A Estrela de Caxias em 1843

Por Cláudio Moreira Bento*


O Cometa Brilhante de 1843, a “Estrela de Caxias”, pintado no Rio de Janeiro em 1843 por José dos Reis Carvalho, mestre de desenho da Escola Naval. A pintura, que se encontra em mau estado no IHGB, foi por nós fotografada e restaurada com auxílio de computação pelo capitão-de-mar-e-guerra Carlos Norberto Stumpf Bento, Instrutor de Navegação da Escola Naval e web designer do site da FAHIMTB (www.ahimtb.org.br).

Hoje, o Dia do Soldado, data magna do Exército, homenageia o nascimento de Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, em 25 de agosto de 1803. Conhecido como “O Pacificador” e “Duque de Ferro”, tornou-se patrono do Exército Brasileiro em 13 de março de 1962. É tido por muitos historiadores como o mais destacado oficial da história do Brasil. Em sua homenagem e à data, publicamos este artigo de autoria do coronel Cláudio Moreira Bento.


Em 9 de novembro de 1842, precedido da justa fama de pacificador do Maranhão, Minas Gerais e São Paulo, o Barão de Caxias assumiu a presidência e o comando das Armas da Província do Rio Grande do Sul com a missão de pacifica-la, depois de oito anos de luta fratricida.

Tomou as medidas necessárias para apoiar sua campanha e sair em campo, conforme abordamos no livro O Exército Farrapo e os seus Chefes, Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1993, 2º volume (baixe os livros nos links abaixo).



O exército que iria comandar encontrava-se no Passo São Lourenço, no rio Jacuí, a montante de Cachoeira do Sul e a pé. Para remontá-lo executou ousada, incruenta e feliz manobra ao transportar, por terra, desde o Rincão dos Touros em Rio Grande, passando por Pelotas, São Lourenço, Camaquã e Tapes, 7.000 cavalos para reconquistar a mobilidade daquele exército que lhe caberia comandar.

Ao iniciar, em 19 de março de 1843, sua marcha de Cachoeira a São Gabriel, seus soldados divisaram nos céus um fenômeno jamais visto. Era um enorme cometa que os soldados logo batizaram: “É a boa estrela do nosso general Barão de Caxias! É a Estrela de Caxias!

E o imaginário popular entrou em cena. A nova se espalhou pelo exército como rastilho de pólvora. E foi sendo passada ao povo gaúcho, pelo caminho, não demorando a chegar aos acampamentos dos farrapos em Alegrete, onde haviam se reunido em Constituinte, e o fenômeno os levou a crer ser um mau presságio à sua causa!

O cometa possuía uma enorme cauda apontando justamente para Alegrete. Foi vista enquanto durou a marcha de Caxias, de 16 a 30 de março de 1843, no itinerário Cachoeira – São Sepé – São Gabriel – Alegrete – Santana. E neste local chegaram, em 30 de março, Caxias, seu exército e sua “estrela”.

Sobre este fenômeno pedimos ao grande astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, cientista pela Sorbonne de renome internacional e nosso confrade no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), que fizesse uma comunicação ao NEPHIM (Núcleo de Estudos e Pesquisas de História Militar), do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB), que coordenávamos, no que fomos prontamente atendidos.

Sintetizando sua elucidativa explicação científica da “Estrela de Caxias”, que os soldados e o povo gaúcho tomaram como um sinal de sorte e fortuna para Caxias, e alguns Farrapos como mau presságio para a causa que há oito anos defendiam.

O que no Rio Grande foi denominado “Estrela de Caxias” em realidade foi designado nos anais da astronomia como o Cometa Brilhante de 1843. Ele foi um dos mais notáveis que apareceram entre 1800 e 1899. Tão intenso era seu brilho que ele foi observado à luz do dia em diversos pontos do globo terrestre. Foi descoberto em 5 de fevereiro de 1843 e observado na Europa em 17 e 18 de março de 1843. Nos EUA, sua última observação foi em 19 de abril de 1843. No Rio de Janeiro, astrônomos o observaram de 8 fevereiro a 3 de abril de 1843.

O coronel Pedro de Alcântara Bellegarde, diretor da Escola Militar do Largo do São Francisco, o estudou do observatório astronômico da escola. Ele estimou sua cauda de tamanho igual ou maior do que a distância Terra à Lua, mas em realidade era o dobro desta distância, ou 323 milhões de quilômetros. Bellegarde previu até a colisão da Terra com a cauda do cometa, cujos efeitos seriam inapreciáveis por ser constituída de gases.

O cientista Dom Pedro II também o observou e afirmou que a cauda quase atingia o zênite.

O Cometa Brilhante de 1843, ou a “Estrela de Caxias”, foi pintada por José dos Reis Carvalho, mestre de Desenho da Escola Naval. Esta pintura encontra-se em mau estado no Museu do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, na Lapa, no Rio de Janeiro. E na mesma dependência da invicta espada de seis campanhas de Caxias e do seu binóculo, com o qual acompanhou impressionado no Rio Grande do Sul o cometa que passou à tradição e ao folclore gaúchos como a “Estrela de Caxias”.

Caxias no Paraguai, por volta de 1866, retratado em uniforme de campanha simples ao invés do traje da corte que aparece em outras imagens. Provavelmente autoria de Heinrich Fleiuss (1823-1882). Wikimedia Commons, domínio público.

Decorridos quatro anos do aparecimento de sua “estrela”, o Barão de Caxias foi admitido, em 11 de maio de 1847, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) como sócio honorário. A entidade, desde 1925, abriga como sua maior relíquia a espada de campanha de Caxias, a partir da qual o hoje Espadim de Caxias, arma distintiva do cadete do Exército, criada em 1931 pelo então coronel José Pessoa, é cópia fiel reduzida.

Sobre o Cometa Brilhante, ou “Estrela de Caxias”, Dutra Mello escreveu:

Oh! quem diz que não são núncios do Eterno!

Oh! quem me diga que um tal astro um ser não possa,

O anjo do Sistema que passeia,

Visitando os domínios que dirige?

Indiscutivelmente, durante e após o aparecimento da “Estrela de Caxias”, este teve muita sorte. Conseguiu consolidar a Unidade Nacional em 1º de março de 1845, com a Paz de Dom Pedrito[1] em condições honrosas.

Foi eleito pelos gaúchos senador vitalício, cargo que exerceu por cerca de 30 anos não por méritos políticos, mas por reconhecimento e gratidão dos gaúchos, cuja psicologia e valores apreendeu e com eles bem se comunicou, ao ponto de certa feita dizer a seu grande amigo general Osório, até de certo modo seu confidente, ao lhe encarregar de mobilizar o 3º Corpo de Exército no Rio Grande, para a Guerra do Paraguai em 1866:

– Fale a estes guascas (bravos, destemidos, intrépidos) naquela linguagem que nós dois sabemos falar!

Seu mandato de senador pelo Rio Grande lhe assegurou condições para chefiar o governo do Brasil por mais de quatro anos, como Chefe do Gabinete de Ministros; ser Ministro da Guerra por mais de seis anos e comandante-em-chefe dos brasileiros em duas guerras externas em que estiveram em jogo a soberania e integridade do Brasil.

Foi um brasileiro providencial! Se pode até afirmar sem erro que o século XIX foi o Século de Caxias no Brasil!

Falou-nos o ilustre astrônomo sobre a “Estrela de Caxias!”: O que teriam a dizer-nos sobre ela os astrólogos? Aguardemos!


*Cláudio Moreira Bento, coronel da reserva do Exército Brasileiro, é historiador, jornalista, presidente da Federação de Academias de História Militar Terrestre do Brasil, fundador e presidente emérito do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul, presidente e fundador da Academia Canguçuense de História e acadêmico e Presidente de Honra da Academia Duque de Caxias da Argentina.


[1] Nota do autor: a paz foi assinada em Ponche Verde pelos Farroupilhas e no dia seguinte, 1º de março, no acampamento de Caxias, próximo a Dom Pedrito, daí denominarmos a pacificação de Paz de Dom Pedrito.

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