Tornar a Alemanha uma potência militar será suicídio para Berlim e a União Europeia

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Scholz e seus colegas não estão preocupados com a vitória de Putin. Eles estão preocupados com o impensável: Putin perder.

Por Martin Jay*

Scholz e seus colegas não estão preocupados com a vitória de Putin. Eles estão preocupados com o impensável: Putin perder.

Scholz e seus colegas não estão preocupados com a vitória de Putin. Eles estão preocupados com o impensável: Putin perder.


A questão do papel da Alemanha em uma Europa militarizada não vai desaparecer. Ela continua surgindo ou retornando como uma erupção cutânea assistida pelo grupo de comentaristas geopolíticos que podem ver o que muitas pessoas não podem: a Alemanha retornando às suas raízes de superpotência militar.

A ideia de a Alemanha possuir um exército poderoso foi frustrada por décadas, dada a enorme onda de opinião no país contra a repetição das aflições históricas que atormentam as gerações mais velhas até hoje, que não se incomodam tanto com o horror do Terceiro Reich, mas mais pelas derrotas no campo de batalha que deixaram cicatrizes até hoje que não apenas são visíveis, mas que precisam ser arranhadas de vez em quando.

Olaf Scholz pertence a uma geração e a uma elite política que não consegue esquecer a derrota humilhante nos arredores de Moscou e em Stalingrado. O papel da Alemanha no apoio à Ucrânia no campo de batalha com equipamentos traz essas derrotas para a mente de Scholz como se tivessem ocorrido ontem.

Assim, armar a Ucrânia é quase um dever público contra Putin, que é visto mais como um líder soviético ligado à história do que um dirigente contemporâneo construindo um estado moderno. Mas ir mais longe e conseguir rearmar a Alemanha parece um gigantesco ato de suicídio tanto para ele como chanceler – e líder de um governo de coalizão que se confunde com a política internacional – quanto para a geração política que ele representa.

Foi a guerra na Ucrânia que permitiu que a resistência habitual à ideia de “rearmamento” fosse interrompida para permitir que um parlamento de cães de guerra se abatesse sobre seu líder e seu plano de 100 bilhões de euros para impulsionar o exército. O setor militar alemão não apenas sofre com problemas de corrupção, mas também incomumente pesado e incômodo de gerenciar, e pode levar algum tempo até que esse plano se materialize.

Além disso, alguns argumentarão que 100 bilhões de euros não é tanto dinheiro quando se trata de modernizar o que sempre foi uma área dilapidada dos gastos públicos. O que importa não é o dinheiro, mas as ideias que vêm com ele.

Muitos acreditam que a Alemanha está usando a guerra da Ucrânia para fazer o impensável e liderar um programa que forneça à UE seu próprio exército, que provavelmente não será chamado de “exército da UE”, pois não será dirigido por Bruxelas, mas por Berlim. Com este novo movimento, que representa uma mudança sísmica para os líderes do país, a Alemanha começará a pensar em abrir suas asas e agir como uma mini superpotência em torno dos hotspots do mundo na África e no Oriente Médio. Já existem outros estados membros da UE que enviariam suas tropas para apoiar essa iniciativa militar alemã, por isso um exército da UE evoluirá menos pelo nome e mais pela prática, dando ao bloco não apenas algo com que sonha desde que surgiu nos anos 1960, mas também a mãe de todos os pesadelos.

Uma das razões pelas quais a Alemanha precisa gastar esse dinheiro é que seus próprios estoques estão se esgotando devido ao envio de kits para a Ucrânia, mas também há as promessas feitas aos países vizinhos de fornecer novos tanques conforme eles enviam seus antigos modelos russos/soviéticos para Kiev. E depois há as promessas alemãs de enviar novos tanques Leopard ao regime da Ucrânia.


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Então, no papel, muitos compromissos já estão sendo descumpridos. Segundo relatos, as promessas de enviar armas de longo alcance à Ucrânia já foram quebradas, portanto é preciso perguntar se as promessas de enviar novos tanques podem ser levadas a sério. A Alemanha está confusa sobre a Ucrânia e quais devem ser seus objetivos, o que explica a natureza caprichosa das decisões de Scholz e as promessas que muitas vezes acabam sendo falsas.

Mas a verdadeira decisão por trás dos gastos é a defesa da Alemanha. Scholz e seus colegas não estão preocupados com a vitória de Putin. Eles estão preocupados com o impensável. Putin perder. Neste caso, os alemães estão preocupados com um ataque à própria pátria alemã tendo apenas a Polônia entre a Rússia e a Alemanha.

Além de levantar a questão óbvia de uma total falta de confiança na OTAN para prevenir ou deter tal movimento de Putin, isso não é bom presságio para a Europa ou para o futuro da OTAN. Se tal ataque acontecesse, talvez até mesmo em solo polonês, e a OTAN não agisse rapidamente, a credibilidade da organização entraria em colapso em poucos minutos, e a Alemanha estaria mais uma vez travando uma guerra com a Rússia, com chances que hoje, com base nas lições da história, não parecem boas.

O movimento da Alemanha se separando da OTAN e formando a sua própria organização de manutenção da paz, que autoridades da UE em Bruxelas chamarão de exército da UE – ou um “pilar” dentro da OTAN – apresenta uma série de problemas para a organização amplamente liderada pelos EUA. Biden pode dar boas-vindas tal iniciativa, já que ela pode ser considerada uma forma de aliviar os americanos do dever de intervir em conflitos, certamente na Europa e certamente no pior cenário com a Rússia, para o qual ele já indicou que não comprometerá tropas dos EUA – uma das razões pelas quais ele não quer provocar Putin enviando artilharia de longo alcance capaz de atingir a própria Rússia. Mas, a longo prazo, um exército da UE dentro ou fora da estrutura da OTAN só pode se tornar um problema maior em vez de uma solução para um conflito global no geral e certamente na Ucrânia.

A ideia de possuir um tal contingente “dissidente” de países da OTAN não é nova. Ironicamente, foi a América que mostrou ao mundo que era capaz de ela própria fazer isso no Afeganistão, onde nunca foi relatado que os EUA tinham seu próprio contingente de militares não-OTAN, coisa que descobri quando trabalhei lá em 2008 e algo sobre o que oficiais americanos sempre se envergonhavam de falar a respeito: eles estavam lá para o caso de a operação liderada pela OTAN – chamada ISIF (International Security Assistance Force, ou Força Internacional de Assistência à Segurança) – não correr exatamente como Washington queria, disseram-me generais dos EUA.

Assim, os americanos dificilmente podem apontar o dedo para a Alemanha e acusá-la de ser a “mosca na sopa” se seguir em frente com suas ambições militares. Mas certamente prejudicará as relações EUA-UE, pois os Estados Unidos não seriam mais a força dominante. Além disso, uma operação liderada pela Alemanha pode ter objetivos diferentes dos da OTAN em pontos críticos do mundo, o que sobrecarregaria ainda mais as relações comerciais, tanto multilateral quanto unilateralmente com a UE. Até agora, a UE segue Washington em quase todas as grandes iniciativas políticas e, portanto, é realmente um passo no escuro, mas ao qual muitos federalistas hardcore em Bruxelas vão dar boas-vindas.

Para a própria Alemanha, a medida está cheia de armadilhas, pois há muitos cenários além da mera manutenção da paz na África, onde toda a ideia pode explodir na cara dos que a defendem, incluindo os cães de guerra em Bruxelas, que irão perceber uma nova onda “tipo Brexit” de estados membros que perderam a identidade dentro da UE, provavelmente começando pela Hungria.

“Quanto maior o gigante, maior o tombo” não é apenas um ditado que se aplica a Putin. Ele será mais adequado para a cruz germânica nos uniformes, ainda mais aqueles com uma braçadeira azul de Bruxelas.


Publicado no Strategic Culture Foundation.


*Martin Jay é um jornalista britânico baseado no Marrocos onde é correspondente do The Daily Mail. De 2012 a 2019 viveu em Beirute, no Líbano, onde trabalhou para vários veículos, incluindo BBC, Aljazeera, RT e DW, além de reportar como freelancer para o Daily Mail, The Sunday Times e TRT World. Ele já trabalhou em quase 50 países na África, Oriente Médio e Europa.

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2 comentários

  1. Interessantissimo artigo, e vejam q a propria populaçao alemã nao se manifestam pois sao lacrada suas opiniões. Depois disso divido q haja eleiçao honesta.

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