O comandante Crozier, o USS Theodore Roosevelt e o coronel Roosevelt: uma ironia da História

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Albert-VF1 Por Albert Caballé Marimón*

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Coronel Theodore Roosevelt dos Rough Riders, 1898 (Foto: Buyenlarge/Getty Images).

A História é por vezes irônica. No recente episódio do afastamento do capitão Crozier do comando do porta-aviões USS Theodore Roosevelt, o antigo comandante dos “Rough Riders”, que deu nome à embarcação, foi protagonista de um episódio similar.


O capitão Brett Crozier foi afastado do comando do porta-aviões USS Theodore Roosevelt devido às questões decorrentes do vazamento da carta que ele enviou às instâncias superiores do comando. Como é sabido, a carta descreve sua visão do problema da infecção da tripulação pelo COVID-19 e solicita apoio imediato. De acordo com Thomas Modly, secretário da marinha americana, a carta foi enviada por Crozier através de um e-mail fora dos canais seguros da US Navy com cópia para muita gente, o que acabou ocasionando o vazamento. A carta acabou chegando ao jornal San Francisco Chronicle, onde foi publicada e obteve ampla repercussão.

Ironicamente, Crozier, no comando do USS Theodore Roosevelt, protagonizou uma história que encontra paralelo numa iniciativa tomada no final do século XIX pelo então coronel do exército dos EUA (e futuro presidente do país) Theodore Roosevelt, o homem que deu nome ao navio.

Em 1898, no final da Guerra Hispano-Americana, o coronel Roosevelt comandava uma brigada da Cavalaria Voluntária de Estados Unidos, conhecida como Rough Riders, parte do Quinto Corpo do Exército dos EUA, então acantonado próximo a Santiago de Cuba.

Malária e febre amarela atingiram as forças dos EUA. Raramente mais da metade da tropa estava apta para o serviço; mais de 4.000 dos quase 4.300 homens do Quinto Corpo adoeceram. Como a guerra tinha terminado, muitos achavam que as tropas não eram enviadas de volta aos EUA por medo de que as doenças também chegassem ao território americano.

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Para os oficiais, a necessidade de remover as tropas de Cuba parecia óbvia, mas nenhum deles estava disposto a arriscar a carreira declarando isso oficialmente. Numa reunião de comandantes a questão foi discutida e o major-general William R. Shafter, comandante do Quinto Corpo de Exército, solicitou um relatório por escrito. Ficou claro que nenhum dos oficiais o faria, e o coronel Roosevelt, que era voluntário, ofereceu-se para escreve-lo. Como ele não era oficial de carreira, teria pouco a perder. Esse relatório ficou conhecido como Round Robin Letter, e seu teor era o seguinte (numa tradução livre):

“AO MAJOR-GENERAL SHAFTER. SENHOR: Numa reunião de oficiais e médicos convocados pelo senhor no Palácio esta manhã, todos fomos, como sabe, unânimes em nossas opiniões sobre o que deveria ser feito pelo exército. Nos manter aqui, na opinião de todo oficial que comanda uma divisão ou uma brigada, envolverá simplesmente a destruição de milhares. Não há motivo possível para não enviar praticamente todo o contingente para o norte de uma só vez. Os casos de febre amarela são muito poucos na divisão de cavalaria, onde eu comando uma das duas brigadas, e nenhum caso verdadeiro de febre amarela ocorreu nessa divisão, exceto entre os homens enviados para o hospital em Siboney, onde eles, eu acredito, a contraíram. Mas nesta divisão houve 1.500 casos de malária. Dificilmente um homem morreria com isso, mas todo o comando está tão enfraquecido e alquebrado que está a ponto de morrer como ovelhas podres quando uma verdadeira epidemia de febre amarela, em vez de uma falsa como a atual, nos atingir, como é certo que acontecerá se ficarmos aqui no auge da estação das doenças, agosto e início de setembro. A quarentena contra a febre da malária é muito semelhante à quarentena contra a dor de dente. Todos nós temos certeza que assim que as autoridades de Washington apreciarem plenamente as condições do exército, seremos mandados para casa. Se formos mantidos aqui, com toda a possibilidade humana, isso significará um desastre terrível, pois os cirurgiões estimam que mais da metade do exército, se mantido durante a estação doentia, morrerá. Isso não é terrível apenas do ponto de vista das vidas individuais perdidas, mas significa ruína do ponto de vista da eficiência militar da flor do exército americano, pois grande parte dos regulares está aqui com o senhor. A lista de doentes, por maior que seja, superior a quatro mil, oferece apenas um fraco índice da debilitação do exército. Nem vinte por cento estão aptos para o trabalho. Seis semanas na costa norte do Maine, por exemplo, ou em outro lugar onde o germe da febre amarela não pode se propagar, nos deixaria tão prontos quanto um galo de briga, tão capazes, que estamos ansiosos para participar da grande campanha contra Havana no outono, mesmo que não possamos tentar Porto Rico. Podemos ser movidos para o norte, se formos movidos ao mesmo tempo, com absoluta segurança para o país, embora, é claro, teria sido infinitamente melhor se tivéssemos sido deslocados para o norte ou para Porto Rico há duas semanas. Se houvesse algum objetivo para nos manter aqui, enfrentaríamos a febre amarela com tanta indiferença quanto as balas. Mas não há objetivo. Os quatro regimentos imunes são suficientes para guarnecer a cidade e as cidades vizinhas, não há absolutamente nada para fazer aqui, e não houve desde que a cidade caiu. É impossível mudar para o interior. Toda mudança de campo dobra a taxa de doença em nossa atual condição enfraquecida e, de qualquer forma, o interior é bem pior do que a costa, como descobri pelo reconhecimento real. Nossos acampamentos atuais são tão saudáveis ​​quanto os acampamentos deste lado da ilha. Escrevo apenas porque não consigo ver nossos homens, que lutaram com tanta coragem e que sofreram dificuldades e perigos extremos sem se queixarem, irem para a destruição sem que eu me esforce tanto quanto puder para evitar um destino tão medonho quanto desnecessário e imerecido. Com os melhores cumprimentos, THEODORE ROOSEVELT, Coronel Comandante da Segunda Brigada de Cavalaria.”

O relatório do coronel Roosevelt foi entregue a Shafter. Não está clara qual foi a sua resposta, mas o general sabia que, naquele momento, a estratégia do presidente dos EUA, William McKinley, era manter a presença militar americana em Cuba até que os EUA concluíssem as negociações de paz com a Espanha.

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Uma cópia chegou às mãos de um correspondente da Associated Press, que a enviou aos EUA. Há controvérsias sobre como ocorreu o vazamento. Alguns dizem que foi Roosevelt, temendo que o governo não agisse a tempo; outros afirmam que teria sido o próprio Shafter. O fato é que a Associated Press publicou o relatório e o impacto na opinião publica foi extremamente negativo. O presidente foi acusado de não cuidar das tropas americanas.

McKinley e o Secretário de Guerra, Russell A. Alger, souberam do problema pela primeira vez lendo o relatório nos jornais. Furioso, o presidente ordenou a Alger que resolvesse a questão. Alger, por sua vez, determinou à Marinha o envio de navios para trazer as tropas e ao Exército para providenciar instalações médicas em Camp Wikoff, Long Island, para abrigar os soldados infectados assim que chegassem aos EUA. O Departamento de Guerra já tinha planos para remover as tropas, mas para o público pareceu que isso só aconteceu devido ao relatório.

Alger ficou muito irritado. Quando Roosevelt foi recomendado para a Medalha de Honra do Congresso, o secretário se recusou a endossar a recomendação. Sem seu apoio, ela não foi aceita e o futuro presidente não foi agraciado. Roosevelt receberia a medalha apenas mais de oitenta anos após sua morte, no governo do presidente William “Bill” Clinton.

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*Albert Caballé Marimón possui formação superior em marketing, é fotógrafo profissional e editor do blog Velho General. Já atuou na cobertura de eventos como a Feira LAAD, o Exercício CRUZEX e a Operação Acolhida. É colaborador da revista Tecnologia & Defesa e do Canal Arte da Guerra, onde, entre outras atividades, mantém uma resenha semanal de filmes e documentários militares. Entre suas atividades, já proferiu palestras para os cadetes da Academia da Força Aérea. Pode ser contatado através do e-mail caballe@gmail.com.


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