande imprensa, guiados pelas grandes multinacionais da informação e pelos serviços secretos, principalmente os do Reino Unido e dos Estados Unidos. Estes são os influenciadores da opinião pública e principais responsáveis por manter as massas conectadas à narrativa oficial;

• Nível 3: Por fim vêm os “warmongers” de sofá e das redes sociais. Estes, embora não produzam qualquer efeito prático para o desfecho da guerra, servem de megafone amplificador dos grandes momentos e das opiniões dos seus ídolos e mentores ideológicos. São úteis também para responder pesquisas de opinião em que são mostradas as grandes maiorias a que pertencem, o que também fornece apoio para as decisões previamente tomadas pelos verdadeiros “warmongers”.

Falemos, então e aleatoriamente, de uns e de outros.

O que se passa atualmente na Ucrânia é, de hora em hora, tema de análises feitas por dezenas de comentaristas: militares, acadêmicos, cientistas políticos, jornalistas, políticos e outros com necessidade de subir nos escalões da opinião e que são o alimento de nossa grande imprensa, em sua totalidade afiliada ao discurso oficial e único que, muitas vezes, nos faz sair do sério, tal é a bajulice e a deturpação factual empregadas.

Tudo está bem afinado e todos cantam no tom que lhes é mais fácil, além de ser também mais agradável aos ouvidos dos crentes e seguidores. Não têm o poder ou a influência dos “warmongers” reais, mas não deixam de lhes completar o serviço com a intoxicação e manipulação das verdades, das mentiras e das omissões convenientes para o efeito.

Estava tudo previsto desde o golpe do Maidan

Os verdadeiros e reais “warmongers” da guerra na Ucrânia, aqueles que decidem o futuro e a história dos povos, têm uma cronografia muito bem documentada desde 2014, ano do golpe do Maidan promovido pelos Estados Unidos. Foi aí, onde a principal “warmonger” da época, a então Secretária de Estado Adjunta para Assuntos Europeus e Eurasiáticos dos EUA, Victoria Nuland, se revelou especialmente ativa na preparação do golpe e muito contundente durante um telefonema com o embaixador americano na Ucrânia, Geoffrey Pyatt. No final da conversa ela saiu-se com um mortífero e premonitório “Fuck EU[1].

Foram “warmongers” como Boris Johnson, em conluio com seu mentor Joe Biden, que logo depois do início da invasão e com promessas de apoio e vitória da Ucrânia, boicotaram as reuniões em que Moscou e Kiev se dispunham a negociar. “O Porta voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que Moscou está exigindo que a Ucrânia acabe com a ação militar (iniciada em 2014), mude a sua constituição para garantir neutralidade, reconheça a Crimeia como território russo e reconheça as regiões separatistas de Donetsk e Lugansk como estados independentes.”[2]


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Um acordo que permitisse a esses dois territórios russófonos tornarem-se autônomos teria evitado milhares de mortes, bem como a destruição da Ucrânia, mas os “warmongers” sabiam bem o que queriam e não deram chance para negociações. Eles, que não podem esticar muito a corda com os russos, aproveitam o tempo para alimentar os ucranianos da esperança de que possam, um dia, reconquistar os territórios ocupados, embora saibam muito bem que isso encontrará sempre resistência militar russa até às últimas consequências.

A Rússia pode perder a guerra?

Esses belicistas de segundo nível acham/dizem que a Rússia pode perder a guerra. Como têm pouca ou nenhuma informação para além da que lhes é impingida pelas multinacionais de comunicação e pelos serviços secretos afiliados e bem dirigidos (intelligence services…), escondem que os russos têm mais ogivas nucleares do que todos os países da OTAN juntos e que é o único país que, com mísseis hipersônicos, pode atingir qualquer cidade do planeta em pouco mais de duas horas sem qualquer obstáculo ou defesa antiaérea. Mesmo alguns mais bem informados, à sombra do que não podem provar e da instituição do medo (o perigo de a Rússia avançar sobre a Europa depois da Ucrânia), que é uma mistificação barata das intenções e objetivos explicitados no início da invasão por Peskov, apoiam o prolongamento da guerra até à mais do que previsível Terceira Guerra Mundial. Não me admira esse tipo de pensamento nos oportunistas, situacionistas, superficiais e pró-guerra que discursam que por aí. Mas já me custa crer que pessoas com conhecimentos (?), algumas das quais se dizem de esquerda, embarquem na narrativa oficial e quase única de que isso começou em 24 de fevereiro de 2022 e que só termina com a vitória militar de um dos lados.

E depois essa gente chama de putinistas e até de comunistas (vejam a ignorância), a quem se insurge contra o prolongamento indeterminado desse massacre. A maioria desses “warmongers” de nível 2 apenas mostra a sua desonestidade intelectual e afiliação comprometida com quem paga por seus serviços. Os onze princípios de manipulação ensinados por Goebbels são bem aplicados por essa gente e modelam a opinião pública na medida dos interesses dos poderosos do momento.

Os interesses americanos e o imperialismo

Os americanos já atingiram seus principais objetivos com esta guerra, a saber:

• Passaram a ser os principais fornecedores de gás para a Europa, substituindo a Rússia;

• Resolveram a crise interna da indústria de armamento e de sua economia, simultaneamente enfraquecendo a Rússia e a UE, retirando-lhes qualquer protagonismo concorrencial, tanto na área econômica como na geopolítica.

Os “warmongers” e os interesses americanos no geral sempre estiveram de mãos dadas, para além da direita liberal, com uma certa dita esquerda organizada em partidos. Depois das aclamações em pé ao comediante, parece que a guerra não lhes diz nada. Nem a guerra e nem a autodeterminação de povos massacrados (neste caso os povos eslavos do Donbass). A eles e a muita gente que finge não ver, não convém comprometer-se com posições fora da opinião da grande maioria. “Há que conter o imperialismo russo”, dizem. O outro imperialismo, aquele que detém 750 bases militares fora dos EUA em 80 países, esse há que apoiar e desculpar qualquer coisinha que faça mundo afora, como por exemplo as intervenções no Iraque, Síria, Afeganistão, Iugoslávia, etc. Sem falar do que se passa na atual Palestina e do apoio total a Israel.

Os “warmongers” que convidam Zelensky para congressos e parlamentos são os mesmos que aceitaram passivamente e ainda justificam todas as ações terroristas e belicistas patrocinadas por países protegidos pela bandeira da OTAN e subservientes aos Estados Unidos.


Retrato oficial da reunião dos líderes da OTAN e do G7 realizada na sede da OTAN em Bruxelas, na Bélgica, em março de 2022 (OTAN).

“Warmongers” desmascarados

Os belicistas ocidentais foram oficialmente desmascarados com a confirmação de Ângela Merkel sobre a má-fé com que os acordos de Minsk (2014/15) foram aprovados e seguidos pela Ucrânia e pelo Ocidente[3]. Esses acordos, que previam o fim dos bombardeios ucranianos e da guerrilha separatista no Donbass, com a progressiva autodeterminação dos povos russófonos dessas regiões, não passou então de um embuste perpetrado para dar tempo à Ucrânia para ser armada e preparada para a guerra. Guerra esta que, em 2019, foi desenhada e justificada pela RAND Corporation (task force de apoio ao governo dos EUA) no documento agora público Extending Russia: Competing from Advantageous Ground[4] e que tem sido a “bíblia” e o guia da estratégia americana no plano de enfraquecimento da Rússia.

Os “warmongers” que alimentam e organizam a guerra contra a Rússia na Ucrânia nem escondem os objetivos com que iniciaram todo o processo desde 2014: o enfraquecimento russo e a eliminação de uma concorrência planetária, em termos estratégicos e comerciais, como tem sido dito pelos principais responsáveis americanos (Lloyd Austin e Antony Blinken)[5].

Os “warmongers” e os negócios

Os “warmongers” negam tudo o que possa ser entendido como possibilidade de a Ucrânia não ter êxito sobre a Rússia. Para eles a guerra só deve terminar com a humilhação dos russos. Até lá o mundo ocidental, tal como é visto por eles, isto é, cerca de 20% dos países e da população do planeta, deve continuar a enterrar recursos e a provocar crises econômicas e sociais na UE, ao mesmo tempo em que vai resolvendo os problemas internos dos Estados Unidos.

Além de belicistas, esses manipuladores de consciências e instigadores de morticínios são, simultaneamente, agentes de negócios trabalhando para as grandes multinacionais. A destruição da Ucrânia é um filão de oportunidades proporcionado pela reconstrução e pelo reequipamento militar e tecnológico e isso já foi assegurado pela entrega de toda a gestão desses investimentos à Black Rock (EUA). Essa multinacional, que é nada menos que a maior empresa de investimentos e a maior gestora de ativos do mundo, negociou com Zelensky a coordenação dos investimentos públicos e privados no pós-guerra[6]. Por alguma razão os congressistas americanos (80% dos quais são multimilionários) aplaudiram freneticamente o comediante em sua recente visita a Washington. O futuro deles e da economia americana estão assegurados…

Censura, a principal arma dos “warmongers”

Os que prepararam esta guerra (EUA/OTAN/UE) sabem muito bem que só conseguem justificá-la perante as massas e manter sua continuidade com um forte controle sobre a informação. Os “warmongers” (de níveis 1 e 2) também sabem que a Ucrânia já não é uma democracia há muitos anos. É um estado empobrecido, de partido único, onde jornais da oposição e partidos políticos foram tornados ilegais[7] e em que, recentemente, Zelensky assinou uma lei que deu ao seu governo poderes para restringir a mídia, bloquear sites e ordenar a censura pura e dura[8].

Sabem, mas não podem divulgar, que muitos hotéis e blocos residenciais civis em Kiev e nas principais cidades ucranianas, estão ocupados por centenas ou até milhares de instrutores (?) e inspetores ocidentais[9] que apoiam e são imprescindíveis para manter ativo o exército ucraniano. Depois há quem se admire que sejam alvo de bombardeios russos. A OTAN pode ainda não ter as botas na Ucrânia, mas já anda por lá de pantufas desde 2014…

Racionalidade com base em fatos

Em contraponto aos guerreiros de redes sociais e de chinelos (quase com certeza são muito poucos os que alguma vez calçaram botas militares…) que acreditam em tudo o que é mostrado na imprensa mainstream, há os que tentam colocar um pouco de racionalidade nas opiniões e na análise dos fatos. Sou dos que anteveem um desastre para a humanidade, caso esta guerra não seja interrompida a tempo. Conhecendo o poderio bélico e a grandeza econômica da Rússia, bem como o nível de apoio internacional que tem (BRICS, África e Sul Global) e o passado e a capacidade de sofrimento demonstrados em guerras anteriores, é de extrema insensatez não atender aos avisos já amplamente expressos sobre as linhas vermelhas que o Ocidente não deve ultrapassar.

Não é fácil e nem isento de contrariar reputações, não se alinhar com as narrativas oficiais que, por mais evidências que se apresentem e à falta de mais argumentos, vão dar invariavelmente nos dois bordões de seus discursos: “Há um invasor e um invadido” e “Putin é um ditador e assassino”. Como se essas não fossem evidências conhecidas e também aplicáveis a outros conflitos com protagonistas distintos. Evidências que em nada contribuem para discutir o início ou o fim da guerra, ou sua compreensão, mas que são usadas pelos que concordam com a continuação da matança e a destruição de um país.

Os “warmongers” alimentam guerras, se aproveitam da desgraça alheia e provocam milhares de mortos. É pena que, por causa deles, nossos filhos e netos poderão ter um futuro próximo bem negro. E não será por causa das alterações climáticas.

Notas

[1] https://youtu.be/WV9J6sxCs5k

[2] https://www.dn.pt/internacional/russia-apresenta-as-condicoes-para-parar-a-invasao-a-ucrania-14656801.html

[3] https://horadopovo.com.br/confissao-de-merkel-sobre-farsa-nos-acordos-de-minsk-e-assustadora-diz-lider-austriaco/

[4] https://velhogeneral.com.br/download/27230/?tmstv=1672755375

[5] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-61229275

[6] https://www.cnbc.com/2022/12/28/zelenskyy-blackrock-ceo-fink-agree-to-coordinate-ukraine-investment.html

[7] https://www.npr.org/2022/07/08/1110577439/zelenskyy-has-consolidated-ukraines-tv-outlets-and-dissolved-rival-political-par

[8] https://www.nytimes.com/2022/12/30/world/europe/zelensky-journalism-law-free-speech.html

[9] https://www.nbcnews.com/news/us-news/us-military-inspectors-ukraine-keep-track-weapons-equipment-rcna54891

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