Inteligência Cultural: novos parâmetros na formação do oficial ante a nova geração de conflitos

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Oficial de Inteligência da USAF fala com crianças afegãs em vila perto da Base Operacional Avançada de Herrara, no Afeganistão (Foto: USAF/Staff Sargent Shawn Weismiller).

Após um prolongado predomínio das disciplinas da área de exatas e tecnológicas, o alvorecer do século XXI parece apontar uma tendência ao resgate das Ciências Humanas na educação militar. Tudo se deveu ao impacto de uma nova geração de conflitos e também à introdução do conceito de Inteligência Cultural. A relação entre estes dois novos sistemas tem indicado novas perspectivas para a formação militar em modernas forças armadas, tendo em vista as necessidades do combatente ideal para uma nova modalidade de conflitos. A Inteligência Cultural incorpora a capacidade de interagir de forma eficaz com pessoas de históricos culturais diferentes. O impacto das guerras da atualidade não se resume somente à ação bélica em si, mas também se dá sob a vertente cultural, se fazendo sentir nas fases de abordagem, invasão e ocupação, até a pacificação, interagindo com sociedades e organizações possuindo culturas e códigos sociais bastante diversos. A presente comunicação científica, se valendo de fontes bibliográficas e documentais, aborda a Inteligência Cultural e sua adoção como parâmetro para a educação militar superior.


A história da educação militar, em especial a da formação de oficiais, sempre foi marcada por ondas de modismos e tendências acadêmicas. O fenômeno vem sendo observado ao longo do tempo em academias militares de diversas nações ao longo do século XX. Os modismos curriculares se fizeram presentes ora privilegiando o profissionalismo, ora o bacharelismo. O dilema entre a valorização das ciências exatas ou humanas fez parte de muitos contextos educacionais, todos primando pela melhor formação de seus líderes militares. A tendência ao acentuado bacharelismo militar, em detrimento das ciências militares, parece ter sido um risco constante.

No Brasil, o bacharelismo militar foi um fenômeno traduzido pelo desvio na formação do profissional da guerra devido ao predomínio das ciências conexas sobre as autênticas ciências militares. Esta distorção, geralmente, não tem sido intencional, mas uma consequência despercebida da perda do pragmatismo da formação do profissional da guerra em uma nação pacífica com escassas hipóteses de ameaças externas.

Na educação castrense, de um modo geral, o apelo a conhecimentos alheios à prática das armas é uma diligência antiga, mas nem sempre sistemática. Os senhores da guerra valeram-se, frequentemente, de métodos que lhes eram sugeridos por outras atividades. Essas contribuições vão da simples observação à reflexão combinatória. Situam-se no nível da tecnologia, das ciências aplicadas ou, pelo menos, a partir da Renascença, das ciências fundamentais.

Grandes mestres da arte da guerra, como Sun Tzu e Maquiavel, descreveram suas teorias apoiados na observação da guerra como um fenômeno eminentemente afeito às ciências humanas. Clausewitz, clássico teórico da arte militar, reconhece que a guerra é uma atividade humana, estando condicionada por fatores próprios ao homem – basicamente, sua vontade e os aspectos psicológicos que atuariam na situação limite que a guerra traz consigo. Na máxima clausewitziana, a guerra era, sobretudo, “a continuação das relações políticas por outros meios”[1].

A partir de meados do século XIX, as incorporações tecnológicas militares provocaram grande impacto na arte da guerra, que acabaram por condicionar a formação militar fortemente direcionada para o conhecimento técnico, favorecendo a valorização das ciências exatas no meio acadêmico militar. Após um longo predomínio das disciplinas da área de exatas e tecnológicas, o alvorecer do século XXI, apesar das guerras continuarem cada vez mais condicionadas a um alto grau de dependência tecnológica, parece apontar para uma tendência ao resgate das ciências humanas e sociais na educação militar. Tudo se deveu ao impacto de uma nova geração de conflitos – a guerra de quarta geração[2] – e também à providencial introdução do conceito de Inteligência Cultural. A relação entre estes dois novos sistemas tem indicado novas perspectivas para na formação militar em diversos países, tendo em vista as necessidades do combatente ideal para essa nova modalidade de conflitos.

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Os conflitos de quarta geração são marcados pela perda do monopólio do Estado sobre a guerra. Em todo o mundo, os militares se encontraram combatendo inimigos não estatais, gerando tensões para os quais não se encontravam preparados. São agora inimigos organizações guerrilheiras e grupos terroristas que não agem de acordo com as convenções de Genebra, combatendo por princípios e motivações que transcendem aos clássicos objetivos nacionais ou de Estado. Segundo Lind, essa nova modalidade de guerra é sobremaneira marcada por uma volta a um mundo de culturas, não meramente de países, em conflito[3].

Outro teórico a propor uma nova modalidade conflitos ao final do século XX foi Samuel Huntington. Segundo ele, no mundo pós-Guerra Fria, a principal fonte das guerras se desenvolveria com base num conflito de identidades culturais e religiosas. É a teoria do choque de civilizações, originalmente formulada por Huntington em 1993 e solidificada em sua obra “O Choque das Civilizações” na qual escreve:

“Minha hipótese é que a fonte fundamental de conflitos neste mundo novo não será principalmente ideológica ou econômica. As grandes divisões entre a humanidade e a fonte dominante de conflitos será cultural. Os Estados-nações continuarão a ser os atores mais poderosos no cenário mundial, mas os principais conflitos da política global ocorrerão entre países e grupos de diferentes civilizações. O choque de civilizações dominará a política global. As falhas geológicas entre civilizações serão as frentes de combate do futuro”[4].

A relação entre guerra e cultura parece ser uma forte tendência dos teóricos nos últimos tempos. Enquanto, no século XIX, Clausewitz conceituava a guerra subordinada ao primado da política na forma de violência, no início do século XXI, um eminente autor da História Militar, o inglês John Keegan, vinculou tal conceito como uma forma de cultura. Para Keegan, a guerra, desde os mais remotos tempos, deve ser entendida como uma manifestação inerente à cultura[5]. Tais reflexões teóricas favorecem novas abordagens no preparo e condução dos conflitos bélicos modernos.

A condução das guerras de quarta geração e, por conseguinte, dos conflitos assimétricos, parece impor novas exigências que vão muito além da forma como as forças militares combatem, seja na técnica ou na logística, mas sim como elas se comportam no pré e pós-batalha dentro de um teatro de operações. O impacto não se resume à ação bélica em si, mas também se dá sob a vertente cultural, se fazendo sentir nas fases de abordagem, invasão e ocupação, até a pacificação, interagindo com sociedades e organizações – governamentais ou não – possuindo culturas e códigos sociais bastante diversos. Na conjuntura desta nova modalidade de conflitos armados, trata-se de resolver situações sociais e culturais complexas em um ambiente hostil, as quais requerem uma preparação e métodos de execução diferentes dos que tradicionalmente têm sido empregados.

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Tendo como exemplo bastante ilustrativo, tais desafios levaram o Corpo de Fuzileiros Navais do EUA a perceber, pioneiramente, a importância da Inteligência Cultural para a formação de seus combatentes, devendo tal princípio descer ao escalão inferior da hierarquia, incidindo do general ao menos graduado das praças[6]. A iniciativa foi logo acolhida pelas demais Forças Armadas americanas para, em seguida, ser admitida por outros países, principalmente entre os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Para os defensores dessa nova corrente educacional militar, a Inteligência Cultural seria a chave do sucesso para integrar o combatente o máximo possível com as sociedades locais, adquirindo também superioridade em outras vertentes da guerra que extrapolam ao combate tradicional baseado na demonstração de força e no exercício da violência.

Relatórios de campanha evidenciam que as guerras do Iraque e do Afeganistão estão demandando e produzindo excelentes laboratórios para o exercício militar da Inteligência Cultural, conforme destacou o major americano Todd Clark:

A Guerra Global contra o Terror identificou graves deficiências na capacidade dos militares dos EUA operarem com sucesso em diversas culturas. Em particular, os militares dos EUA não conseguiram prestar atenção e entender às normas sociais e valores da cultura iraquiana e afegã. Essa falha causou um racha definitivo entre as Forças da Coalizão e a população de cada nação. Entretanto, isso não pode ter propiciado a insurgência, mas foi certamente envolvido na criação de algum grau apoio para os insurgentes. Desenvolver e cultivar a capacidade da Inteligência Cultural dos militares dos EUA promete prover um meio de penetrar o muro existente entre as forças exógenas e a população local. Uma força culturalmente inteligente age de maneira mais aceitável às normas locais e, portanto, desenvolvem um relacionamento mais favorável. Nos conflitos futuros, a conquista preliminar de interações culturais pode garantir a qualquer um sufocar uma insurreição em sua infância ou, pelo menos, negar em muito seu espaço de manobra[7].

Compreendidos estes desafios, a educação para a Inteligência Cultural passou a ser um importante parâmetro a ser considerado no preparo da tropa, direcionado inicialmente para a formação das forças especiais americanas. Com base nesta proposição, as tropas de elite das Forças Armadas americanas passaram a ser intensamente formadas para conhecer a língua e os costumes locais, conduzindo operações em sintonia com a cultura nativa, obtendo melhor resposta nas ações de inteligência, bem como nas armadas. Toda a iniciativa nesse sentido parece estar sendo, em larga medida, recompensada, culminando com o sucesso da Operação Geronimo que localizou e eliminou o terrorista Osama Bin Laden no Paquistão, em maio de 2011. Foi amplamente divulgado pela imprensa que as tropas engajadas nestas operações, os SEALs da Marinha Americana, a 160ª SOAR (Airborne), os Rangers e a Delta Force do Exército, receberam distinta instrução com base na Inteligência Cultural para tal atuação[8].

Fundamentos da Inteligência Cultural

A Inteligência Cultural, como conceito, foi primeiramente descrita em 2003 por Christopher Earley e Soon Ang, sendo a teoria originalmente voltada para a capacitação de gerentes empresariais[9]. Os princípios por eles levantados para a qualificação profissional no mundo dos negócios logo conquistaram aceitação na comunidade de recursos humanos. Esses autores definiram Inteligência Cultural como “a capacidade de uma pessoa se adaptar a novos contextos culturais”[10]. O objetivo principal era resolver o problema do porquê os indivíduos não conseguem adaptar-se ou compreender novas culturas. As questões levantadas pela teoria foram logo percebidas pela comunidade de inteligência, que passou a incluir seus princípios no conteúdo de seus cursos de formação[11].

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Pouco tempo depois, em 2006, David C. Thomas e Kerr Inkson consolidaram tecnicamente os pressupostos de Earley em Inteligência Cultural: habilidades pessoais para negócios globalizados[12]. Segundo os novos autores do tema, a Inteligência Cultural incorpora a capacidade de interagir de forma eficaz com pessoas de históricos culturais diferentes. Contudo, muito mais que uma simples lista de protocolos, a Inteligência Cultural propõe uma abordagem sistemática para a variedade de interações que profissionais enfrentam relacionando-se em culturas diferentes nos diversos países, oferecendo uma série de técnicas específicas[13].

Para Thomas e Inkson, a Inteligência Cultural abarca o entendimento dos fundamentos da interação intercultural, passando pelo desenvolvimento da uma abordagem consciente para as interações interculturais e, finalmente, pela construção de habilidades adaptativas e um repertório de comportamentos que possam tornar uma pessoa eficiente em diferentes situações interculturais. Interagir de forma eficiente com variadas culturas passou a ser um requisito categórico no ambiente global da atualidade[14]. E isto parece estar conquistando ampla validação na formação e treinamento de forças militares.

Em um mundo globalizado, seja ele no âmbito dos negócios ou militar, a essência do global passou a ser a interação com pessoas culturalmente diferentes. A Inteligência Cultural abarca o entendimento dos fundamentos da interação cultural, passando pelo desenvolvimento da uma abordagem consciente para as interações interculturais e, finalmente, pela construção de habilidades adaptativas e um repertório de comportamentos que possam tornar o militar eficiente em diferentes situações interculturais, seja de conflito ou de aliança.

O primeiro estágio para o desenvolvimento da Inteligência Cultural é o entendimento do que é cultura e como sua variação afeta o comportamento. Cultura não é uma variedade aleatória de costumes e comportamentos. Ela é composta por valores, atitudes e percepções sobre comportamentos intercambiados por pessoas de um grupo específico. São aspectos sistemáticos e organizados que foram desenvolvidos como resultado da evolução das sociedades e do seu convívio com problemas comuns. As culturas podem ser definidas de acordo com seus valores as crenças fundamentais que as pessoas compartilham sobre como as coisas devem ser e como o indivíduo a ela sujeitado deve se comportar. É compartilhada e transmitida de geração para geração possuindo intenso componente histórico[15].

A educação militar com base na Inteligência Cultural

Curiosamente, a aplicação militar da Inteligência Cultural no campo de batalha não é um fenômeno do século XIX. Na realidade, ela foi amplamente utilizada por perspicazes chefes militares em conflitos convencionais e assimétricos já a partir do século V a.C. Durante a Guerra do Peloponeso, tanto os atenienses quanto espartanos tiraram proveito do conhecimento das “fraquezas” culturais de seus oponentes, procurando ao mesmo tempo intensificar sua presumida superioridade cultural. Por ocasião do planejamento para a batalha na Ilha de Lesbos, os atenienses inicialmente decidiram que o ataque deveria ocorrer durante um festival religioso local para, assim, serem favorecidos pelo fator surpresa. No entanto, em última análise, a ideia foi rejeitada por receio das consequências que a intencionada ofensiva naquela data pudesse promover entre os aliados de Atenas na ilha, simbolizando um possível desrespeito à cultura do povo de Lesbos[16].

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Em tempos mais recentes, o uso inovador e ousado de Inteligência Cultural alcançou surpreendentes sucessos no campo de batalha, apesar dos escassos recursos militares. Durante a Primeira Guerra Mundial, o tenente-coronel Thomas Lawrence, o famoso Lawrence da Arábia, foi capaz de utilizar sua compreensão da cultura árabe para ganhar a confiança de Faisal, o terceiro filho de Sharif Hussein bin Ali. Com o uso de sua Inteligência Cultural ele tornou-se o conselheiro logístico do movimento rebelde e comandante de um exército de dez mil homens, sustentando o sucesso da revolta árabe contra os turcos em favor dos interesses britânicos na região[17].

Valorizando o intercâmbio entre culturas, o desenvolvimento da Inteligência Cultural envolve, em larga medida, conhecimentos afeitos às ciências humanas e sociais. São estas disciplinas fundamentais para o desenvolvimento do líder militar culturalmente inteligente. Para interagir e decidir com base na Inteligência Cultural o oficial necessita reunir conhecimentos caros à Filosofia, Sociologia, Psicologia, História, Geografia, Relações Internacionais e aos idiomas. Para os novos líderes militares, torna-se desejável possuir amplo e aprofundado estudo da história das sociedades e civilizações. Tal conhecimento passa a adquirir igual importância ao fundamental estudo da história militar das academias, até então uma ferramenta indispensável na constituição do pensamento militar e substituto da experiência direta em combate.

No tocante à necessidade de o militar desenvolver amplitude e domínio em línguas estrangeiras, a Inteligência Cultural é pródiga em tal recomendação. A comunicação é uma ferramenta fundamental para qualquer interação social, seja ele na guerra e na paz. A comunicação intercultural apresenta muitas barreiras para a compreensão compartilhada, porque os indivíduos de diferentes culturas não compartem as mesmas experiências, códigos ou convenções. As habilidades com o idioma são importantes, mas a comunicação intercultural envolve muito mais que variações nos idiomas ou linguagens. Os códigos e convenções da linguagem também se referem a sinais não-verbais e estilos de comunicação[18].

O ensino de idiomas nas academias militares parece ter se intensificado e se estendido nos últimos anos, extrapolando de vez os corriqueiros cursos das línguas clássicas predominantes no mundo ocidental. Busca-se agora estender tal conhecimento às línguas orientais, e até aos idiomas raros. Cada nação, dentro de seu contexto geopolítico e interesses militares, vêm incrementando o rol de idiomas disponibilizados em suas escolas. Hoje, a Academia Naval dos EUA, sediada em Annapolis MD, oferece aos seus aspirantes um rol eletivo de sete idiomas – árabe, espanhol, russo, francês, alemão japonês e chinês – atingindo-se a completa proficiência ao longo de quatro anos de curso. Em perfeita sintonia com os preceitos da Inteligência Cultural, os cursos militares de idiomas estão indo muito além do ensino técnico da língua, adentrando em vertentes culturais da identidade linguística de  cada povo[19].

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Uma das maiores prioridades da Marinha americana e das demais Forças Armadas dos EUA é o desenvolvimento da linguagem e da experiência cultural em seus combatentes, não importando a sua especialidade. Em um recente documento aprovado pelo Pentágono, o Defense Language Transformation Roadmap, a proficiência em língua estrangeira e o conhecimento cultural são considerados “tão importante quanto os sistemas críticos de armas” e são chamados de “ativos estratégicos na guerra global ao terrorismo”. A introdução do curso de árabe e chinês na academia de Annapolis se deveu às orientações emanadas pelo respectivo documento[20].

Outro aspecto de interesse para a educação militar de que trata a Inteligência Cultural se refere à formação para a liderança. Influenciar homens e mulheres para que atinjam os objetivos propostos, por si só, constitui um desafio muito grande, mas quando a dinâmica das interações interculturais é adicionada, o desafio se torna ainda maior. Líderes militares culturalmente inteligentes tendem a conquistar maior aceitação em um ambiente culturalmente diverso envolvendo uma coalizão, forças aliadas ou a abordagem de uma população ou grupo potencialmente hostis em um teatro de operações.

Thomas e Inkson advertem que a tentativa de emular o comportamento de uma liderança pertencente à cultura dos seguidores pode se tornar uma situação potencialmente arriscada. Pode até ser que uma adoção moderada desses costumes renda ao líder alguma aceitação por parte dos seguidores, mas, em excesso, esta poderá ser interpretada com falsa ou ofensiva. Grupos culturalmente diversos de seguidores podem ter expectativas distintas quanto à liderança[21].

A visão de futuro da educação militar, em especial daquelas nações que almejam posição de destaque para suas forças armadas em um mundo globalizado, aponta para a formação do oficial, como líder militar apto a enfrentar os novos desafios do século XXI, sendo educado para atuar em ambientes culturalmente complexos, sejam em forças de paz, alianças militares ou contra sociedades culturalmente antagônicas. Conhecer a cultura do inimigo ou aliado, sua história, valores e tradições, passou a ser tão importante quanto o conhecimento sobre sua capacidade e estratégia militares.


*Claudio Passos Calaza é coronel dentista da reserva da Força Aérea Brasileira, mestre em Ciências Aeronáuticas e especialista em História Militar e Aeronáutica. Atua, desde 2007, como instrutor da disciplina de História Militar na Divisão de Ensino da Academia da Força Aérea, em Pirassununga/SP. É autor do livro “1964 – Precursores da Academia da Força Aérea – O Novo Ninho das Águias”

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Notas


[1] CLAUSEWITZ, Carl. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p. 23.

[2] O termo “Guerra de Quarta Geração”, conhecida também pela sigla em inglês “4GW”, tem sido usado pelos pensadores militares para designar os conflitos dos finais do século XX. Confrontos multidimensionais, que envolvem ações em terra, no mar, no ar, no espaço exterior, no espectro eletromagnético e no ciberespaço, e marcados pelo fato de o “inimigo” poder não ser um Estado organizado, mas um grupo terrorista ou uma qualquer outra organização criminosa. A 4GW significa a perda, pelo Estado, do monopólio dos conflitos armados e que resultou do Tratado de Westfália de 1648, que pôs fim à Guerra dos Trinta Anos.

[3] LIND, William; SCHMITT, John; SUTTON, Joseph e WILSON, Gary: “The Changing Face of War: into the Fourth Generation”, Marine Corps Gazette (oct. 1989): pp. 22-26.

[4] HUNTINGTON, Samuel P. O Choque das Civilizações e Recomposição da Ordem Mundial. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 1996, p. 39.

[5] KEEGAN, John. Uma História da Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 29.

[6] LIND, op. cit., loc. cit.

[7] CLARK, Todd, J. Developing a Cultural Intelligence Capability. 2008. pp. 60-61.

[8] VEJA. São Paulo: Editora Abril, edição 2216 – ano 44 – nº 19, 11 maio de 2011, p. 88.

[9] EARLEY, Christopher; ANG, Soon. Cultural Intelligence: Individual Interactions Across Cultures. Stanford: Stanford University Press, 2003.

[10] Ibidem, p. 59.

[11] RIVA, Julia. Cultural Intelligence. Central Intelligence Agency. Disponível em: https://www.cia.gov/library/center-for-the-study-of-intelligence/csi-publications/csi-studies/studies/Vol49no2/Cultural_Intelligence_Book_Review_10.htm.

[12] THOMAS, David; INKSON, Kerr. Inteligência Cultural: habilidades pessoais para negócios globalizados. Rio de Janeiro: Record, 2006.

[13] Ibidem.

[14] Idem, pp. 23-34.

[15] Ibidem.

[16] KAGAN, Donald, A Guerra do Peloponeso. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2006, pp. 136-137.

[17] BROWN, Malcolm. T. E. Lawrence: Lawrence da Arábia. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2006, pp. 9-29.

[18] THOMAS, op. cit., pp. 139-157.

[19] United States Naval Academy, Languages and Culture Department., Mission. Disponível em: http://www.usna.edu/LanguagesAndCultures/mission.php.

[20] United States of America. Department of Defense. Defense Language Transformation Roadmap. Jan 2005, p. 3.

[21] THOMAS & INKSON , op. cit. p. 178.

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2 comentários

  1. Excelente artigo e atualizado com os desafios de hoje. Meus parabéns!
    Nos dias de hoje os “Soft Skills” em especial de comunicação interpessoal e intercultural tem sido o divisor de águas em muitas negociações e relacionamentos internacionais.
    Quando tive a oportunidade de fazer negócios no Japão ficou muito claro a diferença a diferença cultural entre nós brasileiros e os japoneses, exigindo grande sensibilidade e empatia para o sucesso da empreitada.
    Abraços!

    1. Exatamente Paulo, esses skills valem para a vida militar e civil. É fundamental entender como pensa e se comporta o “outro lado”. Grato por comentar, forte abraço!

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