Alianças militares

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Mladen Antonov/AFP/Getty Images.

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Neste artigo, Reis Friede discorre sobre os conceitos de alianças militares, mostrando as diferenças entre alianças, coalizões e ententes. Como bônus, uma extensa análise histórica sobre as origens da Guerra Fria.


O conceito de Aliança Militar pode ser definido (de forma abrangente), como todo tipo (e/ou modalidade) de Acordos Internacionais, possuindo, portanto, no tocante a estes últimos, uma relação de espécie associada ao gênero.

As alianças, historicamente1, foram estabelecidas, como regra básica nas relações internacionais, ostentando uma especial qualidade de um importante “ajuste diplomático” entre dois ou mais países, com o objetivo primordial de garantir apoio mútuo em caso de crise.

É válido destacar, entretanto, que o termo aliança tem significado diverso do vocábulo coalizão. O primeiro é orquestrado antes do aparecimento das crises, enquanto o segundo é formado para conter uma crise pré-existente ou em andamento.


DIAGRAMA 1: Alianças e coalizões.

Existem basicamente três tipos distintos de alianças, a saber: Pactos de Defesa, Pactos de Não-Agressão e Ententes.


DIAGRAMA 2: Pactos de Defesa, Pactos de Não-Agressão e Ententes.

Com o advento da bipolarização confrontativa indireta, gerada a partir do advento da Guerra Fria (1947-91), houve uma inédita expansão de alianças, particularmente nos anos 1950.

Do lado ocidental surgiu, inicialmente, o TIAR (Tratado Interamericano de Assistência Recíproca), firmado em 1947. Posteriormente, foi criada a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no ano de 1949 e, a partir desta data, uma série de alianças militares, no contexto da Doutrina de Contenção (parte inteligente da política de deterrência estratégica) arquitetada por George Kennan2. No âmbito comunista assinou-se, dentre outros, o Pacto de Varsóvia em maio de 1955, que com o desmoronamento da URSS, veio a se extinguir em 26 de dezembro de 1991, como resultado da declaração nº 142-Н que reconheceu a independência das antigas Repúblicas Soviéticas e criou a Comunidade de Estados Independentes (CEI).

De todas as alianças militares, sem dúvida, com o passar dos anos a OTAN firmou-se como o mais bem sucedido e mais abrangente pacto de defesa no mundo, incluindo vinte e oito países membros e vinte e dois outros que participam de seu sistema defensivo em parcerias conjuntas. Se considerarmos o total dos gastos militares mundiais, 70% deles proveem de membros da OTAN, ainda que com notável preponderância dos gastos estadunidenses.


DIAGRAMA 3: Produto Interno Bruto e Gastos com Defesa (US$ Bilhões/2017).

É importante destacar que o modelo particular de aliança que a OTAN preconiza se baseia na obrigatoriedade, conferida a todos os seus membros, sem exceção, de promover auxílio mútuo, em caso de agressão, como explicitado no artigo 5° do referido Tratado:

As Partes concordam em que um ataque armado contra uma ou várias delas na Europa ou na América do Norte será considerado um ataque a todas, e, consequentemente, concordam em que, se um tal ataque armado se verificar, cada uma, no exercício do direito de legítima defesa, individual ou coletiva, reconhecido pelo artigo 51.° da Carta das Nações Unidas, prestará assistência à Parte ou às Partes assim atacadas, praticando, sem demora, individualmente e de acordo com as restantes Partes, a ação que considerar necessária, inclusive o emprego da força armada, para restaurar e garantir a segurança na região do Atlântico Norte.

Qualquer ataque armado desta natureza e todas as providências tomadas em consequência desse ataque serão imediatamente comunicados ao Conselho de Segurança. Essas providências terminarão logo que o Conselho de Segurança tiver tomado as medidas necessárias para restaurar e manter a paz e a segurança internacionais. (Tratado do Atlântico Norte, Washington D.C., 4 de abril de 1949).

Sendo importante destacar que essa regra normativa de obrigatoriedade recíproca foi invocada, pela primeira vez, no atentado de 11 de setembro de 2001, ocasião em que foram enviados 130 mil soldados, de todas as nações participantes, através da criação do ISAF (Força Internacional de Assistência para Segurança), que iniciou (oficialmente) a chamada “Guerra ao Terror” em solo afegão.


DIAGRAMA 4: Atividades e alianças militares no mundo.

DIAGRAMA 4: Atividades e alianças militares no mundo (continuação).

DIAGRAMA 4: Atividades e alianças militares no mundo (continuação).

Notas Complementares

 1 A Primeira Aliança da História: A Aliança Luso-Britânica

A aliança mais antiga (já firmada no mundo) foi àquela formada entre Portugal e Inglaterra, que vigora há mais de 640 anos. Assinada no dia 13 de junho de 1373, mantêm-se entre os países signatários até os dias de hoje, mesmo não sendo propriamente utilizada. O pacto ficou conhecido como Aliança Luso-Britânica, ou Aliança Inglesa.

Ao longo da história, foi útil para Portugal, que necessitou da ajuda inglesa durante as guerras napoleônicas, uma vez que aquela nação não aderiu ao Bloqueio Continental (o que seria incompatível com os termos da própria aliança), e serviu a Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial, que solicitou ajuda portuguesa, permitindo que os ingleses abrigassem um contingente militar e determinados privilégios em território português.

2 George Kennan: o Arquiteto da Guerra Fria

Uma relativa convicção quanto à vitória sobre as forças do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) fez com que, desde o início das hostilidades no contexto da Segunda Guerra Mundial, os Aliados abordassem os futuros problemas do pós-guerra em uma série de sete conferências em que se buscou, em última análise, um acordo comum objetivando construir novos alicerces para a paz mundial. Por força de naturais ambições nacionais, todavia, o que mais se constatou, durante todo o transcurso temporal das mesmas, foi uma acentuada e complexa disputa política que, por fim, se transformou em uma nova modalidade de confronto que se designou por Guerra Fria, a partir de 1947.

O primeiro encontro entre os dois principais representantes aliados teve lugar em Terranova, em agosto de 1941, onde Churchill e Roosevelt subscreveram a Carta do Atlântico, que acabou por se constituir no marco inicial da supremacia norte-americana do pós-guerra. Até aquele ano o chamado “new deal” ainda não conseguira resolver todos os problemas econômicos dos Estados Unidos e a Carta do Atlântico, neste aspecto, reservava, em alguns de seus principais dispositivos, grandes vantagens econômicas para os EUA (como a abertura de diversos mercados britânicos), bem como, reservava para a América o papel de principal fornecedor de armamentos para os países beligerantes, reativando a capacidade industrial norte-americana através da injeção de bilhões de dólares em ouro e outras formas de pagamento, além de créditos especiais a serem resgatados no futuro, após a conclusão do conflito.

Casablanca, em janeiro de 1943, foi o segundo encontro dos dois grandes, dessa vez com a presença de Charles de Gaulle (como representante da resistência francesa), ocasião em que se abordou, pela primeira vez, o objetivo de impor uma rendição incondicional à Alemanha, ao mesmo tempo em que fixava uma data para o desembarque aliado na Sicília. O desembarque na França restou estabelecido por Churchill e Roosevelt, em Washington, no terceiro encontro, realizado em maio de 1943. No mês de agosto do mesmo ano, em um quarto encontro, ambos voltariam a se reunir em Quebec para discutir os projetos de desmembramento da Alemanha. Em Teerã, no mês de novembro de 1943, os Aliados, já com a presença de Stalin, realizavam a quinta conferência para tratar do futuro da Alemanha, com base no chamado Plano Morgenthau, proposto pelo Presidente Roosevelt, que consistia na destruição de toda a indústria alemã e na transformação do povo alemão em pastores e camponeses, incapacitados para qualquer rearmamento. Tanto Roosevelt como Churchill, entretanto, viriam a abandonar o projeto quando das primeiras dissensões com STALIN.

A sexta conferência, realizada em Ialta, na Crimeia (URSS), entre 4 e 11 de fevereiro de 1945, se destacou como o mais importante encontro dos Aliados durante a Segunda Grande Guerra.


DIAGRAMA 5: Radiografia da Segunda Guerra Mundial (1939-45).

O clima era desfavorável ao Ocidente, pois além do encontro ter sido realizado em solo soviético, ocorrera com um Roosevelt doente, quando apenas dois meses o separavam da morte (12 de abril de 1945), e um Churchill prestes a ser derrotado por Clement Attlee nas eleições britânicas, além do grande Projeto Manhattan ainda não estar plenamente concretizado. Nessa altura, apesar do exército norte-americano estar intacto (com um contingente de mais de 12 milhões de homens na ativa) e a indústria bélica se encontrar no auge da produção, a União Soviética se encontrava fortemente armada (sobretudo às custas de um amplo programa de auxílio econômico e militar norte-americano), constituindo-se no maior exército terrestre da Europa. O objetivo principal da conferência foi decidir o fim da guerra e, particularmente, a repartição das zonas de influência entre o Oeste e o Leste. A vontade de Roosevelt de poupar algumas milhares de vidas norte-americanas foi, neste sentido, segundo opinião dos mais renomados historiadores, o principal fator dos grandes equívocos perpetrados nas negociações em Ialta. O presidente dos Estados Unidos estava ciente de que um acordo completamente favorável ao Ocidente, como era possível à época, significaria uma eventual e arriscada confrontação direta com as tropas soviéticas, além de uma quase certa ausência de auxílio por parte da URSS, contra o Japão na guerra da Ásia e do Pacífico (naquele momento considerado de grande importância).

Ainda assim, o primeiro-ministro britânico conseguiu para a França uma zona de ocupação na Alemanha e um lugar na comissão de controle, ficando decidido que a Alemanha seria desarmada, desmilitarizada e desmembrada, exigindo-se-lhe reparações pelos danos causados. No que concerne à Polônia, Stalin conseguiu que fosse admitido o governo comunista estabelecido em Lublin, para que, conjuntamente com os exilados de Londres, decidissem o futuro deste país. Tito foi reconhecido como legítimo governante da Iugoslávia, atendendo a exigências soviéticas, bem como, as fronteiras polonesas foram fixadas segundo a linha dos rios Oder-Neisse, o que permitia à URSS conservar territórios da Polônia Oriental.

Com a capitulação da Alemanha (7 de maio de 1945), reuniram-se na sétima e última Conferência, em Potsdam (arredores de Berlim), Stalin, Harry Truman (sucessor de Roosevelt) e Churchill (em seu lugar, antes do encerramento dos trabalhos, entrou Clement Attlee, novo primeiro-ministro inglês) com o objetivo de ratificar as decisões de Ialta. A conferência iniciou-se em 17 de julho de 1945, um dia após a explosão da primeira bomba atômica no Novo México, e terminou no dia 2 de agosto.

Truman iniciara a conferência com um grande trunfo, pois fora avisado do sucesso da nova arma horas após o início da reunião. O clima do encontro foi de intensa desconfiança, o que não impediu, por outro lado, a ratificação de todas as decisões de Ialta, mesmo aquelas em que eram notoriamente desfavoráveis ao Ocidente. Não se chegou a nenhum acordo sobre a nova ordenação europeia, nem sequer sobre o destino da Alemanha, que, provisoriamente, ficaria sob o domínio dos quatro exércitos vencedores, aplicando-se o mesmo estatuto em Berlim (que ficava dentro da zona soviética). Os mais altos assessores de Truman insistiram na utilização da ameaça nuclear para obrigar Stalin a respeitar o seu compromisso sobre a autodeterminação da Europa Oriental, conforme acordado em IALTA (mas, até aquele momento, ainda não respeitado). Contudo, eles não tiveram qualquer sucesso, fato que propiciou, pouco tempo depois, a consolidação da chamada “cortina de ferro” (termo cunhado por Churchill em uma conferência para estudantes, em 5 de março de 1946, no Westminster College, no Missouri, EUA) pela União Soviética.

Somente em 1947 foram firmados tratados de paz com a Itália, Finlândia, Romênia, Hungria e Bulgária, tendo os três últimos sucumbido à ocupação soviética durante todo o período da Guerra Fria.

A ONU ficou constituída em 24 de setembro de 1945, sob a exigência do senado norte-americano do poder de veto, inicialmente, para sete nações: EUA, URSS, Reino Unido, França, China, Índia e Brasil, que se tornariam, desta feita, membros permanentes de um conselho de segurança. Sob o veto do primeiro-ministro britânico, foram retirados, entretanto, os nomes da Índia e do Brasil, formando os cinco primeiros o conselho de segurança conjuntamente com mais 10 nações eleitas e sem poder de veto. A existência da organização não impediu, todavia, a acirrada disputa na Europa e o consequente expansionismo soviético.

A Europa do pós-guerra emergiu numa grave crise econômica. O mercado negro tomou conta da economia, obrigando o Reino Unido a tomar medidas espartanas de austeridade. Na França assumiu a presidência o socialista Auriol, durante a constituição da IV República. Na Itália, De Gasperi aceitou a chefia do primeiro governo republicano de consolidação formado por democratas-cristãos, socialistas e comunistas. Na Bélgica, a monarquia conseguiu sobreviver com a substituição do Rei Leopoldo III por seu irmão Carlos e posteriormente por seu filho Balduíno. Na Alemanha, a comissão interaliada de controle levou a efeito a desnazificação combinada em Potsdam, conduzindo a processo judicial aproximadamente seis milhões de alemães.

Na Grécia, o fim da guerra desencadeou uma guerra civil com objetivo de mudanças nas estruturas sociais e políticas. A guerra foi reatada quando o governo de unidade de Papandreu ordenou a desmobilização das guerrilhas para as integrar ao novo exército nacional. Stalin combinara com Churchill que a Grécia seria zona de influência britânica. Os comunistas, em sua luta, não contariam, pois, com nenhuma ajuda direta dos exércitos soviéticos. Tito seria quem, no mais alto grau, daria prosseguimento à longa e cruenta luta, até que em 1949 decidisse fechar as fronteiras, ficando assim os comunistas gregos isolados, apesar de terem chegado a dominar extensas zonas do norte do país.


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No início de 1947, o governo britânico, que iria fazer face a uma profunda crise econômica, deu conhecimento a Truman de que retiraria da Grécia 40.000 soldados antes de março. Neste momento, em todo o leste europeu libertado pelos soviéticos, os governos comunistas consolidavam a sua posição, em completo desrespeito ao que fora acordado em Ialta. A despeito da supremacia econômica estadunidense (o PIB dos EUA representava, à época, 53% da renda mundial) e militar (os EUA possuíam o monopólio das armas atômicas), a política de Moscou continuava a abraçar e a incentivar o expansionismo hegemônico e oportunista sobre uma Europa completamente destruída e indefesa. No dia 11 de março de 1947, o Presidente Truman declarava perante o Congresso que “a política dos Estados Unidos será a de prestar apoio aos povos livres que resistem às tentativas de subjugamento por obra de minorias armadas ou de pressões do exterior”, numa acusação direta às atividades da URSS. Neste mesmo dia, o Congresso votaria um auxílio de 230 milhões de dólares (ou US$ 3,5 bilhões em moeda de 2015) à Grécia e os primeiros conselheiros militares americanos começariam a se instalar em Atenas poucos dias depois. Britânicos e norte-americanos estabeleceriam, nesse mesmo ano, na Alemanha, a unidade econômica de suas zonas de controle, iniciativa a que não tardaria a unir-se a França. Toda a política ocidental dirigia-se no sentido da contenção da URSS em suas posições geográficas (o que, na fase de Guerra Fria, o público viria a justificar com frequentes apelos à defesa da chamada civilização cristã). Em 5 de junho de 1947, na Conferência de Harvard, o general George C. Marshall expôs a necessidade de pôr em execução um programa de reconstrução europeia financiado pelos Estados Unidos. A URSS, pela voz de MOLOTOV, renunciou aos seus benefícios, obrigando a Tchecoslováquia, que já havia dado a sua adesão ao plano, a reconsiderar sua decisão. Durante os anos de 1948 e 1952, chegaram à Europa mais de 13 bilhões de dólares (algo em torno de US$ 200 bilhões em moeda de 2015) destinados a diversos países, inclusive à Alemanha. Não obstante a soma destes novos recursos não ser superior à anterior ajuda econômica estadunidense para a reconstrução europeia (1945-46), a grande novidade é que estes montantes eram destinados no contexto de uma nova forma de auxílio em que a própria Europa decidia livremente a destinação final do dinheiro em benefício de um embrionário mercado comum, o que acabou por permitir seu relativamente rápido crescimento e desenvolvimento econômicos no pós-guerra, bem como a realização do projeto de integração europeia.

Em resposta a estas decisões, constituídas à revelia de Stalin (sobretudo as que se referiam a uma nova paridade para o marco alemão), o premiê soviético ordenou o bloqueio total a Berlim, obrigando os Estados Unidos a operar uma gigantesca ponte aérea por quase um ano (de 24 de junho de 1948 a 11 de maio de 1949).

No Ocidente, em natural contraposição, o anticomunismo passou a adquirir foros de cruzada. Um ataque nuclear contra Moscou foi, inclusive, cogitado como solução emergencial para conter o avanço soviético sobre a Europa Ocidental, dentro de um contexto em que se apresentava impossível uma confrontação convencional na Europa, face à magnitude do exército soviético (não desmobilizado no pós-guerra), fazendo nascer a concepção da “resposta nuclear de guerra total”, mais tarde evoluída para a ideia da “espada convencional” e do “escudo nuclear”. O general Lemay, arquiteto da ponte aérea de Berlim e futuro comandante do Comando Aéreo Estratégico (SAC, criado em 21 de março de 1946 e comandado pelo mesmo no período de 1949 a 1957), apresenta, – ainda que formalizada através de uma roupagem doutrinária de retaliação –, um plano de ataque simultâneo às 70 principais cidades soviéticas, utilizando todo o arsenal nuclear americano, que, à época, somava 133 bombas atômicas (Plano de Emergência de Guerra EWP 1-49). A ideia, contudo, foi descartada, por completo, por Truman, alegando questões morais e humanitárias, o que veio a incentivar o início da doutrina de “resposta flexível” com o emprego conjunto de forças nucleares táticas (limitadamente) e de forças convencionais.

Em 17 de março de 1948, em Bruxelas, os países do Benelux, Reino Unido, Itália e França constituem, com propósitos defensivos, a União Europeia Ocidental, incapaz, contudo, de repelir qualquer ataque do exterior. Consternados com as contínuas atitudes hostis da União Soviética, os EUA lançam, como alternativa, a ideia de um tratado coletivo de defesa capaz de garantir a segurança de todos os países ameaçados pelo expansionismo moscovita.

Nesse contexto, é assinado o Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em 4 de abril de 1949, com todos os membros do Pacto de Bruxelas, mais Portugal, o Canadá e os Estados Unidos. A Grécia e a Turquia adeririam ao tratado em 1952 e, três anos depois (1955), a República Federal Alemã (criada em 23 de maio de 1949), cujo rearmamento fora decidido pelos Aliados, constituindo um novo motivo de irritação para os soviéticos. A criação do Pacto de Varsóvia, no mesmo ano (14 de maio de 1955), viria a ser uma resposta evidente e a consolidação final do clima de guerra fria. A contínua ação agressiva da União Soviética sobre os países ocupados por seus exércitos, em total desrespeito aos acordos de Ialta, deu origem a uma grande reação por parte do Ocidente. A URSS não estava organizando eleições livres em nenhuma das nações sob seu domínio, como fora acordado; mas, ao reverso, consolidando sua influência através de uma ocupação de cunho colonizador e de caráter permanente. Enquanto os países europeus livres procuravam aliar-se entre si numa tentativa de conter o avanço das novas “fronteiras soviéticas”, os Estados Unidos preocupavam-se não só no auxílio a estes países como também em estabelecer uma “contenção eficiente” que tivesse dispositivos mais globais, tanto no âmbito interno como no externo, com fundamento inicial na doutrina de Nicholas Spykman (1893-1943), que, através de sua teoria do Rimland (poder periférico), advogava uma política externa intervencionista e uma estratégia ampla de contenção. Iniciava a era de Guerra Fria e de confrontação bipolar. Uma intensa e implacável caça às bruxas, empreendida pelo senador Joseph McCarthy, é iniciada dentro dos EUA, procurando eliminar, do seio do governo, espiões, colaboracionistas e agentes do comunismo internacional; ao mesmo tempo que começavam a florescer as ideias de George Frost Kennan, – um diplomata e intelectual que ajudou a estabelecer a embaixada americana em Moscou, em 1933, por indicação de Roosevelt –, e que, descrente da aliança estratégica com os soviéticos, e, ao mesmo tempo, radicalmente contrário às teses de combate militar direto com a URSS (defendida, dentre outros, pelo general George S. Patton (1885-1945), que, às margens do Rio Elba, afirmou: “com o 3º Exército, varreríamos o que restou dos soviéticos”), defendia uma “estratégia de contenção”, através da criação de um “muro de alianças” ao redor da URSS com o intuito de sublevar as aspirações expansionistas da heartland (no contexto da doutrina eurasiana do continentalismo de Halford Mackinder, que antevia a Rússia como centro do poder mundial).

“A aliança estratégica com os soviéticos levara autoridades americanas a acreditar ingenuamente numa virada de curso do regime e, quem sabe, na paz duradoura. Kennan não se iludia. A União Soviética jamais abandonaria o expansionismo e a inimizade com o Ocidente, na qualidade de elemento central do bolchevismo e, mais ainda, de uma profunda neurose russa (de invasões) anterior a qualquer ideologia.

Para se fazer ouvir, em fevereiro de 1946, Kennan quebrou o protocolo e mandou uma mensagem de mais de 8.000 palavras ao Departamento de Estado. Por meio do longo telegrama, conseguiu chegar a quem importava, e logo foi chamado a Washington para trabalhar diretamente sob o comando do Secretário de Estado George Marshall, planejando a política externa americana. Sua solução para a ameaça soviética era a ‘estratégia de contenção’ (numa adaptação revisional de Spykman), termo que usou num artigo de 1947 para a revista Foreign Affairs. Consistia em ter uma presença constante, forte e inflexível no radar soviético, de modo a impedir que o comunismo expandisse seu poder. Com o tempo, dizia a teoria, a União Soviética sofreria um enfraquecimento econômico, moral e psicológico, que culminaria na implosão do sistema, exatamente o que aconteceu, ainda que muito tempo depois (46 anos) em relação às suas previsões (20 anos). No entanto, o momento em que as ideias de Kennan foram adotadas pelo Estado americano marcou o início de seu afastamento do poder. A estratégia de contenção se consagrou através da Doutrina Truman; com a diferença de incluir conflitos armados na periferia dos interesses soviéticos, algo que Kennan sempre desejou evitar. Após desentendimentos com Dean Acheson, sucessor de Marshall, foi-lhe dado o cargo de embaixador em Moscou, mas uma declaração desastrada à imprensa fez dele persona non grata no país. Uma década mais tarde, sob a administração Kennedy, não se saiu melhor na Iugoslávia, cuja embaixada também deixou.” (GADDIS, John Lewis; A Vida de George F. Kennan, Globo Livros; 2015)

Em 1949, os soviéticos explodem sua bomba atômica colocando fim ao monopólio nuclear norte-americano. Embora nada ficasse provado contra o casal Rosemberg, levado à cadeira elétrica por crime de traição, não havia dúvida que aquela bomba não deixava de ser a “bomba dos Estados Unidos”. Era o fim da fase de monopolarização (1945-49/1950) e o início da bipolarização do poder global que viria a ser consolidada mais tarde.


DIAGRAMA 6: Histórico da polarização do poder global e fases de capacidade militar.

Apesar da grande perda, representada pelo fim do monopólio atômico, ainda não era o término completo da supremacia militar dos Estados Unidos. Restava, ainda, a exclusividade em relação aos sistemas de armas estratégicos, capazes de alcançar o território soviético, uma vez lançados de bases americanas na Europa ou mesmo do território continental dos EUA; também iria existir um curto privilégio no que concerne à posse da bomba de hidrogênio (bomba de fusão) que perduraria por alguns anos, considerando que a alardeada detonação da bomba H soviética, em 1953, constituía-se, na prática, em uma bravata, considerando tratar-se de um artefato atômico reforçado, pois não chegava a atingir rendimento superior a 400 Qt (a primeira bomba H norte-americana apresentou potência de 10,4 Mt).

Ainda assim, essa perda relativa da supremacia, com o início da consolidação da bipolarização (iniciada com o fim dos monopólios nuclear e, posteriormente, estratégico) viria a acirrar, ainda mais, a necessidade de um sistema de alianças para conter a agressão. Tratava-se de isolar o “grande urso” com um profilático cinturão de canhões que travasse qualquer tentativa de expansão agressiva e oportunista consoante a doutrina defendida por Kennan que, com maestria, muito bem compreendeu a real natureza das relações entre os EUA e a URSS no pós-guerra. Meio mundo aderiu à cruzada da liberdade preconizada por Washington, e, a partir de 1947, foram constituídas as mais diversas alianças militares.

Não obstante a criação do Pacto de Varsóvia (1955-1991), – compreendendo a URSS, Alemanha Oriental, Bulgária, Hungria, Polônia, Romênia e Tchecoslováquia, em 1957 –, o sistema de alianças ocidental ficou completo, motivando os dirigentes soviéticos a reestruturar suas políticas de expansão, compelindo Nikita Khrushchev (premier soviético de 1953 a 1964) a proclamar a possibilidade de coexistência pacífica e a evitabilidade do confronto bélico entre o Ocidente e o Oriente, permitindo, de acordo com a arquitetura planejada originalmente por Kennan, a vitória do Mundo Livre sob o prisma do poder nacional de viés econômico (o mundo comunista representava 13% da economia mundial, contra 87% da economia capitalista na década de 1950), em lugar da dimensão militar.

“O funcionário que brande o poder disciplinador do partido comunista; o servidor da polícia secreta que sacrificou suas relações familiares aos sombrios ditames de sua profissão; (…) todos eles, e muitos outros além deles, venderam a alma à teoria de que o mundo exterior é ameaçador e hostil.” (KENNAN, George; Foreign Affairs, 1947)

Principais Referências Bibliográficas

CNN, World; Bush: Join ‘Coalition of Willing’, disponível em: http://edition.cnn.com/2002/WORLD/europe/11/20/prague.bush.nato/.

Department of State Publication; NATO, North Atlantic Treaty Organization: Its Development and Significance, Washington, U.S. G.P.O., 1957, disponível em: https://babel.hathitrust.org/cgi/pt?id=umn.31951d03005697d;view=1up;seq=1.

HISTORY; Portugal Assina com a Inglaterra a Mais Antiga Aliança Entre Nações, Disponível em: https://history.uol.com.br/hoje-na-historia/portugal-assina-com-inglaterra-mais-antiga-alianca-entre-nacoes.

Hoje no Mundo Militar; Alianças Militares, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3ctqerP6CxI&t=323s.

Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN; Washington D.C., 4 de abril de 1949.

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