A munição convencional da Rússia parece abundante – e a produção de mísseis guiados continua

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O bombardeiro estratégico russo Tu-160 Blackjack (Ministério da Defesa da Rússia).

O bombardeiro estratégico russo Tu-160 Blackjack (Ministério da Defesa da Rússia).

Não há muitas indicações de que as sanções ocidentais estão enfraquecendo a Rússia, pelo menos no que diz respeito à disponibilidade de mísseis e munição de artilharia.


De acordo com um relatório divulgado no início de dezembro, alguns dos mísseis de cruzeiro usados em ataques contra a Ucrânia em novembro foram fabricados vários meses depois da imposição de sanções ocidentais à Rússia, visando impedir a fabricação de novos mísseis e armas avançadas.

De acordo com o Conflict Armament Research (CAR), as evidências sugerem que os mísseis usados nos ataques a Kiev em 23 de novembro, que causaram interrupções de eletricidade e no fornecimento de água, foram fabricados entre outubro e novembro deste ano. Uma equipe do CAR documentou os restos de dois projéteis que atingiram a cidade.

Esses artefatos eram mísseis guiados Kh-101, um modelo de última geração que entrou em serviço em 2013. Os remanescentes apresentavam marcas indicando que foram produzidos entre julho e setembro de 2022 e entre outubro e novembro de 2022.

No mesmo dia, o CAR documentou os restos de dois outros Kh-101 usados em outros incidentes no início de 2022. Esses fragmentos também tinham marcas indicando sua data de fabricação, que nesses casos seriam anteriores à invasão da Ucrânia em fevereiro: segundo as autoridades ucranianas, o primeiro, produzido entre abril e junho de 2018, atingiu Kiev em junho de 2022 e o segundo, produzido entre outubro e dezembro de 2019, atingiu a cidade em 10 de outubro de 2022.

O relatório mostra fotografias dos mísseis Kh-101 e afirma que os últimos oito dígitos de um dos códigos de produção começam com “33208”. De acordo com o CAR, o número “32” indica que a arma foi fabricada no terceiro trimestre de 2022. O código do outro míssil começa com “34210”, o que seria um indicativo de que foi fabricado no quarto trimestre de 2022.

Anteriormente o CAR havia documentado que os mísseis Kh-101 dependiam fortemente de componentes e tecnologias produzidas por empresas americanas e europeias. A maioria dos componentes de armas russas para as quais o CAR identificou o ano de fabricação teriam sido produzidas entre 2014 e 2021.

No entanto, as identificações desse último relatório são bem mais recentes, sugerindo que a Rússia continua fabricando essas armas, apesar da falta de acesso à tecnologia e peças ocidentais supostamente necessárias para fabricá-las. Isso sugere algumas alternativas: 1) a Rússia estaria simplesmente usando as últimas unidades de seus estoques; 2) A Rússia adquiriu peças de fornecedores alternativos; ou 3) os componentes estariam sendo fabricados internamente.

Apoio norte-coreano

Em novembro, o Pentágono disse que a Rússia estava disparando 20.000 tiros de artilharia todos os dias, cerca de três vezes mais do que a Ucrânia. Em 8 de novembro, o porta-voz do Departamento de Defesa dos EUA, Patrick Ryder, disse que “a informação que temos é que a RPDC está fornecendo secretamente à Rússia um número significativo de projéteis de artilharia” e que Washington “continuará monitorando essa situação”.


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A diretora de inteligência nacional dos EUA, Avril Haines, disse recentemente que a Rússia está gastando munição “muito rapidamente” e procurando outros países para ajudar a fornecer as peças necessárias para a produção de mísseis e outras armas, especulando que a Coreia do Norte pode estar apoiando a Rússia.

A Coreia do Norte nega as afirmações. No entanto, de acordo com o jornal sul-coreano Daily NK, no final de outubro o governo norte-coreano emitiu grandes pedidos de produção de projéteis de artilharia, incluindo granadas, foguetes e projéteis antiaéreos, para as fábricas de munições do país, como a Kanggye General Tractor Plant e a Changjagang Machine Tools Factory.

Novas ordens de produção são incomuns nesta época, quando as fábricas norte-coreanas se preparam para a revisão de final de ano. As fábricas estariam inclusive contratando pessoal temporário para suprir esses pedidos. Além disso, elas geralmente produzem produtos semiacabados, que possam ser armazenados por longos períodos. No entanto, de acordo com o Daily NK, desta vez teriam recebido pedidos para produção de projéteis acabados.

O processo de produção solicitado também seria diferente do usual. Geralmente as munições passam por um processo para torná-las à prova de umidade depois de produzidas, mas desta vez esse processo estaria sendo omitido. Por conta disso, trabalhadores das fábricas teriam dito que as munições “não parecem que serão armazenadas por muito tempo”.

Considerações finais

O recente relatório do CAR demonstra que a Rússia continua capaz de produzir armas guiadas, como o míssil Kh101, apesar das pesadas sanções impostas pelos países ocidentais. Quer seja através de redes de aquisição indireta, desenvolvimento de componentes alternativos, produção interna ou simplesmente por ter formado estoques de peças suficientes antes da invasão, o fato é que as forças armadas russas continuam a fazer uso pesado de mísseis de precisão, além de artilharia convencional.

Além disso, como vimos, há fortes indícios de que a Coréia do Norte está ajudando a Rússia fornecendo munição. O Irã, que também já demonstrou sua capacidade de contornar as sanções ocidentais, está entregando drones aos russos, inclusive com rumores de que estaria sendo construída uma linha de produção de drones iranianos em território russo. Especula-se também sobre o fornecimento de mísseis iranianos a Moscou.

Já em abril de 2022, analistas ocidentais afirmaram que a Rússia poderia ficar sem armas de precisão em breve. No entanto, a julgar pelas alianças e apoios e pela atual intensidade dos bombardeios russos sobre a infraestrutura da Ucrânia, a munição russa parece longe de terminar.

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