Velho Ferreira (Em tempos de “Gloster”)

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Caça a jato da FAB Gloster G.41K (F-8) Meteor F.Mk.8, fabricado pela Gloster Aircraft (Foto: FAB).

Por P. Mendonça*. Publicado originalmente na Revista Aeronáutica nº 192, edição de maio/junho de 1993.

Caça a jato da FAB Gloster G.41K (F-8) Meteor F.Mk.8, fabricado pela Gloster Aircraft (Foto: FAB).

Formigueiros podem surgir nos lugares mais inusitados. Que o diga o “Velho” Ferreira, um jovem tenente da FAB.


O começo de tudo foi que a antena do Rádio Compasso congelara. O velho Ferreira – apesar da pouca idade, assim chamado por sua calvície precoce – era então um jovem segundo-tenente que fazia uma de suas primeiras viagens de instrução em um caça inglês à jato, o GLOSTER METEOR MK-8.

O trajeto, um circuito fechado, em voo de altitude com decolagem e pouso na Base Aérea de Santa Cruz – Rio de Janeiro.

Logo ao nivelar a 40.000 pés (cerca de 13.000 m), coma temperatura do ar exterior na marca de -35°C, sintonizou a Rádio Cultura de Varginha em 1210 kc, identificou a estação e ficou esperando o bloqueio.

O ponteiro do Rádio Compasso apontava Varginha em frente e, em virtude do congelamento da antena, continuou apontando para a frente, apesar de já ter passado sobre a cidade. O Velho demorou a dar-se conta do que acontecia; só foi perceber quando o som da rádio Cultura começou a diminuir, verificando então que ao invés de se aproximar, estava se afastando.

Na época não havia VOR, radar do sistema DACTA, GPS, ou qualquer outro auxílio; apenas um Rádio Compasso que apontava para uma única direção. Perdido, sozinho, não havia a quem apelar, resolveu tomar a proa do litoral. Se encontrasse, regressaria à Base.

O combustível diminuía rapidamente, e o litoral não chegava. Avistava inúmeras cidades, mas sabia que nenhuma delas teria um campo de pouso que comportasse seu Gloster. Descer jamais, somente com pouso assegurado. Acabou avistando uma grande cidade e para lá se dirigiu. São Paulo, ainda a 40.000 pés, é uma intrincada cidade. Não a conhecia, não tinha as frequências para contato-rádio, não tinha compasso para indicar-lhe a direção. A luz da “bruxa” (baixo nível de combustível) já dera duas piscadas.

A vista ao Hipódromo chama-lhe a atenção, o Rio Pinheiros e, logo ali, uma pista de pouso.

Ferreira não tem dúvidas: reduz os motores, abre os flaps de mergulho e despenca das alturas, numa razão de 6.000 pés por minuto. Sem contato-rádio com a torre, despeja-se entre um Scandia, da VASP, e um Convair 340, da REAL, na então pista 34 de Congonhas, curta para o tipo de avião e experiência do piloto.

Não deu outra: afobação, avião leve (pouco combustível), flutuou, tocou longo, freou forte, os freios esquentaram, o avião deslizou, varou a pista, e mais um caiu ribanceira abaixo, terminando o voo com seu arrebentado Gloster de nariz estacionado na atual Avenida Rubem Berta, cercado da curiosidade popular.

Em consequência, teve várias fraturas, inclusive na coluna vertebral, o que o deixou em uma cama de hospital por vários meses, impedindo-o de voar novamente e de continuar na ativa da Força Aérea. Tal empecilho despertou-lhe uma segunda vocação, desta vez para a Medicina – veio a tornar-se médico – e propiciou-lhe a oportunidade de relatar os fatos que se seguem e que ouvi de seus próprios lábios.


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Após o acidente, ficou seis meses baixado no Hospital Central da Aeronáutica. Apesar de todo engessado, andava tropegamente pelo hospital, conhecia e era conhecido de todos os médicos e funcionários.

Estranha a situação do baixado, comentava o Velho ao me contar esta estória. Não sei se os trajes, se o ambiente, se faz parte do processo, mas ao baixado, o sistema parece que o despe todo. Perde-se se a identidade, perde-se a autoridade, perde-se a personalidade, nos tratam como idiotas, omitem a verdade sobre nosso estado, passam a falar com os acompanhantes. Desconhecemos os remédios que tomamos, sequer podemos saber sobre a pressão recém-medida, a temperatura recém-tomada, as batidas do coração recém-auscultadas. Para os aviadores é incompreensível, nós que já nos controlamos diante de estouros de cilindros na decolagem, enfrentamos cúmulos-nimbos na boca da noite, vemos pressões de óleo caírem e temperaturas subirem e de repente tornamo-nos PACIENTES. Por essa situação o Velho passou, quando começou a queixar-se de que, á noite, percebera formigas em sua cama.

Não lhe deram crédito. Observou melhor e o movimento de formigas continuava sempre à noite e, durante o dia, nenhum vestígio. Reclamava, nenhum crédito.

Com muito jeito, conseguiu uma lanterna e passou a acompanhar as formigas na penumbra. Descobriu que entravam e saíam de sua armadura de gesso. Reclamou que tinha formiga no gesso, mas as enfermeiras diziam que era assim mesmo. O gesso provoca coceiras que produzem a sensação de ser trânsito de formigas. Como paliativo, recomendaram que coçasse com a parte traseira de agulhas de tricô.

Sua reclamação chegou às vias de fato. Foi enérgico e exigiu melhor avaliação do caso. Quem o atendia pensou em receitar-lhe um calmante ou trazer um psiquiatra.

No final de semana, Ferreira dirigiu-se até a garagem do hospital e conseguiu que o cabo de dia ligasse o ar comprimido.

Colocou o bico da mangueira entre o pescoço e a carapaça de gesso. Pressionou o gatilho e foi aquele Deus nos acuda, saiu formiga para todo lado, pela barriga, pelas axilas, pelas nádegas. As formigas tentavam voltar proteção do gesso e Ferreira as espantava, elas picavam e ele exultava:

-Estão vendo, eu tinha ou não tinha razão?

Com um monte de formigas mortas e com o testemunho do CB Dias apresentou-se ao médico de dia – tenente-médico Dr. Roberto Lúcio – exigindo a imediata remoção do gesso, onde, mais tarde, verificou-se estar instalado um ninho de formigas.


*P. Mendonça é coronel aviador R/R.

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1 comentário

  1. Com 12 anos consegui, em casa uma fratura de colo de femur, na vespera de ano de 1966, ao tentar me levantar sobre um tapete – e piso ceramico encerado – e nao deixar furar debaixo da geladeira a entelagem de um PT 19 de elastico, o que terminara de entelar… 3 meses no gesso mas o ano de 1967 quase todo, tentando me equilibrar sobre a perna, cujo joelho se negava a dobrar… A sensaçao do aparelho de gesso – corpo quase inteiro para nao colocar parafusos e haste metalica – era realmente que tivesse formigas andando por dentro… Tres meses sofridos e apor retirar o apelido de ” pe na cova ” , que era o auxiliar do Verdugo, no Telecatch na epoca…

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