Por que Washington quer arriscar uma guerra nuclear com a Rússia?

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80.000 hours.

Por Daniel L. Davis*

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A guerra não é uma ferramenta para obrigar os outros a fazer a vontade dos EUA, nem um meio de “punir” um adversário por ações que Washington não gosta – incluindo a Rússia.


A investida inicial de Putin na Ucrânia parou ao norte de Kiev no mês passado e sua luta na “Fase II” em Donbass até agora fez progressos limitados. Sentindo a vulnerabilidade de Moscou, há um desejo nos Estados Unidos de tomar medidas cada vez mais proativas contra a Rússia para aumentar as chances de que a Ucrânia vença a guerra.

Tentar atingir esse objetivo louvável de maneira descuidada, no entanto, poderia não apenas diminuir as chances de vitória de Kiev, mas também expandir o conflito para uma guerra entre Rússia e EUA, que poderia matar americanos. Qualquer guerra entre Washington e Moscou tem uma chance perturbadoramente alta de se tornar nuclear; um resultado que deve ser evitado a todo custo.

No domingo, o deputado Adam Kinzinger disse ao programa Face the Nation da CBS que pretendia propor uma nova autorização para o uso de força militar que permitiria ao presidente agir contra a Rússia se as forças de Putin usarem armas de destruição em massa.

O texto do projeto de lei proposto pelo deputado Kinzinger autorizaria o presidente, após a confirmação de que a Rússia havia usado armas químicas, biológicas ou nucleares, a “usar as Forças Armadas dos Estados Unidos” contra alvos russos para “proteger os interesses de segurança nacional dos Estados Unidos” e para restaurar “a integridade territorial da Ucrânia”.

Até o momento, os russos não parecem ter usado armas de destruição em massa na Ucrânia e, mesmo com um AUMF (Authorization for Use of Military Force, Autorização de uso de força militar), o presidente não seria obrigado a usar a força na Rússia. Mas esta proposta continua uma tendência entre a elite de Washington que defende ações que levariam os Estados Unidos para perigosamente perto de uma guerra com a Rússia.

Escrevendo um mês antes do início da guerra, a Dra. Evelyn Farkas, ex-funcionária do Pentágono no governo Barack Obama, escreveu que os Estados Unidos não deveriam apenas dar a Moscou um ultimato exigindo que não atacasse a Ucrânia, mas Washington também deveria “organizar forças de coalizão dispostas a ação para aplicá-lo”. Caso sua intenção não estivesse clara, ela disse que se a Rússia atacasse de qualquer maneira, “os americanos, com nossos aliados europeus, devem usar nossas forças armadas para reverter os russos – mesmo sob risco de combate direto”.

Logo após o início da guerra, três generais americanos aposentados, todos ex-comandantes da OTAN, avançaram as ideias de Farkas, defendendo e apoiando o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia – apesar do fato de que a aplicação dessa zona poderia levar militares dos EUA e da Rússia a uma situação letal, provavelmente provocando uma guerra.


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No mês passado, o senador Chris Coons, indo um passo além dos generais aposentados, disse que o governo Biden e o Congresso deveriam “chegar a uma posição comum sobre quando estamos dispostos a dar o próximo passo”, e não apenas enviar armas para a Ucrânia, mas considerar o envio de “tropas (dos EUA) para ajudar na defesa da Ucrânia”. Deveria preocupar a todos nós que nenhum desses atuais e ex-funcionários de alto escalão não parecesse nem um pouco preocupado com o fato de as políticas que eles defendem poderem arrastar o país para uma guerra que facilmente poderia gerar um confronto nuclear.

Os Estados Unidos não devem travar uma guerra – qualquer guerra – a menos que seja absolutamente necessário para evitar um ataque real ou iminente ao nosso povo ou pátria. Ponto final. A guerra não é uma ferramenta para obrigar os outros a fazer a nossa vontade. Não é um meio apropriado de “punir” um adversário por se envolver em ações que não gostamos – e isso inclui a Rússia.

Podemos odiar o que Putin está fazendo. Podemos ajudar a Ucrânia a se defender contra a invasão injustificada da Rússia, e é inteiramente razoável considerar uma série de penalidades econômicas como meio de obrigar Moscou a encerrar a guerra. Mas seria o cúmulo da irresponsabilidade dos formuladores de políticas norte-americanos tomarem medidas que tornem provável uma guerra com uma superpotência nuclear.

Um estudo de 2008 concluiu que uma única explosão nuclear de 550 quilotons atingindo Denver (uma das ogivas mais comuns no estoque da Rússia) destruiria quase todos os prédios em um raio de três quilômetros, matando praticamente todos naquela zona. A Rússia tem pelo menos 4.500 ogivas nucleares ativas – a mais poderosa das quais é de impressionantes 50 megatons (quase 3.000 vezes mais poderosas do que a bomba lançada sobre Hiroshima).

Se formos além dos limites do fornecimento de armas a Kiev e entrarmos em confronto direto com a Rússia, e então uma cidade americana for destruída por uma explosão nuclear russa, posso garantir que nenhum americano acreditaria que valeria a pena tentar ajudar a Ucrânia. Não importaria se destruíssemos as cidades russas em resposta, uma vez que o gênio nuclear fosse liberado, a maioria dos dois países poderia se transformar em um deserto nuclear.

Não há absolutamente nada relacionado à Ucrânia que possa, de alguma forma, justificar o risco para os cidadãos e cidades americanas de uma explosão nuclear resultante de uma guerra entre nossos dois países. É hora de parar com qualquer consideração de uma ação militar intencional que poderia gerar um confronto direto entre Washington e Moscou. Vale a pena repetir mais uma vez: não há absolutamente nada em jogo na guerra Ucrânia-Rússia que justifique ações arriscadas que possam resultar na devastação nuclear da América.


Publicado no Responsible Statecraft.


*Daniel L. Davis é tenente-coronel aposentado do Exército dos EUA, tendo sido enviado a zonas de combate quatro vezes. É autor de “The Eleventh Hour in 2020 America”.

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