O retorno do Império Otomano é possível?

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Tropas turcas e azeris em exercícios militares conjuntos na província de Kars, leste da Turquia (Foto: Reuters).

Uma breve análise histórica, política e geopolítica da Turquia


Tropas turcas e azeris em exercícios militares conjuntos na província de Kars, leste da Turquia (Foto: Reuters).

A Turquia governada por Recep Tayyp Erdogan, um admirador do Império Otomano, vem ganhando destaque internacional nos últimos tempos, com ações na Síria, em apoio ao Azerbaijão, e obtendo proeminência inclusive em tecnologias militares. Mas até que ponto isso pode significar o renascimento de um “novo” Império Otomano?


Recentemente, a Turquia de Erdogan tem aparecido bastante nos noticiários: quem já não ouviu notícias relacionadas ao letal drone turco Bayraktar, ao recente início de construção do novo canal de Istambul ou às constantes ameaças de Erdogan à Israel?

Todos esses eventos são sinais bem claros de que a Turquia está muito mais assertiva e agressiva no cenário internacional, sem contar que até o soft power turco tem crescido significativamente: vide o estrondoso sucesso das novelas, filmes e séries turcas exibidas ao redor do mundo.

Tudo isso nos leva a perguntar: será que estamos testemunhando o fim da república moderna turca e o nascimento de um Império Neo-Otomano? Será que, mais uma vez, os turcos serão os líderes do mundo islâmico sunita?

Neste artigo, faremos uma breve análise histórica, política e geopolítica do país. Aviso desde já que o artigo é longo, porém muito útil, um resumo de tudo o que você precisa saber sobre a Turquia.

Alp Arslan e a batalha de Manziquerta

A região da Anatólia, situada na atual República Turca, era habitada por povos cristãos ortodoxos que falavam grego, conhecidos por bizantinos; os turcos são povos invasores, oriundos da Ásia Central, que viviam como nômades nas regiões das estepes eurasianas antes de chegarem à Anatólia.

As estepes eurasianas não eram um local agradável ou fácil de se viver devido à ausência de barreiras naturais e ao ambiente pouco propício para a agricultura; os povos que ali habitavam eram obrigados a viver como nômades e tinham que ser muito fortes militarmente: o grupo que não tinha uma força militar ágil, flexível, disciplinada e potente, facilmente se tornava escravo ou perecia de fome.

Várias tribos turcas, para fugir deste local hostil, se moviam a oeste e sul da Eurásia, como conquistadores, escravos ou mercenários, e uma dessas tribos turcas, lideradas por um chefe militar conhecido como Seljuque, se converteu ao islamismo. Gradualmente, conquistaram a região do planalto iraniano e áreas adjacentes, criaram o Império Seljúcida e se tornaram os novos líderes do mundo islâmico.

Esse Império cresceu, se fortaleceu, e o segundo sultão do Império Seljúcida, conhecido como Alp Arslan, derrotou os bizantinos na batalha de Manziquerta, iniciando o período de conquista turca da Anatólia e a gradual expulsão ou conversão (muitas vezes forçada) dos habitantes cristãos ao islamismo.

A batalha de Manziquerta foi um marco na história da região; a Anatólia começava a ser povoada por povos turcos e muçulmanos sunitas. Esta região, que fora por séculos um bastião cristão e de cultura helênica milenar, agora adquire uma característica totalmente diferente.

Sultão Osmã I e o nascimento do Império Otomano

Depois de quase dois séculos, a Anatólia já tinha se tornado uma região de maioria muçulmana sunita e turca, habitada por vários pequenos principados, e um deles era governado por Osmã I. A emigração turca da Ásia Central para o sul e oeste sempre acontecia, porém, a invasão mongol acelerou o processo. Segundo a tradição otomana, uma tribo turca liderada por Ertogrul, pai de Osmã, fugiu da invasão mongol da Ásia Central e se estabeleceu na Anatólia. O principado de Osmã estava muito bem localizado diante do decadente Império Bizantino, e, ao invés de lutar contra seus vizinhos turcos e islâmicos, ele decidiu expandir o seu principado focando apenas em conquistar terras cristãs bizantinas.

Osmã foi muito pragmático: ele percebeu que o Império Bizantino estava em ruínas e que os cristãos católicos romanos e católicos ortodoxos estavam divididos religiosa e politicamente, pois além do Grande Cisma de 1054, Constantinopla tinha sido invadida pelos católicos.

Ademais, os cristãos ortodoxos eram, e são até os dias atuais, religiosamente divididos em igrejas nacionais (por exemplo, igreja ortodoxa sérvia, igreja ortodoxa grega, igreja ortodoxa búlgara, etc.). Tudo isso facilitou a proclamação de uma grande jihad contra os infiéis cristãos. Voluntários de todo mundo islâmico se amontoavam para participar da guerra santa contra os bizantinos e conquistar terras cristãs; assim o Império Otomano nascia e crescia, juntamente com o seu prestígio no mundo islâmico.

Osmã teve vários descendentes brilhantes e a cada novo sultão o Império se expandia ainda mais, até que, finalmente, seu descendente Maomé II conquistou Constantinopla (hoje Istambul), acabando de vez com o Império Bizantino e se tornando a maior ameaça à Europa Cristã. O sultão otomano recebeu o título de Califa, ou seja, o líder da grande nação islâmica.


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Porém nada é para sempre. Após séculos de expansão, os otomanos começaram a acumular derrotas e a multiplicar inimigos: uma Pérsia islâmica xiita como adversária no Oriente Médio, um império Austríaco impedindo mais avanços na Europa, uma Rússia ressurgente expulsando os turcos do Cáucaso, Crimeia e Balcãs, e uma astuta Inglaterra usando os árabes para expulsar os turcos do Levante.

Tudo isso enfraqueceu profundamente o Império Otomano e, finalmente, após o término da Primeira Guerra Mundial, ele foi destruído e forças britânicas, gregas, francesas e italianas, em 13 de novembro de 1918, ocuparam Constantinopla (hoje Istambul).

Ataturk e o estabelecimento da República da Turquia

Com o fim do Império Otomano, um oficial conhecido como Mustafa Kemal Ataturk liderou um movimento nacional para expulsar os invasores britânicos, franceses, italianos e gregos da atual Turquia, contando com a ajuda maciça da União Soviética, que enviava enormes quantidades de armamentos para os turcos.

Após a expulsão dos invasores, Ataturk estabeleceu uma nova república democrática, totalmente secular e baseada no nacionalismo turco, tanto que ele cunhou a célebre frase: Ne Mutlu Türküm Diyene (Quão feliz é aquele que diz: Eu sou turco).

Ataturk estabeleceu uma nova nação, não baseada na religião islâmica (que ele detestava profundamente), mas nos moldes ocidentais de civilização: um novo alfabeto turco foi desenvolvido, mas, desta vez, através do latim e não do árabe; várias leis foram implementadas para impedir a islamização da sociedade, e a catedral bizantina Hagia Sophia foi transformada em museu (no período otomano, fora convertida de igreja à mesquita). Para continuar o legado de Ataturk, as Forças Armadas Turcas se transformaram em guardiãs da república e do secularismo no país.

Erdogan e o reavivamento do Islã político

Chegamos, finalmente, ao período de Erdogan, seu partido AK (Adalet ve Kalkınma Partisi, Partido da Justiça e Desenvolvimento) e sua visão política neo-otomana. Durante meus anos acadêmicos, duas pessoas me ensinaram tudo o que eu deveria saber sobre a política turca de forma minuciosa: a minha professora de Ciências Políticas, que, apesar de odiar Erdogan, era parente do secretário das finanças do partido AK e um amigo, que era parente de um dos líderes do partido comunista azeri do Irã refugiado na Turquia.

A Turquia se tornou um país membro da OTAN e um escudo contra a União Soviética, porém, uma vez ou outra, um político turco se aproximava dos soviéticos, sem mencionar que, embora clandestino, o movimento comunista era extremamente forte no país.

Para acabar com este impasse, os Estados Unidos, juntamente com seu melhor aliado, a Arábia Saudita, mesmo com forte oposição dos militares turcos, investiu na propagação do Islamismo no país, principalmente no interior da Turquia. Lembremos que, durante a Guerra Fria, combater o comunismo era prioridade, sem contar que ninguém do campo capitalista poderia dizer não aos Estados Unidos. Os políticos islamistas, recheados de dólares, começaram a usar a velha tática assistencialista para vencer eleições (comprar votos) e, em pouco tempo, os partidos religiosos se estabeleceram nas regiões mais pobres e se estenderam a outras áreas do país.

Em 1994, Recep Tayyip Erdogan ganhou as eleições municipais de Istambul. Até então, ele não passava de um candidato desconhecido, membro de um partido pequeno chamado Refah Partisi (Partido do Bem-estar), que, apesar do nome inocente, era islamista. Tal partido foi posteriormente banido pelos militares em 1998. Porém, em 2001, Erdogan criou o partido AK, religiosamente mais “moderado”, para disputar o cargo de primeiro-ministro.

Existe um ditado turco que diz: “Quem domina Istambul domina o país inteiro” e, poucos anos após completar seu mandato de prefeito, Erdogan foi eleito primeiro-ministro. Graças à sua astúcia e habilidade política, ele tem se mantido no poder e, gradualmente, tem trazido o Islamismo de volta ao espaço público: muitos o consideram um novo sultão e forte candidato a ser um o Califa (o Califado foi abolido por Ataturk).

O governo de Erdogan foi marcado por um enorme crescimento econômico de 2002 até 2010, pacificação com os curdos e uma boa relação com todos os vizinhos, incluindo aqueles com quem os turcos sempre tiveram problemas, como a Armênia, a Grécia e o Curdistão iraquiano, e um bom exemplo de que a democracia e o islamismo poderiam viver em harmonia.

O bem-sucedido modelo turco era comentado e elogiado em várias mídias ao redor do mundo, porém, de 2010 em diante, as coisas começaram a mudar radicalmente. O crescimento econômico já não era tão significativo, a política externa turca se tornava mais agressiva e a democracia islâmica de Erdogan era constantemente questionada.

Mapa Político Turco

E como funciona o mapa político moderno turco? A Turquia moderna ainda é uma democracia multipartidária e existem quatro grandes partidos turcos que representam os quatro tipos de eleitores turcos:

  1. O AKP de Erdogan, um partido conservador e religioso, do cidadão trabalhador comum de classe média ou baixa que vai à mesquita de vez em quando. É o partido mais votado no interior do país;
  2. O CHP (Cumhuriyet Halk Partisi, Partido Republicano Popular) fundado pelo próprio Kemal Ataturk, um partido socialdemocrata e secular, do cidadão relativamente mais elitizado, de classe média ou alta, que raramente vai à mesquita. É o partido mais votado na capital, grandes cidades e regiões costeiras do país;
  3. O MHP (Milliyetçi Hareket Partisi, Partido do Movimento Nacionalista) ultranacionalista (prega a supremacia da raça turca), um partido tradicional que vem perdendo força;
  4. O HDP (Halkların Demokratik Partisi, Partido Democrático Popular) de esquerda, veladamente pró-curdo e progressista, é o partido mais votado nas áreas curdas do país.

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Os curdos constituem um povo étnico sem país e a região sudoeste da Turquia é de maioria curda. Por séculos os curdos, através do grupo PKK (considerado terrorista pela Turquia), tentaram se separar da Turquia através da luta armada, em um conflito que ceifou milhares de vidas, tanto turcas quanto curdas.

O HDP recebe muitos votos da parcela progressista do país, porém sua principal base eleitoral é a população curda. Isso faz com que nenhum partido queira fazer aliança com o HDP, porque a causa curda é anátema para os turcos, e muitos o consideram um partido ligado ao PKK.

A Turquia era parlamentarista, de modo que o partido de Erdogan, para formar maioria no Parlamento, resolveu fazer uma aliança com o ultranacionalista MHP. O pró-curdo HDP foi marginalizado por todos e o kemalista CHP, como não queria trabalhar com os curdos, resolveu ficar na oposição.

Interessante notar que, juntos, o partido kemalista e o partido pró-curdo poderiam vencer Erdogan, porém os kemalistas, assim como a maioria dos turcos, acreditam que os curdos devem ser assimilados e que qualquer identidade curda deve ser veementemente rejeitada.

Erdogan soube muito bem se aproveitar da desunião da oposição e, sabiamente, através de manejo e estratégia política, conseguiu se perpetuar no poder.

Religião e Nacionalismo, em casa e no exterior

A Turquia de Ataturk sempre quis imitar a Europa, por isso o país sempre quis ingressar na União Europeia. Contudo, a Europa sempre pôs empecilhos para a entrada turca e, hoje, todos sabem que a Turquia jamais fará parte da UE, visto que os europeus não os querem em seu bloco de modo que os turcos estão buscando trilhar seu próprio caminho.

Erdogan é admirador do Império Otomano e vê a Turquia não como um país europeu, mas como líder do mundo islâmico, porque a principal identidade do Império Otomano era o Islã. Contudo, ele se aliou ao partido ultranacionalista MHP para formar maioria no Parlamento e, por isso, também adotou várias políticas nacionalistas.

O casamento entre religião e nacionalismo foi celebrado e considerado um sucesso: ele conseguiu trazer para seu lado o sentimento nacionalista e o sentimento religioso. Erdogan agora pode influenciar tanto o mundo islâmico quanto as nações de origem turca.

Erdogan apoiou os rebeldes sunitas sírios contra o regime secular de Bashar al-Assad porque queria trazer a Síria para a sua zona de influência: controlando a Síria, ele controla um país fundamental para projetar poder no Oriente Médio, sem contar que a Síria é um país importantíssimo na história islâmica.

A Turquia apoiou o primeiro presidente eleito democraticamente do Egito, Mohammed Morsi, um islamista como Erdogan. Quando os militares egípcios retomaram o poder, a Turquia de Erdogan e o Egito dos militares se tornaram ferrenhos inimigos.

Erdogan também apoiou o Governo do Acordo Nacional na Líbia contra o general Haftar, um secular que tinha ligações com os militares egípcios. Graças à intervenção de Erdogan, Haftar não tomou todo o país.

Erdogan também subiu o tom contra Israel, acusando-os de nazistas e fascistas, e tem apoiado abertamente a causa Palestina, comportamento que aumentou sua popularidade no mundo árabe.

A Turquia de Erdogan usa todo o seu aparato político, econômico e militar para favorecer a causa islâmica sunita ao redor do mundo. Erdogan tem se aproximado de países islâmicos sunitas como o Paquistão e a Somália, sem mencionar que muitas séries, filmes e novelas turcas fazem apologia declarada ao Império Otomano, um império que lutava e oprimia cristãos.

Erdogan também tem investido na construção de mesquitas ao redor do mundo: várias mesquitas ou instituições religiosas na Europa e na Ásia Central são financiadas pelo governo turco.


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Como se pode notar, a Turquia de Erdogan quer ser a líder do mundo islâmico sunita e, com certeza, é a melhor candidata para esta vaga, que está aberta. A Arábia Saudita é vassala dos Estados Unidos, o Irã é muçulmano xiita, o Paquistão, além de ter um gigantesco vizinho inimigo com armas nucleares (Índia), está sob a influência chinesa, o Egito tem um governo militar completamente secular, a Indonésia é multiétnica e multireligiosa (sem contar que os cristãos e/ou chineses são a verdadeira elite do país), de sorte que não há concorrentes para os turcos.

Além do elemento religioso, Erdogan está apoiando as causas nacionalistas turcas no exterior.

Na Síria, os grupos guerrilheiros curdos, arqui-inimigos dos turcos, tomaram quase toda a faixa norte do país. Erdogan usou seu próprio exército para impedir que os curdos continuassem a avançar (algo que gerou atritos com os americanos, porque os EUA apoiam os rebeldes curdos).

A Turquia ajudou o Azerbaijão na guerra contra a Armênia, porque o Azerbaijão é um país de origem turca (apesar de ser islâmico xiita).

A Turquia faz parte do Conselho Túrquico, juntamente com outros países turcos como Cazaquistão, Quirguistão, Turcomenistão, Uzbequistão e Azerbaijão, e, desta maneira, tem buscado estreitar as relações com estes países ao máximo, financiando várias instituições que promovem a unidade e cultura turca.

A Turquia também tem buscado se aproximar das minorias étnicas turcas residentes na Rússia, como tártaros, basquiares e chuvaches.

A Turquia criticou severamente a China devido ao tratamento que os chineses dão aos Uigures (minoria muçulmana de origem turca que habita na China).

Tudo isso mostra que a Turquia de Erdogan não quer apenas ser líder do mundo islâmico sunita, mas quer ir além, algo que nem mesmo os Otomanos almejaram, ela quer também liderar o mundo Túrquico.

Enfim, o retorno do Império Otomano seria possível ou não?

Depois de todas essas informações, posso responder a essa famosa pergunta, e a resposta é NÃO. O avanço turco é inegável: Erdogan obteve várias vitórias no campo político e geopolítico, porém a Turquia continua tendo MUITAS FRAQUEZAS e LIMITAÇÕES:

  1. A Turquia, além de não ter recursos naturais abundantes, é totalmente dependente de recursos energéticos: virtualmente todo o seu consumo de petróleo e gás é importado;
  2. A Turquia não tem uma tecnologia avançada e depende muito de tecnologia estrangeira: até mesmo o famoso drone Bayraktar utiliza várias peças essenciais importadas;
  3. Apesar do crescimento turco, a economia do país ainda é média e sua participação na economia mundial continua sendo relativamente insignificante;
  4. A demografia e território turcos são medianos: uma nação, para ser uma potência no século XXI, precisa ter uma grande demografia (ex: China e Índia) e um grande território (ex: Rússia);
  5. Apesar de ter o segundo maior exército da OTAN, o poder militar turco é insignificante se comparado ao americano, russo, chinês e indiano: militarmente, a Turquia é uma potência média sem armas nucleares;
  6. A Turquia fez muitos inimigos e é sobre este ponto que quero discorrer. Erdogan acredita que a Turquia moderna é a versão no século XXI do poderoso Império Otomano do século XV e XVI, porém o mundo mudou muito nestes 500 a 600 anos, e a geopolítica agressiva turca gerou poucas vantagens e muitas ameaças:
    1. Na Síria, Erdogan apostou pesado na vitória dos rebeldes sunitas contra Assad: ele chegou a afirmar que em breve rezaria na grande mesquita de Damasco e perto da sepultura de Saladino. O que aconteceu é que Assad permanece no poder com a ajuda da Rússia e os curdos controlam a região síria perto da fronteira turca com a ajuda dos Estados Unidos. A Síria virou um estado hostil aos turcos;
    1. Israel a cada dia mais vê os turcos como uma grande ameaça; a relação entre os dois países se deteriorou muito, apesar de que o comércio entre ambos vai de vento em popa e os turcos recentemente vêm buscando uma reaproximação, porém Israel não demonstrou muito interesse em fazê-lo;
    1. Os iranianos (maioria persa) são adversários naturais dos turcos, tanto que na história, o Império Persa era a “pedra no sapato” do Império Otomano no Oriente Médio e no Cáucaso, e quem barrou a expansão Otomana a leste. O Irã é o único país do Oriente Médio capaz de fazer frente aos turcos, geopoliticamente falando, sem contar que os dois são “rivais” religiosos: o Irã é xiita e a Turquia é sunita (em breve os Irmãos Russo farão um curso explicando as diferenças entre os dois);
    1. A Arábia Saudita vê em Erdogan um rival por zona de influência no mundo islâmico sunita e um apoiador da Irmandade Islâmica, grupo que os sauditas odeiam (é uma longa história), sem contar a morte do jornalista Jamal Khashoggi pelos sauditas no consulado saudita em Istambul, considerado uma grave ofensa. Tudo isso fez com que a relação entre sauditas e turcos piorasse consideravelmente;
    1. O Egito é governado por militares seculares que odeiam islamistas como Erdogan e os consideram como graves ameaças; há uma guerra fria em andamento pelo controle do Norte da África entre Erdogan e o general Sisi (presidente do Egito).

Apenas citando os países do Oriente Médio, já é possível perceber como a Turquia está isolada e sem amigos.

China, Rússia, Índia, União Europeia e Estados Unidos

A relação Turquia-Estados Unidos não está entre as melhores: membro da OTAN e fiel aliada durante o período da Guerra Fria, a Turquia tinha excelentes relações com os americanos, porém não mais.

Washington apoia os rebeldes curdos na Síria, o que enfureceu muito os turcos, pois encaram a formação de entidades governamentais curdas nas suas fronteiras como uma futura ameaça à sua integridade territorial. Os curdos já são semi-independentes no Iraque e na Síria: o próximo passo pode ser na Turquia, que tem a maior comunidade curda na região.

Erdogan também tem buscado uma política interna e externa independente dos Estados Unidos, o que atrai a cada dia mais a ira da Casa Branca, tanto que, recentemente, os americanos reconheceram o genocídio armênio de 1915 perpetrado pelos turcos.


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A verdade é que os americanos não confiam mais em Erdogan: eles o veem como um líder autoritário e problemático. A Turquia, recentemente, tem demonstrado interesse em se reaproximar dos EUA, mas a verdade é que Erdogan é persona non grata na Casa Branca.

A União Europeia também não vê Erdogan com bons olhos, apesar de querer manter uma relação produtiva com a Turquia. Os europeus enxergam em Erdogan uma ameaça, alguém desleal e não sincero. A verdade é que tanto os americanos quanto os europeus têm profunda antipatia pela Turquia de Erdogan. O que é muito perigoso para os turcos, pois a Europa e depois os Estados Unidos sempre protegeram a Turquia do Império Russo: os russos já tentaram várias vezes conquistar Istambul (Constantinopla) e varrer a Turquia do mapa, mas sempre foram impedidos pelo Ocidente (que não queria uma Rússia dominando totalmente o Mar Negro através do Bósforo e estabelecendo bases navais no Mediterrâneo).

A Rússia de Vladimir Putin quer se aproximar da Turquia, pois a Rússia fornece muita energia aos turcos e lucra muito com isso, sem contar que eles percebem que Erdogan não é um peão dos Estados Unidos, consequentemente, é possível manter uma relação pragmática.

Economicamente a Rússia e Turquia são aliados, pois ambos ganham muito dinheiro fazendo negócios, porém, geopoliticamente, são ferrenhos inimigos. A única coisa que compartilham é o desprezo pela elite de Bruxelas que constantemente os ataca.

Erdogan queria trazer a Síria para si, pois é um país de maioria islâmica sunita e crucial para influenciar/dominar o Oriente Médio, sem contar que, historicamente, a Síria foi a primeira nação conquistada pelos árabes muçulmanos: ela tem um valor simbólico incalculável para o mundo islâmico.

Contudo, o apoio que a Rússia deu a Assad frustrou os planos de Erdogan e a Síria de hoje é dominada por seculares, cristãos e alauítas (uma seita religiosa islâmica considerada herética pelos sunitas… e xiitas).

O desejo turco de unir todas as nações túrquicas é visto como uma ameaça aos russos (e aos chineses); entretanto este objetivo é tão irrealista que ninguém o leva a sério.

Minha esposa é da Ásia Central, especificamente do Quirguistão; posso afirmar categoricamente que estas nações turcas, além de não sentirem profunda afinidade com a Turquia, são totalmente dominadas culturalmente pelos russos e, caso estes saiam, os chineses entrarão, e quando os chineses entrarem, povoarão a Ásia Central e mudarão a demografia da região (a Ásia Central tem 72 milhões de habitantes, a China tem 1,41 bilhão). Por isso, a elite cazaque, quirguiz, uzbeque e turcomana vê a Rússia como defensora de sua própria existência.

E para piorar, a Rússia é o algoz histórico dos otomanos e da grande nação turca. Além de ter dominado quase todas as nações túrquicas, a Rússia foi a entidade que mais “deu porrada” nos otomanos, desde Ivã o Terrível até Alexandre III, e a Turquia só existe como nação porque os europeus e os americanos a protegeram da invasão russa.

A Rússia tolera a Turquia porque tem um inimigo mais poderoso nas suas fronteiras (o Ocidente), porém, caso a ameaça ocidental diminua, a Turquia estará em maus lençóis, pois a Rússia reavivou o Cristianismo Ortodoxo e o desejo de todo Ortodoxo é retomar Constantinopla e reconverter a Hagia Sophia em igreja, sem contar que a Rússia quer estabelecer bases navais em águas quentes (mediterrâneo) e conquistar o Bósforo é o caminho mais curto e fácil para isso. Para os russos, conquistar Istambul traria enormes vantagens religiosas, geopolíticas e econômicas.

Para os chineses, o apoio turco dado aos uigures foi considerado uma ameaça à soberania do país, sem contar que a China também apoia incondicionalmente Assad na Síria e condena qualquer interferência turca no país.

Mesmo os indianos estão irritados com os turcos, pois estes constantemente os acusam de seguir uma agenda hindu-extremista que persegue os muçulmanos, converte mesquitas em templos hindus e rejeita a autonomia dos habitantes muçulmanos da Caxemira, sem falar na aproximação política da Turquia com o Paquistão (arqui-inimigo da Índia).

Conclusão

A Turquia de Erdogan, apesar de ter conseguido várias vitórias nos cenários nacional e internacional, continua sendo um país sem armas nucleares, com uma economia mediana e tecnologicamente dependente de terceiros.

A política agressiva de Erdogan só lhe trouxe inimigos, que podem ameaçar a própria existência da Turquia.

A elite turca precisa acordar para a realidade: o Império Otomano acabou. E caso queiram ressuscitá-lo, a própria existência da república turca estará ameaçada e o sonho poderá se transformar em um terrível pesadelo.

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1 comentário

  1. Excelente análise. Deu para perceber que o rearranjo geopolítico que está acontecendo entrando Rússia e China no cenário global fecha os espaços para um domínio da Turquia. Tanto fez Erdogan que ficou isolado.

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