Especulando sobre a China e Cuba

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Capa-China-Cuba

Por George Friedman*, do Geopolitical Futures

Montagem com as bandeiras de Cuba e da China.

Num exercício de imaginação, o autor procura traçar um paralelo entre a situação geopolítica da Guerra Fria, envolvendo os EUA e a URSS durante a crise dos mísseis em Cuba, e a atual disputa entre os Estados Unidos e a China, criando um cenário hipotético, mas, nas suas próprias palavras, intrigante. Dado o cenário especulado, cabe a pergunta: Poderia Cuba ser tão importante para a China quanto foi para a União Soviética?


Do ponto de vista militar, a China está em uma posição difícil. É uma potência comercial e precisa ter acesso aos oceanos. Seus portos importantes estão na costa leste. Seu principal temor é que os Estados Unidos ou outra potência possa bloquear esses portos, impossibilitando seu comércio exterior e prejudicando gravemente sua economia. Os EUA têm o poder naval e aéreo para interditar os portos e são apoiados por uma vasta coalizão: Japão, Coréia do Sul, Taiwan, Filipinas, Indonésia, Cingapura e Austrália. No entanto, não há uma organização única, como ocorria com a OTAN e os soviéticos, e cada membro da coalizão tem relações econômicas tanto com a China como com os Estados Unidos, portanto é impossível prever o comportamento deles em uma crise.

Ainda assim, o acesso marítimo é fundamental para a China, e a simples possibilidade de uma perturbação é o problema central do país. Em questões de fundamental interesse nacional, nada é mais assustador do que as incertezas, mesmo com a possibilidade de soluções como a iniciativa Belt and Road. A China precisa de certezas e projetou uma autoconfiança que não é possível ter em um mundo em que os EUA são um potencial adversário. Adicione-se a isso o fato de que, embora o produto interno bruto chinês seja quase US$ 15 trilhões, as nações que ela enfrenta têm um PIB total de cerca de US$ 33 trilhões. Observe-se também que a China quase não tem aliados formais, e nenhum nessa área de contenção. Os EUA têm relações estreitas com a maioria e razoáveis ​​com todos.


Bases e instalações navais dos EUA (©2020 Geopolitical Futures / Fontes: IISS, Military Times e Departamento de Estado dos EUA).

A ameaça chinesa é que ela poderia romper essa contenção, seja por pressão econômica, que não funcionou até agora, seja por ataque militar, provavelmente uma invasão a Taiwan. Mas a guerra anfíbia é difícil em uma era de mísseis antinavio e submarinos. A primeira onda pode pousar em Taiwan, mas a parte essencial da guerra anfíbia é a logística – o reabastecimento maciço e contínuo de forças que desembarcaram e estão em combate. A China não pode presumir que os Estados Unidos e seus aliados não buscarão interditar as linhas de suprimento, e nem assumir que falharão. Lançar um ataque anfíbio e fracassar traria enormes e negativas consequências políticas para a China na região e, possivelmente, internamente, para o regime. O problema de começar uma guerra é que a China poderia perder. Uma perda a deixaria em uma posição pior do que estava antes. O principal problema, desde o acesso ao porto até a invasão de Taiwan, é que a China não pode prever o que os EUA e seus aliados poderão fazer, e não tem como controlar seu comportamento.

A União Soviética estava em posição semelhante em relação aos EUA e à OTAN. A União Soviética era menos dependente do comércio do que a China e tinha mais experiência em guerras. Mas seu problema básico era que não podia controlar e, portanto, não podia prever as ações americanas e da OTAN. Por exemplo, a colocação de mísseis nucleares americanos na Turquia representou uma ameaça à pátria soviética que ela não podia equiparar. Os soviéticos precisavam direcionar suas capacidades nucleares. Mas, no final das contas, a dissuasão não foi suficiente. Os soviéticos tinham que colocar em risco os interesses econômicos americanos fundamentais.

Os Estados Unidos também são uma potência comercial, e dois de seus portos mais importantes eram (e são) Nova Orleans e Houston. Ambos estão no Golfo do México e exigem acesso aos estreitos entre Cuba e Key West e entre Cuba e a Península de Yucatán. Submarinos e aeronaves poderiam fechar ambos os estreitos e, se os soviéticos controlassem a viabilidade dos portos de Nova Orleans e Houston, teriam uma alavanca para gerir politicamente os EUA. Ao colocar armas nucleares em Cuba, eles garantiriam a inviolabilidade da ilha e seu valor como base para controlar o acesso ao Golfo do México. Isso lhes daria um poder de barganha significativo, sem falar da paridade, já que os EUA tinham controle sobre o Bósforo e o estreito dinamarquês, controlando o movimento marítimo soviético. Os soviéticos não pretendiam iniciar uma guerra nuclear, mas a partir de Cuba poderiam equiparar a estratégia marítima dos EUA. O objetivo era a paridade em vários níveis. Se os EUA não tivessem detectado as implantações nucleares a tempo, poderia ter funcionado.


Localização estratégica de Cuba (©2021 Geopolitical Futures).

A China tem um problema semelhante ao que os soviéticos tinham – não idêntico, mas suficientemente semelhante para uma reflexão. Ela precisa limitar as ações dos EUA contra seu comércio marítimo nos mares do Sul e do Leste da China. A China não pretende iniciar uma grande guerra que poderia perder, mas precisa de ferramentas para impedir que os EUA tomem ações que a China não pode tolerar.

Cuba foi um desafio para os Estados Unidos desde o início, quando era controlada pela Espanha. O país tem a chave de dois portos americanos vitais, assim como os EUA tinham as chaves dos portos soviéticos e agora dos chineses. A tentativa soviética de assumir o controle foi usar Cuba primeiro como base nuclear, e, depois, como moeda de troca sobre o acesso marítimo ao Golfo. A dissuasão protegeria apenas os ativos russos. A interdição teria sido a chave.

Os chineses não precisam de Cuba para manter sua dissuasão nuclear. Mas precisam de meios para equiparar a capacidade de interdição dos EUA aos portos chineses para forçar Washington a um entendimento político. Eles não têm o poder de destruir a contenção ao sul e leste da China, política ou economicamente. O risco de guerra é muito grande. Tampouco podem controlar os EUA a partir de suas águas costeiras. Eles precisam de uma ameaça confiável com a qual negociar.

A economia de Cuba está em frangalhos. Precisa muito de um aliado econômico. A China já detém o sistema de telecomunicações de Cuba e atua em todo o Caribe. O custo de sustentar Cuba é mínimo, e a elite cubana, cambaleante, gostaria disso. Quando examinamos a lógica geopolítica, vemos que Pequim precisa de uma alavanca para administrar os EUA, e não encontrará essa alavanca no Pacífico Ocidental. Precisa de uma alavanca que ameace os Estados Unidos da mesma forma que eles ameaçam a China. Deve ser uma ameaça próxima dos EUA e que envolva acesso marítimo ao globo. O único ponto a partir do qual isso pode ser possível sem precisar colocar uma grande frota ao largo de Long Beach seria Cuba.


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Se os Estados Unidos reagissem militarmente, o custo para a China seria menor do que um fracasso na Ásia. Os EUA também podem falhar em desalojar as forças chinesas em Cuba, armadas com mísseis antiaéreos e antinavio e submarinos. A questão seria evitar um ataque preventivo dos EUA, mas embora isso fosse óbvio e aceito contra as armas nucleares, o tipo de armas necessárias para a China tornaria tudo mais difícil e politicamente mais complexo.

Esta opção estratégica é pura especulação. Não sei se os chineses pensaram nisso ou se considerariam muito arriscado. Pessoalmente acho que é improvável que eles não tenham considerado, e acho que eles consideram sua situação atual mais arriscada do que uma jogada mais radical. O que está claro é que a atual ameaça aos portos da China é inaceitável para os chineses, e se envolver em uma guerra anfíbia fora de sua costa é ainda mais arriscado. Acho que os chineses querem um acordo político, mas nas atuais circunstâncias isso exigiria um acordo econômico que a economia chinesa poderia não suportar. Um movimento em Cuba não envolveria um conflito, a menos que os EUA assim escolhessem, e Washington pode não escolher. Mas isso forçaria os Estados Unidos a uma posição em que uma ação contra o acesso chinês aos oceanos levaria a uma ameaça ao acesso dos EUA. Washington pode tentar uma ação militar contra a China em Cuba, mas, da mesma forma que acontece com a China em Taiwan, os EUA também podem fracassar.

Do ponto de vista chinês isso criaria uma solução estável. Do ponto de vista americano, atingiria nervos primordiais e exigiria fé de que a China não ameaçaria o transporte de e para Nova Orleans e Houston no futuro, independentemente da resposta dos EUA. Washington estaria aceitando um risco enorme que não enfrentou antes. Isto é difícil.

Mais uma vez, gostaria de enfatizar que não tenho nenhuma evidência de que isto esteja nos planos da China, nem tenho quaisquer evidências de que esta seja uma preocupação significativa dos EUA. Estou simplesmente especulando sobre como a situação atual no Mar do Sul da China poderia evoluir. Isso não é uma previsão, nem é algo que vejo sobre a mesa. Mas é um cenário possível intrigante.


*George Friedman é analista geopolítico e estrategista de assuntos internacionais mundialmente reconhecido. É fundador e presidente da Geopolitical Futures, um think tank especializado em relações internacionais e política externa americana. É autor de diversas obras, dentre as quais os best-sellers “Os próximos 100 anos” e “A próxima década”.

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1 comentário

  1. Muito interessante a reflexão sobre a importância de Cuba no aspecto geopolítico. Tal qual Taiwan, mostra-se um vizinho pequeno porém incômodo para o gigante ao seu lado. Estejamos atentos! Forte abraço!

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