Uma terceira via global

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A Torre Azadi é iluminada para marcar o Ano Novo Lunar Chinês em Teerã, Irã, em 31 de janeiro de 2022 (Embaixada da China no Irã/Xinhua).

A Torre Azadi é iluminada para marcar o Ano Novo Lunar Chinês em Teerã, Irã, em 31 de janeiro de 2022 (Embaixada da China no Irã/Xinhua).

Seria o momento de o Brasil adotar uma doutrina de profundidade estratégica?


A imagem da bandeira chinesa brilhou na Freedom Tower (Azadi, liberdade no idioma do país) no Irã há alguns dias, e causou protestos virtuais no Irã. O evento, que ocorreu exatamente na véspera das comemorações do quadragésimo quarto aniversário da vitória da Revolução Islâmica Iraniana, foi muito marcante, ainda que se deva a um erro ou gosto artístico duvidoso.

Políticos iranianos propuseram recentemente uma estratégia de “olhar para o Oriente”, justificando que o Ocidente é hostil ao Irã. No entanto, um dos slogans fundamentais da Revolução Islâmica foi “nem Oriente nem Ocidente, a República Islâmica”. Nesse slogan, Oriente e Ocidente se referiam à União Soviética e aos Estados Unidos, cujos lados ainda são às vezes interpretados, respectivamente, à direita e à esquerda em outros países.

Irã: um país importante na Ásia Ocidental

O Irã é uma das civilizações mais antigas do mundo. O Império Persa foi o primeiro e maior império da História Antiga, estendendo-se de Roma, no Oeste, aos países da Ásia Central, no Norte, até os atuais Índia, Paquistão e Afeganistão no Leste. O Império Persa ainda é conhecido como um dos dez grandes impérios da História da Humanidade.

O Irã contemporâneo também está entre os países mais influentes do mundo em termos de importância política, cuja influência vai além dos países vizinhos, como Iêmen, Síria, Iraque e Afeganistão, e se estende à América Latina e até a África. Por outra perspectiva, o Irã possui uma das maiores reservas de gás do planeta e é um dos três países com as maiores reservas de petróleo. O gás vem, gradualmente, se tornando uma das fontes de energia mais importantes, e, por isso, o Irã já está, mais uma vez, no centro das atenções.

No entanto, os novos acordos do Irã com a China (por 25 anos) e com a Rússia (por 20 anos), mostram que as relações do Irã estão claramente mais orientadas para o Oriente. Embora a opinião pública do país pareça não conhecer os detalhes dos dois, e nem está feliz com o histórico das relações com ambos (especialmente com a Rússia), essa insatisfação até agora não teve efeito nas decisões.

Interesses nacionais em tratados e alianças internacionais

A história das relações econômicas e até mesmo das alianças militares no mundo testemunhou muitos altos e baixos; haja vista tratados e alianças como a ASEAN (Sudeste Asiático), que vem perdendo importância, e alianças militares formadas por iniciativa dos Estados Unidos contra a União Soviética (ex., SEATO e CENTO) que foram extintas.

Isso mostra que, logicamente, os países se comprometem com tratados apenas até o ponto de garantir seus interesses nacionais. O mesmo futuro pode ser esperado para tratados como a Organização para Cooperação de Xangai, e a Organização do Tratado de Segurança Coletiva na Ásia Central.

Também é difícil avaliar as realizações dos dois novos acordos do Irã porque os detalhes de ambos ainda não foram publicados e, portanto, não foram discutidos por analistas independentes. Claro, o líder do Parlamento iraniano, na semana passada, em resposta a uma observação feita por um membro da casa em sessão pública, afirmou: “Um contrato ainda não foi legalmente concluído, caso contrário, o Parlamento teria sido informado.”

Mohammad Reza Sabaghian, um membro do Parlamento iraniano, observou: “Diz-se que foram assinados acordos entre o Irã e a China e a Rússia. Embora, de acordo com a Constituição, qualquer acordo concluído com outros países deva ser submetido ao Parlamento, e caiba a este decidir se o aprova, esta casa não está ciente dos detalhes desses acordos.”

Ele se refere aos artigos 77 e 125 da Constituição iraniana, que estipulam que o Parlamento iraniano deve estar ciente dos detalhes de qualquer acordo, tratado ou aliança entre o governo do Irã e outros governos antes de sua conclusão, e o Parlamento tem o direito de decidir sobre eles.

Leste, Oeste ou Sul?

O paradigma entre muitos tomadores de decisão diplomáticos iranianos ainda é que apenas Rússia e China, representando o Oriente, resistem à aliança informal do Ocidente liderado pelos Estados Unidos. Essa visão, que tem raízes no conceito de blocos da Guerra Fria, ainda não foi apagada de suas mentes. A realidade, no entanto, é diferente; o mundo da política em breve deverá contar com um terceiro caminho além do Ocidente e do Oriente, que é o Sul. A definição de “blocos” no mundo atual é muito diferente do que foi durante a Guerra Fria e, mais importante, o que se espera da ordem mundial pós-covid será muito diferente.

Ocidente e Oriente são apenas dois lados da equação, mas o alcance da interação internacional está aumentando, por meio dela, busca-se o dinamismo econômico. As futuras equações globais, segundo alguns analistas, serão formadas de forma diferente e terão novas direções que não devem ser ignoradas.


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O surgimento de economias emergentes, que não têm histórico de colonização ou hegemonia sobre outros países, mostra que o setor econômico do aparato diplomático das nações não deve ficar preso aos limites de Oriente e Ocidente. Nem o Ocidente é uma aliança integrada como foi no passado, nem se pode contar indefinidamente com algumas alianças do Oriente. Além disso, economias emergentes provavelmente desempenharão um papel muito importante no mundo no futuro.

O British Standard Chartered Bank, conforme reportagem veiculada por algumas mídias, como a Bloomberg, afirmou que há estudos mostrando que economias emergentes substituirão os Estados Unidos e a Europa como as maiores potências econômicas até 2030. Brasil, Índia, África do Sul e Indonésia estão entre as economias emergentes, e três destas são membros do pacto econômico chamado BRICS. Além dessas, China e Rússia também são membros.

Brasil, uma opção a considerar

O desenvolvimento das relações econômicas entre o Irã e outros países com nações do Sul, como o Brasil, pode efetivamente ajudar na prosperidade econômica e definir novos mercados. O Brasil, maior e mais populoso país da América Latina, possui a segunda maior reserva de petróleo da região depois da Venezuela, tem o maior comércio internacional e é membro do MERCOSUL, da UNASUL, do BRICS, do G15 e do G20.

O Brasil é o 5º país mais populoso do planeta, a décima maior economia, e o segundo maior atrator de capital estrangeiro; é uma potência emergente, e membro da terceira geração de Países Recentemente Industrializados (PRI, do inglês NIC, Newly Industrialized Countries). Além disso, a influência do Brasil na América Latina, considerada o “quintal dos Estados Unidos”, é significativa.

Assim, não é de surpreender que a superpotência do norte se oponha à formação de um grande país em suas proximidades e à criação de um governo abrangente e poderoso nele. É de se acreditar que a superpotência do Norte não esteja satisfeita com o aprimoramento militar, nuclear e tecnológico do Brasil, e recorra a qualquer meio para sabotar o caminho do crescimento.

Quanto à importância do Brasil, basta saber que o país faz fronteira com todos os demais países sul-americanos, exceto Equador e Chile.

Quase 60% da floresta amazônica, chamada de “pulmão do planeta”, está localizada no Brasil, floresta essa que vem sendo o centro das discussões globais sobre a salvação da ecologia. Embora alguns países europeus tenham iniciado um esforço para demonstrar fraquezas na capacidade do Brasil de administrar essa bênção natural única, o aparato diplomático brasileiro pode superá-los.

Por outro lado, o Brasil é o polo agrícola do planeta, e fez progressos significativos na produção de equipamentos militares avançados e na continuidade de seu silencioso programa nuclear.

O Brasil precisa tanto dos mercados do Oriente Médio quanto dos da Ásia Central, e o Irã e o Oriente Médio podem pensar em novos horizontes de comércio exterior à luz do desenvolvimento da cooperação com o país sul-americano. Talvez por isso a Câmara de Comércio Conjunta Irã-Brasil finalmente tenha começado a funcionar em São Paulo há dois meses.

O presidente brasileiro visitará a Rússia e se encontrará com Vladimir Putin nos próximos dias, e esta é uma grande mudança, embora alguns países não gostem e tenham pressionado para cancelar a viagem. O Brasil tem boas relações com a Argentina e pode apoiar as pretensões de Buenos Aires de aderir ao BRICS, mostrando eficiência diante da possível oposição que possa estar enraizada em disputas passadas.

Não parece ser a hora de os políticos do Brasil pensarem mais seriamente sobre uma doutrina de profundidade estratégica?

Acredito que eles deveriam pensar na presença do país além de suas fronteiras, e preparar propostas para os interesses brasileiros de longo prazo em nível global.

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2 comentários

  1. Este senhor,Hamid Hajizadeh, conhece mais o Brasil, do que vários políticos brasileiros. Creio, que neste país, apenas um despotismo hábil, pode governá-lo.
    ( Para a minha tristeza. Mas é o que temos pra hoje)

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