Fim do ciclo OODA e criação do O3R: resolução de problemas e tomada de decisão em confrontos armados

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April Bryant Pixabay.

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Embora amplamente difundido e empregado, o Ciclo OODA não leva em conta todas as variáveis da atividade policial durante um confronto armado, e não considera as reações de sobressalto do ser humano no combate repentino.


O objetivo deste artigo é vetorizar pesquisas e compilar informações inerentes a uma reavaliação da teoria do Loop OODA, ou ciclo OODA, criado pelo coronel John Boyd, da Força Aérea americana. Não temos a pretensão de desconstruir sua tese, apenas esclarecer que ela foi mal-empregada, justamente por não haver outras referências de combate armado que servissem de referência à época.

Este conceito foi amplamente difundido sem levar em conta as variáveis da atividade policial durante o confronto armado. Mas, além disso, Boyd não considerou as reações de sobressalto do ser humano no combate repentino.

Utilizamos como base referências bibliográficas e o estudo de Rob Pincus, experimentado atirador norte americano, instrutor policial, e militar de renome internacional, com diversos livros publicados. É importante frisar que não buscamos apenas solucionar o problema do ponto de vista policial, mas estabelecer uma nova doutrina, baseada neste modelo em estudo, haja vista os resultados observados por este autor durante a pesquisa em quase 20 anos de campo na segurança pública.

Introdução

Vamos delimitar este artigo, acerca da tomada de decisão policial durante o confronto armado: o objetivo principal é entender como foi incorporado o Ciclo OODA, que foi concebido para os pilotos de caça da Força Aérea americana e não para policiais militares. Entendemos que o Loop OODA não deveria ser aplicado para policiais; o modelo correto seria o conceito criado por Robert Pincus, chamado O3R. Veremos este conceito e seu significado mais adiante.

Para situar o leitor no contexto do tema pesquisado, oferecemos uma visão global do estudo realizado, esclarecendo, portanto, nossas delimitações estabelecidas na abordagem do assunto. A justificativa do tema se deve à inovação dos clubes de tiro, que tanto tem colaborado para a literatura policial, além da evolução dos confrontos armados na atividade policial.

Esta motivação levou este autor a tal investigação, para, em seguida, apontar as questões da pesquisa. A metodologia utilizada neste trabalho apresenta e delimita as dúvidas investigadas, ou seja, o problema do estudo: 1) O que fazer durante um confronto? 2) Para que serviu o estudo? E 3) Como aplicamos a metodologia utilizada neste estudo?

O conceito do Ciclo OODA

O conceito de Ciclo OODA, conforme vimos, foi criado pelo coronel John Boyd, da Força Aérea americana. Entretanto, ele não se aplica à realidade policial. Nosso objetivo é desconstruir paradigmas, mas, acima de tudo, definir novas doutrinas sobre a tomada de decisão e a resolução de problemas.

Boyd criou este conceito em 1961, aos 33 anos. Ele escreveu o livro Aerial Attack Study, no qual desenvolveu a tese, até hoje difundida na caserna mundial. Uma obra que compilou as melhores táticas e estratégias para o combate de caças. Boyd deixou seu legado através de briefings, que são usados até hoje na administração e marketing. O Ciclo OODA é uma ferramenta de tomada de decisão: trata-se de um ciclo constante e contínuo, portanto, sempre buscando a superioridade tática no combate. Conforme BOYD (1961), o Ciclo OODA é dividido em quatro etapas: “observar, orientar, decidir e agir”.


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OBSERVAR: é fazer uma leitura do ambiente. Ou seja, buscar o máximo de informações, pois isso ajudará na tomada de decisão, já que quanto melhor a qualidade da informação, mais fácil será chegar na solução do problema;

ORIENTAR: a partir de filtros mentais, criamos uma análise, processamos as informações e determinamos as demandas para a equipe;

DECIDIR: consiste em aplicar nosso treinamento para descartar as hipóteses ineficientes, de modo a tomarmos uma decisão assertiva, minimizando os riscos, otimizando resultados e a segurança da equipe; e

AGIR: dar vida ao plano de ação.

Em resumo, é uma boa ferramenta decisória. Porém, não leva em conta toda a gama de informações necessárias à atividade policial. É importante frisar, nosso cérebro atua de formas diferentes para situações que envolvam uma carga de stress. Nosso cérebro é uma máquina: um hardware desenvolvido para nos manter vivos. Para funcionar, precisa de pensamentos, tomadas de decisões, que seriam o software.

Esse software se chama instinto de sobrevivência e provém dos tempos mais remotos, quando ainda enfrentávamos predadores em um ambiente hostil. Ao chegar em uma ocorrência policial, realizamos uma leitura do ambiente, a coleta de diversas informações. Esses dados são captados através dos nossos sentidos: visão, audição, olfato, gustação e tato. Depois de receber essas informações, nosso cérebro vai processá-las, tudo de acordo com nossas experiências profissionais.

Dependendo do que ele processar, vai nos tranquilizar ou partir para outra condição. Caso identifique uma situação ameaçadora iniciará alterações fisiológicas no corpo, como incremento no batimento cardíaco, aumento da pressão arterial etc. Essa seria uma resposta do organismo para acelerar nossa respiração, criando, portanto, uma vasoconstrição.

Como resultado, haverá uma redução no sangramento nas nossas extremidades em caso de necessidade, evitando o choque hipovolêmico e aumentando assim o volume sanguíneo em grandes músculos. Ademais, quando isso ocorre, temos algumas perdas, pois junto com esse processo, ocorre a visão em túnel, a perda da percepção auditiva e da capacidade motora fina.

O fim do Ciclo OODA e o Ciclo O3R

O ciclo OODA é uma teoria muito boa, mas não é perfeita. Haja vista que o coronel Boyd não considerou nossa forma de processar decisões. Conforme ESPERANDIO (2021), existem duas formas do nosso cérebro processar uma informação: a “estrada alta” e a “estrada baixa”. Esses termos ainda podem ser entendidos como uma ameaça em potencial e uma situação repentina e dinâmica.

São basicamente dois caminhos que envolvem processos paralelos. Eles possuem diferentes velocidades de processamento. Ademais, ocorrem em partes distintas do cérebro. O primeiro faz alusão a um processo mais longo, no entanto consciente, da situação. O segundo toma decisões instintivas. Ambos resolvem problemas. No entanto, a estrada baixa resolve tudo mais rápido. Entenda o caminho da tomada de decisão, segundo o autor:


FIGURA 1: O caminho da tomada de decisão na “estrada alta” e na “estrada baixa” (https://infoarmas.com.br/e-o-fim-do-ciclo-ooda/).

Em suma, toma-se um caminho muito mais curto, logo, o tempo de resposta também será menor. A tomada de decisão pela estrada alta é diferente da tomada pela estrada baixa. Isso porque a estrada alta utiliza a cognição, a razão. Por outro lado, a estrada baixa trata da emoção, baseada em reflexos inconscientes, adquiridos através do treinamento, das nossas crenças, e da leitura do ambiente externo.

Como resultado, o ciclo OODA não se enquadra em confrontos armados, pois destina-se a tomada de decisões em momentos de relativo conforto, ao passo que a estrada baixa seria um caminho melhor para tomada de decisões em confrontos armados. Em outras palavras, eventos violentos e repentinos, nos quais nós “ligamos a chave” do instinto de sobrevivência.

Por consequência, corroboro com a tese. Em outras palavras, Boyd desconsiderou as reações instintivas, de sobressalto. Da mesma forma, não levou em conta o fato de que algumas respostas antecedem o processo consciente, já que estão gravadas em nossa memória muscular. O sistema OODA é mais um sistema estratégico, utilizado para “manobras de guerra” em confrontos duradouros.

Por outro lado, o O3R aplica-se a confrontos de baixa intensidade e curta duração. Isto posto, podemos dizer que o OODA possui uma falha quando a sua tomada de decisão é baseada em estímulos, já que esses estímulos desencadeiam reações instintivas e respostas intuitivas. Portanto, o OODA é um segundo estágio na tomada de decisão. Não é um instrumento de aplicação imediata, já que o processo O3R o precede, em virtude das condições fisiológicas do ser humano. O OODA passará a governar o nosso corpo depois que a ameaça cessar.


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Embora o método de Boyd fosse voltado a um público específico, foi transformado, cooptado e ajustado para se ajustar a uma variedade de contextos. Entretanto, em um contexto de treinamento de contra-emboscada e combate dinâmico, caótico e letal, precisamos de algo mais específico, com ênfase no reconhecimento e focado em padrões de estímulo e resposta.

Nosso corpo faz uma leitura do ambiente através da observação. Então, com o treinamento, passamos a aprender uma resposta. Consequentemente, a tornamos instintiva e automática. Por isso, Rob Pincus criou a teoria O3R. Conforme PINCUS (2014, p.301), o processo O3R engloba as seguintes questões: “observe, reaja, reconheça, responda”. Mas o que significa cada uma delas?

OBSERVE: é a informação não cognitiva coletada. Sua percepção do ambiente, sem processo de consciência;

REAJA: é a reação natural instintiva. Desencadeamos uma ação programada pelo DNA, baseada num instinto de proteção ou sobrevivência;

RECONHEÇA: reconhecer padrões nos levam a uma resposta intuitiva, pois a prática realizada dentro de um contexto irá condicionar esta resposta. Porém, a exposição e treinamento são fundamentais;

RESPONDA: todo o estímulo aprendido desencadeia uma resposta aprendida, que depende de nossas crenças e experiências. Aqui, a resposta é intuitiva, automatizada e sem o processo cognitivo.

O treinamento vai conectar o estímulo à resposta intuitiva.

Antigamente, não acreditávamos naquele tiro sem visada, pois aquele jeito “tiro do quadril”, que ficava tão legal nos velhos faroestes e filmes de gângsteres, não parecia ter aplicação no mundo real. Mas as coisas mudaram. A pedra angular de toda a instrução de armas de fogo baseia-se na identificação do perigo imediato, na tomada de decisão e na ação, seja ela consciente ou inconsciente. Teoricamente, só vamos fazer, em combate, aquilo que treinamos.

O que treinamos virá à tona como algo instintivo. E é justamente por isso que o treinamento militar é visto como “adestramento”. Pode soar meio como “treino para cachorro”, mas significa isso mesmo. Uma forma instintiva de responder às ameaças em cenários de combate urbano. Caso contrário, você será outro número nas estatísticas de violência. Aceite esse fato.

Preparando-se para evitar que isso aconteça, pode haver uma chance de sobrevivência. Reagir não é apenas um direito, mas uma responsabilidade. Quando estamos em uma situação de vida ou morte, nosso corpo reage. Nossa frequência cardíaca aumenta, bem como a pressão arterial. A visão em túnel e a restrição auditiva serão os vilões da sobrevivência, além de uma série de outras respostas fisiológicas involuntárias.


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Conforme identificamos uma ameaça, liberamos nosso mecanismo de luta ou fuga. Nosso cérebro entra em ação, conduzindo o corpo para congelar na hora ou usar como padrão o modo como treinamos para reagir. Nem sempre seremos capazes de controlar a situação em que nos encontramos, mas podemos escolher como iremos reagir a ela.

É importante ressaltar que a Polícia Militar do Estado de Santa Catarina (PMSC) utiliza esta metodologia, assim como todas as polícias brasileiras. Dentro do escopo do procedimento operacional padrão, é preciso rever este conceito e adequá-lo às novas técnicas mentais do confronto armado, já consolidadas no interior de vários clubes de tiro ao redor do mundo.

Conclusão

Podemos dizer, sem reservas, que vivemos uma nova era da sobrevivência aos confrontos armados. Não apenas pela evolução dos calibres e armas, mas também pela nova visão sob a perspectiva dos exercícios de tiro e treinamento mental. Como resultado, precisamos ter um programa ou plano intuitivo, projetado para ser mais eficiente no contexto dos incidentes críticos dinâmicos.

Em conclusão, podemos dizer que o OODA terminou. Mas, acima de tudo, que ele foi erroneamente ensinado, pois não havia estudos tão aprofundados nesta questão de tomada de decisão. Da mesma forma, podemos dizer que existem posturas diferentes durante um confronto, principalmente quando falamos em ataques violentos e repentinos. Por outro lado, entendemos que o OODA é empregado em um segundo momento.

Isso porque existe uma enorme diferença entre percepção e reação. No primeiro caso, ainda estamos observando, seja uma coleta de informações visual, auditiva ou cinestésica. Por outro lado, no segundo caso, já estamos emitindo alguma resposta à ameaça, que seria a reação. Da mesma forma, podemos dizer que um movimento reflexo (inconsciente), é diferente de algo pensado, cognitivo, planejado e consciente.

Portanto, uma resposta intuitiva a um padrão reconhecido é diferente de um reflexo involuntário de sobrevivência. Um é baseado em respostas intuitivas, o outro é baseado em experiências anteriores. Em conclusão, este tema não termina aqui, mas deixa aberto um novo conceito para ser estudado e aprimorado. O Ciclo OODA foi mal compreendido durante muito tempo, por isso a chegada do conceito O3R causou tanto espanto: por não termos compreendido corretamente as reações adversas do nosso corpo durante o confronto armado.

Por fim, respondemos às perguntas iniciais. O quê fazer durante um confronto? É preciso realizar a leitura do ambiente, através da observação e das nossas crenças e experiências pessoais. Depois disso, precisamos reagir à ameaça, realizando volume de fogo, buscando abrigo e reconhecendo de onde estão vindo os disparos. Por fim, daremos uma resposta ao confronto armado.

Para que serve este estudo? Os conceitos apresentados neste artigo servem para entendermos que o ciclo OODA não se aplica à atividade policial, porque estamos falando de uma teoria aplicada a pilotos de aeronaves. Além de ser ultrapassada, criada em 1961, não visava o confronto de baixa intensidade, mas a estratégia da guerra aeronaval.

Como aplicamos a metodologia utilizada neste estudo? Através da padronização das instruções periódicas. Tanto nas polícias, como nas forças armadas brasileiras. É preciso, portanto, rever o manual de procedimentos operacionais de todas as polícias brasileiras, para realinhar nossas condutas, tanto nas instruções, como no confronto armado propriamente dito.


*Carlos Alberto Borges Pereira também é autor do livro Fraternidade entre Leões, que pode ser adquirido aqui: https://fraternidadeentreleoes.com.br.

Referências

BOYD, John. Aerial Attack Study: Report 50-10-6C. USAF Weapons School, Nellis AFB, Nevada, EUA, 1961.

ESPERANDIO, Marcelo. É o fim do Ciclo OODA. Portal Infoarmas, 8 de setembro de 2021. Disponível em: https://infoarmas.com.br/e-o-fim-do-ciclo-ooda/.

PINCUS, Rob. Defend yourself: a comprehensive security plan for the armed homeowner. Gun Digest Books, 28 de maio de 2014.

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2 comentários

  1. Excelente artigo!
    Meus parabéns Sargento Carlos Alberto, fez uma excelente análise do ciclo OODA e apresentou uma metodologia atualizada para melhorar ao preparo das forças policiais principalmente em momentos de stress.

  2. Olá boa noite,
    Aqui Igor Pereira, ex Cabo do 1° Batalhão de forças especiais…
    Hoje estou no Sistema penitenciario – SAP . Nos indo de dos anos 90 treinavam os estourou de aparelho , nós exercícios do anti terror e contra guerrilha, mantínhamos um padrão parecido com OODA, mas também trabalhávamos a reação inoportuna, ou seja, ao meu ver basicamente o O3R.

    Acredito não pode ser desassociado um do outro. Tendo o OODA como inicio e o O3R como próximo passo.

    Grande abraço

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